Snowboarding With You
8 Capítulo Oito
Notas iniciais

O cemitério sempre pareceu assustador quando Langa era criança. Provavelmente porque todos os adultos tinham medo da morte e todas as crianças da escola tinham medo de fantasmas e mortos-vivos. Mas, estando lá, ele não se sentiu assustado.
Haviam algumas árvores, que faziam sombras em meio ao sol que brilhava acima deles naquela tarde azulada. As poucas folhas restantes, coloridas de vermelho e laranja, combinavam com o clima frio da cidade e cobriam o gramado que preenchia todo o local. Langa viu alguns pássaros voando entre uma árvore e outra, visitando seus ninhos.
Se não fossem pelas lápides espalhadas pelo local, o garoto facilmente poderia pensar que estava em um parque qualquer. Era estranho como um local como aquele poderia parecer tão vivo.
Não havia mais ninguém naquele horário. Tudo deixava o lugar com uma atmosfera pacífica. Conforme andava pelo local, o azulado começou a prestar atenção às lápides à sua volta. Uma sensação estranha tomou conta de si.
Será que a morte era assim? Silenciosa e pacífica, como aquele lugar? Ele esperava que fosse. Ao menos, era melhor do que se aquelas pessoas estivessem sofrendo de algum modo. Mas, ao mesmo tempo, continuava sendo injusto. Cada uma daquelas lápides era uma pessoa, como ele. Alguém que teve uma vida – amigos, família, amores, mágoas, alegrias e sonhos não cumpridos.
Não era justo. Se não fosse aquela maldita doença, seu pai ainda estaria com ele.
Langa e sua mãe haviam decidido, depois de muita conversa, que deveriam visitar o túmulo de Oliver. Assim, poderiam, de alguma forma, conversar com ele, mesmo que não fossem ouvir nenhuma resposta.
Finalmente, os dois encontraram a lápide do Oliver. O garoto sentiu um aperto no peito, mais forte do que qualquer um que já sentiu antes. Lá estava inscrito o nome de seu pai. A tantas vezes comemorada data de nascimento dele. E a tão terrível data em que ele os deixou. Abaixo, estavam os dizeres “Amado marido, pai e mentor”.
Langa e Nanako se ajoelharam na grama. Nanako deixou um buquê de flores azuis encostado à lápide.
O garoto segurava seu skate, com força. Ele não sabia ao certo o que dizer. Por sorte, sua mãe começou primeiro.
Ela disse o quanto sentia falta dele. Intercalando entre lágrimas e risadas, ela contou o que aconteceu nos últimos meses para Oliver. Foi um misto de sentimentos.
Langa apenas observava e escutava atentamente enquanto ela abria o seu coração. Ele percebeu o quanto ela realmente precisava daquilo. Quando ela parou de chorar, sua expressão transparecia leveza. O garoto ficou grato, então, por ter concordado em trazê-la para aquele lugar.
No fim das contas, o luto era assim. Tudo o que dá para fazer é se permitir sentir seus sentimentos, deixar todas as lágrimas saírem. Essa é a única forma de aliviar a dor.
Quando acabou, Nanako se despediu de Oliver e se levantou.
— Mãe, tudo bem se eu ficar mais um pouco aqui?
Ela sorriu, carinhosamente.
— É claro, querido. Te espero lá fora.
Ela se afastou, saindo do cemitério e deixando o garoto a sós com o pai.
Ele segurou seu skate com mais força. Ele queria falar tanta coisa. Não tinha certeza se, de alguma forma, seu pai realmente estaria lhe ouvindo ou não. Se estivesse, sabia que poderia dizer qualquer coisa, que Oliver entenderia. Mas, mesmo que não houvesse ninguém o escutando, Langa ao menos colocaria um peso para fora, assim como sua mãe tinha acabado de fazer.
Então, ele também abriu seu coração.
Ele contou tudo. Contou sobre como se sentiu após a perda do pai. Sobre como se sentiu quando tentou praticar snowboard sozinho. Sobre a mudança para Okinawa. Sobre Reki e seus sentimentos por ele. Contou sobre o skate e, inclusive, mostrou a prancha que segurava. Contou sobre seus amigos novos. Contou até mesmo as coisas que sua mãe jamais poderia sonhar em saber. As corridas no S. O torneio do Adam. A Zona.
O garoto não conseguiu conter as lágrimas. No fim, o simples fato de estar ali, o mais próximo possível de seu pai, abrindo seu coração, já era o bastante para fazer o garoto se sentir mais leve. Afinal, sua mãe não era a única que estava precisando daquilo. E, mais uma vez, ele se sentiu grato por ter essa chance.
***
Enquanto Langa e Nanako estavam no cemitério, o resto do grupo decidiu sair para tomar café da manhã.
Mesmo não tendo planos de usar seu skate, Reki decidiu levá-lo.
Como a cafeteria que eles sempre iam não ficava muito longe do hotel, eles resolveram ir a pé. Atrás do ruivo, os adultos conversavam. Miya estava andando ao lado dele, mais à frente dos outros. O menor mexia no celular e vez ou outra tirava alguma foto da paisagem urbana.
Ele percebeu que Reki estava o encarando.
— É incrível como tudo que é minimamente diferente te impressiona quando você está acostumado a ficar o tempo todo no mesmo lugar, não é?
Ele voltou seu olhar para o celular e começou a digitar alguma coisa.
— É muito doido mesmo — Reki riu. — Eu ainda não acredito que a gente veio mesmo pra cá.
— No fim das contas, uma última viagem de férias com vocês não foi tão ruim assim — o menor debochou.
Reki ficou triste. Com toda essa história do Canadá e do snowboard, ele até tinha se esquecido de que Miya realmente tinha entrado para a seleção profissional japonesa e iria se mudar para poder treinar.
— Você vai mesmo se mudar de Okinawa e ir para Tóquio?
— Com certeza.
O ruivo pensou em como sentiria falta do tampinha. Eles se aproximaram bastante nesse último ano. Miya tinha o jeito dele, mas no fundo ele tinha um coração mole. E, sem dúvidas, era um bom amigo.
— Você vai fazer falta aqui, tampinha.
Miya riu.
— Eu também vou sentir falta de te irritar, slime.
Reki começou a pensar a respeito da seleção profissional. Ficou pensando na ideia de deixar Okinawa para começar uma vida totalmente nova em outro lugar.
Ele se lembrou da conversa que teve com Joe e Cherry antes de viajarem para o Canadá. Ele já estava no último ano do Ensino Médio e, em algum momento, precisaria decidir o que fazer da sua vida.
Outros da sua idade já pensavam em faculdade e coisas do tipo. Médicos, advogados, engenheiros, todo tipo de coisa. Eles pareciam saber com tanta facilidade que rumo seguir. Falavam que essas coisas eram seus sonhos e suas vocações.
Desde que era mais novo, sempre que alguém perguntava o que ele queria fazer da vida ou qual era a sua vocação, o ruivo dizia que não sabia ou que estava decidindo ainda. Mas, na verdade, ele sabia muito bem qual era a sua verdadeira paixão e o que queria fazer da sua vida. Ele queria andar de skate.
Cada um deles ali tinha essa mesma paixão. Mas eles sempre trataram como sendo apenas um hobby, uma forma de diversão. Miya não. Desde criancinha, ele sempre levou o skate a sério. E, agora, ele tinha decidido que iria transformar essa paixão em seu jeito de ganhar a vida.
Por mais que tentasse evitar, Reki não pôde deixar de se lembrar que Langa tinha uma grande chance de também entrar para a seleção algum dia. Bastava apenas ele querer, que ele conseguiria.
E isso ficava martelando a cabeça do ruivo.
— Por que você tá fazendo isso, Miya? Tipo, eu sei, óbvio. Mas você não fica mal por deixar tudo isso? Okinawa, o S e a galera?
O menor parou para refletir.
— Eu até gosto de Okinawa. E eu sei que não é fácil encontrar um lugar como o S por aí. Mas, por mais que eu goste disso tudo, eu não quero ficar no mesmo lugar para sempre. Não quando eu sei que posso ir muito mais longe. Eu quero poder alcançar o meu máximo potencial e ver até onde eu consigo chegar.
Reki ouvia atentamente.
— Eu acho que eu fiz o meu tempo lá valer a pena. E eu não me arrependo de nada. Mas ir embora não quer dizer que eu vou abandonar tudo de vez. Isso vai continuar fazendo parte da minha vida, junto com as coisas novas. Acho que é isso no fim das contas.
O ruivo sentiu um aperto no coração. Ele nunca pensou em ir além, como Miya disse. Ele nunca se importou com a ideia de passar a vida toda em Okinawa. Mas ele sabia que para Langa poderia ser diferente, assim como para Miya. O canadense tinha um potencial absurdo. Não fazia sentido desperdiçar isso.
Langa merecia chegar ao infinito. Reki queria poder estar com ele, mas sabia que nunca seria bom o suficiente para conseguir acompanhá-lo. E não poderia esperar que o azulado deixasse de seguir sua vida só para continuar com ele.
Reki sentia que, em algum momento, todo mundo seguiria seu próprio rumo e ele acabaria ficando para trás. E isso partia seu coração em estilhaços.
***
Ouviu-se o som de um sininho quando a porta da cafeteria foi aberta.
Assim que adentrou o lugar, Reki pôde perceber a mudança de temperatura. O ambiente era extremamente aconchegante. A estética rústica e as lâmpadas amareladas já deixavam o local mais quentinho do que o ar livre frio do qual eles acabaram de chegar.
O lugar estava quase vazio. Havia apenas algumas poucas pessoas. As mesinhas redondas de madeira estavam, em sua maioria, desocupadas. Luzes piscantes enfeitavam as paredes, junto com uma pequena árvore de Natal ao fundo. Músicas natalinas tocavam bem baixinho.
Os seis se sentaram a uma mesa mais para o centro do local e ficaram ali jogando conversa fora. Não demorou muito para que Cherry e Joe começassem a discutir, como de costume.
Eles pediram suas bebidas. Como Reki não conhecia nada muito bem, aceitou algo que Joe escolheu para ele, uma espécie de capuccino ou alguma coisa assim.
A mente dele estava distante. Ele estava preocupado com Langa. Mas sabia que não adiantaria de nada ficar pensando nisso. Ele estava relaxando em um bom lugar com seus bons amigos. Ele deveria apenas aproveitar o momento. Mas era difícil para o garoto energético conseguir se desligar.
Reki percebeu que Miya olhava fixamente para algo atrás dele. O ruivo se virou e viu um grupo de três meninas, mais ou menos da idade do menor. Elas também ficavam olhando para ele, enquanto cochichavam algo uma para a outra e sorriam.
O vermelho revirou os olhos.
Assim que terminou sua bebida, Miya se levantou e parou próximo à mesa das meninas.
Reki, curioso, tentou prestar atenção na conversa deles, mas acabou desistindo logo que percebeu que, obviamente, estavam conversando em inglês.
De repente, ele se sentiu mais desconfortável ainda por estar em um ambiente, ou melhor, em um país inteiro, onde ele não conseguia se comunicar com absolutamente ninguém.
Ele ouvia Langa falando inglês algumas vezes. O canadense costumava fazer isso sem perceber. O japonês conseguia associar uma palavra ou outra graças a isso, mas nada demais.
O inglês era a língua principal do canadense. Mesmo assim, ele falava com Reki somente em japonês o tempo todo. Não era justo com ele. O ruivo deveria ter se esforçado mais para aprender a língua natal do azulado. Ele com certeza ficaria feliz se os dois pudessem conversar em inglês também.
Na verdade, o azulado já havia tentado dar aulas de inglês para o ruivo, mas não deu muito certo. A única coisa que Langa explicou que Reki realmente conseguiu entender foi a diferença entre as palavras “fun” e “fan”. E, é claro, Reki entendeu quando ele disse: “I love snowboarding with you”.
Tio Shadow tirou Reki de seus pensamentos.
— Um pirralho tão pequeno e já faz sucesso entre a garotada! — dizia, observando a conversa do menor com as meninas canadenses — Aposto que o Miya deve pegar geral entre as novinhas!
— Na verdade, eu tenho minhas dúvidas sobre a relação dele com as garotas — Cherry apontou, discretamente.
— É o quê?
— Nada.
— Humm. Mas eu aposto que ele pega mais garotas que o Reki!
Shadow passou o braço pelos ombros do ruivo, rindo alto. Mesmo sabendo que não era por mal, o vermelho começou a ficar desconfortável com a brincadeira.
— Me responde uma coisa, Reki. — Oka questionou, com uma expressão indecifrável. — Você tá a fim de alguém?
— O quê?! Do que você tá falando?!
O garoto entrou em pânico. Será que Oka sabia de alguma coisa? Ele tinha falado algo errado? Será que mais alguém também sabia?
— Ué, você é um garoto bonito e carismático. Aposto que deve ter um monte de garotas a fim de você. Ou garotos.
O ruivo quase riu. Ele realmente não trocava sequer uma palavra com qualquer pessoa. Até porque ele era invisível. Todo mundo só tinha olhos para o Langa.
— Ah, é que eu sou bom demais pra qualquer pessoa!
Para o alívio de Reki, eles acabaram ignorando o assunto e voltando para o rumo normal da conversa.
Depois de mais alguns minutos, o garoto já estava ficando um tanto entediado de ficar ali, já que não estava muito focado na conversa, de qualquer forma. Então, disse que iria tomar um ar, pegou o seu skate e caminhou em direção à saída.
De repente, o sininho tocou quando alguém entrou pela porta. Imediatamente, Reki reconheceu aquele cabelo preto com mechas vermelhas.
Quando seus olhares se cruzaram, o vermelho sentiu um frio na barriga ao encarar aqueles olhos âmbares intimidadores. O atleta também pareceu reconhecer Reki, mas o analisou, de cima a baixo. Até que sua atenção pareceu ter se fixado ao skate, que ele estava segurando.
— Um skate? Que interessante.
O garoto achou extremamente estranho ouvir Theo conversar com ele, mas demorou para entender o porquê.
— Você fala japonês?
— Minha família é japonesa. Na verdade, Theo é o meu apelido. O meu nome é Tetora Nagumo. Acho que não perguntei o seu nome, não é?
— Meu nome é Reki.
— Reki — ele repetiu. — Legal. Percebi ontem que você não parecia entender muito inglês.
Tetora foi até o balcão e conversou um pouco com a atendente, que parecia já conhecê-lo.
— Eu fiquei observando vocês. Até então, eu nunca tinha visto mais ninguém treinar snowboard naquela montanha. Mas tenho que dizer que o garoto azul é muito talentoso.
— Ele é, sim.
O japonês segurou seu skate com mais força. O rapaz pareceu perceber.
— Já ouvi falar de surfistas que usam o skate para treinar em terra firme. Mas é a primeira vez que vejo snowboarders fazerem isso. O garoto azul também anda de skate?
— Ah, sim. Ele é tão bom no skate quanto no snowboard.
Ainda com o lance da seleção na mente, Reki ficou ainda mais desconfortável dizendo isso.
Tetora o encarou, como se tentasse decifrá-lo.
— O seu melhor amigo, ou sabe-se lá o que ele é seu, está num patamar completamente diferente de você, isso está claro. Então, deixa eu adivinhar: você está se remoendo por dentro, com medo de ser deixado para trás.
A reação do vermelho não escondeu nada.
— Estou certo, não estou?
— Não é nada disso — o japonês tentou disfarçar.
Tetora riu.
— Escuta, Reki. Se eu fosse você, caía fora daqui o quanto antes. Eu conheço muito bem esse sentimento. Você também é um garoto talentoso, mas não chega nem aos pés do Langa. E você fica o tempo todo tentando alcançá-lo, mas, no fundo, você sabe que nunca vai conseguir. E, uma hora ou outra, vai acabar sendo deixado de lado.
— Isso não é verdade. Nós somos praticamente uma família. Ele não vai me abandonar.
— Você está tentando convencer a mim ou a si mesmo?
O ruivo não conseguiu responder.
— Não minta para si mesmo. Eu conheço pessoas assim. Elas ficam ao seu lado enquanto você tem utilidade. Mas assim que elas percebem que você não está no mesmo nível que elas, elas te descartam como lixo. Eu sei disso melhor do que ninguém.
Por um breve momento, Tetora ficou com um olhar triste.
— Ninguém se importa com você, a menos que você seja o melhor de todos.
O japonês se esforçava ao máximo para segurar as lágrimas.
— Eu só estou te dando um aviso, Reki — seu tom era sério e firme. — Um aviso de alguém que sabe como as coisas são. Pessoas como ele só vão te machucar. No fim, você está sozinho no mundo.
Então, a atendente o entregou uma bebida e ele agradeceu com um sorriso simpático.
— Bom, essa é a minha deixa. Pense bem no que eu te disse. Se precisar de ajuda, sabe onde me encontrar.
Tetora deu uma piscadinha e foi em direção à saída.
Ainda desolado, Reki se sentou de volta à mesa com seus amigos.
— Quem era aquele cara? — Oka perguntou, preocupado.
— Ninguém importante.
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