Notas iniciais
Lara, eu amei seu pedido e sempre foi um sonho meu escrever com o Charlie, então fiquei feliz em dobro quando vi que ele tava nas suas opções. Espero que goste da fic, está bem simples, mas acho que ficou legal (será?).

Bill se aproximou devagar. Como esperado, seu irmão se encontrava ali, logo depois do cercado onde aconteciam as aulas de Trato das Criaturas Mágicas, na beira da floresta. Charlie estava sentado em um tronco caído, enquanto falava suavemente com um unicórnio e vez ou outra acariciava seu focinho. Bill não quis interromper, mas o unicórnio percebeu sua presença e fugiu para dentro da floresta, fazendo Charlie se virar para ver quem havia chegado. Sua expressão suavizou ou ver que era apenas seu irmão mais velho.

— Achei você. – Bill se aproximou. – Imaginei que estaria aqui.

— O professor Kettleburn me deixa ficar aqui de vez em quando. – Charlie sorriu e indicou o local ao seu lado para o irmão.

O mais velho limpou a neve e se sentou. Ele sabia que Charlie gostava de ter seus momentos sozinhos, mas quase sempre deixava uma pista para que seu irmão o encontrasse. Algo que só Bill entendesse.

— Você estava mexendo com um unicórnio?

— Sim, eles são bons ouvintes. Parece que te entendem, sabe.

— Achei que eles não gostassem de garotos...

Charlie riu.

— Eu também. Eu estava verificando as outras criaturas, conversando com elas, vendo se estavam protegidas do frio, quando ele apareceu. Comecei a bater papo com ele de longe e, quando eu vi, ele já estava aqui e deixando que eu o acariciasse.

Os dois ficaram um momento em silêncio. Bill falou primeiro.

— Quer dizer que está querendo ficar aqui no Natal?

— Não sei... Realmente pensei nisso, mas também pensei que pode ser seu último Natal em casa.

— Você nem sabe se vou mesmo conseguir aquele emprego.

— Qual é, Bill, qualquer um contrataria você só de olhar para o seu currículo.

Charlie parecia desanimado ao mencionar esse assunto.

— O que foi? Achei que estava feliz de ser o mais velho da casa. – Ele riu e deu um tapinha de leve na cabeça do irmão.

— Eu estou! – Charlie respondeu devolvendo o tapa. – Só que vai ser chato sem você lá.

Bill entendeu o que o irmão queria dizer. Percy era muito diferente deles, os gêmeos tinham um ao outro e Ron e Ginny eram muito novos. Charlie não ficaria sozinho... Mas provavelmente se sentiria solitário.

— Eu fico se você ficar.

— O quê? Bill, a mamãe vai pirar se a gente resolver passar o Natal na escola!

— Então vamos pra casa juntos. Se, como você disse, esse for realmente meu último Natal na Grã-Bretanha, pretendo passar com minha família. E isso inclui meu melhor amigo.

Charlie sorriu.

— Você também é meu melhor amigo, bobão.

Mais um momento de silêncio, novamente quebrado pelo irmão mais velho.

— Então, vai me contar por que veio pra cá ou é coisa sua?

Como “coisa sua” os dois entendiam como o que não compartilhavam um com o outro, mas eram raras.

— Estava me sentindo abafado. Todo mundo no dormitório está arrumando as malas pra passar o Natal em casa, então está a maior bagunça. Vim tomar um ar e espairecer com as criaturas. E você? Algum motivo especial pra me procurar ou só estava sentindo falta do seu irmão favorito?

Os dois riram.

— Queria ajuda pra pensar em um presente de Natal, já que amanhã é o último passeio em Hogsmeade antes de pegarmos o trem.

— Presente pra quem? Para a Rachel?

Bill revirou os olhos.

— Não, nós terminamos no mês passado. Em que mundo você vive?

— No mundo do quadribol e das criaturas. Agora conta, pra quem é?

— Thomas.

— Thomas...?

— Havisham.

Charlie levou dois segundos para perceber de quem o irmão estava falando e abriu a boca de espanto antes de pegar um monte de neve e jogar na cara de Bill.

— Ei!

— É sério isso, William? Havisham?

— O que tem de mais?

Agora foi a vez do mais novo de revirar os olhos.

— Nada, só que ele é o capitão do time de Slytherin, meu rival direto para a taça. Isso é traição, sabia?

— Charlie, eu nem estou mais no time, não tem problema...

— Mas eu estou, caramba!

Bill começou a rir da reação do irmão. Ele era uma das poucas pessoas que sabia de seu interesse tanto por garotas quanto por garotos e nem achou estranho quando descobriu. O que valia para Charlie era se essas pessoas fossem legais. E, pelo visto, o capitão do time de quadribol de Slytherin não se enquadrava como uma pessoa legal.

— Ok, você é maior de idade, não tenho nada a ver com isso, mas vou te azarar se te ver torcendo para Slytherin no próximo jogo, senhor Monitor Chefe.

O mais velho riu alto.

— De jeito nenhum, tudo tem limite! Fora que quero ver meu irmãozinho levantando a taça como capitão antes de me formar.

Charlie abriu um sorriso esperançoso. Ganhar a taça de quadribol para Gryffindor em seu primeiro ano como capitão era seu sonho. Foi tirado de seu breve devaneio por seu irmão.

— E então, vai me ajudar?

— Vou, mas você vai ficar me devendo uma. Aliás, por que vai dar presente de Natal para alguém que você está só saindo?

— É só uma lembrancinha, pensei em alguma coisa tipo um marcador de livros. Só pra não passar em branco mesmo, já que ele falou que vai me dar um presente.

— Entendi, você quer retribuir.

— Isso!

Charlie assentiu, antes de ficar pensativo.

— Eu fui pra Hogsmeade com a Helen no mês passado... Acho que foi meu primeiro encontro.

— Oi? De onde veio isso? Está falando da Helen, monitora do seu ano?

Ele deu de ombros.

— Não importa, foi um fracasso.

— Charlie, por que não me contou?

— Ah, não sei... Estava com vergonha, eu acho.

— Poxa, maninho, estou aqui pra ajudar. Até nesses momentos eu vou ficar do seu lado, sabe...

— É que você tem tanto jeito com as pessoas... E eu não consigo ter um encontro decente.

— Mas o que aconteceu?

O mais novo pensou por um momento antes de responder.

— Nada. Esse foi o problema, não rolou nada. Não tivemos química, eu acho.

— Talvez não fosse a garota certa para você.

— Mas quem seria? Nenhuma me interessa, eu só saí com a Helen porque ela insistiu depois do jogo.

— Ou o garoto certo...

Ele suspirou.

— Mesma coisa... Já tentei ter interesse, mas não rola. Uma vez até beijei o Greg no vestiário, só para experimentar...

— O nosso batedor?

— Ele mesmo. Ficamos de boa, ele sabia que eu estava curioso e topou. Não rolou mais nada.

Foi a vez de Bill ficar pensativo. Talvez seu irmão não tivesse conhecido a pessoa certa... Ou talvez ele apenas não tivesse interesses românticos em geral.

— Olha, Charlie... Não tem o menor problema você não ter interesse por ninguém. Acho que você é o oposto de mim.

— Como assim?

— Eu tenho interesse em todos. Você em ninguém. E é isso, está tudo bem, a gente não precisa ser igual a todo mundo.

Charlie revirou os olhos.

— Aposto que nossos pais iam me achar estranho.

Bill passou o braço pelos ombros do irmão mais novo.

— Ei, o que acontece em Hogwarts fica em Hogwarts. Acha que eu saio contando dos meus casos pra todo mundo lá de casa? Imagina o bafo que ia ser a próxima festa de família.

Os dois riram e Charlie fez uma imitação da voz da tia Muriel:

— Por Merlin, William é um sem vergonha, daqui a pouco está saindo até com a bibliotecária.

O mais velho gargalhou antes de jogar neve no irmão.

— Eu só pego gente legal, ta?

— Vem me falar isso logo depois de contar que está saindo com o imbecil do Havisham? A Rachel pelo menos era de Gryffindor.

— E tinha interesse em outro cara. – Bill disse, se levantando e estendendo a mão para o irmão. – Vamos entrar, está esfriando demais aqui e eu estou ficando com fome.

— Eu também, minha barriga está começando a roncar.

Charlie deu uma última olhada nas criaturas de Kettleburn e se juntou ao irmão na caminhada em direção ao castelo. Se Bill realmente saísse do país, talvez não fosse má ideia seguir o mesmo caminho. Poderia dar uma folga para seus pais, eles ainda teriam mais cinco para cuidar enquanto ele e seu irmão mais velho ganhavam suas vidas por conta própria fora de casa. Mas, ao contrário de Bill, ele ainda tinha mais dois anos de escola pela frente, era muito tempo para pensar em um futuro. E assim como os inúmeros casos de Bill pela escola, a ausência de interesse romântico de Charlie por qualquer pessoa era algo que ficaria apenas entre os dois irmãos.

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