Smells Like Teen Spirit
3 Música, sorvete e adrenalina.
Notas iniciais
Agora, nesse capítulo eu vou citar a música "That's my name - Akcent" se quiserem por pra tocar, sem problemas. Enjoy.
Minutos depois estávamos fazendo uma curva num local afastado da cidade. Já estava me arrependendo de ter entrado nesse carro depois de ver esse monte de mato cercando a estrada. Pensei se eu ficaria muito mutilada se me jogasse pela janela.
- Andy eu não sei se é uma boa idéia...
- Relaxa, não vou te arrastar pro meio do mato – disse divertido, sem tirar os olhos da estrada.
- Quanto tempo até chegarmos? – perguntei observando o sol morrer por entre as enormes árvores que encobriam o local.
- Alguns minutos – que legal, ele morava nos quintos dos infernos de Porto Alegre. Opa, peraí... Agora caiu a ficha, Andy era americano, e falava comigo em português!
- Andy! Você fala português? – o encarei confusa. Como meus pais eram criaturas muito instruídas, desde bebê me ensinaram Inglês e português. Devido a isso eu nem percebo quando começo a falar inglês, é automático.
- Só agora que você percebeu? – ele deu uma risada, desviando os olhos para mim por um instante.
- Bom, eu pensei estar falando inglês com você porque eu não me ligo direito que língua to falando, é uma problema e... – parei percebendo seu olhar de espanto. Eu devo ter falado tudo isso em 2 segundos.
- Tá, quando eu fico nervosa eu falo rápido – admiti.
- É, parece um triturador de palavras, trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr – ele me fez cócegas com uma mão na minha barriga, fazendo um som de triturador, nem preciso dizer que caímos na gargalhada.
- Como aprendeu português? – perguntei me recuperando dos risos.
- Minha babá, era brasileira – respondeu – sou uma pessoa culta – ele fungou fazendo expressão de arrogante e depois riu.
- Porque está em Porto Alegre?
- Férias, e assuntos pessoais – respondeu franzindo a cara. Certamente eu tinha tocado numa ferida, e como minha curiosidade é incontrolável...
- Quer me contar? – levantei as sobrancelhas esperando sua resposta que demorou um pouco.
- Outro dia – ele continuava encarando a estrada. Assenti, mordendo o lábio para controlar minha vontade de fazer um interrogatório policial. Deve ser algo sério.
- Qual sua idade? – me perguntou ele, o sorriso voltando a seu rosto. De repente parou o carro, devíamos ter chegado.
- tenho 16 – respondi. Não perguntei a idade dele, graças ao Sidney já sabia que era 20. Sidney... amanhã quem vai sofrer um interrogatório cruel vai ser eu. Já estava até imaginando as perguntas infames...
- Sério?? – perguntou ele divertido.
- Sim, porque? – fiz cara de confusa. Andy saiu do carro e deu a volta rapidamente abrindo a porta pra mim. Quando eu sai encontrei seu sorriso malicioso a centímetros de mim, ele apoiou uma mão no carro, me prendendo entre ele e o mesmo. Fechou a porta com suavidade e voltou a me encarar.
- Pela sua altura achei que tivesse uns 14 – falou debochado.
- Idiota! – revirei os olhos e empurrei seu peito. Ele deu um passo pra trás, abrindo espaço suficiente para eu vislumbrar sua residência.
- Nossa... – foi só o que consegui dizer perante aos dois imponentes andares de casa a minha frente. Tinha paredes e portas revestidas de pedra, assim como os castelos. Um jardim de grama perfeitamente aparada e uma grande vidraça fume no segundo andar. Quando me recuperei de meu transe pessoal, Andy estava parado ao meu lado com uma sombracelha arqueada.
- Que foi? – perguntei.
- Nada – disse ele ainda me encarando.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANDY FILHO DA PUTA!!! – berrou alguém da porta da casa e disparou ao nosso encontro – ONDE VOCÊ TAVA? A GENTE TEM QUE ENSAIAR E... – ele me olhou.
- Quem é ela?
- Jake essa é a Mel, Mel esse é o Jake – Andy fez as apresentações. Jake sorriu e me puxou para um abraço apertado, BEM apertado.
- E aí garota!
- E...aí... – foi o que consegui dizer. Acho que ele não percebeu que estava me amassando, e se percebeu não ligou.
- Anda gente vamo ensaiar... – disse outra voz saindo de dentro da residência – CARALHO JAKE! SOLTA A MENINA ELA TÁ FICANDO ROXA! – fiz nota mental de agradecer ao Jinxx depois por me salvar de ser espremida igual uma espinha.
- Vai se fuder Jinxx – falou Jake me soltando. Olhei pra Andy meio confusa, ele revirou os olhos sibilando um “me desculpe”, achei graça na expressão dele e dei um riso discreto.
- Que barraco é esse no meu gramado? – falou uma criatura recostada a porta com um pacote de Doritos na mão.
- Ashley, espero que esse Doritos não seja o meu – disse Jinxx num tom ameaçador. Ashley deu um riso cínico e enfiou outro salgadinho na boca, em seguida lambeu os dedos sorrindo de orelha a orelha.
- Vou te matar!! – Jinxx saiu correndo atrás de Ash que disparou pra dentro.
- Crianças! Não briguem! Se não papai vai distribui voadora em todo mundo – berrou Jake indo atrás deles. Eu não sabia se ria ou se ficava de boca aberta. Andy me puxou pela mão para dentro da casa.
Lá dentro a cena era a seguinte: Jinxx e Ash rolando pelo chão juntamente com um monte de Doritos espalhados. Jake botando os bofes pra fora de tanto rir em cima do sofá e a outra figura, que só podia ser o CC, com cara de tédio.
- Mas que porra! – disse Andy – vamo para com essa boiolagem no meu tapete aí – falou passando por eles e indo em direção a uma porta, ele parou e virou pra trás apontando um dedo para os dois que estavam no chão chorando de rir – e limpa toda essa merda – berrou já passando pela porta.
- Ui, o Andy tá se estressando – Ashley o seguiu rebolando e levantando as mãos. CC e Jinxx fizeram o mesmo. Jake veio pro meu lado passando a mão pelo meu ombro.
- Não liga pra essa loucura não, aqui todo mundo é assim – ele sorriu apertando um pouco meu ombro. Sorri de volta.
- Eu percebi, vocês adoram se estapear – disse dando um soquinho na barriga dele. Jake parou ficando em posição de lutador de boxe
- Isso aí garota, tá pegando o jeito da coisa – nós rimos e fomos pra sala de ensaio onde estavam todos esperando. Jake me deixou sentada numa cadeira e começaram o ensaio.
2 horas depois...
Eu estava sentada no chão olhando os garotos suar a camiseta nas músicas, Jake me olhava de vez em quando e fazia umas gracinhas, tipo mandar beijo, sorrir descaradamente, fazer uma dancinha e etc. Andy apenas me olhava.
Jake se aproximou de mim com a guitarra fazendo uma dancinha sensual, oh my god.
We came from nothing, but promise one thing: we change the world with these guitars! So… — estavam no meio da música “The legacy” quando Andy joga o microfone no chão parando de cantar. Todos se entreolham.
- Chega – anunciou saindo da sala. Bipolaridade pegando.
- Que bicho mordeu ele? – perguntou CC. Jinxx veio até mim me estendendo a mão, segurei-a e levantei do chão. Seguimos para a cozinha onde Jake estendeu um pote de sorvete pra cada um e uma colher, Andy não estava lá.
- Gente, será que ele tá bem? – disse olhando em volta, e acabei constatando que os “roqueiros fora da lei” eram bem desorganizados. Ignorei a cueca vermelha jogada no recosto da cadeira, mas sabia que iria lembrar dela mais tarde.
- Relaxa Mel, TPM é assim mesmo – falou CC indo pra sala e se jogando no tapete. Fiz o mesmo. Jinxx sentou no sofá atrás de mim e Jake ao lado dele.
- Então – começou Jake – como conheceu o Andy?
- Ah, foi na rua. Ele esbarrou em mim e derrubou minha coca – disse dando uma colherada no meu sorvete que tinha um gosto nada familiar, mas muito bom.
- Nada cavalheiro – falou CC sem tirar os olhos do sorvete.
- E depois ele te pegou pelos cabelos e saiu arrastando pela rua, que nem homem das cavernas – Jinxx começou a rir e se jogou pra trás no sofá.
- Ei! Só porque o meu cabelo tá nesse estado lamentável não quer dizer que alguém saiu arrastando ele por aí – falei com a maior cara de séria que se desfez em gargalhadas.
Ficamos assim por horas, comendo sorvete e falando besteiras.
Horas depois...
- E daí eu disse: Pai, eu não tive relações sexuais com aquela mulher! – exclamou Jinxx se dobrando de rir no pé da escada. Como estávamos todos entediados, resolvemos ligar o som no volume máximo e esvaziar os potes de sorvete. Ríamos igual gazelas doidas. Jinxx estava dançando a música “That’s my name” com o pote de sorvete, Jinxx e eu estávamos deitados na escada seminus (em uma parte da nossa festinha particular eu acabei ficando de sutiã, shorts e meia arrastão) e Jake subiu em cima do sofá e começava um strip-tease.
- Vem gente!!!!!!!!!!!! – berrava ele tirando a camiseta – uuuuuuuuuuuuuu!!! – ele girou ela no ar e depois jogou em cima de mim.
- Porra Jake! Ninguém aqui quer ver seu corpinho anoréxxxxxxxxxxxxicó – CC tava tão doidão que parecia bêbado. De repente ele se jogou no chão e começou a rir – Eu não consigo falar “anoréeexxxxxxxxxxxicó” KAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKA – bêbados... a palavra latejou na minha cabeça. Eu estava segurando o pote de sorvete na mão quando resolvi ler a embalagem.
“Sorvete de Licor” me caiu os butiá do bolso.
- DESGRAÇAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA – gritei me levantando.
- AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE – gritou Jinxx que veio dançando pro meu lado com o sorvete alcoólico.
- A GENTE SE CHAPOU COM SORVETE DE LICOR – berrei mais alto sobrepondo a música. Jake caiu de joelhos no sofá, rindo frenéticamente.
- O Andy vai nos matar na hora que ele chegar! – horas... olhei pro relógio digital em cima da estante. Eram 01h:26mim AM... por alguma razão esse horário me fez estremecer... Horário... MATT!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! To fudida, muito fudida! Tenho que ir pra casa!! Joguei o pote vazio pra cima e fui catando minha blusa pelo chão da sala, encontrei a dita-cuja em cima da televisão. Vesti rapidamente e fui me lançando porta afora. Jake veio atrás de mim, doidão.
- Aonde vai mulher? São apenas...- ele parou olhando pra baixo e depois pra mim — que horas são mesmo? – apesar de alcoolizada, eu ainda estava com um pouco de juízo. Jake não.
- Pra casa, tenho que ir imediatamente – disse tentando caminhar, mas percebi que ele segurava meu braço.
- Eu te levo – ele foi me arrastando até a garagem. Quando vi uma BMW K 1600 GTL preta perfeita, senti meus olhos reluzirem. Eu amava motos. Jake sorriu subindo naquela perfeição de duas rodas. O resto do meu juízo se foi e eu subi nela, me abraçando em sua cintura.
- Segura firme aí garota! – disse ele dando a partida. Em um minuto estávamos a toda velocidade, meus cabelos voando e chicoteando no meu rosto, a sensação era incrível. Jake dobrava a moto para os lados, fazendo zigue-zague na estrada e entre os carros. Na velocidade que estávamos se ele batesse, viraríamos patê, mas foda-se.
- VOCÊ É LOUCO! – berrei no ouvido dele.
- AINDA NÃO VIU NADA! – ele respondeu, com uma mão tirou uma máquina fotográfica, de onde ele tirou aquilo? Levantou ela acima de nossas cabeças.
- SORRIA! – eu não estava acreditando naquilo, mas fiz minha melhor cara. Jake era louco, só pode. A moto inclinou para o lado contrário a foto e fomos deslizando pela estrada entre um caminhão e alguns carros que buzinaram e alguém gritou palavras incoerentes. A única explicação para eu estar arriscando ter minha cara esfolada no asfalto era estar alcoolizada. Já estávamos nas ruas do centro da cidade quando Jake diminuiu a velocidade, devido as fiscalizações eletrônicas. Comecei a reconhecer vários lugares.
- Onde é sua casa? – perguntou ele, agora com a voz mais estável.
- Tá vendo aquele prédio laranja na esquina? Entra ali até ver uma casa azul – exclamei. Logo já estávamos na frente da minha casa. Coloquei um pé de cada vez no chão, esperando não estar muito tonta. Um giro e um tombo. Eu cai de bunda no chão e Jake estava rindo da minha cara.
- Para de rir sua hiena, e me ajuda a levantar – disse rindo. Ele desceu da moto e me estendeu a mão, segurei e ele me puxou com força. Fui com tudo de encontro ao corpo dele que recuou dois passos. Começamos a rir novamente. Desviei o olhar pra casa, luzes apagadas. De repente certo medo me percorreu o corpo.
- Bom Jake, tenho que entrar. Obrigado pela carona – falei me despedindo.
- Disponha moça – disse ele se recostando na moto. O olhei por mais alguns segundos e fui trilhando o caminho de pedrinhas até minha porta. De repente estava nervosa, mas meus pensamentos eram incoerentes. Pensei em tocar a campainha, mas se meus pais tivesse chegado e ido dormir sem perguntar por mim? Iriam acordar e me ver nesse estado. Não.
Segurei na maçaneta, minha mão estava suada. Ouvi a partida a moto de Jake, agora eu estava sozinha. Contei até três e girei a maçaneta que estralou. Entrei e estava tudo escuro, suspirei um pouco aliviada. Com passos silenciosos fui até a cozinha e abri a geladeira buscando o leite. Eu era viciada em leite, principalmente quando estava nervosa. Tomei um gole e senti o líquido gelado descendo pela minha garganta. Fui pra sala e de repente vi uma sombra ao pé da escada, uma mão segurava o corrimão e a outra repousava ao lado do corpo. O rosto estava na penumbra então não reconheci. Senti o copo resbalar da minha mão e espatifar com um ruído de vidro quebrado. Eu estava imóvel. A sombra se moveu pelo escuro até a parede e acendeu a luz.
Dois olhos azuis me encarando, confusos e surpresos.
- Mel? – a voz grave vacilou. Ele continuava próximo a parede. O cabelo loiro esbranquiçado pendendo na altura dos olhos curiosos. Não restava dúvida de quem era.
- Matt! – exclamei com um sorriso. Como esse garoto cresceu! Seus lábios se repuxaram pra cima num sorriso. Ele veio ao meu encontro e me abraçou ao mesmo tempo me levantando do chão.
- Que saudade guria! – disse com a voz abafada pelo meu cabelo.
- Também senti saudades de você – falei. Ele me soltou e me encarou.
- Que foi? – perguntei.
- Pelo que seus pais me contaram, não pensei encontrar você vestida assim – ele apontou o dedo para minhas roupas. DROGA! Eu esqueci de trocar de roupa! Aliás, onde estava minha mochila??
- Ah, bom... Matt... por favor...
- Não vou dizer nada – disse ele cruzando os dedos. Admito, foi mais fácil do que pensei. Se ele estivesse mesmo falando a verdade.
- Obrigado – exalei. Matt me olhou novamente, dessa vez da cabeça aos pés. Seus olhos se estreitaram.
- Nossa Mel, seu pé... – falou ele. Nessa hora percebi que o formigamento no meu pé direito não era devido ao nervosismo, e sim por causa do copo que estourou nele, havia um corte banhado em sangue. Me segurei para não cair.
Matt me segurou pela cintura e me colocou sentada no sofá. Limpei meu pé com alguns gases e álcool hospitalar que tínhamos em casa. Depois Matt fez um curativo. Por sorte o corte não foi grande, eu só ficaria sem andar por um ou dois dias.
- Então, como ficou nesse estado? – perguntou ele sentado no sofá a minha frente.
- Se refere as minhas roupas, ou ao fato de eu chegar montada na manguaça?
- hmm, aos dois – disse ele.
- Exagerei no sorvete de licor na casa de uns amigos – admiti. Matt arqueou uma sobrancelha antes de começar a rir.
- Fala sério, coisa de amador – falou ainda rindo.
- HAHAHA cala boca – joguei uma almofada nele, que desviou e jogou outra em mim.
- Não jogue uma almofada em alguém que está incapacitado – disse segurando a em minha mão e jogando nele novamente. Ele desviou ela com as costas da mão.
- Chega. Daqui a pouco seus pais chegam e acho que não vão gostar de te ver nesse estado lamentável – falou me pegando no colo. Deixei, já que eu não podia andar mesmo.
- Eles não chegaram ainda?
- Não, parece que teve um congestionamento no tráfego. Deu sorte hein – sorte é pouco! Matt subiu as escadas comigo e me colocou deitada na cama. Me ajeitei, puxando as cobertas.
- Boa noite Mel – disse ele fechando a porta.
- Boa noite – respondi. Virei para o lado, não fazia idéia de que horas eram, mas sabia que era tarde. O céu continuava com nuvens pesadas, mas nunca chovia. O vento entrava pela janela e acariciava meu rosto. O que eu fiz hoje era foi totalmente errado, perigoso e podia ferrar tudo que eu sempre defendi. Pra começar eu não deveria ter entrado naquele carro, não deveria ter assistido aquele ensaio, não deveria ter comido um sorvete desconhecido sem ler a embalagem, e não deveria ter subido naquela moto homicida. Se meus pais não tivesse se atrasado hoje, amanhã eu já estaria no primeiro voo para o internato de Londres. Tudo que eu fiz hoje foi errado, irreparável, mas eu não me arrependo. Abracei o travesseiro, apesar de tudo ter dado certo – até agora – uma coisa me preocupava: Onde o Sixx tinha se enfiado? Eu realmente espero que ele esteja bem...
Dormi com esse pensamento flutuando em minha mente e o ar gelado em meu rosto.
Nos dois dias seguintes eu não fui a escola já que não podia caminhar. Matt disse aos meus pais que eu acabei adormecendo enquanto o esperava, desci para buscar um copo de leite e acabei me assustando quando o vi, bom, parte disso era verdade. Meus pais, obviamente, acreditaram. Nesses dois tediosos dias eu fiquei jogando pôquer e xadrez com Matt. E quando meus pais saiam, nós fazíamos uma gloriosa partida de guitar hero pelo computador. Até que o garoto era uma boa companhia.
Eu estava na sala trocando de canal despreocupadamente, Matt tinha saído com meus pais para um evento. É, eles sempre estavam metidos em coisas desse tipo. Marta vestia seu suéter cor de areia quando o telefone tocou. Me mexi para atender mas ela foi mais rápida.
- Casa dos Lockwood? – ela esperou um pouco – Mel, é pra você – disse me entregando o aparelho.
- Alô?
- Mel! O que houve com você?! – a voz urgente e preocupada de meu melhor amigo latejava em meu ouvido.
- ah Sid, eu meio que – Marta acenava e mandava beijos da porta, já eram sete horas e ela estava indo pra casa. Acenei de volta – tomei um porre
- Um porre? Você tomou um porre? – sua voz era incrédula.
- Um porre de sorvete de licor – disse. Sidney ria fazendo chiado no telefone.
- Só você mesmo Mel, mas eu tava preocupado. Você nunca falta.
- Eu sei, me desculpe deixei meu celular na casa do Andy – precisava buscar meu celular, mas a idéia de voltar lá não me parecia muito boa, não depois do episódio do licor.
- Casa do Andy???
- Ok, vou resumir – suspirei – ele me buscou de carro e me levou pra casa dele, depois eu tomei um porre de sorvete de licor com os caras da banda, o Jake me trouxe pra casa com uma moto homicida. Eu cheguei aqui e o Matt tava me esperando, quebrei o copo no meu pé e fiquei dois dias sem poder andar. Mas amanhã eu to de volta na atividade – respirei para recuperar o fôlego.
- Meu Deus, e eu sou o último a saber desse babado!
- Você podia vir aqui pra saber né – mal terminei a frase e me arrependi. A primeira – e única – vez que Sidney veio até minha casa, me entregar um livro, meu pai o tratou de um jeito horrível. Humilhante. Sidney ouviu tudo calado, pois sabia como meu pai era, e sabia que ele não era fã de homossexuais. Mas aquilo foi doloroso até pra mim, nunca iria perdoa-lo por ter tratado meu único amigo daquela forma.
- Mel... – seu tom de voz era triste, eu sabia que ele também se lembrou da lamentável ocasião.
- Me desculpe – murmurei.
- Não esquenta, eu to acostumado com isso e... – um baque de alguém pulando – GUILHERME SAI DE CIMA DE MIM EU TO FALANDO NO CELULAR! – opa, festinha no apê do Sidney.
- Hm, se acertou com o Gui é? – perguntei num tom malicioso.
- Sim, ele não vive sem mim, né meu amor? “Cala essa boca!” “ai não me bate!” – não pude deixar de rir, eles estavam se matando do outro lado da linha.
- Mel, vou desligar porque o Guilherme tá muito bandido hoje – disse divertido.
- Tudo bem, tchau Sid.
- Amanhã vai me contar tudo isso direito hein!
- Claro, amanhã eu to de volta pra por ordem naquele galinheiro! – rimos ao mesmo tempo. Desliguei o telefone e reparei que estava dando uma novela na TV. A cena era basicamente um casal chorando abraçados e blá blá blá, eu nunca fui muito sentimental no quesito amor, então eu ficava debochando dos casaizinhos alheios. Essa casa fica muito tenebrosa quando não tem ninguém, mas eu já estava acostumada. Me levantei e fui caminhando até meu quarto, já que o Matt não estava aqui pra me impedir e sair me carregando como se eu fosse uma alejada. Pra falar a verdade, meu pé estava bom ontem, mas eu não queria ir pra escola hoje. Entrei no quarto, e fui pro meu banheiro tomar uma boa ducha. Fiquei uma meia hora aproveitando a água. Depois me enrolei na toalha, secando o rosto e prendendo os cabelos molhados num coque acima da cabeça. Sai do banheiro, meu quarto me dava as boas vindas. O abajur lilás com branco em cima da cômoda. O Guarda-roupa cheio de flores e coraçõezinhos, a janela aberta com a cortina lilás balançando, Andy Sixx deitado em cima da minha cama... ANDY?!
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