Snow

16 O Finalmente.


Notas iniciais
Amores, amoras, amorecos... Nossa fick chegou ao fim >< Poisé, nem sei como começar a agradecer por terem lido, por terem deixado recados mesmo quando essa autora mal-criada aqui não respondia eles ou mesmo pelo tempo que demorei a postar... Então, só tenho a dizer, do fundo do meu coração o quanto sou grata por terem dado a uma chance de conhecer o meu modo de ver o romance de Persé&Hades, espero que apesar de toooooodas os meus erritos, vocês tenham gostado, porquê eu amei escrever sobre esse frio Hades e a fofa e destemida Persé, foi um prazer imenso e tenho muita alegria de ter compartilhado essa história com vocês e honrada por terem dado uma chance a Snow... Como adoro pensar: O que seria de uma história sem seus leitores? *o* Com todo amor que uma autora tem para com suas histórias e leitores, mil obrigadas, por tudo, pelo carinho, palavras, presença, tudo mesmo... E com vocês, o ultimo capítulo de Snow. Divirtam-se.

O Finalmente.

[Música — Hurt — Christina Aguilera] [Aqui]

Alguns minutos depois, Perséfone caminhava com passinhos pequenos pelo grande corredor em direção ao escritório em que Shadow disse que Hades passava a maior parte do dia.

Em suas mãos, um suporte com um conjunto de xícaras e talheres, além de bolo, café e muito mais que Shadow havia insistido em fazer, como se finalmente tivesse algo por quem cozinhar. E amou essa sensação.

Só não sabia muito bem o que fazer agora.

Quando parou de frente a porta que haviam avisado ser, seu coração pulava como nunca, suas mãos suando e sua barriga dando milhares de voltinhas loucas, igual Cerbero fazia ao ser solto pelo quintal. Aquela lembrança, de brincar com aquele animal, lhe deu segurança, e, segurando tudo com uma só mão e meio que apoiando em seu quadril, bateu delicadamente o nó dos dedos.

Esperou.

Contava os segundos, sua própria respiração fora de ritmo até ouvir a voz que a acalmava nos sonhos.

- NÃO ESTOU COM FOME, SHADOW.

Sabendo que com aquela fala ele não faria nada, devagarzinho, praticamente fazendo malabarismo, empurrou a maçaneta e passou o que trazia, segurando a porta com a perna.

Ao ver que tinha sido interrompido do que fosse lá o que fazia, parecendo bastante nervoso por isso, Hades levantou os olhos.

E nada do que Persefone tinha esperado podia contar como naquele momento. Era como se todo o ar que tivesse fosse sugado ante aquele olhar negro como o rio de seu reino.

Ele estava tão lindo quanto sempre imaginara.

O rosto ainda com o maxilar quadrado, do jeito que amava passar a mão. Os cabelos pretos que estavam remexidos de qualquer modo, como ele nunca gostaria antigamente e duvidava que gostasse agora, mas que o deixava sexy. A pele branca como mármore e tão forte, titânio, diamante, tudo mais. Os ombros largos em uma blusa comum que nunca havia o visto usar e que o deixava tão bonito quanto nos smokings e paletós, além de moletons que só viu quando ele se levantou, também parecendo analisá-la.

E então, a boca que a beijava com carinho e, por fim, o que mais amava nele, os olhos. Negros como a noite, profundos, enigmáticos e... Que diziam mais sobre ele do que todo o reino que ele cuidava.

E soube que tinha de dizer algo depois de analisá-lo, procurando por qualquer machucado, e só encontrando-o perfeitamente saudável.

Logo, utilizou o que podia.

Limpou a garganta.

- Então... Shadow fez alguns doces pra gente e pensei que talvez você gostasse de um pouco de comida... – sorriu ao dar de ombros, ainda o vendo parado. – Se não se importa, poderia me ajudar? Alguns lances de escada fazem isso pesar um pouquinho.

Finalmente saindo do topor, Hades sacudiu a cabeça e caminhou em sua direção, pegando assim que os braços grandes puderam alcançar o que trazia.

Em nenhum segundo, ele disse algo enquanto a esperava fechar a porta e caminhar ao seu lado, a colocar tudo sobre a mesa cheia de livros, diários e muitos relatórios de todos os setores do Mundo Inferior.

Vistoriou um desses sob uma pilha de documentos.

Ao lado de sobreviventes, que era 200, constava o numero de mortos 400. Simples e facilmente o dobro dos sobreviventes. Engoliu a seco. Mesmo tendo lutado em uma guerra, não gostava de ver o balanço final.

Então, voltou o seu olhar para Hades que estava parado a sua frente, encarando seu rosto. Por algo que não soube, Perséfone colocou as mãos nos bolsos da sua calça jeans.

- O que faz aqui? – perguntou ele, baixinho.

Surpresa pela iniciativa e pela indagação não muito agradável que ainda fez seu coração doer um pouco de um modo que ela esperava que tivesse passado e só se enganara, ela sorriu, dando de ombros, o fitando em igual nos olhos.

- Soube que havia por ai um vampiro que não saia mais da sua toca, não comendo, não vivendo, ignorando os outros e pensei que deveria ver se havia algum problema, sabe como é, não é? Ele poderia atacar sem avisar ou se jogar ao sol, algo assim, bem dramático.

A sombra de um sorriso apareceu no canto da boca de Hades com sua brincadeirinha.

- Foi Jack, não foi?

- Engraçado, todo mundo nem erra. Ele tem mesmo esse costume de avisar aos outros para salvá-los?

- Vou ter que dar um jeito nele, posso dizer que é bem insistente quando quer.

- Um bom amigo, não o evite. Também vai querer comer?

E, deixando-o perceber que não sairia tão cedo, serviu dois copos de café e pedaços de torta de maça nos pratos.

Assim que terminou, sentou-se exatamente onde ele sempre sentava: na grande, confortável e negra poltrona por trás da mesa. Sabia que estava ultrapassando alguns limites, mas ficou feliz ao perceber que ele somente balançou a cabeça, os cabelos se mexendo, e tomou o local ao lado de onde seus pés estavam sobre a mesa.

Precisava mostrar conforto, rotina e, acima de tudo, intimidade de um modo que nenhuma outra pessoa ou deus teria a coragem de demonstrar na frente dele.

Colocou uma garfada de torta na boca, sem pressa,

- Hum, está deliciosa... Shadow ainda tem uma mão magnífica. – Persefone sorriu para ele. – Tem sorte de ainda ter essa cozinheira.

- Você mudou.

- Você também, Hades.

Um sorriu para o outro.

E por aquele momento tão espontâneo, Perséfone jamais pensou que existiria.

Imaginou-o frio com sua pessoa, até mesmo indiferente, mas ele estava tão aberto a sua presença que teve se perguntar o que havia mudado nele alem da solidão.

Então, antes que pudesse se controlar, bateu ao pequeno cantinho que havia em sua cadeira.

- Vem, sente-se aqui comigo.

- Não há lugar para dois.

- Há sim, sempre há lugar para mais um. – e levantou-se. – Sente-se primeiro.

Hades suspirou e finalmente o gelo que esperava ver antes, apareceu naquele segundo, e mesmo isso não a impediu de puxá-lo pela manga, forçando-o a se sentar e, não o permitindo se levantar.

Apesar de toda a coragem que teve de demonstrar para enfrentar a grande pantera de olhos negros, não pode controlar o rubor que tomou seu rosto ao estar tão perto do mesmo, no seu colo, na verdade. Tentou parecer natural, pois naquele dia, sentia-se que tinha de ser a mais livre que pudesse, de um modo que nunca fora antes.

Hades permaneceu tenso, imóvel.

- Persefone...

- Hum? – fingiu estar tudo bem.

- O que está fazendo?

- O que pensa?

- Essa não é você.

- Na verdade, creio que seja eu sim. – sorriu carinhosamente para aqueles olhos. – Só salvando algumas pessoas no horário livre.

Mas ele não sorriu.

Foi o suficiente para sua confiança quebrar-se e perceber que talvez, só talvez, tivesse passado de um limite muito bem determinado. E nesse meio tempo, entre o naufragar de sua certeza de que ele gostaria dela brincando com ele e a briga que travavam visualmente, Persefone abaixou os olhos, sentindo-se boba.

Sempre soube que raramente Hades gostava de brincar, só para se distrair e que provavelmente estivesse um pouco ocupado dado o numero de folhas sobre a mesa.

Engoliu a seco ao imaginar que podia ter estragado tudo. Nunca fora uma pessimista, mas ali, naquele silencio constrangedor, sentada no colo dele e encarando a em "V" da blusa negra dele, perguntou-se se fora uma boa aceitar a oferta de Jack.

E teve uma ideia.

- Jack apareceu lá no templo de minha mãe. – começou, baixinho, sem fitá-lo. – É inverno lá em cima, também, e eu não esperava ver Jack por ali, mas ele me contou o que havia acontecido, como foi a guerra e quando acabou depois que eu... – abaixou o tom – Fui embora.

Hades não se mexeu.

- Ele então me contou que você estava vivo. – suspirou. – Ninguem sabia se você tinha sobrevivido, se teriam de arrumar um outro deus ou se você estava machucado. Por todo esse tempo, fiquei sem ouvir nada sobre aquilo e mesmo sabendo que eu deveria estar com muita raiva de você... – e levantou o rosto, focando os olhos marejados nos negros. -... Eu não conseguia. Estava preocupada, sabe o que é ficar três anos sem uma noticia de alguém? E mesmo depois da nossa própria guerra, ninguém comentava o que acontecia aqui embaixo. Então, quando vi Jack, e ele me contou que você estava vivo. – caçou algo nos negros. – Você não sabe o que...

- Não, Persefone, não diga.

Ela apertou os lábios.

- Que seja. Ai veio o Jack, com suas noticias e loucuras me propor algo e... – sorriu um pouco. – Pensei “por que não?”... Eu não sabia o que aconteceria e por isso estou aqui. Esperando que o deus não seja um morto, mas comande-os e que volte a conversar com os outros.

- Definitivamente, vou falar com Jack.

Procurou algo naqueles olhos negros impenetráveis onde nem mesmo seu amor mais puro conseguiu florescer e suspirou, cansada.

Estava cansada de se sentir traída, de ficar preocupada, de amar, de sentir dor, de tudo... E até mesmo de ser imparcial como só ele conseguia ser.

Devagar, secou com a mão as lágrimas bobas e sorriu envergonhada.

- Não foi culpa de Jack, Hades, eu quem escolhi e aceitei. Só pensei que... Que talvez... Por algum minuto você me escutaria. Todos pensávamos assim. Estamos todos preocupados com você. Com sua saúde, com sua vida e, eu principalemnte... – pousou a mão sobre o peito esquerdo dele onde um tambor rufava com tudo. Sorriu para aqueles lindos olhos. – Por seu coração.

Hades segurou seu pulso, afastando-o.

Era gelo, aço, sem vida.

- Eu estou bem.

- Não é o que me pareça.

- Talvez nem sempre você seja a dona da verdade.

Sob essa resposta fria, Persefone sentiu seus olhos se encherem.

- Por que, Hades? Por que me deixou ir? Sabe que havia muito mais entre nós dois do que qualquer outro deus ou contrato poderia saber ou fazer. – delicadamente, tocava o maxilar tensionado e travado do deus, apreciando a textura e a temperatura. Ele somente a fitou. – Eu havia lhe entregado o que eu tinha, por que isso não foi o suficiente para você? Eu não queria parecer patética, mas... Essas perguntas ficam rodando e rodando na minha mente todos os dias, quando vou dormir. Por que não disse uma única palavra? Um sentimento expresso por seus olhos... Eu só... Eu só... – abaixou a cabeça, segurando o choro. – Sou masoquista, o que eu esperava, de verdade? Uma guerra não muda uma pessoa. Ou então não sou eu, mas... Eu não sei, Hades... Pela primeira vez, eu não sei como agir diante das outras pessoas, me sinto estranha... Sempre fui emotiva, mas nunca foi um problema... – fechou a mão em punho. – Não até encontrar você... Você é o meu inferno, mas também é o outro lado. É os dois lados e eu não faço a mínima ideia de como lidar com o que sinto. Eu te odeio tanto, tanto que sei que te amo muito mais que isso, por que todos os dias brigo comigo mesma por ter sido tão boba de tê-lo feito se escolher entre eu ou os seus irmãos. Por que, Hades? – e finalmente encarou aqueles olhos que não tinham medo de nada. – Por que eu fui amar logo você que nunca soube mostrar nada além do que essa frieza? Que nunca... Nunca...

E cansada de fazer um monólogo quando ele somente a olhava, sem parecer ser ao menos tocado por suas palavras, Persefone se encolheu no peito daquele deus, as mãos em punhos sobre o tórax dele e chorou naquele ombro, como nunca tinha chorado na frente dele antes, finalmente mostrando que apesar de tudo o que mostrava, guardava muita dor.

Chorou por tudo, pela guerra, pelas mortes, por Hades... Tanto que seus ombros tremiam e mal conseguia respirar.

Até que braços fortes apertaram seu pequeno corpo contra o dono deles e a dor pareceu se mair suportável com alguém ao lado.

Nunca fora de chorar, mas naquele momento, o que mais queria era tirar tudo aquilo que vinha matando-a de dentro para fora, exatamente no colo de quem amava.

- Hades... – sussurrou, de olhos fechados. -... Me desculpe por não ser o suficiente.

Então, ele a apertava mais.

- Shhh, está tudo bem, Persefone.

Não soube o quanto ficou assim e mesmo depois de seu choro parar e perceber que tinha praticamente criado um lago na blusa dele, nenhum dos dois se soltaram.

Persefone não desejava sair dali nunca mais.

Cada parte dele, mesmo os defeitos, ela amava. O som do coração dele batendo forte como agora o fazia. A pele gelada que a acalmava. Os cabelos macios. Os lábios. E mesmo as mãos grandes que pareciam prontas para segurar seu rosto.

Podia ser uma romântica indomável, mas Hades sabia ser gentil como nenhum homem que conhecera fora. E ela lutaria por ele, independente do que ele sentisse por ela, até o ultimo minuto.

Então, soube que sua ida por ali estava terminada.

Aspirando o cheiro dele por um ultima vez, Persefone secou os olhos e afastou-se, a sorrir bem pouquinho ao encontrar os olhos negros que pareciam a ela preocupados.

Ele era tão lindo. Tão... Hades. Não havia comparação.

- Desculpe-me por ter surtado... Acho que devo estar na época em que as humanas chamam de TPM – brincou, não o vendo sorrir. Devagar, pousou uma mão sobre o rosto feito em alabastro, admirando-o. – Por favor, se cuide.

Ele franziu o cenho.

- Já vai?

Sorriu um pouco mais enquanto acariciava a bochecha dele com o polegar.

- Vou, está na hora. Eu apenas vim lhe dizer para cuidar mais de si, que outras pessoas se preocupam com você e que está na hora de sair do seu caixão. – fitou aqueles olhos com amor. – Por favor, saia daqui, divirta-se, distraia-se... Será uma péssima eternidade se continuar assim e mesmo Apolo não aprovaria, ok? É a hora de ir ver a primavera, Hades. Agora, tenho que ir. – e antes que perdesse a coragem, fechando os olhos, suavemente colou seus lábios bem ao canto dos dele, quase não o tocando, apenas o roçar. Mas o suficiente para seu coração pular e novas lágrimas começarem a cair. – Cuide-se.

E, sem esperar por alguma reação da parte dele, pois sabia muito bem como ele era dado a demonstrações de carinho, levantou-se do colo do mesmo sem fitá-lo mais uma vez e, ao colocar-se de pé, caminhou firmemente para a porta por onde havia entrado.

Não houve um som se quer alem do abrir e fechar da porta ao passar por elas e então, suas lágrimas caíram mais uma vez enquanto corria na saída mais rápida que houvesse daquele castelo, porque tinha noção de que não poderia se “teletransportar” para o Olimpo o quanto continuasse nele.

Mas quando menos percebeu, ao invés de encontrar uma porta de carvalho escura como a noite, achou-se no quarto em que compartilhou com ele. Onde teve os momentos mais inesquecíveis da sua vida.

Hades a beijando com carinho, admiração. Eles se amando.

Diminuiu a velocidade de seus movimentos para girar a maçaneta e ao entrar no cômodo se surpreendeu o que viu.

Por todos os lados, onde havia moveis, poltronas, penteadeiras, estavam cobertos por panos que deviam ter sido brancos e que, no entanto, pulavam para um bege devido à poeira acumulada.

As cortinas encontravam-se somente um pouco abertas, o suficiente para notar que não tinha mais o tapete preto que tanto adorava no chão e mesmo seus passos ficavam marcados como se andasse na neve, uma neve de poeira.

Parecia que ninguém entrava ali há anos.

Um quarto de alguém que faleceu, decidiu-se sua mente assim que abriu as cortinas ao máximo. Tampou a boca ao lidar com aquela imagem.

Era como se ela tivesse morrido.

Então era assim que ele se sentia? Ou fora apenas um modo de dizer que o passado com ela estava morto? Fosse qual fosse a resposta, não conseguia acreditar que ele nem mesmo colocou os pés onde o amou pela primeira vez.

E, se devia vir indignação ao seu coração, só o que sentia era tristeza enquanto puxava o pano da escrivaninha. Flocos de sujeira flutuavam no ar ao abaixar para admirar o que ainda havia por ali.

E, sentiu mais lagrimas caírem logo que puxou o porta retrato que havia ganhado de Shadow há mais ou menos três anos atrás.

Há três anos não havia ninguém naquele quarto.

Nem mesmo para pegar a aliança, pensou ao mesmo tempo em que analisava aquele anel de diamante negro que usou por tanto tempo.

De fato, sentia que havia morrido.

- Persefone?

Assustou-se ao ouvir a voz de Hades bem ao seu lado. Nem se quer havia o visto se “teletransportar” para aquele cômodo.

- Não faça isso.

- Desculpe.

Sorriu um pouco.

- Não tudo bem... E me desculpe por entrar aqui, eu já ia...

- Não há problema, era seu quarto também se me lembro.

Aquelas palavras a fizeram sorrir tristemente para o deus que quase batia um braço no seu.

Por um minuto, ficou admirando como aquilo poderia ter acontecido e no outro, apenas estalando os dedos, trazendo tudo de volta ao novo. O quarto, em todo seu poderio, limpo. Era como reviver um momento que jamais pensou que desejaria esquecer ao estar sozinha, mas que a fazia querer dividir com ele mais uma vez.

Sem ligar para o estado que ele ficaria, segurou a mão de Hades em seu próprio rosto e sorriu, o sorriso mais verdadeiro que tinha, para os olhos negros que pareciam procurar entender o que fazia.

- Hades, é hora de perder o medo de mim.

O cenho dele se franziu.

- Mas eu não tenho de você.

- Não, tem medo da minha memória. E antes que você negue, bastava olhar o quarto como estava antes. – beijou a palma gelada. – Eu nunca desejaria ou desejo ser algo doloroso, algo que você negue, Hades. Eu desejo que pense nos nossos momentos como algo mágico que você trouxe a mim, que sorria um daqueles que só faz comigo, e não a recordação de alguém que morreu. Tudo bem?

Segundos se passaram antes dele assentir, meio rígido, e Perséfone sorrir mais aquele passo.

- É hora você voltar para seu quarto. A sua vida. Aos seus amigos. Ao seu eu. E eu vim concertar toda a confusão que trouxe.

- Mas, você não é confusão, Persefone.

Deslizou um dedo pelo rosto dele.

- Agradeço que pense assim.

- Então...

- Algo a mais?

- Voce já vai?

Assentiu, timidamente.

- Eu já ia, mas algo me trouxe para cá e agora sei que era para limpar a bagunça, para te fazer reviver. – suspirou. – Trabalho feito.

Então, antes que pudesse dar um passo em direção à saída, como ele fizer há muitos anos atrás, Hades segurou sua mão, só que dessa vez a girou, procurando por seus olhos.

Surpresa com aquilo, esperou.

- Mas... E se... Só supondo... – ele estava claramente nervoso. -... E se você tenha vindo fazer algo a mais?

- E o que mais eu poderia vir fazer, Hades?

Os olhos pretos encararam os seus, com força, com sinceridade e ela não soube o que fazer em relação aquilo, muito menos ao fato de estarem de dedos trançados, como há muito não ficavam.

Nem se quer se viam.

Ele tocou seu rosto com a outra mão livre, a afastar alguns cabelos que escondia seu rosto. Era um contato intimo que nunca pensou que precisaria ou sentiria falta.

- E se você veio para ficar comigo?

Por um momento de pura perplexidade, tudo o que fez foi encará-lo, procurando alguma coisa naqueles olhos profundos que provasse aquilo que ele havia dito.

Então, abria e fechava a boca, sem acreditar.

- Hades, você está pedindo para que eu fique? – disse assim que pode formular a frase sem engasgar com as palavras ou congelar.

Muito fracamente, ele assentiu, com os lábios pressionados como se fosse difícil admitir que precisasse de outra pessoa. E Persefone compreendeu perfeitamente como aquilo deveria ter sido para alguém que viveu milênios sozinho.

- Eu... Eu... – olhos suplicantes. – Eu quero que você volte para mim, Persefone, como a Rainha do Mundo Inferior. Seja minha esposa. Case-se comigo.

E, aquela, como ela sempre lembraria, foi a maior frase romântica que já tinha escutado daquele deus que não era insensível, apenas a amava do jeito dele, de forma calada, muito mais sentimental do que a expressa, por ações impensadas que só visavam salvá-la ou mesmo não deixá-la sofrer por algo que não conseguiria lidar. Como ele não conseguiu quando ela esteve com ele pela primeira vez. Nunca havia amado alguém novamente e ela entendeu que aquele três anos que se passaram foram o necessário para que ele digerisse e compreendesse a si mesmo.

O máximo que ela podia fazer por te-lo forçado a tanto, por te-lo levado ao limite, era amá-lo de volta. Um amor que seria diferente, ela tinha certeza, mas que ele saberia fazer valer a pena.

Então, quando ele começou a ficar nervoso por não receber uma resposta rápida dela, tudo o que sua mente que sempre foi rápida conseguiu agir foi puxá-lo para perto, segurar aquele rosto inexpressivo aos leigos e colar a sua boca a dele com toda a necessidade e saudade que tinha depois de tanto tempo sem tocá-lo ou vê-lo.

E, naquele dia, após repor o anel negro como os olhos que ela admirava, Hades a amou sem igual, na cama onde tudo havia começado, juntos, como um só.

[...]

Perséfone, ofegante e sentindo-se a melhor mulher do mundo depois de amar Hades daquela forma tão física, pousou a cabeça no ombro dele, ainda a recobrar a respiração que só parecia piorar a cada minuto que passava após tudo o que fizeram.

Suavemente, sem movê-la de seu colo, Hades puxou seu rosto para trás e delicadamente tocou seus lábios aos dele, fechando assim, sem duvida, a melhor noite que já tivera na sua vida.

Ainda vibrava dos toques dele assim como ainda sentia-o em toda sua parcialidade, sentada sobre as pernas dele, apreciando os braços fortes a mantendo em contato com aquele peito forte que parecia extremamente contrastante com os seus seios macios, mas isso não importava para ela que agora se entregava ao doce beijo dele que raras vezes sentia, seus próprios dedos ganhando vida ao escorregarem com amor para os cabelos de Hades.

E tudo parecia tão perfeito ali, só os dois, no mais primordial dos sentidos humanos e divinos. Na carne com carne, igualmente ligavam seus corações, inquietos, rápidos.

Era apenas Hades e ela, dividindo um mesmo corpo.

Suspirou de puro prazer ao ser colocada por baixo daquele corpo e sorria ao olhá-lo de baixo, a sentir-se extremamente pequena em comparação a ele, logo que separaram-se do beijo.

Nada precisou dizer, estava ali, escrito nos olhos dele que por muito tempo pensou que refletia os seus e que, no entanto, mostrava o que ele próprio sentia.

Agora, ficava triste ao pensar que não percebera aquilo antes e ao mesmo feliz, pois caso contrário, nunca estaria ali, vendo-o abaixar-se apenas para tocarem seus lábios.

Isso era ser completa.

- Voce é maravilhosa, Persefone – sussurrou ele, os lábios sobre seu pescoço.

Aquelas palavras a levaram a rir deleite. Ao final, como Apolo sempre dissera, não passava de uma romântica nata.

- Me bajulando, Hades?

- Nunca.

- Uhum, sei. – suspirou com a mordida em sua nuca. – Eu acho que tenho algo mais a te dar.

- Hum... E o que seria?

- Só poderei te mostrar se parar de fazer isso comigo.

- Isso o que?

Sorriu do Hades brincalhão que mostrava as caras.

E, claro, fez questão de corar no exato momento em que ele levantou os lábios do vale entre seus seios e fitou seus olhos com os dele negros e sensuais. Nunca tinha pensado que o veria assim, os cabelos de qualquer jeito, libertino e divertido.

E talvez ele nunca venha a parar de me surpreender, pensou enquanto amorosamente deslizava uma mão pelos fios lisos e negros.

- Não é isso o que pensa, espertinho. É outra coisa.

- Hum, então... – ele apoiou-se nos cotovelos ao mesmo tempo em que se acomodava melhor entre as pernas de Persefone e sorria um pouco. -... Onde teremos que ir?

- Primeiro, preciso que não me toque. Nem faça esse movimento com os quadris ou me beije.

Ele franziu o cenho, curioso.

- Eu não estava fazendo nenhum deles, mas por que não?

- Por que se não, não vou conseguir sair dessa cama mais, entende?

- Presumo que teremos que andar.

- Acertou na mosca – e deu-lhe um beijinho rápido antes de empurrá-lo de cima de si.

Apesar de tudo, admitia que não estava acostumada mais ao frio do Mundo Inferior. Tremeu com a primeira brisa que passou pelo quarto e logo se escondia dentro da blusa de Hades, já que estava mais perto.

Ele não fez nenhuma reclamação enquanto vestia uma calça de moletom, parecendo completamente à vontade ainda que nevasse lá fora.

Tentou ignorar o frio, usando da ansiedade que tinha e sentia, para se aquecer. Alem de, claro, usar o amor que sentia por ele também.

Então, sem falar nada, simplesmente pegou a mão dele, olhou para os dois lados do corredor ao colocar a cabeça para fora e o puxou correndo, sem ligar para os guardas.

Ele claramente não entendia, mas ao primeiro sinal de seu riso, Hades descontraiu e seguiu seu estado de espírito.

Isso era o lado bom de ter a intimidade com o deus do mundo inferior: se ele confiasse, teria um parceiro para tudo. Para começar uma guerra, terminar com uma, roubar um banco, criar uma empresa ou mesmo colocá-lo para cozinhar algo super difícil ao seu lado.

E eram esses pequenos fatos que faziam Persefone se achar a mulher mais sortuda do mundo ao saber que ele a amava e que sorria para ela daquele jeito que fazia agora enquanto o guiava pelos corredores.

- Onde vamos? – perguntou ele, naquela voz rouca que tanto adorava.

- Já estamos chegando... Espere... Espere... Aqui.

Mas não deu tempo parar ele associar onde estavam, somente depois que o puxou para dentro e trancou a porta atrás deles.

O clima estava bem mais frio ali, fazendo seus dentes literalmente baterem e seus pés quererem estar em uma confortável pantufa, debaixo de cinco camadas de edredom e com aquecedor.

Mas, se ia o aceitar, tinha de confrontar aquilo por ele e com ele.

Delicadamente, pousou suas mãos nas costas do deus e sorriu ao receber o olhar atônito que ele lhe dava.

Bem ao meio de onde se encontravam, uma romãzeira com as romãs mais lindos que Persefone já havia visto, chamava-a para arrancar só uma, provar daquele sabor.

E, mesmo tentando se controlar, via sua respiração vir mais rápido a cada vez que dava um passo para frente com ele, enxergando o ar se tornar branco a frente de sua boca.

- O que pretende fazer, Persefone? – perguntou ele, baixinho.

- O que você imagina? — Mas ele não chegou a responder – Colha só uma.

Assim como ela pediu, ele fez. A grande romã escorregou para seus dedos ao esticá-los na direção dele e pesou o quão grande era aquele passo que daria, tanto quanto imaginou quantas vezes alguém tinha provado daquela fruta.

Muito vagarosamente, permitindo que ele a impedisse caso não quisesse, abriu a romã ao meio, expondo pequenos pontinhos vermelhos e entregou a outra parte a ele.

Não comeria, pois ele não precisava daquilo, mas então ficou curioso sobre a sua escolhe e tratou de explicar a ele enquanto catava cada pequena gotinha de sumo de dentro da planta:

- Pensei muito sobre elas nesses anos e acho que chegou a hora. Gostaria de poder ficar o ano inteiro, mas mesmo eu sendo deusa, os humanos precisam de mim, precisam do que ofereço a eles assim como precisam de você. Então, pensei, nada mais justo do que comer metade dela, para a metade do ano, quando é inverno e outono para passar com meu Rei e a outra metade eu ficar lá em cima, cuidando das frágeis vidas humanas. – e sorriu ao tirar a ultima sementinha.

Eram muitas, mas não se importava, precisaria comer só três e seria o suficiente. No entanto, guardaria o resto, por ali, em um pequeno pote que havia trazido, para lembrar-se da promessa que fizera ao deus dos mortos.

Hades segurou seu punho quando foi comer a primeira. Seus olhos, diferente do resto do dia, estavam sérios e imploravam para que repensassem, com medo do que fazia.

- Voce tem certeza?

Persefone sorriu.

- Essa é a minha prova, é algo para você nunca duvidar do meu amor por você, pois sei que faz isso quando não estamos juntos. É a promessa de que voltarei.

- Mas eu não duvido. – sussurrou ele baixinho.

- Então, por favor, não se preocupe. Acredite. – apertou suavemente a mão dele. – Eu sei o que estou fazendo, sei no que acarreta e estou aceitando isso. Eu quero isso, Hades.

Alguns segundos se passaram em silencio enquanto ele pesava, para apenas soltá-la e assentir, claramente preocupado com o que ela desejava.

Mas antes que ele pudesse impedi-la outra vez, Persefone colocou seis pequenos caroços na boca e deixou estourar o sabor, doce, suave, delicado, antes de engolir. Para então, com um resquício do suco na língua, puxar Hades para baixo e beijá-lo, selando o acordo.

Imediatamente sentiu a diferença.

Seu corpo que antes sentia frio, agora parecia normal naquela sala de neve, ainda que esperasse que a temperatura de Hades mudasse, no entanto, esta continuou deliciosamente do modo que era.

Foi como se a partir dali, também pertencesse ao Mundo Inferior e ela não tinha a menor duvida disso, de que era de Hades, enquanto se entregava. E, uma parte do poder do deus dos mortos escorregou para seu coração.

Então, era aquilo a entrega total, a noção de que ele também recebia alguns de seus dons.

Ao final, quando pararam sem ar, se olhando, sorriu para ele.

- Rainha do Mundo Inferior.

E ele retribuiu o repuxar de lábios.

- Minha rainha.

Outra vez mais, a beijou, mas dessa, com os lábios ainda colados, Persefone sussurrou o que mais desejava:

- Eu quero que você passe uma primavera comigo.

Fim...

... Por enquanto.

Notas finais
*cry* Acho que vou fazer um epílogo, sem certeza ainda. De toda forma, obrigada amores, por tudo *o*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!