Notas iniciais
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Havia dias em que Perséfone não sabia se sonhava, se estava presa em um pesadelo ou se simplesmente encontrava-se acordada.

Às vezes, sempre optava por estar acordada, mas daquela, ao sentir os primeiros raios de sol tocando sua face, preferiu pelo sonho. Àquelas horas anteriores sem duvida não podiam ser nada alem do sonho.

Um lindo sonho com Hades, pensou ela sabendo que sorria bobamente enquanto girava devagar e deslizava a mão pela cama atrás dele.

Mas tudo o que achou foi o lençol gelado, tanto pelo clima quanto pela falta daquele deus ali, e abriu os olhos para encontrar-se sozinha naquele enorme quarto.

Apesar de esperar que algo assim acontecesse, afinal, era Hades e já havia escutado muitas histórias sobre ele e suas amantes, não esperava que ele seria insensível a esse ponto consigo. Fora uma tola, esperando demais. Sabia.

Então porque não ouviu a si mesma? Perguntou sua parte racional que olhava-a com reprovadores olhos castanhos.

Ignorou e levantou-se, nem mesmo ligando de estar nua ao caminhar pelo quarto em direção ao banheiro, a pensar que provavelmente não passava de uma brincadeira, um bichinho de pelúcia bonitinho e bobo que Hades tinha a disposição enquanto usasse aquele maldito colar.

- Que se dane – disse baixinho, batendo a porta do banheiro.

Meia hora depois, Perséfone penteava os cabelos vagarosamente, fitando seu próprio reflexo. Havia tantas perguntas em sua cabeça.

Quando começara a gostar de Hades?

Por quê?

Era alguém frio, sem senso de humor, sem sorriso... Era como o inverno, gelado demais para se divertir nele, onde devia se guardar o calor para não morrer. Tão diferente de si.

Suspirou ao mesmo tempo em que descansava a escova sobre o colo. Eram de dois mundos diferentes. Ela era do calor, da alegria, da colheita feliz do camponês e da alegria do sol. Do verão.

Já ele...

- Onde fui me meter? – murmurou, vendo sua boca mexer-se. Vermelha, bonita, contudo, desfeita em um pressionar de lábios.

Desde que acordara não vira nenhum sinal dele, nem mesmo um recado, algum aviso. Simplesmente... Sumira. Sacudiu a cabeça.

Era melhor para de pensar sobre isso. Sabia como ele era, compreendia todos os lados dele, como um degustador perceber todas as nuances de um vinho. Ainda assim...

Chega, gritou a si mesma, finalmente fazendo uma trança e parando de pensar sobre aquilo.

Sua mente então se preencheu com coisas frívolas assim que Shadow entrou no quarto e ajudou a se arrumar para mais um dia.

Depois de tudo aquilo, mesmo sabendo que poderia vestir uma calça jeans, uma confortável blusa de frio e sapatos comuns ou mesmo chinelas, acabou por optar por mais um dos grandes vestidos, com a única diferença ser esse mais leve, no entanto, não menos bonito.

Num tom azulado, prendia-se bem a sua cintura com o espartilho, caindo em uma única onda suave. Luvas e botas de equitação. E estava pronta.

Sorriu para Shadow assim que terminaram.

- Obrigada.

A fantasma acenou.

- Venha, temos um maravilhoso café da manha esperando por você.

- Jamais perderia.

- Então... – voltou a dizer Shadow assim que estiveram caminhando pelo largo corredor cheio de obras de artes e tapetes persas de tempos anteriores a ela. Perséfone encarou a baixinha senhora, esperando pela pergunta. Os olhos que um dia foram azuis sorriam. -... Não vai me perguntar onde se encontra Hades?

Só com aquele nome dito em voz alto, suas bochechas arderam ao lembrar-se da noite anterior. Fora tanto de Hades. Mas forçou-se a parecer indiferente.

- Ele deseja que eu saiba?

A senhora franziu o cenho ao seu tom neutro.

- Na verdade, esperava que estivesse um pouco curiosa após me deixarem dois pela casa.

Os ombros magros de Perséfone se moveram antes dela sorrir.

- Tanto faz e me desculpe por ontem.

- Não há problemas. Mas, querida... – Shadow segurou sua mão e encarou seus olhos com carinho. – Tenha paciência. Ele é um homem difícil, não está acostumado com ninguém além dos mortos que nem são de longe a melhor companhia que ele poderia ter.

O coração de Perséfone amoleceu um pouco com aquelas palavras. Ate mesmo ela sorriu mais suave.

- Eu compreendo, Shadow, mais do que imagina.

- Então...

- Mas mesmo a paciência tem seu limite, Shadow, e eu nunca descobri o meu. Não sei quanto agüentaria por aqui, não... – respirou fundo. – apenas... Vamos tomar café da manha, tudo bem?

A partir disso, Shadow nada mais disse e Perséfone caiu em seus próprios pensamentos.

Ao final, estava certa, não conhecia a si própria, era nova e mesmo os mais velhos deuses pouco sabiam sobre si. Talvez... Ela não sabia. Não sabia como lidar com aquilo. Mas por algum tempo, o suficiente era agüentar.

Eu só espero que saiba o que pede, Hades, murmurou para si mesma, triste. Ou então estará matando a dois.

[...]

O café da manha ia maravilhosamente bem para Perséfone.

Por algum motivo que desconhecia, Shadow a havia levado para fora do castelo onde a neve caia suave e onde agora se encontrava, sentada embaixo de uma grande arvore que impedia daqueles flocos despencarem sobre si, em um dos lugares da mesa redonda coberta de comidas inesquecíveis por seu sabor.

Era uma visão de tirar o fôlego.

O rio Styx de cor negra como os olhos de Hades por ali escorria, em um suave “s”, o resto eram plantas diferentes que sobreviviam e que eram cuidadas por Shadow. Pareciam luzes no meio do branco.

E acompanhada de Shadow que conversava animadamente com sua pessoa enquanto tomava um esplendido café, toda aquela sua agonia e tristeza de ter acordada sozinha parecia ter se evaporado.

Estava outra vez de bom humor, do seu modo mais clássico, alegre como passarinhos após a chuva. Isso que pensava ter passado, apenas por uma tempestade.

Uma tempestade que voltaria, mas que por agora era ótimo ter se escondido.

Ou era isso o que pensava, ao perceber que Shadow havia se calado e olhava com um sorriso carinhoso para algo atrás de si. Não precisou virar-se para saber quem era.

Descobriria antes mesmo de escutar um:

- Bom dia, Shadow – naquela voz grave que chamou seu nome na noite anterior.

Calor em suas bochechas. E talvez por isso não teve coragem de virar-se para encará-lo.

Rapidamente, Shadow levantou-se.

- Bom dia, Senhor. Vai tomar café da manha?

- Sim.

- Vou buscar mais bolo para vocês. Senhorita Perséfone – os olhos azuis fitaram seu rosto, curiosa. – Deseja que eu traga algo para você?

Não conseguiu fazer uma palavra se quer, então, apenas negou com a cabeça e voltou a tomar seu café, fingindo estar deslumbrada demais com a visão do local enquanto escutava Shadow sair e o sentia bem ao lado da sua cadeira.

Nunca em sua vida evitou olhar alguém como fazia naquele instante, mas parecia que ele também não ligava.

Então, sem avisar nada, os dedos gelados tocaram sua nuca delicadamente, puxando seus cabelos para trás e desfazendo sua trança, a deixar as ondas castanhas livres sobre seus ombros.

Nem assim, o fitou, apesar de sua mão ter parado só com aquele toque.

Demorou um tempo para perceber que ele sentava-se bem a sua frente e mais ainda para respirar ao receber o impacto de olhar o rosto dele.

Hades, apesar de todos dizerem inspirar medo só de fitá-lo, era lindo.

Não, era mais que isso, era belo demais.

Sobrancelhas relaxadas, cabelos penteados corretamente para trás, maxilar quadrado que ela desejava deslizar os dedos como fizera na noite anterior, boca firme, ombros largos dentro de um muito bem cortado paletó do modo perfeito para sua imponência, e então seus olhos.

Quando alcançou eles, aquelas duas profundas poças que escondiam anos de vida e de segredos, soube por que agüentava tanto.

Era ele.

Por Hades, estava suportando tudo o que sua antiga “eu” nem mesmo teria suportado por dois dias. E estava mesmo se humilhando por isso, pensou tristemente, assistindo-o fazer o mesmo que fazia com ele: encarar seu rosto.

Olhavam-se como dois estranhos que nunca se viram antes.

E Perséfone preferiu desviar os olhos antes ao saber o que ele podia ler nos seus. Sempre foi muito sentimental, sensível a tudo e nunca teve problemas em demonstrar o que se passava em sua mente.

Mas estava aprendendo algo com ele: melhor o inimigo nunca saber de seus segredos. Inimigo? Perguntou a si mesma, tomando um gole de seu café. Não, ele não era seu inimigo, ou era?

- O que tanto pensa? – perguntou aquela voz, baixinha e velada como sempre, como se nada pudesse afetá-lo. O que ela imaginou que realmente não acontecia.

Não o olhou ao responder.

- Apenas pensando que você tem uma casa muito agradável. Bonitas flores.

- Bonitas não?

E sabia que ele encarava sua pessoa ao dizer aquelas palavras antes mesmo de tomar coragem para fitá-lo.

- Muito... – sua voz foi baixa enquanto procurava saber o que ele pensava por trás daqueles olhos. – Quem as plantou?

- Shadow, ela disse que gosta de um pouco de vida por aqui.

- Belo humor negro.

Ela não soube se foi imaginação, mas pensou que talvez a sombra de um sorriso tivesse passado pelo canto daqueles lábios.

Desviou os olhos, corando, lembrando-se do que não devia.

- Obrigada. – silencio preenchido pelo som do café caindo na xícara. – Então, o que pretende fazer hoje?

Não admitia, mas estava surpresa por aquela vontade dele de saber o que faria e tratou de escondê-la.

- Cavalgar... E antes que você reclame, já escolhi alguns homens seus para me acompanharem...

- Não ia reclamar.

- O que?

Agora sim, aquele sorriso estava lá, escondido. Os olhos negros fitavam os seus com diversão.

- Não posso te manter presa. Alem do que, você provavelmente fugiria... Prefiro deixá-la fazer o que bem entende.

- Hum... – ela o analisou, procurando algo de errado naquela frase, mas tudo o que viu foi ele mastigando calmamente um pedaço de torrada. – Obrigada.

- E o que mais irá fazer?

Ela olhou para seu próprio café.

- Não sei, ficar com Shadow talvez. Arranjarei. E você?

- Eu?

- É, o que irá fazer hoje?

E lá também estava o aço negro que sempre aparecia quando comentava sobre aquilo.

Não foi de se admirar que ele fechasse o rosto, sumindo com toda aquela alegria que parecia o envolver antes. Internamente suspirou.

Como podia com aquilo?

Com toda aquela armadura?

Ele simplesmente não comentou nada e Perséfone deixou sua tristeza chegar junto assim como o assunto sumira.

Então, era isso? Ficariam assim? Não devia ter algo a mais? Afinal, haviam dividido uma cama, carinho e...

Cale a boca, mente, brigou consigo mesma por estar sendo tão masoquista e voltou sua atenção para o livro em francês sobre o Renascimento, analisando uma vivida obra de Michelangelo.

Apesar de todas suas forças para ler aquilo, o homem a sua frente chamava muita a sua atenção, entretanto, forçou-se a continuar enquanto desfrutava de muito maravilhosamente preparados biscoitos até que esqueceu onde estava e afundou na história.

Só soube que ele havia saído de fininho ao levantar os olhos e assisti-lo caminhar elegantemente em direção a duas grandes portas que dariam em um dos escritórios dele.

Com aquilo, suspirou. Quando tudo era para estar maravilhoso, pareciam mais pessoas estranhas.

O que estava acontecendo?

[...]

Só reencontrou sua alegria ao subir em seu cavalo negro e rápido e sentir seus cabelos balançando a cada passo que o ágil animal dava na neve.

E mesmo o clima sendo tão estranho, em nenhum momento, o animal vacilou.

Assim como os dois guardas que a seguiam não disseram nada ou mesmo pararam, em mesmo ritmo que si. Entretanto, nem isso, a impediu de fechar os olhos e sorrir, abaixada para ter mais impulso.

- Bom garoto – sussurrou ao animal, notando o coração dele rápido mesmo de onde estava.

Só parou ao perceber que ele estava exausto e que pararam em um tipo de encosta, lá embaixo, percebeu ela ao desmontar e caminhar até a ponta que o cavalo não queria ir, havia o mar negro, rugindo como sombras na noite.

Encontrou a praia um pouco para o leste de onde se encontravam. Não havia nada, nem ninguém. Tão solitária quanto o resto do mundo inferior.

Virou-se sorrindo para um dos guardas que detinha o rosto fechado.

- Podemos ir lá?

Ele nada disse, optando apenas para acenar um sim bem militarmente.

E ainda que tenha sido frio com ela, gentilmente a ajudou a descer assim que lá chegaram, deixando os cavalos com um dos guardas.

A terra era mais firme do que ela imaginava ao tocá-la, mas era tão linda que a encantou. Pequenos círculos perfeitos e beges formavam aquela praia e suavemente escorregavam por seus dedos.

O mundo inferior, como ela jamais imaginara, era uma paisagem belíssima.

Era uma terra que deveria ser inóspita, gelada, fria, impiedosa como o próprio gelo, mas era dotada de uma beleza complexa, para somente olhos que tiveram o pior dela pudessem aproveitar o melhor.

Assim como era com Hades.

Ela suspirou, o vento movimentando seus cabelos. Mas será que algo poderia viver ali? Algo prosperaria? Ou só...

Todos seus pensamentos foram cortados ao ouvir uma ordem alta, vindo lá de cima.

Antes que pudesse associar o “ataque” em grego arcaico, assistiu o corpo do guarda de colarinho azul, como o chamou, despencar sem vida e soar um baque ao tocar a areia.

Sua mão tampou seu grito.

- Senhorita, temos que ir – gritava o guarda, puxando seu cotovelo.

Então, sua mente acordou.

Ali, a alguns metros deles, um enorme cão negro que nada tinha a ver com Cérbero, corria na direção deles.

Devia ter por volta de três metros e em suas costas, um cavaleiro de armadura completamente branca que se sobressaia com sua lança, parecia pronto para matarem sem dó ou piedade. Não chegou a desejar associar e somente correu para o lado que lhe era mandada.

O seu guarda a empurrou bruscamente para um circulo, uma caverna completamente escura onde sentia seus pés tocavam a água gelada do rio que ligava ao mar, sem nunca pararem de correr.

Suas mãos se cortavam enquanto tentava prever onde pisar, tocando a parede cheia de nuances e espinhos feitos de pedra.

Não soube quando ao certo, no momento em que apenas escutava sua própria respiração, que ouviu o som de uma espada se desembainhando e no segundo depois o nojento som de carne batendo com força contra o chão.

Não precisou ser gênio para saber que seu guarda estava morto.

Sentiu vontade de vomitar, mas não podia se dar ao luxo disso. Antes só havia um guarda os separando, agora só o vento que vinha.

Correu com mais afinco, apavorada, mas sem desistir tão facilmente, a segurar seu próprio vestido.

Pelo corredor obscuro, ouvia o mexer da cota de malha a cada passo que ele dava. Provavelmente como ela, estava a pé, pois aquele animal jamais poderia se quer enfiar a cabeça naquele buraco. E nem mesmo isso trouxe um pouco de paz.

Os dois guardas que havia escolhido era os melhores para o momento e ainda assim não mostraram resistência alguma contra aquele cavaleiro de armadura branca. E o que ironicamente devia trazer alegria e calma, deixavam Perséfone aterrorizada, implorando pelo negro dos olhos de Hades.

Sentiu, antes de ver a mão enluvada em couro e metal, enrolar-se em seu braço. Era quente. Muito. E queimou sua roupa, tocando diretamente sua pele.

Gritou pela dor.

- Calada – a ordem fria nada tinha a ver com aquele calor absurdo assim que recebeu um tapa no rosto.

O gosto de sangue se alastrou por sua boca.

- Me solte, agora. – ordenou.

- Vem comigo.

- Nunca.

E antes que pensasse no que fazia, puxou a espada do lado em que algo prata brilhava, e tentou acertá-lo como Aquiles havia lhe ensinado.

Provavelmente pela surpresa de sua força e sua vontade de se livrar dele, Perséfone conseguiu ficar a lamina no ombro do mesmo. Em segundos, ele puxava a espada de lá, sem nenhum grito de dor.

Por aquilo, ela não esperava e não se surpreendeu que qualquer outro golpe seu tivesse algum funcionamento agora que ele estava em guarda.

Batendo com a parte chapada, que mesmo assim cortou sua bochecha, o impacto da lamina a levou ao chão.

Ao tentar chutá-lo, ele apenas segurou seu pé com calma e com força perfeita para quebrar uma arvore. Seu grito assustou a si mesma. Estava cheio de uma dor que jamais imaginou que pudesse sentir.

Então, com uma força vinda de algum lugar desconhecido, plantas o seguraram o suficiente para se por de pé desajeitadamente, ouvindo-o se debater um pouco, e conseguir correr alguns metros.

Ao acordar de novo, percebendo que havia desmaiado por poucos segundos ao receber um chute nas costas, notou que tinha caído em um lago, que havia uma abertura. E que o homem de armadura estava incrivelmente parado, olhando para a água como se fosse um bicho.

E entre a dor e o alivio de ver alguma hesitação por parte daquele soldado, Perséfone ignorou tudo o que a impedia e nadou como nunca havia nadado antes. Suas braçadas eram pesadas, mas nem isso a proibiu de nadar mais e mais.

Durante alguns segundos, assim que parou na borda, segurando-se em um grosso tronco que havia caído, não acreditou que havia conseguido chegar e ganhar algum espaço entre eles.

Pouco ficou para ter a certeza de que aquele homem havia parado de persegui-la.

Com o vestido rasgado, sangrando e sentindo seu pé doer como nunca, correu como se um demônio a seguisse, o que não era tão difícil de imaginar. Por que só agora se dava por vencida aos comentários sobre os perigos que Hades vivia a lhe dizer? Se tivesse o escutado.

É, mas agora é tarde, pensou acidamente, atravessando uma grande campina.

E antes que desse mais dois passos, um enorme cão negro apareceu a sua frente. Era mais horrível ali do que na praia. Olhos vermelhos como labaredas, boca cheia de dentes pobres que matariam alguém por infecção e cheirava a... Pinho. Estranhamente, cheirava a pinho.

E por aquilo ela jamais esperou. Tão pouco que outro aparecesse bem ao seu lado. Tão grande ou mesmo maior do que o primeiro, era marrom e parecia um rotweiller, só que com três cabeças.

- Cérbero... – sussurrou como se fosse uma promessa de alivio.

Suas pernas estavam moles, cansadas, mas sabia que se ficasse ali entre a briga que ia começar so de ver como eles se encaravam, morreria.

Então, deixou aquilo para o cão de Hades. Provavelmente, Cérbero não gostara nada de ver outro cão andando por ai onde ele reinava como o porteiro-mor daquele mundo. E nunca agradeceu tanto ao instinto dos animais de serem tão alfas.

Entre mordidas, rosnados e latidos, Perséfone deixou-os brigando e correu ainda mais ao perceber que estava perto do castelo e de onde havia tomado café da manha.

Jamais imaginara que aquele rio dava no mar, mas prometeu que visitaria Dédalo por projetar aquele local de forma tão maravilhosa.

Estava a apenas alguns passos, já sorrindo pela proteção que o castelo detinha sozinho e por Shadow e Hades, no momento em que alguém a virou e antes que pudesse pensar, sentiu algo deslizar por sua carne, alojando-se perto de seu coração, e viu com horror que o cavaleiro branco estava a poucos centímetros de si e uma adaga enterrava-se em seu corpo.

Tentou lutar contra, enrolando a mão dele para puxá-la, mas o homem afundou ainda mais, tirando seu ar e lhe dando apenas a visão de olhos dourados.

E no outro, caia sem força contra o azulejo onde mais cedo caminhara alegremente acompanhada de Shadow.

- HADES – gritou, com o que lhe restava do ar, assistindo impotente o cavaleiro segurar seu cabelo, erguendo sua cabeça e pronto para cortar sua garganta. Outra vez mais, tentou gritar e tudo o que saia eram sussurros. – Hades... Por favor...

- Ele nunca irá te escutar – disse o cavaleiro, sacando outra adaga. – Durma bem, Princesa.

- Hades...

E soube que ele estava certo.

Fechando os olhos, sentindo que lágrimas escorriam de seus olhos, deixou-se sentir a lamina fria contra sua pele, no momento em que ouviu algo diferente. E apesar de querer saber o que era, não teve forças.

Seus olhos simplesmente não se abriam, sentia-se na linha entre a vida e a morte, se já não estivesse nela. Sua mente irracional pensou que seria melhor, poderia ficar com Hades para sempre, no reino dele, mas os sons a distraíram.

Sabia o que era aquele som, conhecia daquele dia em que lutou com Aquiles, no dia em que beijou e se entregou a Hades, aos braços deles. No dia em que descobriu que o amava.

Eram espadas se chocando.

Pouco soube quanto ficou ali, entre o fim e o começo, flutuando entre o vivo e morto, ainda que sentisse alguém segurando sua mão, no instante em que ouviu a voz que lhe trouxe paz.

- Ninguém toca nela. – e barulho de metal caindo no chão.

Claro que seu cavaleiro negro havia salvado-a. Pena que não antes, pensou tristemente. Já sentia sua alma querendo sair dele, mas esperou um pouco mais.

Um pouco mais de dor para ouvi-lo só mais uma vez.

Suas costas saíram do contato com o frio azulejo. E havia uma mão gelada sobre as suas que nem sabia que seguravam seu machucado.

- Ela disse algo?

- Nada, Hades.

- Shadow, traga toalhas.

- Mas...

- AGORA.

Com aquela ordem, não ouviu mais nada.

Desejou abrir os olhos e tudo o que conseguiu foi respirar cada vez mais fracamente. Estava nos braços dele. Era um bom lugar para se morrer, pensou, finalmente relaxando depois de tanto medo. Esse que era substituído por alegria e amor por senti-lo, por vê-lo antes de tudo.

Dedos gelados pressionaram ainda mais o corte, uma dor rompendo dentro de si.

- Mantenha assim, Perséfone, não solte.

Queria dizer que sim. Que estava tudo bem, mas mesmo sua língua estava presa.

- Por favor, vamos lá, não solte, não desista. Eu sei que ainda está viva.

E ela não duvidava disso, afinal ele era deus dos mortos.

Foi quando consegui, com muito afinco, abrir os olhos e deparou-se com as duas orbes mais lindas do mundo para si. Negras, como o dia mais escuro, pareciam liquidas e ansiosas ao mesmo tempo em que com medo e com algo a mais, e foi o suficiente para dar um sorriso pequeno.

- Hades...

- Shhh – ele negou com a cabeça, os cabelos caindo sobre os olhos daquele modo adorável que ela amava e o via não gostar, colocando uma mão dourada com seu sangue em seu rosto. – Não fale.

- Está tudo bem.

- Perséfone.

- Não, Hades... – tossiu um pouco.

- Por favor, não fale, Perséfone. Precisa guardar seu ar.

Ela sorriu, finalmente fazendo o que queria pela manha, ao vê-lo imaculadamente belo e pronto para cuidar de sua guerra: pousou uma mão no maxilar tensionado dele,

Por que não fizera antes? Por que perdera tempo com vergonha e medo?

E aqui estava, sabendo que morreria e vendo que não o tocaria assim mais. Ele relaxou sob seus dedos que o afagavam e sentiu os braços a apertando mais.

- Eu sei que... – tossiu – Eu não...

- Perséfone, vou ter que calá-la?

- Shhh, vou falar... Eu sei que não tivemos muito tempo...

- Não diga isso. Nada vai acontecer.

- Mesmo a morte não pode ser revogada por você, Hades.

Leu que era verdade suas palavras ao encarar os olhos mais gelados e belos que conhecia. E talvez por isso tenha deslizado os dedos pelos macios cabelos negros, apreciando aquele toque.

- Só quero que saiba, Hades... – o fitou. -... Que eu tentei.

- Eu sei que tentou.

- E consegui... – sorriu um pouquinho apesar de seus olhos estarem fechando contra sua vontade. Respirou fundo. – Eu te amei, Hades. Eu te amo.

E tudo desligou.