Smother Me
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Saí do hospital mais cedo que de costume, eu precisava resolver uns problemas na rua e comprar o presente de boas vindas para quando Bert voltasse para casa, antes que as lojas fechassem, apesar de ele ficar insistindo que não queria presente nenhum, pois havia ganho o melhor de todos de aniversário. Passei o dia todo procurando algo que o agradasse, simples e criativo o bastante para que ele não pudesse me censurar por gastar muito dinheiro. Começava a escurecer e eu ainda não tinha encontrado nada, então entrei em uma loja e decidi que não sairia dali sem o presente do Bert. Eu provavelmente teria comprado alguma coisa legal ali, a loja era muito diversificada. Mas antes que eu pudesse escolher, senti o meu celular vibrando no bolso. Olhei o visor e tentei ficar impassível ao ver que era do hospital.
-Alô? – atendi.
-Sr. Way, acho melhor vir para cá o quanto antes. – disse o médico que acompanhava Bert.
Não respondi nem perguntei nada. Desliguei o celular e corri para a saída da loja, esbarrando em algumas pessoas, ignorando as suas exclamações. Entrei e liguei o carro mecanicamente. Eu não pensava em nada, não queria imaginar o que pudesse ter acontecido com o Bert. Só dirigia e prestava toda a atenção na rua, como se disso dependesse a minha sanidade. Estava longe do hospital, os minutos se escoavam e eu liguei o som no último volume, como se isso pudesse abafar os pensamentos que começavam a vir na minha cabeça. Tocava uma música animada, que eu mal escutava.
Vários minutos se passaram e eu me via preso num congestionamento. Dizia para mim mesmo “ele está bem, o médico disse que ele estava se recuperando”. Então começou a tocar outra música no rádio e fiquei prestando atenção na letra sem me dar conta. Ela era mais ou menos assim:
Let me be the one who calls you baby
All the time
Surely you can takes some confort Knowing that you’re mine
Just hold me tight, lay by my side
Let me the one who calls you baby
All the time
Deixe-me ser esse quem te chama de amor toda a hora
Certamente você pode ter algum conforto
Sabendo que você me pertence
Apenas me abrace forte, deite-se ao meu lado
Deixe-me ser esse quem te chama De amor toda a hora”
Eu não sei por que, mas essa letra ficou gravada na minha cabeça, ainda hoje me pego cantarolando, como se ela pudesse traduzir tudo o que eu senti daquele dia em diante. Depois do congestionamento, consegui dirigir por ruas com o tráfego livre. Cheguei ao hospital sentindo um peso enorme e invisível sobre mim, que só aumentou quando fitei os olhos do médico, que evitou os meus.
-Por que me chamou? – perguntei, tentando fazer a voz sair.
-Sinto muito...
-.....................
-Nós fizemos o possível, mas... ele não resistiu...
-O que você está dizendo?! – eu, incrédulo.
-No final da tarde ele não estava passando muito bem. Tentamos de tudo...
-Ele estava bem, de manhã!
-Foi uma recaída inesperada, Sr. Way... – explicou o médico.
-Eu não acredito em você. Eu quero vê-lo! Tenho que falar com ele! – entrei no corredor que levava ao quarto dele.
-Sr. Way, não faça isso! – o médico tentou me impedir, mas nada me faria desistir de ver o meu Bert.
Quase derrubei a porta ao abri-la. O que eu vi... queria nunca ter visto. Naquele momento, eu quis gritar, quis morrer, mas só conseguia fitar o lençol cobrindo o corpo que eu conhecia melhor que ninguém. Dois enfermeiros se entreolharam e se viraram para mim, confusos.
-Não... não, não, não... – eu balbuciava, quase sem ouvir a minha própria voz abafada pelos soluços.
– É... o aniversário ele! Nós nos casamos... -Sr. Way, não esperávamos uma recaída dessas, ele estava...
Não ouvia o que o médico dizia. Alguém me tirou dali, mas eu não me dei conta de nada. Eu só conseguia enxergar o sorriso de Bert entre lágrimas quando roubei aquela flor de cima da mesa para pedi-lo em casamento. Poucas horas antes, tudo parecia que daria certo para nós, eu sabia que aquela doença era crônica, e eu estava disposto a cuidar do meu Bert até o seu último suspiro. Mas eu não estava ao seu lado quando ele se foi. Eu jamais me perdoaria por isso.
When I\'m alone time goes so slow
I need you here with me and how my mistakes have made
Your heart break
Still I need you here with me
So baby I\'m here
“Quando eu estou sozinho o tempo passa tão lentamente
Eu preciso de você aqui comigo
E como meus erros fizeram seu coração quebrar?
Eu ainda preciso de você aqui comigo
E amor, eu estou aqui”
Quase um mês depois, ainda sob o peso da morte dele, eu arrumava umas coisas no nosso apartamento. Tocar nos objetos que pertenceram a ele doía muito, mas era uma dor que trazia recordações de tempos melhores... que nunca voltariam. Foi quando encontrei a carta dele numa gaveta, entre fotos antigas nossas. Em menos de um ano, eu me mudei do apartamento. As lembranças que aqueles cômodos despertavam me consumiam pouco a pouco. E mesmo indo para o outro lado da cidade, eu continuo pensando e me lembrando. Não sei se algum dia vai mudar. Não sei se quero que mude. Fico pensando em como seria a nossa vida se ele estivesse aqui. Com certeza faríamos uma festa dupla hoje, o 28º aniversário dele e o nosso 5º ano de casamento. Chamaríamos nossos amigos, ou comemoraríamos a sós. Seria bom de qualquer jeito. Agora eu me lembro das situações mais hilárias pelas quais passamos e cada segundo maravilhoso em que estivemos juntos. Isso me faz sorrir e chorar, tudo misturado, chorar de rir, chorar de tristeza e saudade. Acho que Bert gostaria de me ver feliz no dia do nosso aniversário, isso é a única coisa que posso oferecer a ele.
Eu me aproximo do túmulo frio, ajeito com cuidado a rosa, idêntica àquela outra que eu peguei de um jarro num quarto de hospital, muito tempo atrás. É quase insuportável ver o sol brilhando desse jeito e pensar que ele não pode vê-lo, não pode aproveitar nada disso. Ele sempre detestou frio e escuridão, no entanto são as únicas coisas que ele tem agora. Ou talvez não, me reconforta a idéia de que Bert esteja num lugar melhor, como ele merece. O fato é que... ainda não me acostumei à sua ausência. Parece que foi ontem que nós estávamos felizes, sem preocupações, dois apaixonados levando a vida. Então veio o diagnóstico da doença dele, Bert estava com um câncer em estágio avançado... até que tudo mudou. Bert definhava rapidamente e a cada dia eu me sentia pior assistindo à sua infelicidade sem poder fazer nada por ele. Até que eu descobri que a minha vida só tinha um sentido: colocar um sorriso naquele rosto lindo, pois eu só conseguiria viver enquanto Bert sorrisse, enquanto ele fosse feliz.
Eu tentei. E quando pensei que as coisas começavam a se ajeitar, me foi tirado tudo. Cinco longos anos sem a razão da minha vida... Mas as lembranças me dão força para continuar. Bert nunca me perdoaria se eu desistisse, por mais horrível que a minha vida seja agora. Tudo o que eu sou, devo a ele. Quem me mostrou a felicidade sob os escombros. Quem me ensinou a viver cada dia como se fosse não o último, mas o único... Eu não posso decepcioná-lo, eu vou até o fim e sei que ele estará sempre comigo.
I found my place in the world
Could stare at your face for the rest of my days…
“Eu achei meu lugar no mundo
Podia olhar fixamente em seu rosto para o resto de meu dias...”
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