Snow White
1 Ah, eu durmo...
Notas iniciais
Arrastava-se sobre a neve.
Tinha seus motivos para deixar aquele local, mas não queria. Algo parecia prendê-lo àquela pequena cidade. Nem em vida sentira algo parecido.
A culpa era de quem? Dele mesmo, que decidira parar naquele lugarzinho escondido, ou dela? Ela, aquela menina frágil e doente, era a responsável por aquilo?
Alexander amaldiçoava-se por ter tomado a decisão de adentrar o quarto de Cecilia, cerca de três semanas atrás. Sua intenção inicial, contudo, era bem diferente da que a pobre jovem pensava ser.
O vampiro nunca havia visto uma pessoa ficar tão feliz ao receber uma visita, ainda mais de um desconhecido. Sempre que aparecia por lá, ela fazia questão de dizer que estava sonhando – afinal, nunca era visitada. Havia sido abandonada naquela espécie de casa de repouso há quase seis meses, pelo próprio pai. Lembrava-se de ter perguntado a ela o motivo daquele ato, e Cecilia lhe respondera, sem o mínimo vestígio de mágoa ou raiva em sua voz:
— Papai disse que fiquei inútil, por causa dessa doença. Ele não queria um peso morto em casa.
Sempre soubera que humanos eram criaturas imprevisíveis, mas ficara chocado ao escutar aquilo. Como alguém poderia abandonar Cecilia, aquele ser tão amável e dócil? Logo constatou que, cada vez mais, se sentia preso àqueles olhos cinzentos e brilhantes.
Naquela madrugada, não foi visitá-la. Tinha que ir embora, para o mais longe que pudesse. Sabia que, por mais que estivesse se controlando, um dia a atacaria.
Apenas Alexander vagava pelas ruas. Era tarde demais para que os respeitáveis e esnobes moradores estivessem fora. Tarde demais e frio demais. E até era melhor assim: o que ele mais queria evitar eram as perguntas que costumavam lhe fazer. “De onde você vem?”, “O que veio fazer aqui?”, “Por que você não sai pra pegar um solzinho?” Que todos fossem para o inferno. Todos, exceto Cecilia... Cecilia era o único ser humano que conseguia suportar.
O vampiro parou. Seguiam-no, e se estava certo, era alguém muito conhecido. O estranho também parou. Parecia ter corrido bastante, pois Alexander podia escutá-lo respirar com dificuldade.
— Cecilia – disse, sem sequer se virar. – Você vai morrer de frio se continuar aqui fora.
A garota riu baixinho. Aproximou-se alguns centímetros, devagar.
— Vale a pena.
Ela deu mais um passinho para frente, com dificuldade, e Alexander voltou-se para vê-la.
Cecilia parecia ainda mais magra. Estava descalça, e os cabelos curtos e negros grudavam em seu rosto, totalmente molhados. Seus lábios estavam azuis e as olheiras em seu rosto haviam ficado mais profundas; abraçando-se, tremia. Mas sustentava o olhar, e agora o encarava desafiadora.
— Sei o que você é, Alex... – murmurou, tentando mostrar-se firme.
O inglês não esboçou nenhuma reação.
— Sempre soube que você era inteligente, Ceci. Foi questão de tempo para que você me descobrisse. Mas... Você sabe o que terei que fazer agora. Meu segredo precisa ser mantido.
Cecilia olhou-o, nervosa, mas assentiu com a cabeça. Ele segurou um sorriso.
- Você sabe, não? Ou eu te mato, ou te transformo.
A garota assentiu mais uma vez. Alexander retirou o sobretudo e, chegando mais perto da menina, colocou sobre os ombros desta.
- Jamais teria coragem de acabar com você – sussurrou roucamente, muito próximo do pescoço feminino.
___Cecilia já não sentia mais as dores da doença, nem o frio da madrugada de fevereiro.
Um mundo novo abriu-se diante de seus olhos. Apesar de ser uma noite escura, tudo ao seu redor parecia iluminado e colorido como se existisse uma luz forte por ali. A neve, as árvores. Tudo pareceu ganhar texturas e formas novas. Tudo pareceu mais perto, mais fácil de tocar.
Mas Alexander ainda estava ali. E, se dependesse dela, jamais sairia de perto. Ele ainda abraçava-a. Não sentia nenhum calor, mas não se importava. Estava nos braços dele, e só.
— Agora você precisa aprender muitas coisas sobre sua nova... Vida. Seria ótimo se você deixasse-me te ensinar.
— Ficaria encantada.
O vampiro sorriu, mas não fez menção de mover-se dali. Continuava a envolvê-la.
— Agora você é minha aprendiz.
— Entendo. É como se você fosse um dos Irmãos Grimm e eu, Schneewittchen. [1]
Ele riu novamente, encantado. Encostou os lábios frios na testa dela, ajeitando seus cabelos encharcados. Pensavam da mesma maneira...
— Exato. Agora você é minha Schneewittchen. Minha Branca de Neve.
Sua Branca de Neve, Alex, repetia mentalmente. Sua princesa fria e doce que parecia ter saído de um conto de fadas alemão. Ela não seria como aquele francês bastardo... Ela estaria sempre por perto.
Vamos dançar e voar para longe, vamos dançar e voar para longe
A primavera está muito longe para que nós a esperemos
Vamos dançar e voar para longe, vamos dançar e voar para longe
Nós estávamos apenas sonhando... Isso mesmo... Só sonhando...
[1] Schneewittchen é “Branca de Neve” em alemão. Vale lembrar que não foram os Irmãos Grimm que criaram Branca de Neve; o conto se origina da tradição oral alemã. Foi compilado pelos irmãos e publicado entre 1812 e 1822.
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