Smoke Filled Room
1 Farewell
Notas iniciais
Yuri estava muito bem sozinho antes dele chegar.
Ele tinha sua vida quieta, um tanto vazia e fria. Não pela melancolia, mas pelo clima, em si. A remota cidade de Whitehorse, no Canadá, tinha neve por uma boa parte do ano. E ele nunca viu nada diferente para dizer que preferia outra.
Era quieta, pois de fato não tinha muito para abalar sua rotina. A capital do Yukon tinha pouco mais de 14 mil habitantes e Yuri nunca viu mais que trinta pessoas juntas na rua. Talvez os números fossem inflados pela população de ursos e raposas, porque ele não conseguia imaginar um número grande como aquele para o fim de mundo que era Whitehorse. Não é como se ele saísse muito, para começar.
E era vazia pois, de vez em quando, parecia que ele só tinha a si mesmo como companhia. Yuri não tinha alguém para chamar de melhor amigo na escola. Dizer que ele vivia com seu pai era um eufemismo, pois Victor quase nunca parava em casa, muito ocupado garantindo os luxos da família com a extração de minerais e gás natural. Assim, eram apenas Yuri e alguns empregados na ampla mansão fora dos limites urbanos, escondida entre os pinheiros boreais.
Ele não reclamava pois, mais uma vez, era tudo que ele conhecia. Yuri não se lembrava de ter pisado fora da cidade alguma vez na vida, quem dirá do estado. A língua russa de uso doméstico era a coisa mais estrangeira que ele já tivera. Mas ele estava em paz. Ele gostava do silêncio. E mesmo que um sentimento de abandono se apoderasse de seu peito toda vez que seu pai se despedia com um "Volto na quinta. Te amo!" em forma de bilhete de geladeira, ele respirava fundo e dizia a si mesmo que estava tudo bem. Normalmente era nessa hora que ele ia treinar balé.
Mas um dia, aquela melancólica paz foi perturbada. Justamente pela pessoa em quem ele mais confiava: seu pai.
Victor parecia... estranho, nos últimos tempos. Talvez a palavra fosse usada de forma errada, pois ele continuava bastante normal, para os padrões. Mas havia uma nova luz ao redor dele, como se agora o mais velho pudesse ver com clareza o lado bom das coisas. Seus sorrisos estavam mais sinceros, seus abraços mais apertados e a pressa de embarcar nos trens para Toronto, maior. Yuri não sabia o que pensar, mas ser feliz era algo que combinava com Victor. Ele merecia, considerando o trabalho que tinha para mantê-los no conforto.
A notícia foi dada no jantar, um evento que há muito tempo eles não tinham juntos. Yuri chegou a cogitar o uso de uma roupa mais formal do que os básicos suéteres e calças cáqui do dia a dia. Era uma ocasião especial ter Victor em casa.
A boa nova era que seu pai havia conhecido alguém especial. Ou melhor, reencontrado alguém especial, pois aparentemente seus caminhos já haviam se cruzado muitos anos atrás. Um dançarino aposentado que agora trabalhava em Toronto. Eles se davam muito bem.
Yuri não se considerava alguém ciumento, apesar de a ideia de perder Victor ser bem perturbadora. Mas seu pai nunca tivera grandes experiências amorosas desde que sua mãe morrera há mais de uma década. Sempre trabalho e mais trabalho. Ele merecia uma folga, encontrar alguém que pudesse apoiá-lo em suas decisões e ouvir seus lamentos. Se esse tal Katsuki o fizesse feliz, ele ficaria também. Era justo.
Victor via naquilo a oportunidade de dar ao filho uma família mais completa. Eles não tinham aquilo desde que Nina falecera e ele se culpava um pouco por não ter tomado as medidas cabíveis.
Mas agora, tudo seria diferente.
Será que Yuri se incomodaria se soubesse que os aneis já estavam comprados?
Yuri conheceu o namorado de Victor no Natal.
A primeira impressão deveria ser positiva, considerando que o estranho se deu ao trabalho de viajar para aquele canto remoto do Canadá apenas para o aniversário de seu parceiro. Além disso, ele parecia amigável. Sorriso tímido, voz baixa e suave, óculos de grau e palavras educadas.
Mas Yuri não gostou tanto assim.
Havia algo peculiar em Yuuri Katsuki que deixava o garoto desconfortável e não tinha nada a ver com eles compartilharem um nome. Yuuri parecia usar uma máscara para falar com ele. Era sorridente e carinhoso com Victor, rindo naturalmente das histórias que ele contava sobre seu sócio suíço. Com Yuri, a cortesia não sumia. No entanto, parecia que o sorriso não chegava aos olhos. O interesse que ele tinha em Yuri era o mesmo de um cientista num rato de laboratório: calcular as reações baseadas nos estímulos.
Ele não gostou de Yuuri Katsuki.
"...Yuri também faz balé." Victor disse interrompendo seus pensamentos durante a sobremesa na sala de estar. "É um ótimo dançarino."
"Oh, é mesmo?" Yuuri perguntou com um sorriso, o olhar indo do namorado para o mais novo. "Eu não esperaria menos do filho de Nina."
Pelo visto, ele perdera uma parte importante da conversa, pois Yuuri se referira à sua mãe com uma casualidade incomum. Engolindo um tanto forçadamente o bolo de nozes que Victor comprara, ele questionou:
"Você conheceu a minha mãe?"
"Ah, eu não te disse, Yura?" Foi Victor que respondeu com outra pergunta. "Yuuri dançou com a sua mãe no Balé de Nova Iorque! Foi como nos conhecemos."
"Nina tinha um talento invejável." Yuuri continuou, olhos mais interessados no pedaço de bolo em suas mãos. A luz amarelada da lareira dava um ar macabro às suas feições. "E uma personalidade forte. Tinha acabado de desertar da União Soviética e não tinha medo de nada. Não demorou para conseguir o brilho que merecia em Nova Iorque." Agora o homem olhou diretamente para Yuri, um ar de mascarado julgamento enquanto dizia: "Você parece com ela."
Não era a primeira vez que Yuri ouvia aquilo, graças à semelhança física entre ele e Nina. Não ajudava que sua preguiça de ir ao cabeleireiro o deixava com madeixas logo abaixo dos ombros, tornando-o uma imagem quase idêntica à da falecida bailarina.
Mesmo assim, o tom que Katsuki usou não o fez se sentir elogiado. Pelo contrário, o mandou arrepios pelo corpo.
Victor não pareceu notar aquilo, pois continuou o assunto levemente desapontado:
"É uma pena que os recursos para dança sejam tão reduzidos aqui no Yukon. Yuri só tem aulas graças ao trabalho voluntário da Sra. Leroy, uma dançarina do gelo de Quebéc. Ela nem é especialista em balé."
"Eu posso dar aulas pra ele." Yuuri logo se ofereceu, parecendo genuinamente animado com a ideia. "Ficarei meio entediado numa cidade pequena como Whitehorse até arranjar um emprego. Yuri seria um bom ensaio se eu quiser montar um estúdio de dança."
Yuri não podia dizer que estava totalmente confortável com a ideia de Yuuri o ensinando balé, mas algo naquela fala soou ainda mais absurdo e ele não ficaria calado.
"Espera, você vai morar aqui?" Ele perguntou com o cenho franzido. Yuuri não tinha um emprego em Toronto?
Os dois adultos se olharam num diálogo sem palavras que parecia já ter sido ensaiado repetidas vezes. E Yuri não gostou daquilo. Ele não gostou nem um pouco, principalmente quando Victor ficou de pé e estendeu a mão para Yuuri fazer o mesmo.
Ele se movia como uma cobra: silenciosa, cautelosa e cheia de más intenções. Yuri conseguia vê-las, mas não sabia quais eram. Yuuri Katsuki não era um homem bom. Pelo menos, não para ele. Era algo nos olhos, que observavam o garoto como se estivesse apenas esperando para dar o bote. O veneno era mortal.
E Victor, no entanto, não viu nada disso. Yuuri para ele era um anjo enviado dos céus. A dádiva divina que o permitiu sorrir de verdade pela primeira vez em anos. Ele seria um ótimo pai para Yuri, Victor tinha certeza. Por isso, ele apenas sorriu radiante enquanto dizia:
"Eu e Yuuri vamos nos casar, filho." Não havia discussão para aquilo. Yuri sequer tivera a chance de impedir o desastre. "Sei que é repentino, mas nós realmente nos amamos e sabemos disso há um tempo. Seremos uma família. Tenho certeza de que vocês se darão bem."
O loiro apenas assistia em choque ao que se desenrolava à sua frente. Seu pai, que mal ficava perto dele, decidiu que uma família significava se casar com um cara de confiabilidade discutível e que ele deveria aceitar de bom grado. Aceitar a disrupção da vida perfeita que ele tinha.
Ele estava furioso.
"Você não me avisou nada." Yuri acusou com gravidade na voz, o tom aumentando à cada palavra. "Nada! Você falou que estava namorando num jantar três meses atrás! E ainda passou dois meses fora depois disso!"
Victor piscou um pouco atordoado, mas constrangido por suas previsões condizerem um pouco com a realidade.
"Yurachka, me desculpe. Eu deveria ter te envolvido mais no processo, mas pense pelo lado bom. Agora você terá um pai perto de você quando eu estiver fora. Você não ficará mais sozinho e..."
"Eu não gosto dele!" Valia a pena colocar todas as cartas na mesa agora. "Ele... Ele é esquisito, pai, parece que tá escondendo alguma coisa! Você conhece ele o suficiente para já falar em casamento? Porque, pra mim, ele parece um babaca falso e sem personalida-"
"Yuri, já chega!" Victor o interrompeu, sentindo o rosto corar de vergonha e raiva. Que constrangedor isso acontecer bem na frente de seu noivo! "Você não tem o direito de falar assim de Yuuri e eu não te criei desse jeito. Peça desculpas."
"Ah, não vou mesmo!" Foi o último ato de rebeldia do adolescente antes dele se retirar, ou fugir, para o seu quarto batendo pé. "Os incomodados que se mudem!"
Victor podia jurar que viu o mundo se tingir de vermelho enquanto o garoto subia as escadas dois degraus por vez, até desaparecer no corredor.
"Yuri Nikiforov, desça já agora ou eu vou...!" Seu acesso de fúria foi interrompido por uma mão hesitante em seu braço, de um Yuuri que tinha os lábios comprimidos em preocupação e entendimento.
"Está tudo bem, Vitya." Ele disse com uma tentativa de sorriso. "Eu entendo perfeitamente, não deveríamos ter mantido isso em segredo por tanto tempo. Ele precisa de tempo para absorver a ideia."
"Ainda assim, ele não deveria falar com você daquele jeito." O empresário suspirou passando a mão pelos cabelos. Sentia que eles estavam ficando mais finos a cada ano. "Não sei de onde ele tirou tanta raiva..."
"É fase. Ele vai fazer 15, não é?" Mesmo sem receber uma resposta, Yuuri continuou. "Só precisa de um tempo. Se você quiser, eu não me importo de adiar o casamento. É só uma festa pequena..."
"Não, não." Victor segurou suas duas mãos enquanto balançava a cabeça. "Pode ser algo simbólico pra você, mas significa muito pra mim. E eu tenho certeza que Yuri vai ficar bem até lá. Você não tem que se preocupar."
Yuuri parecia querer dizer algo mais, porém o jeito com que Victor o encarava o fez desistir. Ele se contentou com um sorriso.
"Tudo bem." Ele puxou o outro para um abraço, pois Victor parecia precisar de um, no momento. "Vai dar tudo certo. Ele é só uma criança. Não posso culpá-lo."
Definitivamente, não. Yuuri pensou consigo mesmo. Afinal, a antipatia foi recíproca. Yuuri não esperava uma boa relação com seu enteado.
E nem se esforçaria muito para tal.
A união de Katsuki e Nikiforov foi oficializada com uma simples reunião entre amigos na bela e cosmopolita Vancouver de janeiro, em razão da falta de algo mais formal, legalmente falando. Os ditos amigos eram todos do círculo de Victor. Yuuri não era muito sociável, pelo visto.
As pequenas férias em família também serviriam para estreitar os laços entre Yuuri e Yuri, em tese.
Yuuri, por razões pessoais, não estava interessado em ser o melhor amigo para toda a vida do garoto. Se a presença dele fosse tolerável, já era o bastante. Seu cenário dos sonhos incluía um Yuri em algum internato caríssimo e isolado na Europa, onde ele não poderia atrapalhar sua vida com Victor. Eram apenas sonhos, de qualquer maneira.
Mas Yuri não parecia ser do tipo quieto e pacífico que obedece ordens, como ficou claro quando anunciaram o casamemto. Não, ele tinha um espírito forte e combativo que apenas fazia o sangue do mais velho ferver. Yuri era ridiculamente igual à mãe dele.
Ainda assim, valia a pena mais uma tentativa de domar o tigre.
Victor inventara alguma desculpa para sair cedo do hotel e deixar os dois sozinhos por algumas horas. Yuuri resolveu que os melhores acordos de paz eram feitos com comida, então convidou o garoto para tomar café da manhã num pequeno restaurante perto dali. Yuri só deve ter aceitado por estar com muita fome.
"O que você vai querer?" Yuuri perguntou com um sorriso assim que eles escolheram uma mesa para se sentar. "Dizem que aqui tem ótimas panquecas."
Yuri estava mais interessado em observar o trânsito movimentado de pessoas do lado de fora através da janela de vidro. Nem o clima chuvoso as deixava menos ocupadas e ele desejou ter alguma coisa pra fazer ao invés de estar ali com aquele homem.
"Tanto faz." Foi a resposta murmurada e visivelmente desinteressada num cessar-fogo, dita enquanto Yuri retirava seu walkman da mochila e ignorava o mundo com seus headphones. 'I want to break free' combinava muito bem com a sua situação.
Yuuri precisou respirar fundo para não se levantar e sair andando sem mais nem menos. Ele tinha vontade de quebrar aquele walkman. Ou o dono dele. Era difícil dizer.
Com o sorriso mais plástico que ainda conseguia, ele chamou uma garçonete e pediu as tais panquecas. Por um momento, considerou perguntar se eles tinham margueritas, porque só depois de umas três doses para ele conseguir falar com Yuri sem perder a cabeça. Mas ainda eram nove da manhã e ele estava tentando se livrar daquele péssimo hábito.
Ele não tentou uma conversa nova enquanto esperavam o pedido. Ao invés disso, ele observou o seu mais novo enteado.
"Observar" estava mais para um sinônimo de "Procurar semelhanças entre Yuri e ela". Era uma prática da qual ele não conseguia se desfazer desde que pôs os olhos em Yuri pela primeira vez. Também não sabia se era considerada saudável.
Eles tinham os mesmos olhos e isso ia além da cor. Era a mesma forma de olhar para os outros com desconfiança. Nina e Yuri compartilhavam o medo do desconhecido, apesar de não admitirem. Ela, do país novo e ele, do pai novo.
Depois, vinham as sardas, cobrindo toda a área das maçãs do rosto e do nariz. Victor também tinha, mas Yuuri sempre associaria aquilo a Nina. Houve um tempo em que eles eram tão próximos que ele se dava ao trabalho idiota de contar cada um daqueles pontinhos e compará-los a estrelas. Não durou muito e ele agradece por isso.
Finalmente, vinha o cabelo. A droga do cabelo. Se de alguma forma essa refeição trouxesse resultados positivos em termos de relacionamento com Yuri, ele tentaria convencê-lo a cortar. Era comprido demais, loiro demais, bonito demais. Felizmente, os fios não passavam o dia inteiro num coque de balé clássico, mas ele se chateava com pouco. Yuuri não era obrigado a conviver com aquela imitação bem feita de Nina Plisetskaya todos os dias.
Em resumo, eles eram parecidos demais para o conforto do japonês. Ou talvez isso fosse culpa do rancor e da paranoia que ele cultivou nesses anos.
A única coisa que ele não aceita é como Nina teve a audácia de colocar seu nome no próprio filho, depois de tudo que ela fez.
As panquecas chegaram e o silêncio pesado foi substituído pelo barulho não menos desconcertante de garfos e facas contra os pratos. Yuuri ainda esperou os dois terem um relativo aproveitamento da comida antes de tentar uma aproximação pacífica.
"Olha, eu sei que nós começamos isso com o pé esquerdo." Ele começou reconhecendo seus erros. Parecia justo. "E eu lamento muito por isso. Mas agora, eu estou disposto a consertar isso. Podemos ser amigos, Yura."
Yuri fechou a cara enquanto retirava os headphones, interessado em ouvir o que o padrasto tinha a dizer apenas para medir o nível de asneira.
"Não me chame assim." Ele disse cheio de menosprezo abandonando o prato não terminado. "Eu não gosto de você."
Yuuri continuou inabalável.
"Ok, o que exatamente você não gosta em mim?" Agora era pura curiosidade. Como Yuri notara de imediato que o mais velho não era flor que se cheire?
"Você parece falso." Foi a resposta enojada, mas não menos sincera do adolescente. "Como se a mera tarefa de estar aqui sendo legal comigo fosse uma tortura."
Yuuri teve que morder a língua para não dizer "Você não está errado". Mas ele ainda era um adulto e estava interessado em saber até onde ia aquela desconfiança de Yuri.
"E você esperava que eu te amasse imediatamente assim que nos conhecêssemos?" Ele perguntou arqueando uma sobrancelha, nenhum sarcasmo pretendido com a frase.
Yuri sorriu de lado, satisfeito ao confirmar que seu querido padrasto estava mostrando sua real face ao admitir, indiretamente, que não esperava um conto de fadas daquela história.
"Eu não queria te conhecer." Ele deu de ombros, colocando os cotovelos sobre a mesa como se estivesse numa conversa casual com um velho amigo. "Meu pai não deveria se casar com você. Há quanto tempo vocês estão namorando, afinal?"
"Uns oito meses, entre uma viagem dele e outra." Yuuri disse simplesmente. Ele admitia que era um período curto para um noivado, mas eles eram adultos responsáveis e sabiam muito bem o que queriam daquela relação. "Mas nós nos conhecemos há muito, muito tempo. Quase namoramos antes... Antes dele conhecer a sua mãe."
Yuri percebeu a hesitação naquele final e foi rápido para fazer deduções.
"Ah, e agora que ela morreu o caminho ficou livre?"
Yuuri semicerrou os olhos para a petulância daquela pergunta. Para um garoto do interior, Yuri Nikiforov tinha muita malícia ao encarar o mundo real. E talvez o que o irritasse mais fosse o fato de que estava certo, em vários pontos.
Ele não era o tipo de criança a se curvar facilmente sob uma ameaça. E isso era uma grande dor de cabeça.
"Olha, garoto, eu cansei de brincar." O moreno disse erguendo as mãos em sinal de rendição. Chega de bancar o bonzinho. "Eu pedi um marido, não um enteado. Mas não estou disposto a voltar atrás, pois eu amo o Victor. Eu só queria que nós dois nos déssemos bem o suficiente pra não ficar aquele clima estranho em casa. Pelo visto, isso não vai dar certo."
Era tudo de que Yuri precisava. Ele não gostava de Yuuri e nem ele de si. Nesse tipo de jogo, é preciso dois jogadores. Ele não iria desistir tão facilmente.
Yuuri tinha que ir embora. E se não fosse por falta de amor por Victor, seria de excesso de ódio por Yuri.
O jovem sabia ser detestável quando queria.
"Não mesmo." Yuri pendeu a cabeça levemente para o lado, encarando o homem por alguns segundos antes de dizer. "Porco."
Yuuri cerrou os punhos sob a mesa enquanto anos de assédio moral no balé voltavam com tudo sob a forma de um adolescente mimado que não sabia onde estava se metendo. Ele já foi chamado de coisas piores, mais dolorosas, e aprendeu como lidar com elas. Isso não tornou a pequena palavra dita por Yuri menos enfurecedora.
"O que você disse?" Ele perguntou em voz baixa, no tom mais grave e ameaçador da conversa inteira.
"Além de quatro-olhos, é surdo?" Yuri sorriu com escárnio. Nada melhor do que atingir a pessoa em sua maior fraqueza. "Porco. Leitão. Rolha de poço. Sabe, para um bailarino profissional, você até que tem muitos quilos extras. Pensa que eu não vi o quanto você comeu no jantar ontem? Vai fazer meu pai vomitar na lua de mel."
Yuuri respirou fundo para manter a calma. Houve uma época em que ele fazia isso para evitar uma crise de choro humilhante. No momento, era para impedir a si mesmo de não socar aquela criança em público e estragar o seu mais novo casamento.
Yuri se achava tão inteligente o atingindo daquele jeito? Heh. Ele não sabia de nada. Nada.
"Você está comprando briga comigo, moleque." Yuuri comentou com uma voz incrivelmente calma e contida, enquanto olhava o outro nos olhos. "Eu não gosto de você. Nem um pouco. Mas eu estava disposto a pegar leve só porque crianças são naturalmente idiotas e não valia o meu tempo."
"Isso é uma ameaça?" Yuri questionou com bravata demais para alguém que até o momento só discutira com pessoas da mesma faixa etária e o ocasional professor na escola.
Esse último pensamento fez Yuuri sorrir. O sorriso dos que sabem. Pois Yuri não tinha calibre num combate contra ele. Muito jovem, muito ingênuo. Igualzinho à mãe dele.
Seria um prazer quebrá-lo.
"É bem pior, Yurachka." O sorriso não desapareceu e isso tornava Yuuri cada vez mais sombrio. "Muito pior. Você não vai querer me ter como inimigo. Não quando eu tenho o seu pai comendo na minha mão."
"Eu vou mostrar pra ele o quão filho da puta você é." Ele rebateu com irritação clara. "Ele acredita em mim. Eu sou filho dele."
"Oh, Yuri, pais são ótimos para nos decepcionar quando mais precisamos deles. Você sabe muito bem." Yuuri disse mexendo a mão em descaso. "Vá em frente se pensa que pode me derrubar. Só não fique chorando pelos cantos quando eu revidar."
"Você não terá tempo." Foi a resposta confiante e, quem sabe, um pouco tola do adolescente, que aproveitou a hora para fazer uma saída dramática do restaurante. Quanto antes encontrasse seu pai no hotel, melhor.
Yuuri riu baixo enquanto via o garoto indo embora e aproveitou a chance de terminar seu café da manhã em paz.
Pequeno Yuri Nikiforov deveria aproveitar seus últimos momentos de paz, também. Pois Yuuri não deixaria barato.
Foi com grande decepção que Yuri confirmou que Katsuki estava certo sobre seu pai.
Victor não só parecia muito cético sobre toda a conspiração de "Yuuri é uma pessoa tóxica que usa uma máscara para parecer gentil para o mundo", como ficou irritado com a insinuação de que o casamento era uma péssima ideia. Até a sugestão de que o bem estar de Yuri estava em risco perto daquele homem soou como um exagero de criança mimada.
Quando questionado sobre o conflito, Yuuri fez um ótimo trabalho em parecer abalado com a rejeição. Se Yuri não o conhecesse, poderia dizer que as lágrimas e os soluços eram reais. Yuuri fizera um showzinho de mártir em que admitia que os dois haviam discutido, mas que isso só acontecera depois que Yuri o ofendera. O mais novo ficou como o vilão da história.
Yuuri, com algumas lágrimas falsas e três minutos de encenação, conseguiu colocar seu pai contra ele. E, ao mesmo tempo, acalmou os ânimos de Victor dizendo para ter compaixão, pois "Yuri é uma criança que não sabe o que diz".
Victor resolveu ignorar as palavras do próprio filho em favor de um cara com que ele se relaciona há menos de um ano.
Yuri nunca se sentiu tão traído em toda a sua vida.
A vida da nova família continuou normalmente, apesar dos atritos. Ficou decidido que Yuri apenas precisava se acostumar com a nova realidade.
E ela incluía Yuuri morando com os dois, obviamente. A convivência era até tolerável quando tinham Victor por perto. Yuuri mantinha sua máscara de marido amável e padrasto esforçado enquanto Yuri se recusava em baixar a guarda. Victor não teve nenhuma viagem nesses meses iniciais, pois queria dar mais atenção às suas questões domésticas. Assim, no início, ele teve a ilusão de que tudo estava indo bem.
Mas o dever chama e agora, em junho, ele precisava trabalhar. E considerando que ele dispensara tantas viagens nos últimos meses, essa teria que ser longa o suficiente para fazer valer as perdidas.
Victor iria ficar fora por semanas afim em pleno verão, quando Yuri não tinha a escola como escape. Era também o período em que os empregados tiravam férias.
Ele iria ficar sob os cuidados de Yuuri.
Katsuki não parecia muito feliz em ficar um longo período longe do marido, mas ele sabia que isso aconteceria uma hora ou outra. O bom padrasto Yuuri via naquilo a chance de conquistar o coração de seu enteado.
Já o mau padrasto Yuuri?
Esse aguardaria sua deixa em silêncio.
Victor beijou seus dois Yuris à porta de casa antes de ir embora. Yuuri nos lábios e Yuri, no topo da cabeça. Com um sorriso triste, ele disse:
"Vou tentar ligar o quanto antes. Já estou com saudade."
"Nós, também." Yuuri disse com um ar melancólico, forçando um sorriso ao final. "Eu quero souvenires. Não importa se são de lugares em que eu já fui."
"Ok." Victor baixou o olhar para Yuri, esperando alguma despedida. Ele apenas encontrou um garoto de cabeça baixa pelo desprezo. Ele perdoaria dessa vez. "Eu amo vocês."
"Também te amo, Vitya." Foi a resposta solitária de Yuuri, enquanto observava Victor descer a pequena trilha de pedras até a entrada da propriedade, onde o táxi já o esperava.
Após uma leve cotovelada do mais velho, os dois acenaram um "adeus" silencioso para o homem cujo amor era a única coisa que eles pareciam ter em comum. Yuuri ainda colocou a mão sobre o ombro de Yuri numa última tentativa de parecer uma família normal para Victor. Se ele percebeu com o vidro fechado, eles não sabiam.
Enquanto o carro se afastava na estrada por entre os pinheiros, Yuuri aumentou levemente o aperto no ombro do garoto, como se para lembrá-lo de sua existência.
"Não faça essa cara, Yurachka. Nós temos o verão inteiro para nos divertirmos." Yuuri disse quase cantarolando enquanto se abaixava para ficar no mesmo nível de seu rival. "Só eu e você, nessa casa isolada do mundo. Ninguém vai nos incomodar."
Yuri não admitiria nem se o pagassem, mas ele sentiu medo de Yuuri Katsuki. As linhas de expressão ao redor dos olhos, o sorriso quase insano, as raízes do cabelo com um tom acinzentado pela idade... Tudo isso formava a imagem de um monstro cujos planos eram desconhecidos, mas não menos perturbadores.
Ele agora imaginava se tinha chances de sair vivo desse jogo.
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