Notas iniciais
Boa leitura!

Quando a manhã do sábado começou, a primeira coisa que veio à mente de Reki foi o skate.

Ele não conseguiu processar nenhuma palavra do que suas irmãs lhe disseram quando invadiram seu quarto e o acordaram, apenas que tinha a ver com seu esporte favorito.

Os raios de sol, que entravam pela janela, estavam começando a iluminar e aquecer um pouco a casa. Mas ainda havia um ar frio, o que fazia o ruivo querer continuar na cama. Mas suas irmãs contavam com ele, então o vermelho não poderia decepcionar.

Desde que o ruivo começou a trazer Langa para sua casa com frequência, suas irmãs começaram a perceber como o skate era maneiro e a se interessar pelo esporte. Então, ele começou a ensiná-las. Em toda a sua vida, ele nunca tinha imaginado que poderia um dia sequer conversar com algum familiar sobre skate, mas lá estava ele, ensinando as três garotas sobre suas adoradas pranchas.

O skate era, sem dúvidas, uma das coisas mais importantes para Reki no mundo. Poder compartilhar isso com outras pessoas, seja com Langa ou com suas irmãs, era tão fantástico quanto andar de skate em si.

A paixão dele por skate começou há anos atrás, graças a um antigo amigo. O ruivo nunca conseguiu se esquecer do dia em que conheceu o skate, muito menos do dia em que deu seu primeiro ollie, e de como se sentiu tão feliz como nunca antes. Desde então, ele se apaixonou totalmente pelo skate.

Entretanto, ninguém jamais conseguiu entender essa paixão. O garoto nunca teve amigos próximos e sabia que seus colegas de escola o achavam um tanto estranho. Além disso, sua família não encarava o skate muito bem. Sempre foi apenas ele e o skate.

Até que Reki encontrou pessoas que entendiam sua paixão pelo esporte e, assim, finalmente descobriu como é pertencer de verdade a algum lugar.

Agora, havia mais pessoas incríveis em sua vida. E mesmo as que já estavam nela agora pareciam muito mais próximas.

O quintal de sua casa era pequeno se comparado à pista de skate da cidade, mas a mãe do ruivo insistiu que treinassem lá para que ela pudesse tomar conta das crianças. Talvez ela ainda não confiasse tanto assim em Reki.

Entre umas manobras e alguns tombos, os quatro se divertiam e riam muito, como costumava ser sempre. O garoto nem percebeu o tempo passar, até que sua mãe chamou as pequenas para almoçar.

Por fim, o ruivo se abaixou no chão, ficando na altura das gêmeas.

— Um dia, vocês também vão ficar boas como eu. É só continuar treinando, falou?

Atrás dele, Koyomi riu.

De repente, ela executou um ollie, com uma perfeição impecável. Reki ficou de queixo caído ao ver como a irmã tinha melhorado tanto.

Ela exibia um sorriso inabalável, que parecia até brilhar com o reflexo da luz matinal que invadia o lugar.

— Ah, pode apostar que eu vou ficar muito melhor do que você, rapidinho!

O ruivo deu uma risada alta.

— Vai sonhando!

— Você vai ver! Quem você acha que vai dar aulas pras pequenas enquanto você estiver no Canadá?

Reki estava prestes a retrucar, quando foi interrompido por um som de madeira se quebrando. Ambos olharam imediatamente para trás. Lá estavam as gêmeas, fazendo cara de paisagem e, do lado delas, o skate estava quebrado no meio.

O ruivo até pulou.

— Ai caramba! Como foi que vocês conseguiram quebrar o skate assim?! — ele se abaixou no chão e pegou nas mãos as partes do que já foi uma prancha — Deu PT, velho! Eu vou ter que fazer outro!

Ele olhou para as irmãs, que agora pareciam realmente preocupadas e que, claramente, estavam se sentindo culpadas. Ele deu um sorriso e bagunçou o cabelo das duas com as mãos, tentando confortá-las.

— Ainda bem que eu sou um profissional quando o assunto é montar skates! Fica de boa, pessoal!

Ele sorriu sinceramente, e ficou aliviado ao ver que as crianças também ficaram mais relaxadas.

O ruivo pegou as partes do skate quebrado e se levantou. Ele deu uma última olhada para as crianças.

— Bom pessoal, acho que já deu de skate por hoje. Agora eu vou lá consertar essa parada aqui.

Antes de sair, ele deu uma última palavra:

— Vê se não esquece gente, o skate é o que mesmo?

— Infinito! — completaram as gêmeas em uníssono com a maior empolgação do mundo, que fez tanto Reki quanto Koyomi rirem.


***


O vermelho foi até a garagem, que servia de oficina. O local estava bem iluminado, o que era bom para trabalhar. Estava bem bagunçado, como sempre, com várias rodas e peças de skate, além de papéis com desenhos de projetos malucos dele, mas o ruivo gostava disso. Aquele era o cantinho dele, onde ele deixava suas ideias fluírem livremente e se esquecia de todos os problemas do mundo.

O skate que as gêmeas tinham quebrado havia sido perdido. Mas Reki usou a oportunidade como desculpa para terminar um novo que ele estava projetando especialmente para elas, já fazia um tempinho.

Enquanto trabalhava, o garoto pensava na viagem que logo faria até o Canadá. Depois que terminou o skate das irmãs, ele decidiu pesquisar mais sobre a cultura do país. E isso lhe deu algumas inspirações.

Então, ele pegou o lápis e seus papeis e começou a desenhar. Ele queria, de alguma forma, criar um skate para Langa que carregasse um pouco de seu país.

A maioria das fotos que ele via eram de paisagens cheias de montanhas. Inevitavelmente, as pesquisas o levaram até o snowboard.

De certa forma, o shape do skate de Langa foi inspirado em uma prancha de snowboard, em termos de tamanho e formato, para facilitar a adaptação do canadense. Isso fez o ruivo questionar se, talvez, ele também fosse capaz de criar uma prancha de snowboard.

O garoto estava tão concentrado que nem viu o tempo passar.

— Reki? — alguém chamou na entrada da oficina.

De imediato, o vermelho se assustou. Porém, logo reconheceu a voz que o chamava. Ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar do universo.

— Langa?! — ele afastou as folhas em que desenhava e se levantou da cadeira — Foi mal cara, acabei perdendo a noção do tempo!

O azulado se aproximou. Ele avistou as folhas jogadas pela mesa e se esforçou para tentar enxergar.

— Você tá fazendo um skate novo?

— Não é nada demais, seu curioso! — ele tentou bloquear a visão do canadense, um pouco envergonhado — Ainda não tá pronto.

Langa parecia uma criança decepcionada porque não viu seu presente de Natal.

— Vamos indo então? — o azulado ia em direção à saída — Ninguém falou nada pra gente e o Miya nem deu sinal de vida hoje.

Naquele dia, seus amigos estavam agindo de maneira um tanto suspeita. Os dois garotos não tiveram nenhuma notícia de Miya e, do nada, Cherry organizou uma festa ou algo do tipo na Dope Sketch, à noite, mas sem dar nenhum detalhe do motivo. Por isso, Reki e Langa marcaram de se encontrarem e irem até lá juntos.

— É, esse lance todo ainda tá me parecendo estranho demais. Mas só tem um jeito de descobrir!

Reki colocou seu skate no chão e Langa fez o mesmo. Então, com sorrisos nos rostos, eles subiram em suas pranchas e saíram em disparada.


***


Quando os dois garotos chegaram na Dope Sketch, logo estranharam como tudo estava escuro e vazio. Cherry e os outros tinham marcado uma festa ou algo do tipo, mas todas as lâmpadas estavam apagadas e parecia que não havia ninguém.

Os garotos se entreolharam, confusos, mas resolveram seguir adiante.

— Tem alguém aí? — Reki chamou assim que entrou na loja, mas ninguém respondeu.

Por dentro, a loja de skates também estava vazia e ainda mais escura. A luz da lua, que entrava pelas janelas, era a única coisa que iluminava o ambiente, que agora também parecia ainda mais frio do que do lado de fora.

— Que estranho.

— Vai ver eles estão no terraço — disse Langa despreocupado, notando o incômodo do ruivo.

Eles deixaram seus skates em um canto da parede e subiram as escadas para o terraço.

Assim que chegaram, ambos foram atingidos no rosto e pularam para trás com o susto.

— Ai, cacete! — Reki gritou, mais pelo susto do que pela dor — Que merda é essa cara?!

— Seus palermas! — Cherry Blossom resmungou, segurando seu leque, que aparentemente havia usado para bater nos garotos — Vocês dois estão atrasados.

O rosado falava de modo sério, mas mantendo a plenitude e a elegância de sempre. Ele estava vestido de sua forma habitual fora do S, usando seu clássico kimono azul e seus óculos, com seu cabelo arrumado do jeito de sempre.

— Você assustou a gente, Cherry — o azulado admitiu.

— Nada demais! De qualquer forma, vocês chegaram antes do Miya, então vão para os seus lugares logo! Ele pode chegar a qualquer momento.

— Lugares? — Langa perguntou confuso.

Ele olhou em volta e analisou o local. O terraço estava todo arrumado. Haviam balões e até luzes de natal, embora ainda estivessem apagadas. No centro, havia uma mesa com várias cadeiras em volta, onde estavam sentados Joe, Shadow e até o gerente Oka, que ria da situação, com Sketchy, a raposa de estimação, dormindo em seu colo, enquanto ele o acariciava. Havia um bolo e alguns doces, aperitivos e bebidas. Isso lembrava Langa das festas de aniversário que comemorava no Canadá, e gostou do sentimento nostálgico que isso o trouxe.

— Mas o que é que tá acontecendo afinal? — o vermelho questionou.

— Vocês vão saber logo. — o rosado respondeu — Por hora, pode-se dizer que Miya conquistou algo muito importante e preparamos esta surpresa para comemorarmos junto com ele.

Antes que os garotos pudessem pensar em fazer mais perguntas, ouviu-se o som de um skate na rua.

— Ele chegou! — Shadow avisava tentando sussurrar e gritar ao mesmo tempo.

— Hiromi! Não seja tão escandaloso, ele pode ouvir! — Cherry correu para junto dos outros, puxando Langa e Reki com ele — Rápido, garotos, se escondam!

Todos ficaram abaixados atrás da mesa, como se esperassem para assustar o Miya.

— É como se fosse uma festa de aniversário surpresa? — perguntou o azulado, sussurrando.

— Em essência, é basicamente essa a ideia. — respondeu o rosado — Tivemos que improvisar algumas coisas.

O ruivo fez uma careta confusa.

— Eu não tô entendendo nada.

— É só gritar “surpresa” quando o Miya chegar, Reki.

Eles conseguiram ouvir Miya entrando na loja e chamando por eles, mas sem dar nenhuma resposta. Shadow estava tendo um ataque de riso silencioso, se segurando para não fazer barulho, enquanto Cherry o fuzilava com o olhar. Os outros também se seguravam para não rir com a situação, especialmente Joe, que segurava um tipo de controle e parecia se preparar para apertar algum botão.

— Galera? Tem alguém aí?

Finalmente, Miya subiu as escadas e chegou ao terraço. Ele usava o seu moletom verde de sempre, com um capuz com orelhas de gatinho. Ele parecia confuso com todo o silêncio e a escuridão, assim como Reki e Langa haviam ficado quando chegaram.

Antes que o pequeno pudesse fazer qualquer coisa, Joe apertou o botão de seu controle, acendendo todas as luzes, inclusive as coloridas de Natal. Juntos, todos pularam e gritaram:

— Surpresa!

Miya levou um baita susto, mas logo começou a rir quando entendeu a situação. Todos começaram a rir junto com ele.

O garoto analisou o local e surgiu um brilho em seus olhos quando percebeu o que o pessoal havia preparado. Seus olhos começaram a lacrimejar, mas ele tentava se manter firme.

— Vocês fizeram isso pra mim?

— A festa foi ideia minha — o tom de Cherry era de satisfação. — Mas te assustar foi ideia do Hiromi.

— Você se assustou igual um bebezinho! — Shadow gargalhava como um louco enquanto apontava para Miya.

Joe se colocou ao lado de Cherry e passou seu braço em volta dos ombros do rosado.

— Eu tinha pensado em fazer isso no meu restaurante, mas o Kaoru aqui perdeu uma aposta comigo e agora ele não pode mais entrar lá por um mês!

O rosado pisou no pé dele, fazendo o brutamontes uivar de dor.

— Cale a boca, seu gorila gigolô!

Todos caíram na risada.

— Valeu mamãe, valeu papai — Miya abraçou Cherry e Joe, enquanto fazia uma carinha de bebê fofinho — E valeu também, tiozão velhote! — ele apontou com o cotovelo para Shadow.

O grandalhão fungou de raiva.

— Eu já disse que só tenho vinte e cinco anos!

Reki e Langa se entreolharam, para logo depois voltarem o olhar para o garoto.

— Mas então… — o ruivo começou — Vocês não vão contar pra gente o que é que tá acontecendo?

Miya deu um sorriso de lado.

— Eu, oficialmente, consegui entrar para a seleção japonesa de skate!

Os dois pularam com a notícia.

— O quê?! É sério isso cara?! Ah, vem cá!

Reki abraçou o garoto com força e chamou Langa para entrar no abraço também. Logo, todos os outros também entraram no abraço coletivo.

— Parabéns, Miya! Isso é fantástico!

Quando o abraço se separou, Miya continuou:

— Depois que voltarmos do Canadá, eu vou ter que me mudar para um alojamento da seleção em Tóquio, para poder continuar treinando com os outros.

— Para sempre? — a voz do vermelho falhou.

— Não, slime. Eu vou voltar no final do ano e nos feriados. Não vai pensando que eu vou sair do seu pé tão fácil assim.

— Acho bom mesmo — Cherry fez uma expressão séria. — Venha nos visitar sempre que for possível. Eu também irei visitá-lo com bastante frequência.

— Pode deixar, mamãe.

Langa ficou triste. Ele estava feliz pelo amigo, é claro. Mas, mesmo assim, se sentia triste por saber que se afastaria de Miya. Por outro lado, era isso que tornava aquele momento ainda mais especial. Se quando perdeu seu pai ainda tivesse tido ao menos a chance de se despedir… De qualquer forma, ainda veria o garoto mais vezes. Por hora, o mais importante era aproveitar aquele momento juntos enquanto ainda podia.

Todos se sentaram à mesa. Eles começaram a comer o bolo e os aperitivos. Estouraram os balões, conversaram e riram muito juntos.

Langa percebeu que era Miya quem estava mais triste por ter que ir embora, mas ao mesmo tempo, estava contente pois finalmente iria realizar seu sonho.

— Sabe — o garoto começou e todos se viraram para ele —, eu comecei a andar de skate junto com os meus amigos quando eu era mais novo. Mas conforme eu fui ficando melhor e comecei a participar de competições e ganhei troféus e medalhas… eu acabei me afastando deles. Agora a gente meio que voltou a se falar, mas até alguns meses atrás eu estava totalmente sozinho.

Ele olhou para Reki e deu o sorriso mais sincero que todos já tinham visto.

— Eu nem sabia mais porque eu andava de skate. Eu tinha começado porque era divertido, mas com o tempo acabei esquecendo disso. Até que você me lembrou, slime. Andar de skate nunca foi tão divertido até eu conhecer vocês. Eu vou para Tóquio me tornar um profissional, mas nunca vou esquecer de tudo isso que vocês me ensinaram.

Reki ficou corado e, logo que percebeu isso, cobriu o seu rosto com o braço, envergonhado.

— Ah, tampinha, para com essa melação! A gente tá muito feliz por você. E não esquece da promessa que eu te fiz, eu nunca vou largar do seu pé!

Mais ao fundo, Shadow começou a chorar escandalosamente, o que quebrou o clima sentimental do momento e fez todos rirem.

— E não se preocupem — o garoto riu — Na primeira vez que eu voltar de Tóquio, vou querer competir contra cada um de vocês e vou ganhar de lavada.

— Vai sonhando — Reki bufou.

— Tá com medinho, slime? Eu vou vencer até o próprio Snow aqui!

Miya parou por um segundo e refletiu sobre o próprio comentário.

— Mas e você, Langa? Aposto que se você tentasse conseguiria entrar para a seleção também. Agora eu tenho contatos que podem te ajudar.

Aquilo pegou o canadense de surpresa. Os outros já tinham comentado sobre isso antes, mas ele nunca havia pensado seriamente sobre o assunto.

— Bom, eu gosto muito de andar de skate, mas não acho que iria querer fazer isso de modo profissional. Não seria a mesma coisa se fosse para levar tudo tão a sério — ele olhou para Reki, que o observava atentamente — Andar de skate é pra ser divertido.

— Este é um tema muito complexo — apontou Cherry. — Todos nós andamos de skate porque achamos isso divertido. É um hobbie nosso. Por outro lado, na vida adulta, todos precisamos seguir com uma carreira em alguma área. Muitas pessoas acabam trabalhando com qualquer coisa, enquanto outras buscam seguir com aquilo que amam. Eu trabalho com caligrafia, Joe trabalha em seu restaurante, Hiromi trabalha com flores e Oka trabalha com a montagem de skates. O que quero dizer é que você deve buscar construir uma carreira fazendo aquilo que ama. Afinal, por mais dinheiro que tenha, você não será feliz de verdade se ficar fazendo algo que não gosta.

— Acho que se nós tivéssemos pensado nisso quando éramos mais novos, talvez a gente também tivesse tentado uma carreira no skate — comentou Joe. — Eu amo trabalhar no meu restaurante. Mas, para alguém com o seu talento, Langa, seria uma oportunidade muito boa poder seguir uma carreira com o skate, igual o pirralho aqui — concluiu, bagunçando o cabelo do Miya.

Langa ficou confuso. Ele nunca tinha parado para pensar nisso. Ele gostava de trabalhar na Dope Sketch com o Reki, mas sabia que um dia iria terminar o Ensino Médio e precisaria encontrar um emprego “de verdade”, talvez fazer uma faculdade ou algo assim. De qualquer forma, como os adultos disseram, ele precisaria construir uma carreira de algum modo. E, pensando agora, seguir fazendo aquilo que mais ama no mundo parecia uma ideia muito atrativa.

Mas, por outro lado, ele não queria ter que deixar tudo para trás para conseguir isso. Miya estava indo embora para seguir com esse sonho. O canadense não queria ter que passar pela mesma coisa de novo, não agora que ele finalmente tinha alcançado a sua felicidade bem ali. Seria uma aventura, é claro, mas ele nunca poderia deixar tudo isso para trás. Talvez ele até pudesse sim deixar Okinawa e o S, mas uma coisa ele sabia que jamais poderia abandonar: o garoto de cabelos vermelhos que ele tanto amava.

— Eu nunca tinha pensado nisso. — foi tudo o que Langa conseguiu dizer.

Reki permanecia em silêncio, de cabeça baixa.

Ele sabia que Langa tinha habilidade e potencial suficiente para chegar mais longe do que qualquer um, se decidisse seguir uma carreira no skate. Ele tranquilamente poderia entrar para a seleção olímpica se quisesse.

O ruivo sentia uma angústia enorme crescendo em seu peito, só de pensar na ideia de algum dia Langa o deixar para seguir um rumo no qual ele nunca conseguiria alcançá-lo. Ter que ver Miya ir embora já seria difícil, mas perder Langa desse jeito seria devastador.

Reki percebeu que o gerente Oka estava o observando. Ele pareceu notar que o ruivo estava para baixo com toda essa conversa.

— Vocês ainda têm algum tempo para decidirem isso. Por hoje, a gente tem só que aproveitar o momento.

Reki sorriu.

— Então eu vou beber até trançar as pernas! — Shadow afirmou escandalosamente, com muita convicção.

Cherry deu um sorriso de canto.

— É uma pena, já que não tem nenhuma bebida alcóolica aqui.

— Como é que é?!


***


Ao longo da noite, Reki e Langa ainda se sentiram confusos com toda a situação e existia um clima melancólico de despedida no ar por causa do Miya. Mesmo assim, eles conseguiram deixar isso de lado, enquanto todos curtiam a noite juntos.

O ruivo ficou impressionado vendo o quanto o canadense comeu. Na verdade, o estômago infinito do azulado não era surpresa para ninguém, mas ainda assim sempre conseguia surpreender a todos cada vez mais.

Depois de algumas horas, todos começaram a ir embora. No fim, Hiromi deu carona para o gerente Oka em seu carro cor-de-rosa. Joe e Cherry, também conhecidos como papai e mamãe, levaram Miya. E, como sempre, Langa acompanhou Reki de skate no caminho até a sua casa.

Em certo ponto do caminho, os dois garotos passaram por baixo do viaduto. Reki não pôde deixar de ver no alto da parede aquela estrela desenhada.

Ele se lembrou de como Langa havia conseguido alcançá-la com total facilidade, enquanto ele se humilhou pateticamente tentando fazer isso, sem sucesso algum.

Ele se lembrou de toda a dor e angústia que sentiu naquele dia. Cerrou os punhos e rangeu os dentes enquanto se lembrava do sentimento. Ele nunca havia se sentido tão inútil, tão incapaz. E, mais ainda, ele nunca havia se sentido tão distante de Langa.

Toda vez que era trazido à tona novamente o quanto o canadense era talentoso, Reki se lembrava como ele era tão inalcançável quanto aquela estrela.

Será que, talvez, Reki estivesse segurando Langa? Foi ele quem o ensinou a andar de skate, mas o azulado já o havia superado completamente, há meses.

Talvez, o azulado realmente devesse seguir seu caminho e ir para a seleção japonesa de skate. O vermelho queria vê-lo feliz e o apoiaria se essa fosse a sua decisão. Mas não podia deixar de pensar em quão doloroso seria perdê-lo.

— Reki? — o canadense o chamou mais a frente, preocupado.

O ruivo voltou à realidade e percebeu que havia parado no meio da rua. Seus punhos ainda estavam cerrados e seus olhos estavam marejados.

O azulado se aproximou e colocou a mão sobre o ombro do vermelho.

— O que aconteceu, Reki?

A sua voz e o seu olhar transpareciam a sua preocupação sincera. Como sempre, aqueles olhos cristalinos encantavam o ruivo.

— Não foi nada, Langa.

— Reki. Você me ajudou quando eu fiquei mal com o lance do Canadá. Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?

O ruivo respirou fundo e relaxou as mãos e o corpo.

— Eu fiquei pensando sobre o que o Cherry e os outros falaram sobre você entrar na seleção. Eu… — ele não conseguia olhar o canadense nos olhos — Eu vou te apoiar se você quiser ir… eu só…

— Reki — ele o interrompeu e o encarou no fundo dos olhos. — Eu não vou embora. Eu ando de skate porque é divertido — ele continuou, sorrindo. — Você me ensinou isso. Você é o meu professor, lembra? Além do mais, andar de skate só tem sentido se for junto com você.

Reki ainda tinha dúvidas e inseguranças sobre muitas coisas, mas aquilo era tudo o que ele mais desejava ouvir naquele momento. Ele queria muito abraçar o azulado, mas achou que poderia ser meio constrangedor.

Ele sorriu.

— Valeu, Langa. Eu gosto mesmo de andar de skate com você. Muito, cara. Obrigado por ser meu amigo.

— O prazer é todo meu, Reki.

Os dois ficaram encarando um ao outro, por alguns segundos silenciosos.

— Então… vamos continuar?

O ruivo deu um sorriso de canto.

— Claro, cara.


Notas finais
Obrigado por ler! Me conta nos comentários o que você achou!