Snake Eyes
1 To reave a love divine
Notas iniciais
Enquanto não enterramos os mortos, os vivos ficam lá, sangrando. Acabam conosco os mortos.
Patrícia Melo
2016
Derek Morgan
Amado filho, irmão e amigo
Spencer tinha se oferecido para vir comigo, mas havia certas coisas que eu precisava fazer sozinha. Eu nunca o visitara, não desde o dia em que estive presente às escondidas em seu enterro.
Sempre exigimos muito de nós mesmos, nossas falhas são mais visíveis que nossos acertos e, na maioria das vezes, somos cruéis com aquilo que guardamos em nosso âmago. Gostaria de enxergar uma forma, mesmo no futuro, para que eu me perdoasse, mas a verdade é que isso nunca iria acontecer. Trabalhar na BAU exige um psicológico capaz de lidar com perdas, nem todas as vidas podem ser salvas e nos preparamos para isso, todavia, quando algo acontece encontramos uma forma de sentir a culpa e sempre achei que isso nos tornava humanos. Quando paramos de nos importar com uma vida perdida ou quando os dilemas morais resultantes de um tiro fatal que fomos obrigados a disparar cessam de nos atormentar, talvez o trabalho não esteja nos fazendo bem. Talvez seja hora de procurar, ao longo do caminho percorrido, onde deixamos parte de nossa humanidade. Sabemos que não é nossa culpa, sabemos que há perdas. Lidamos com isso e fazemos o melhor possível para ajudar alguém que precise de socorro quando o próximo caso chega à mesa de Aaron Hotchner.
Gostaria que esse discurso se aplicasse a mim. Com todas as minhas forças, gostaria de poder dizer que nem sempre podemos salvar a todos. Gostaria de fazer parte daqueles que merecem compaixão, mas a verdade é que eu cavei um buraco ao chão e, ao invés de simplesmente deitar nele, arrastei outras pessoas. Era injusto ainda estar viva enquanto Morgan tivera todos os seus planos interrompidos, um futuro majestoso para uma pessoa doce, que merecia o mundo aos seus pés. O carrasco perdura, amargamente.
—Eu sinto tanto, tanto... – comecei a falar, mas minha voz quebradiça pareceu alta naquele recinto coberto pelo silêncio. Engasguei e solucei, me odiando por isso. Não tinha o menor direito de chorar. – Deveria ter sido eu, sinto muito.
Meu último ano na clínica de reabilitação me ajudara a encontrar um perdão dentro de mim que eu não sabia existir. Durante todo o período, me importei mais com as histórias de estranhos, as famílias arruinadas graças ao álcool e drogas. Algumas eram mais fatídicas que outras – semelhantes à minha – e todas essas narrativas me faziam repetir “não foi sua culpa, você merece uma segunda chance, não seja tão duro consigo mesmo”. Por um momento, quase consegui acreditar nisso.
Gradativamente, as visitas de J.J foram se tornando escassas. Ela era um ser humano tão bondoso e contemplar aquilo me feria, eu pedi para que parasse de vir, mas ela relutou por um tempo, até que finalmente concedeu meu desejo. Spencer aceitou minha decisão no instante que a ouviu.
—Não acho que seja certo você continuar me vendo. Parece ferir a memória de Morgan – ele abriu a boca para protestar, mas o impedi – Eu preciso desse tempo. Por favor, Reid. Preciso saber se ainda existe algo pra mim e também não quero que você esteja com uma âncora presa ao tornozelo. Vá e se, quando eu sair, você ainda não tiver recuperado seu juízo, talvez nós possamos conversar.
Dois anos depois e aqui estava. Injustamente saudável e limpa de qualquer droga em meu organismo. Os únicos momentos em que eu conseguia apreciar isso eram aqueles que eu passava com Spencer. Nesses instantes, o passado parecia não existir e quase conseguia enxergar um futuro, contudo, essa sensação era efêmera e, quando cessava, me sentia pior ainda. Como poderia esquecer por um minuto sequer a ausência de Morgan?
Sem que ninguém soubesse – sendo mais exata, para a equipe da BAU, eu ainda estava internada, não tinha família ou amigos para ligar, portanto, só uma pessoa sabia onde me encontrar – eu e Spencer passamos boa parte do último ano juntos. Não sei qual palavra usar para descrever o que tínhamos. Sempre me importei com as minhas peças quebradas, nunca percebendo que ele também andava por aí, fragmentado e sozinho. Inusitadamente, funcionávamos. Ou funcionamos por algum tempo.
Voltei para o apartamento de Spencer e encontrei o celular que eu usava somente para falar com ele e com os funcionários da clínica onde passei a trabalhar mesmo depois de receber alta médica.
Havia uma mensagem de voz.
—Agnes – prosseguiu somente após uma longa pausa – Por favor, pegue suas coisas antes que eu volte, deixe a chave em cima da mesa. Não sei se estou pronto para te ver. Não entendo como pude pensar que isso daria certo. Tenho que desligar agora, por favor... Só... Vá. Para onde você achar melhor.
Desliguei o celular e comecei a recolher tudo que era meu. Não sabia exatamente se deveria deixar as fotos ou leva-las comigo. Na dúvida, coloquei todas em um saco plástico e deixei ao lado do lixo para que ele escolhesse seu destino. Arranquei uma folha do bloco de anotações que Spencer mantinha do lado do telefone fixo e escrevi um bilhete com a caligrafia desleixada.
“Sinto muito pela dor que eu causei.”
It’s in the eyes
I can tell, you will always be danger
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