Small Miracle
1 Capítulo Unico
Notas iniciais
Inicio da primavera, um lindo dia de sol, a brisa circulava entre as árvores do Central Park, ciclistas e atletas se mantendo em forma, crianças brincando, na mesma vibe Rachel desfrutava de um merecido descanso sob a sombra de um olmo. Suspirou feliz, hoje era um dia só delas, sorriu emocionada, passando levemente a mão sobre seu ventre. Sua filha, faltava pouco agora, só mais um mês e teria em seus braços seu bem mais precioso.
Ao longe, observava os casais enamorados, jovens, bem jovens, um em especial lhe chamou a atenção, a menina era pequenina e o menino corava fácil, eles não conseguiam manter as mãos longe, aquilo lhe trouxe tantas memórias. Memórias de um tempo mais leve, sem a pressão da vida adulta, onde tudo eram festas e flores. Lembrou da sua cidade natal, tão longe, dos amigos que deixou pra trás, das festas e encontros as escondidas.
Não que ela fosse a garota mega popular, longe disso, ela teve poucos, bem poucos amigos, mas com eles viveu intensamente sua juventude. Na escola era a menina que passava despercebida, não era feia, mas comum, sem muita vontade de ser o centro das atenções. Só queria se formar, entrar em uma boa universidade e se tornar alguém na vida, fazer a diferença, conhecer o mundo.
Lembrou do primeiro beijo, do primeiro amor e da primeira vez que seu coração se partiu em pedaços, sorriu triste, esses pensamentos sempre a deixavam pra baixo, mesmo que já tivesse se passado 10 anos, seria uma marca permanente que jamais deixaria se repetir.
Finn foi seu primeiro beijo, sua alma gêmea, até que só existiu decepção e dor. Foi ingênua em pensar que o popular da escola se sentisse da mesma maneira, pra ele, acostumado a ter quem quisesse não passou de mais uma na longa lista de admiradoras. Não que ele tivesse sido cruel ou tenha feito algo proposital, ele foi sincero e honesto quando depois de ter enchido sua noite de fogos de artifício, deixou claro que não queria se envolver, ele estava focado em uma carreira esportiva e não estava em seus planos se prender quando o mundo tinha tanto a oferecer.
Queria sim ficar com ela, mas sem nominar o relacionamento, sem cobranças, nem exclusividade e ela embevecida pelas emoções aceitou prontamente, até que a vida aconteceu e o sonho acabou.
Durante muito tempo, seu coração machucado fugiu de relacionamentos, mesmo depois de formada, em outra cidade em uma nova vida. Nova Iorque foi um bálsamo pras suas feridas que cicatrizaram lentamente, a agitação, a cidade que nunca dorme se tornou um porto seguro. Cinco anos se passaram até que resolveu se abrir pro amor novamente. Jesse chegou de mansinho, sorrateiro e aos poucos foi ganhando espaço no coração de Rachel, não foi aquele amor doentio, arrebatador, foi calmo e sereno, fazendo o relacionamento se solidificar e entrar em uma rotina agradável.
Mas o mundo gira, não para e quando se tem esqueletos no armário ou histórias mal resolvidas, ele sempre volta pra morder seu rabo. Foi assim que a avalanche iniciou a menos de dois anos atrás.
Rachel, estava como sempre correndo contra o tempo, pressa, trabalho, estava cansada de ouvir as reclamações de Jesse, sabia que tinha que dar um tempo, respirar, viver um pouco, mas não conseguia. Sua vida só tinha foco quando produzia, sentia pelo namorado. Já estavam juntos a quase oito anos, tinham planos de casar e constituir uma família, pelo menos Jesse tinha, mas algo sempre travava Rachel, ela sempre adiava, sabia que suas desculpas eram furadas, afinal já moravam juntos, mas não se sentia pronta pra dar esse passo, casamento, toda vez que pensava seriamente sobre o assunto, algo a congelava por dentro, um peso, uma dor que nem ela sabia de onde vinha ou talvez soubesse, mas nunca teria coragem de assumir nem pra si mesma.
Chegou em casa, largou sua bolsa na mesa de canto e suspirou.
-Jeese. – não obteve resposta
Estava faminta, mas antes de qualquer coisa precisava de um banho, decidiu já indo em direção ao banheiro da suíte, se despiu rapidamente, ligou o chuveiro e se deliciou com a água quente que levava toda a tensão e o cansaço do dia pelo ralo. Pensou ter escutado barulho na sala e chamou por Jesse novamente, dessa vez obtendo uma resposta.
-Rachel, onde você está? – falou batendo na porta
— Já vou sair amor, vou preparar algo para nós, você deve estar com fome, eu estou faminta.
— Termine seu banho e coloque uma roupa bem linda, vou te levar pra jantar naquele restaurante que você adora. Quero te apresentar minha nova parceira de trabalho, ela é nova na cidade, veio transferida da filial de Los Angeles. – Jesse falou com empolgação.
Rachel deu um suspiro frustrado, la se foi a noite calma em casa, mas não queria causar mais uma decepção no namorado, então sairia e tentaria tornar a noite deles o mais agradável possível.
Se vestiu com calma, se sentiu bonita e de bem com a vida, estava simples, em um vestido preto, sem muitos detalhes, casual mas elegante, calçou seus sapatos vermelhos, rindo, um toque de cor, uma maquiagem leve e estava mais do que pronta.
Jesse já estava na sala, esperando pacientemente e quando a viu, sorriu embevecido a fazendo corar um pouco.
-Você está linda, vamos?
Seguiram para o elevador, preferindo tomar um táxi o que os deixariam mais a vontade , sem se estressar com trânsito, estacionamento e poderiam também tomar um bom vinho no jantar.
-Então, como é essa nova parceira, devo ter ciúme?
— Não – Jesse retrucou achando graça – Louise é bem legal, meio elétrica, mas é noiva e pelo que pude perceber, apaixonada e ciumenta, ele vai estar junto. Aliás, ela solicitou a transferência pra cá, porque ele conseguiu um emprego na NBC Sports, ele é comentarista, algo assim.
O casal entrou de mãos dadas no restaurante, Jesse correu os olhos por entre as mesas e sorriu, avistou a colega e puxou Rachel na direção do casal. Na mesa uma mulher loira de uma beleza singular, o homem estava de costas mas assim que sentiu a aproximação, se virou. Rachel sentiu todo o sangue fugir do seu rosto, suas pernas amoleceram e ela segurou firme o braço de Jesse. O passado voltava para lhe assombrar.
— Oi, Jesse, você deve ser Rachel. Ela é mesmo linda Jesse. Rachel, Jesse, este é Finn, meu noivo.
— Muito prazer, Jesse, Rachel. – falou Finn, sorrindo, sem dar qualquer sinal de que a tivesse reconhecido.
Melhor assim, pensou Rachel, mesmo que no fundo se sentisse magoada, talvez o destino estivesse lhe dando a chance de um fechamento, lhe mostrando que realmente não tinha significado nada pra ele, apenas mais uma na sua extensa lista. O fato de não ser lembrada, doeu, mas foi o melhor para que decidisse seguir em frente finalmente.
A noite foi uma tortura, Rachel não conseguia ser natural, por mais que tentasse, só rezava pra aquilo acabar logo, seu rosto doía pelos sorrisos forçados. Se alguém lhe perguntasse, não saberia dizer os assuntos da noite. Assim que terminaram de jantar, Rachel pediu licença e se dirigiu ao toalete, sozinha, mirou-se no espelho, aliviada, faltava pouco. Só queria ir pra casa, deitar sob os lençóis e esquecer.
Retornando a mesa, notou a falta de Jesse e Louise, eles haviam recebido a chamada de um cliente, Finn explicou, assim que Rachel sentou.
— Então, faz muito tempo Rach, tempo demais não? – Finn disparou para surpresa de Rachel.
— Achei que não tivesse me reconhecido.
— Jamais esqueceria esses olhos, eles assombraram meus sonhos por muito tempo. — Finn sussurrou, deixando Rachel boquiaberta imaginando estar ouvindo coisas.
— Sério Finn? Tenho certeza que você tem lembranças memoráveis, deve ter tido sonhos melhores. Uma garota como eu não espera estar nos sonhos de ninguém, muito menos nos seus. – não conseguiu evitar o comentário.
Finn deu um pequeno sorriso de lado.
— Você não mudou nada, ainda fala o que pensa. Mas está enganada quanto aos meus sonhos, você foi a única que já teve uma parte deles, você realmente não tem ideia do quanto significou na minha vida.
— Nada Finn, não fui nada, mas a menina apaixonada que faria qualquer coisa pelo menino que lhe deu o primeiro beijo, que suportou calada, sempre a espera de uma declaração que nunca veio, que deixou a cidade natal pra trás e durante anos o coração la enterrado, que esperou, mesmo não acreditando em milagres, que um dia seria feliz, seria completa. Mas milagres não existem né Finn? Onde em pleno século XXI eles se encaixariam, porque eu seria merecedora de um? – falou sem conseguir se conter.
— Não estou mentindo, Rachel, você foi o ponto de viragem nos meus planos. Nossos momentos juntos foram os melhores, sua força, seu carinho, seu apoio incondicional, sua amizade. Só lamento não ter retribuído a altura, mas ao longo de toda minha carreira, sua memória esteve sempre presente, tudo que conquistei, tudo o que sou hoje, a cada vitória, lembrava de você, queria dividir com você, queria que se orgulhasse de mim. Isso me deu mais forças do que tudo.
— Parabéns pelas conquistas então, é bom saber que te ajudei de alguma maneira, mas não torna melhor. Eu teria desistido dos meus sonhos se você tivesse dado qualquer chance a nós dois. Você foi o meu sonho por muito tempo, foi meu primeiro amor, minha primeira vez e eu fui apenas mais uma. Acho melhor ir embora, essa conversa não vai levar a nada, muito tempo se passou, estou com Jesse, você está noivo e feliz pelo que puder perceber.
— Você está feliz, Rach? Ele te faz feliz? Sei que não deveria perguntar isso, mas preciso saber.
— Porque? Isso vai aliviar sua culpa? Finn, não se sinta culpado por não retribuir meus sentimentos, não temos controle sobre isso, eu te amei, você não me amou, ponto.
— Eu te amei muito – sussurrou – Te amei tanto que fiquei apavorado, fiquei com tanto medo de te decepcionar, de macular a imagem que você tinha de mim. Do menino super popular, que tinha tudo, o mundo aos seus pés. Eu via sua adoração por mim, o amor nos seus olhos e tive pavor de que um dia você me enxergasse como eu realmente era, comum e que percebesse o quão melhor era sem mim. Então na minha cabeça “torta”, achei melhor deixar você ir, antes que você se desse conta que eu não tinha um lugar no seu futuro. Fiquei com a imagem do amor que seus olhos me transmitiram, foi melhor do que ver a chama apagar.
A declaração jogou Rachel em um redemoinho de emoções, seu coração doeu de tal maneira, que achou que não aguentaria, a beira de lágrimas, levantou, pegou sua bolsa e saiu em disparada, deixando pra trás um Finn estático por apenas um segundo. Rachel ficou la, na calçada, sem rumo, sem direção, quando sentiu alguém a puxar e foi engolfada em um abraço. Se sentiu em casa, se sentiu culpada.
— Desculpa, não quero atrapalhar sua vida, Rach. Não quero te trazer pro meu mundo infeliz, sei que perdi minha chance com você. Me perdoa, você merece toda a felicidade do mundo. Vim pra Nova Iorque querendo mais que tudo te reencontrar e fiquei mais feliz do que jamais fui, quando o destino foi legal comigo e facilitou, te trazendo de volta pra minha vida. Mas você está certa, milagres não existem se existissem você estaria feliz em me rever, eu ainda veria o mesmo brilho nos seus olhos.
— Pare com isso, você tem noção do que está dizendo? Você tem uma noiva, ela está aqui por você...
— Não por minha vontade -retorquiu — Ela só veio pra tentar salvar um relacionamento falido, Rachel. O noivado acabou a muito tempo, aliás nem deveria ter existido, foi a merda de uma tentativa fracassada, mais uma burrada pra minha lista.
Rachel estava sufocando, não estava acreditando no que ouvia, não queria acreditar, não podia. Isso só poderia ser uma piada do destino.
— Por favor Finn, não quero ouvir isso, não preciso, te rever só me fez finalmente perceber o quanto minha vida está no caminho certo, eu tenho um homem que me ama sem medo, quer assumir um compromisso pra vida, ter filhos, tudo que um dia eu esperei. Engraçado ter sonhado por tantos anos com esse momento e quando acontece perceber que não é certo. — deu um sorriso triste — Por favor, por favor, vamos deixar como está, nós dois já concordamos que milagres não existem, somos pessoas diferentes, não somos mais adolescentes apaixonados, inconsequentes, quero ser feliz e quero muito que você seja também, temos pessoas que nos amam do nosso lado. Por favor.
— Eu entendo, me desculpe mais uma vez, não queria te fazer sofrer, Deus, nunca quis. Vou te deixar em paz, vou terminar definitivamente meu relacionamento com Louise, ainda tenho a opção de voltar a Los Angeles, não tem sentido ficar por aqui, não mais. Mas você tem razão, temos pessoas que não merecem sofrer ao nosso lado, só não posso enganar mais ninguém, Louise ou eu mesmo. Obrigado por me ouvir, obrigado por ter existido na minha vida. Você pode achar que não, mas você fez valer a pena, cada ano que eu vivi, mesmo que na lembrança.
— Você também fez valer a pena cada dia que estivemos juntos e os muitos anos que você povoou meus sonhos. — não conseguiu mais segurar as lágrimas — Você foi meu primeiro amor e eu queria mais que tudo que fosse o último. Seja feliz, ok?
— Ok — a voz de Finnestava embargada — Seja feliz, muito feliz. Você sempre será meu primeiro e único amor — sua voz chegou em um sussurro.
sorriu entre lágrimas e se aproximou, suavemente encostou suas bocas, uma despedida com gosto de lágrimas, de ponto final. Virou-se e com um gosto amargo de derrota deu o primeiro passo a sua nova vida. Finalmente.
Gritos a despertaram do devaneio. Sorriu ao ver as crianças aproveitando a tarde, sentiu o chute no ventre, como se sua filha estivesse revivendo aqueles momentos com ela, isso tudo tinha acontecido a apenas dois anos, mas todas as palavras que mais uma vez modificaram sua vida estavam nítidas em sua memória. Sorriu, feliz, fechando os olhos, tudo na vida acontece com um propósito, todos os anos desacreditando no amor, achando que nunca iria ser plenamente feliz. Às vezes é preciso um choque e um sacolejo da vida pra indicar o caminho.
Sentiu a movimentação a seu lado e um leve beijo ser depositado em sua face, sorriu, virando o rosto pra encontrar o amor nas orbes castanhas.
— Oi, o que estava mantendo essa cabecinha tão ocupada que nem percebeu minha presença?
— Memórias felizes, estava observando os casais e lembrando do meu primeiro beijo -respondeu brejeira.
— Hmmmm, devo me preocupar? Preciso eliminar alguém?
— Não -sussurrou — Nunca, você é o amor da minha vida, você me deu meu maior presente — suas mãos se juntaram no ventre protuberante — Na verdade você sabe que nunca precisou e nem precisará se preocupar com isso, somos almas gêmeas baby, você nunca se livrará de mim.
— Como se eu quisesse, baby, você é meu tudo, com você aprendi que milagres acontecem — seu sorriso aberto — Vamos pra casa? Acho que chega de grama e nostalgia por hoje.
— Vamos sim, mal posso esperar pra tirar essas malditas sandálias que estão acabando com meus pés -fez um muxoxo — Preciso de uma massagem amor, aquelas estilo ensino médio, sabe? Só você sabe fazer.
— Massagem estilo ensino médio baby? Achei que tinha melhorado minha técnica ao longo dos anos.
— Cale-se e vamos pra casa marido, preciso de uma massagem e passar o resto da noite te ouvindo dizer o quanto me ama.Vamos Finny. – pediu manhosa.
— Sim minha senhora, o que mais quero é passar todos os dias do resto da minha vida dizendo o quanto te amo, meu pequeno grande milagre.
A vida realmente era uma surpresa a cada esquina, a cada respiração, Rachelsorriu, sem arrependimentos, sem mágoas pois sabia que não tinha outra decisão a tomar a não ser seguir seu coração. Em uma noite surpreendente na big apple reencontrou a felicidade e provou que milagres são possíveis quando o amor é verdadeiro.
Notas finais
- Albert Einstein
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