Smack
1 One shot
Notas iniciais
— Lily, onde é que liga o botão de power?
— Power?! O quê?! Está brincando de faz de conta de novo?!
— Não, Lily, aqui, neste negócio! Ai!
— Presta mais atenção nas coisas, Hugo, me dá isso aqui.
Plim!
— Uaaaau! Pelas cuecas de Merlim!
— Legal, não é?!
Hugo não poderia estar mais vislumbrado.
Havia passado exatamente cinco dias desbravando a garagem infinita de seu vovô Arthur, cheia de bugigangas dos muggles. Radinhos, controles remoto, mp3 players, patinhos de borracha, e, é claro, sua mais nova descoberta: a câmera filmadora.
Quando Lily apertou o botão vermelho, uma luz abarcou toda a garagem, anteriormente escura, transformando tudo em sombras na parede. Hugo simplesmente olhou para ela, apaixonado, e pediu:
— Lily, será que dá pra você ficar ali na frente?
— Eu? Onde?
— Ali, Lily, na frente da parede de tijolos.
— Onde tem os negócios do…
— Vai logo de uma vez, Lily, vai logo! Isso, mais pra cá… Faz uma pose legal e fica aí no três, está bem?
Hugo então concentrou-se em sua descoberta e segurou bem forte a câmera filmadora na direção de sua melhor amiga.
— Lily, faz pose de modelo!
— Pose de modelo? Mas eu nem sou bonita! Ou… magra…
— Lily, só faz o que eu falei. Um, dois, três!
A partir do primeiro flash, quando a câmera pareceu ligar a opção “filmagem”, Lily Luna fez poses divertidas, e então correu para puxar Hugo aonde ela estivera instantes atrás. A filmadora, por sua vez, estava apoiada ao tripé, e registrava tudo à meia-luz.
As sombras corriam, balançavam, pulavam. O cabelo de Lily dançava quando Hugo a rodopiava pelos ares. E quando brincavam com os chapéus do vovô Arthur e vovó Molly, pareciam parceiros de dança dos anos 40. Hugo inclusive arriscou conjurar uma rosa na boca, arrancando gargalhadas de Lily. E as pernas dela, nessa hora, bambearam. De nervoso, é provável.
— Lily, como é que faz pra você me deixar te beijar?
Essa pergunta, no entanto, foi diferente das outras. Ao invés de simplesmente responder, na lata, como de costume, Lily hesitou. E resolveu devolver a pergunta com outra pergunta.
— Hugo, por que resolveu nos filmar, pra começar?
— Ah, Lily — ele parou pra pensar, tirando a rosa da boca, e colocando-a atrás da orelha dela — Queria saber, de vez quando, como é que você vê o mundo.
— Eu?
— Sim, Lily. Não adianta fingir que não está acontecendo. Uma hora, sua visão estará completamente escura. Só quero me lembrar que você é bonita até nas sombras.
— E o beijo, Hugo, por que é?!
— Eu só quero que você se lembre, Lily. Do formato da minha boca. E do meu rosto. Que se lembre como eu sou. Aí quando e se você quiser me beijar de novo, sua mente vai se lembrar. É psicanálise, eu pesquisei naquele livro que a mamãe tem. Um tal de Freude... Anda, Lily, vem logo de uma vez!
Lily então sorriu com o coração saindo pela boca. Aproximou-se um pouco mais de Hugo, dando uma última olhada na câmera filmadora antes de voltar a prestar atenção nele.
— Hugo, como é que eu vou fazer pra assistir o beijo se eu estarei cega?
— É só fazer barulho de beijo. Assim, Lily!
Smack, smack, smack.
Hummmmmmm.
Smack!
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