Snowboarding With You
9 Capítulo Nove
Notas iniciais

Naquela tarde, o grupo todo decidiu acompanhar Langa e Reki até o parque de esportes de inverno.
O local estava cheio e era muito mais movimentado e energético do que a montanha que estavam frequentando. Havia vários enfeites de Natal, desde luzes piscantes até árvores com estrelinhas. Pessoas de todas as idades, etnias, aparências iam e vinham, sem parar. Elas vestiam trajes de esportes de inverno, usavam equipamentos de proteção e carregavam esquis, pranchas de snowboard e tudo o que se possa imaginar.
Langa estava impressionado. Ele já tinha ido até lá algumas vezes, quando era mais jovem, mas não se lembrava que era daquele jeito.
Ver todas aquelas pessoas reunidas no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa que eles, compartilhando da mesma paixão… Isso fazia o canadense sentir, agora mais do que nunca, que realmente não estava sozinho.
Passou pela sua mente que, se tivesse alguém com ele quando tentou praticar sem o pai, ou se ao menos pudesse ter se inspirado vendo todas aquelas pessoas, talvez ele nunca tivesse deixado o snowboard para trás.
Reki, ao seu lado, estava com brilho nos olhos.
— Cara… Isso é mesmo um S do snowboard. Ou tipo isso, pelo menos.
O azulado riu.
Como os dois garotos já esperavam, o resto do grupo também ficou impressionado logo de cara. Os skatistas imediatamente sentiram como a energia daquele lugar era muito parecida com a do S.
— Isso me agrada. Me agrada muito — a admiração transparecia pelos olhos de Cherry. — É o mesmo princípio do S. Várias pessoas diferentes reunidas pela mesma paixão em comum. Só talvez um pouco menos caótico, é claro.
— Mas admita — Joe era provocativo, como sempre —, você gosta do caos, não é?!
O rosado cruzou os braços.
— Infelizmente, isso eu não posso negar.
Enquanto caminhavam pelo parque, Nanako se aproximou discretamente do filho.
— Sabe, eu fico muito feliz de te ver assim.
— Assim como?
— Todo alegre e sorridente. Você estava tão preocupado em voltar para o Canadá e ter que encarar todas as lembranças ruins. E agora você está se divertindo, andando de snowboard de novo.
— É, isso é muito bom.
Ela riu.
— Ah, o snowboard! Sempre foi só você e o seu pai. Eu torcia pra que você conseguisse continuar praticando mesmo sem ele, mas confesso que ficava preocupada com você fazendo isso sozinho. Mas que bom que o Reki está com você.
— Pois é. Eu não teria conseguido se não fosse por ele.
Nanako o observava, atenta às suas expressões e reações.
— Reki, Reki. Ele te ensinou a andar de skate, te ajudou a fazer novos amigos e, agora, te ajudou a recuperar o snowboard.
Ela sabia exatamente aonde queria chegar com essa conversa.
— Vocês dois realmente formaram uma conexão muito forte. Ele é muito importante pra você, não é?
As bochechas pálidas de Langa ficaram coradas. Ele ficou um pouco envergonhado, mas a resposta saiu naturalmente, sem qualquer resquício de dúvidas.
— Sim. Ele é, sim.
O olhar de Nanako se tornou levemente malicioso.
— E você já disse isso pra ele?
Aquela pergunta pegou o garoto de surpresa.
— Olha, filho, eu sei que tem várias coisas passando pela sua cabeça agora. Mas, pode ser que você esteja se preocupando com algo que dá pra resolver de um jeito muito simples. Às vezes, você só precisa abrir o seu coração.
Suas palavras deixaram o azulado pensativo. Mas ele não sabia ao certo o que elas realmente significavam.
Um pouco mais à frente, Langa avistou um teleférico. Ele segurou a mão do ruivo e saiu em disparada. Seu toque fez com que todo o corpo do vermelho ficasse arrepiado.
O teleférico desse parque era diferente do outro. Ele era aberto, com quatro assentos e uma barra de proteção, deixando as pernas livres para os esquiadores. Um casal estava sentado, com esquis presos aos pés.
Langa, sem vontade de esperar mais, simpaticamente perguntou se ele é o ruivo poderiam se sentar ao lado do casal, e ambos assentiram gentilmente.
Enquanto o teleférico subia a montanha, o japonês observou o casal que estava com eles. Eram dois jovens, por volta de uns vinte e cinco anos. Tanto a moça quanto o rapaz estavam vestidos como verdadeiros esquiadores. Os esquis, que nada mais eram do que pranchas mais finas, já estavam presos aos seus pés.
De repente, ele foi tirado de seus pensamentos quando ouviu sons de gritos, como uma torcida.
Por um instante, Langa pensou estar mesmo de volta ao S. Quando olhou novamente para a montanha, entendeu o motivo de tudo.
Era Theo, o snowboarder.
Ele descia a montanha com uma velocidade absurda. Mais rápido do que qualquer um que Langa já havia visto, mesmo nos vídeos dos profissionais. Parecia que ele iria quebrar a barreira do som.
Ele desviava dos obstáculos e dos outros esportistas sem fazer esforço algum. Seus movimentos eram ágeis e ousados. E seu salto foi o mais alto que Langa já vira na vida.
O azulado sentiu algo diferente em seu peito. Era como se estivesse intimidado e admirado ao mesmo tempo.
— Fantástico! — o rapaz perto deles dizia para a namorada, admirado com o que via — Ele está cada vez melhor!
— Com licença — Langa chamou o casal —, por acaso vocês conhecem aquele snowboarder ali?
— Claro! — a moça respondeu, empolgada — Aquele é o Tetora Nagumo, o Snowboarder de Silver Hill. O pessoal chama ele de Theo. Ele é bem famoso por aqui.
— Silver Hill…? Famoso?
O casal explicou algo para Langa, que Reki não conseguiu entender. Mas a expressão do azulado era de surpresa e admiração.
— O que eles disseram?
— Eles disseram que ele é um esportista profissional, com patrocínio e tudo. Ele é aspirante à seleção ou alguma coisa assim. Ele veio dos Estados Unidos e se mudou para o Canadá há menos de um ano para poder treinar snowboard nas montanhas. Parece que ele também treina desde que era bem pequeno. Ninguém aqui consegue superar o tempo dele.
O ruivo demorou um pouco para conseguir processar tudo o que ouviu. Ele já tinha percebido antes que tinha algo de diferente naquele cara, mas não imaginaria que ele era um snowboarder profissional. Isso explicava muita coisa.
Reki observou Langa, enquanto ele, por sua vez, não desviava a atenção de Theo. O ruivo reconheceu aquele olhar. Era o mesmo de quando o azulado viu Adam andar de skate pela primeira vez. Isso deixou o japonês inseguro.
***
No topo da montanha, Reki admirou como aquela paisagem em específico conseguia ser ainda mais bonita.
Dali de cima, dava para ver direitinho cada pessoa que estava no parque. Dava para ver todos os snowboarders e esquiadores descendo a montanha. Dava para ouvir todas as risadas e conversas animadas. Naquela montanha, tudo parecia ainda mais vivo.
— Langa, quando é que você vai me ensinar a fazer o ollie do snowboard?
— Ah, leva um pouco de tempo pra você ter habilidade suficiente para conseguir fazer direito. É igual no skate.
— Quanto tempo você acha que eu ainda vou demorar?
Langa ficou pensativo.
— Bom, a gente pode testar as suas habilidades hoje, que tal?
Reki sorriu perante ao novo desafio.
Os dois subiram em suas pranchas de snowboard e, mais uma vez, aceleraram rapidamente, montanha abaixo.
A velocidade aumentava mais e mais. Reki observava o azulado. O modo como ele se equilibrava na prancha era incrível. Era como se ela fosse uma extensão de seu próprio corpo.
Então, o canadense começou a fazer manobras simples. O ruivo as imitava com facilidade.
Aos poucos, o azul começou a aumentar a dificuldade das manobras. O japonês conseguiu realizá-las também, mas com muita dificuldade para manter o equilíbrio.
De repente, Langa, que estava bem ao seu lado, o ultrapassou, avançando mais rápido do que o vermelho.
— Tenta me acompanhar!
Reki tentou acelerar mais, para poder acompanhá-lo, mas não conseguia alcançá-lo.
Quando se deu conta, Reki também não estava mais conseguindo imitar as manobras de Langa, cuja dificuldade se intensificava exponencialmente.
Mesmo estando mais atrás, o vermelho ainda podia ver a concentração no rosto do azulado. Ele queria testar os próprios limites.
— Hum… Ei… Langa! Vai com um pouco mais de calma!
O azulado já estava concentrado demais para ouvir.
Ele continuava acelerando cada vez mais e fazendo manobras cada vez mais absurdas.
Desde o primeiro dia em que o viu andando de skate, Reki percebeu o quanto Langa era talentoso e tinha potencial. Em pouquíssimo tempo, ele evoluiu mais do que qualquer um e se tornou o melhor skatista do S.
Ele era uma máquina. Um atleta cujo corpo foi moldado por anos, se adaptando e crescendo para evoluir no esporte.
O fato era que Langa só era tão bom no skate porque suas habilidades no snowboard o prepararam para isso. O que significava que, por mais que Langa tivesse um nível de habilidade absurdo no skate, isso não era nada comparado ao que ele tinha no snowboard.
Reki sempre soube disso. E, agora, ele podia ver essa habilidade com os próprios olhos.
Langa deu um salto, voando metros acima do solo. Seus cabelos e olhos claros se misturavam graciosamente na paisagem, com o céu e as nuvens. Ele parecia um anjo, pairando no ar como se fosse imune à gravidade.
Vendo-o de baixo, Reki se lembrou mais uma vez que nunca seria capaz de alcançá-lo.
Langa retornou ao solo e, logo, os dois chegaram à base da montanha.
O azulado estava ofegante. Mas ainda possuía um grande sorriso de realização no rosto.
O ruivo jamais tinha o visto desafiar tanto seus limites. Mesmo se sentindo um zero à esquerda, ele ainda estava muito orgulhoso do canadense.
Ele olhou à sua volta e percebeu que havia uma multidão os observando, ou melhor, observando Langa. As pessoas conversavam entre si, apontando para o garoto com olhares de admiração e surpresa. Não que isso fosse alguma novidade.
Nanako e o resto do grupo foram ao encontro dos garotos, tentando atravessar a multidão que os cercava.
— Parece que você conseguiu mais alguns fãs, cara — Joe soava orgulhoso.
Langa ficou um pouco envergonhado.
— O que você achou, Reki?
— E você ainda pergunta?! Você foi incrível!
De repente, alguém os interrompeu.
— Eu sabia que você era bom, mas não imaginei que fosse nesse nível.
Quando se viraram, reconheceram imediatamente o sujeito. Era Tetora, o snowboarder.
Ele parecia ter acabado de descer a montanha. Segurava sua prancha sob o braço e usava uma jaqueta esportiva preta e vermelha, que combinava com seu cabelo. E seu rosto exibia um sorriso, como um astro seguido por holofotes.
— Tetora? — Langa parecia perplexo.
Tetora deu uma risadinha cínica.
— Olha, isso foi surpreendente. Não é todo dia que alguém aparece do nada e se destaca tanto assim nesse esporte.
De repente, seus olhos âmbar se mostraram ameaçadores. Ele passou o braço em volta dos ombros de Langa, trazendo-o mais para perto. Então, cochichou no seu ouvido:
— Escuta aqui, Langa. Eu não dou a mínima pra quem diabos é você, de onde você veio ou qual é a sua história. Esse aqui é o meu lugar. Você não tem ideia do quanto eu venho me dedicando a minha vida toda pra ser o melhor snowboarder que esse esporte já viu. Então não pense que eu vou deixar um novato qualquer roubar a atenção toda pra ele.
— Eu não estou tentando chamar a atenção de ninguém. Nós só estamos nos divertindo.
— Mas você chamou — ele apontou para a multidão em volta deles. — Pode ser uma brincadeira pra você, mas pra mim isso aqui é sério. Você teria chance de seguir carreira nisso também, se você conseguisse levar isso a sério. Eu não preciso de um moleque aleatório me atrapalhando.
O canadense deu uma olhada em volta. A multidão observava atentamente a discussão.
Ele sempre foi uma pessoa extremamente calma. Mas Tetora estava tirando sua paciência. As palavras saíram de sua boca, antes que ele tivesse tempo de pensar:
— Você tá com medo de perder pra mim?
Tetora riu.
— Você tá se achando muito, não é, novato? Tudo bem, então. Eu te proponho uma disputa. Só eu e você. Naquela outra montanha. E aí nós vamos tirar a conclusão definitiva.
Langa olhou bem no fundo daqueles olhos âmbar. Seu coração ainda estava disparado. A multidão o encarava em silêncio, ansiosos pela resposta do azulado. Era a primeira vez que o Snowboarder de Silver Hill se importava ao ponto de desafiar alguém pessoalmente. A tensão tomava conta da atmosfera.
Tetora estendeu sua mão. Langa não precisou pensar duas vezes.
— Eu aceito! — disse, determinado, apertando a mão do estadunidense.
A multidão vibrou.
— Você vai se arrepender dessa escolha. Nos vemos amanhã, Langa.
Miya entrou no meio da conversa.
— A partir de agora, é bom começar a chamar ele de Snow.
Tetora encarou o pequeno com desdém. Logo, voltou sua atenção uma última vez para Langa.
— Amanhã à tarde. Sem falta. Vejo você lá, Snow.
Em um último ato, ele voltou seu olhar para Reki. Os dois pares de olhos de cor âmbar se encontram, mas nenhuma palavra foi dita.
Sem mais, o snowboarder deu as costas para os garotos e foi embora. As pessoas vieram todas falar com Langa, o deixando sem qualquer espaço pessoal ou abertura para respirar.
Um pouco desconfortável, Reki se distanciou. Ele observava as pessoas falando várias coisas para o azulado, o filmando e enchendo-o de perguntas, enquanto ele tentava gentilmente responder a todas, ainda tímido.
Langa estava prestes a participar de uma disputa de snowboard. Ele participava de inúmeras competições e torneios de skate no S. Reki já estava acostumado com esse tipo de coisa. Mas, dessa vez em específico, Reki estava extremamente incomodado.
Desde que começaram a praticar snowboard juntos, Reki pôde ver com os próprios olhos o quanto Langa tinha habilidades absurdas. Ele facilmente poderia seguir uma carreira naquele esporte, da mesma forma que poderia no skate. Ele conseguiria fazer o que quisesse e chegar mais longe do que qualquer um. E não havia nada que o impedisse. Bastava apenas ele querer.
Antes, o maior medo de Reki era que Langa o deixasse para entrar na seleção japonesa de skate. Mas e se ele deixasse o próprio skate para trás?
O azulado era apaixonado pelo skate, assim como o ruivo. Mas não tanto quanto ele era apaixonado pelo snowboard.
O canadense foi para o Japão porque perdeu tudo o que tinha na sua vida antiga. Tudo o que eles construíram juntos foi apenas porque Langa não tinha mais nada.
Mas, agora, ele tinha recuperado o snowboard. Isso era algo que ele achou que nunca aconteceria. E ele estava mais ligado do que nunca a tudo da sua vida antiga. Não só ao esporte, mas à sua cidade, ao clima frio, a tudo.
Que garantia Reki tinha de que Langa não preferiria continuar no Canadá? Que valor Okinawa, o S, o skate ou mesmo Reki tinham, quando o azulado tinha finalmente recuperado tudo isso?
Essas inseguranças acompanhavam o japonês desde que chegaram ao Canadá. Mas a situação estava ficando mais difícil. Ele sabia que, se Langa participasse daquela disputa, ele finalmente mostraria para todos o seu verdadeiro talento. E esse era o primeiro passo para poder começar de vez uma vida totalmente nova… E ficar fora do alcance de Reki.
E isso tudo trazia outra coisa à mente do garoto. Ele teve a chance de dizer o que realmente sentia, mas deixou passar. E guardar tudo isso para si estava o consumindo. Ele ainda queria poder se abrir.
Mas isso mudaria alguma coisa? E se isso só motivasse Langa a ir embora de vez? Por outro lado, se isso o fizesse ficar no Japão, Reki o estaria privando de viver a vida que ele tanto merecia. Seria egoísmo.
Ele pensou se seria desse jeito se Langa entrasse para a seleção japonesa de skate. Várias pessoas o elogiando pelo seu incrível talento. Fotos e entrevistas o tempo todo. Uma legião de fãs o admirando e se inspirando nele.
Mas ele se lembrou de algo que ouviu de Tadashi há alguns meses. O skate não tem toda essa boa recepção. A maioria das pessoas ainda vê o esporte como sendo apenas um passatempo de jovens delinquentes. Não é algo realmente levado a sério ou respeitado. Você até pode entrar pra seleção profissional, mas aos olhos da grande maioria, você continua sendo só um idiota jogando sua vida fora.
Mas o snowboard era diferente. Esse sim era um esporte bem visto e respeitado. Essa recepção que Langa estava tendo ali era algo que ele nunca teria andando de skate. O snowboard era melhor.
Não tinha pra quê Langa entrar para a seleção de skate, como Miya, quando ele podia se tornar um profissional no snowboard, como Tetora. Afinal, esse era o esporte que ele praticou desde criança, no país onde ele viveu a vida toda.
No fim nada importava. Nem Reki, nem o skate, nem o S, nem Okinawa, nem nada. Não quando Langa poderia ter algo muito melhor. E ele merecia algo melhor.
Talvez o skate não fosse infinito afinal.
Enquanto todos ainda estavam distraídos em meio à multidão, Reki deixou sua prancha no chão e foi embora, sozinho.
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