Slytherin Past
4 Hestia
— Temos que ir busca-la! – Jesse exclamou, assim que eu voltei a ser humana, minutos depois de Thorniff sair da minha casa com Beatrice.
Por incrível que pareça, eu mantive a calma e pensei logicamente. Nada que fizéssemos iria ser benéfico para CeCe e sua família, ela teria que arranjar um jeito de sair da mansão por conta própria, sem parecer uma traidora.
— Jesse, calma. – pedi. – CeCe vai ficar bem e...
— Espera, como você conseguiu voltar ao normal?
— Quê? – perguntei, sem entender. Aquilo era o que acontecia com Transfiguração, você transforma as coisas e elas voltam ao normal. Onde Jesse estava tentando chegar?
Fiquei o encarando sem entender, mas ele balançou a cabeça e voltou a se exaltar:
— Não temos tempo pra isso. Se formos rápido, ainda podemos pegá-los.
— Eles já devem ter aparatado a essa altura, Jesse, você tem que pensar racionalmente. – disse, para a minha surpresa. Porque eu era sempre a última a pensar racionalmente. – CeCe está bem e...
Então pensei que ir atrás de CeCe era o melhor disfarce para irmos achar os meus pais sem ele perceber. Era claro que eventualmente eu teria que resgatar minha amiga, não queria que ela fosse forçada a se tornar uma Comensal ou matasse ninguém, mas eu confiava o bastante nela para saber que ela ia me salvar um bom tempo antes de acontecer alguma coisa drástica.
— Você tem razão, se ela sair dali do nada, vai parecer que está traindo Você-Sabe-Quem. Temos que planejar isso bem. – ele continuou e eu acenei.
— Primeiro, vamos terminar aqui e encantar a casa de campo. Depois vamos fazer uma pesquisa, precisamos saber o que está rolando em Hogwarts e ir atrás de pessoas que estejam fugindo também. Não quero que pareça que estamos contra Você-Sabe-Quem, mas não podemos ficar por aí dando bandeira.
Jesse, que antes parecia confiante e lógico, agora me encarava como se estivesse pedindo ajuda. A ausência de CeCe claramente não estava em nenhum dos nossos planos.
Depois de encantar meus vizinhos e fazer minha casa parecer inabitável, proteger a casa de campo foi ridiculamente fácil. Adverti meus pais sobre como se proteger caso acontecesse alguma coisa e eles insistiram que eu levasse meu celular, mesmo eu enfatizando que tecnologia não funcionava bem no mundo mágico.
— Lizzie, qualquer coisa que você fizer, por favor tome cuidado. Até nós percebemos que as coisas mudaram. – minha mãe disse, antes de me abraçar.
— Eu vou ficar bem. – falei, abraçando meu pai e saindo da casa, em direção à Jesse, que estava fora do alcance dos nosso feitiços de proteção. – Assim que der, eu mando notícias. Não saiam daqui para nada, ouviram? Tem comida suficiente para uma vida ai dentro. E eu deixei minha coleção de filmes, cuidem bem dela. Ah! E não matem a minha coruja, por favor. Ela já está sentimental o suficiente.
Olhei para Rustie que bicava o meu dedo, reprimindo a minha escolha de deixa-la para trás. Quis saber explicar para ela que não podia leva-la comigo, mas eu não sabia a língua das corujas. Torci para que ela confiasse em mim e a coloquei em sua gaiola.
Meus pais me encararam com apreensão e eu me virei, andando rapidamente para não ter que olhar para trás. Não me perdoaria se algo acontecesse com Helen e Peter Miller, os pais carinhosos e inocentes que adotaram uma menina de 11 anos, sabendo todos os perigos e esquisitices que a cercavam.
— Ótimo, vamos para a minha casa. – Jesse disse de repente e eu o encarei com surpresa. Eu finalmente veria a casa dele e talvez descobrisse alguma coisa sobre o seu passado e vida.
Segurei em seu braço e aparatamos juntos, levando apenas uma mochila com algumas coisas essenciais. Sim, eu não tinha passado no teste de Apartação, na verdade, nem fiz o teste porque perdi metade das aulas, mas eu tinha aprendido sozinha quando voltei de Hogwarts, sabendo que viria a calhar na minha busca impossível. Deixei Jesse me guiar e logo estava tendo aquela sensação de estar me desfazendo e rodopiando.
Quando a vertigem acabou, enxerguei a fachada da casa de Jesse, e a cena que estava na minha frente foi contra todas as minhas expectativas. Eu estava esperando uma casa luxuosa, de uma família puro-sangue, com artefatos mágicos e esculturas sendo expostas no jardim, em um bairro rico e com no mínimo três andares.
Se Jesse não errou de destino, a sua casa na verdade era quase um sobrado, de um andar, que inteira era do tamanho da minha sala e cozinha juntas. A tinta estava descascada e as plantas mortas no jardim quase inexistente que conectava os degraus até a calçada. A luz piscando em cima da porta me fez perceber que eu realmente não sabia nada sobre meu primo.
Depois de desfazer alguns feitiços de proteção, ele forçou a porta, que fez alguns rangidos antes de ceder. O interior condizia com a fachada, era de uma extrema simplicidade e desleixo, com falhas de tinta, cheiro de mofo e pisos rangentes.
Jesse refez os feitiços e me convidou para sentar. Eu encarei o sofá encardido e sentei, com os pensamentos a mil. Encarei em volta e percebi que era impossível mais de uma pessoa morar ali.
— Você mora sozinho?
— Sim. Você quer alguma coisa para beber? – ele perguntou, e eu percebi que ele estava tentando fugir ao máximo de mais perguntas. Neguei com a cabeça e comecei a encarar em volta com mais afinco, quando ele desapareceu pelo corredor.
Eu queria achar qualquer coisa que me contasse quem era Jesse. Encarei a horrível possibilidade de estar caindo em uma armadilha. Nem CeCe confiava em Jesse o suficiente para contar-lhe a verdade, eu não devia ter acatado todo o plano que ele fez sozinho sem nem pensar duas vezes. E agora estava sozinha em sua casa. Ótimo, Liz, é com essa atitude que você vai fugir do bruxo das trevas mais poderoso de todos os tempos.
Eu passei o ano anterior inteiro tentando ignorar aquele sentimento no meu estômago de que Jesse não era de confiança e de que ele certamente estava escondendo alguma coisa. Mas como foi um ano um tanto conturbado — para não dizer palavra pior – eu deixei o meu questionário para depois. Pensando no meu erro, vi Jesse aparecer de novo com uma caneca e sentar-se na poltrona a minha frente.
— Por onde começamos? Não podemos tirar CeCe imediatamente da Mansão, precisamos esperar um tempo para que achem que ela é confiável. – ele começou, tomando um gole de qualquer coisa que estivesse dentro de sua caneca.
— Você está sendo otimista. Não sabemos onde fica a Mansão e não sabemos como tiraríamos ela de lá, considerando que está sobre uma mega proteção de magia negra. – informei, medindo nossas capacidades. Jesse disse como se fosse fácil apenas chegarmos e tirarmos CeCe do lugar onde todos os Comensais da Morte estão reunidos e provavelmente Voldemort. – Eu quero ir na Borgin & Burkes.
Ele piscou algumas vezes e colocou os cotovelos nas pernas, se inclinando em minha direção.
— Quê?
— Na Borgin & Burkes, eu quero...
— Eu entendi onde você quer ir. Não entendi o motivo. – Jesse perguntou, quase achando graça.
Mais uma vez, teria que mentir. Estava pensando no que inventar, quando uma dor familiar me consumiu e eu quase sorri, feliz por finalmente estar sentindo aquilo de novo. Era uma memória, eu sabia que era. Fechei os olhos e deixei que as imagens formassem na minha mente.
“— Lestrange, você é inútil ou o quê? Rápido! Uma pirralha entrou ai e sumiu, faz um tempo que...
Segurei minhas risadas e olhei surpresa para o homem que me encarava de volta ao abrir a porta do armário no qual eu tinha sumido e acabado de voltar.
— Sai dai, garota. – um homem de cabelos pretos compridos e olhos escuros ralhou, rabugento. Sua expressão era de irritação com surpresa, reconheci um pouco de minha rebeldia em seu olhar.
— Vá logo, Rabastan, você já sabe o que fazer. – o outro homem falou, enquanto o homem a minha frente me pegou com força pelo braço e me levou para fora da loja, até um beco escuro, onde me encurralou.
Eu, no auge dos meus oito anos, comecei a chorar e murmurar que não era a minha intenção e que não queria morrer. Estava cogitando começar a gritar, quando Rabastan me interrompeu, nervoso:
— Não vou te matar, criança. Cale a boca!
Seu tom de voz não me deixou feliz, mas certamente me assustou. Comecei a soluçar e chorar silenciosamente, enquanto fechava meus olhos para encarar o meu destino eminente.
Em questões de segundos, senti minha mente sendo invadida e, estranhamente, era uma sensação que eu já tinha sentido antes, mas não sabia exatamente onde ou porque. Parecia que eles estava vasculhando minhas memórias e querendo mexer em alguma coisa específica. Mas de repente, tão rapidamente quanto entrou, Rabastan saiu da minha mente.
Abri os olhos para vê-lo me encarando com curiosidade. Ele ficou de joelhos e eu fitei involuntariamente a negritude de seus olhos de volta, sem saber o que dizer.
— Riddle, hã? O que acha de um trabalho de verão, pirralha?”
Ótimo, mais uma memória inútil. Durante as férias, eu lembrara de muitas coisas, mas todas irrelevantes. Resolvi, então, manter um caderno de memórias, coleciona-las para depois lê-las e tentar montar o quebra-cabeça que foi a minha infância.
A maioria eram de detalhes sobre minha estadia na loja. Imaginei, com pesar, que talvez fosse porque Dumbledore estava morto e seu feitiço não fazia mais efeito. Se continuasse assim, lembraria de tudo rapidamente, só dependendo da minha força de vontade. Fiz uma nota mental de direcionar o meu pensamento na próxima vez que uma memória ameaçasse surgir.
Jesse me encarava com preocupação, mas como se já soubesse o que estava acontecendo.
— Estou bem. – me apressei em dizer. – Precisamos ir até a Borgin & Burkes, é lá que encontraremos respostas, é a loja mais antiga de artefatos das trevas. Com certeza vamos encontrar alguém burro o suficiente para nos dizer onde fica a Mansão e como está a situação.
— Ah claro, por que não saímos pela Travessa do Tranco com uma placa em nossas cabeças dizendo que somos sangue-ruins para nos capturarmos? – Jesse perguntou, revirando os olhos.
— Não vejo você dando nenhuma ideia melhor. – retruquei, amarga.
A verdade é que não tinha nenhuma. CeCe não podia ser resgatada imediatamente, mas eu ainda tinha que ir atrás dos meus pais verdadeiros e eu nem sabia por onde começar. Eu sabia que Rabastan tinha me dado uma dica em alguma das minhas lembranças, mas nada adiantaria se eu não lembrasse dela.
Então me ocorreu que minhas memórias surgiam em momentos chaves. Se eu estava falando do armário, eu lembrava de alguma coisa relacionava. Eu lembrei da loja porque estava falando da Borgin. Era isso. Precisava me colocar em situações que remetessem a algo que eu já tivesse vivido.
Mais do que nunca, ir à loja era essencial.
— Podemos praticar feitiços e pensar em um jeito de tirá-la de lá antes de nos aventurarmos pelo mundo bruxo procurando respostas para perguntas que nem sabemos ainda. – ele retrucou.
Suspirei, Jesse não poderia ficar no escuro para sempre e talvez fosse a hora de começar a contar algumas coisas. Mas não antes dele esclarecer sobre a sua vida.
Eu estava prestes a começar um interrogatório, quando ouvi um estalo e um elfo doméstico se materializou em cima da mesa que separava a poltrona de Jesse do sofá no qual estava sentada.
Depois de gritar de susto, vi a criatura se curvar para Jesse e falar, com uma vozinha aguda:
— Mestre, estou reportando de Hogwarts, parece que Snape está mantendo a política de Você-Sabe-Quem, com a ajuda de...
— Jesse! Você tem uma elfa a nossa disposição e o quê? Esqueceu de mencionar? – perguntei indignada, interrompendo a pobre elfa. – Desculpa. Eu sou a Liz, prazer.
Ergui minha mão para cumprimenta-la, mesmo sabendo que ela não o faria. O pouco que eu sabia de elfos foi por causa dos meus anos perambulando em Hogwarts, quando eu descobri acidentalmente a cozinha. Eles trabalhavam ali, para o meu desgosto. Quer dizer, vindo do mundo trouxa – vocês entenderam — , eu sabia muito bem o que era escravidão e aquilo era exatamente isso.
Depois de desabafar para o Barão, ele me explicou um pouco sobre as características das criaturas, mas nada me convencia de que aquilo estava certo. Eu não tentei libertá-los, mas sempre que podia e sabia que eles não estavam trabalhando, ia visita-los para conversar. Sim, acho que vocês já captaram que eu era uma pessoa sozinha. Fazendo amizade com elfos e fantasmas.
— Pode respondê-la... – Jesse disse e eu vi a sua expressão. Ele certamente não estava esperando a sua elfa naquele momento. Talvez quisesse mantê-la em segredo por algum motivo.
— Prazer, Liz, senhora. Meu nome é Hestia, sou elfa doméstica da família...
— Hestia! – Jesse exclamou, antes que ela terminasse. – O que você tem a dizer sobre Hogwarts?
Ela voltou-se para ele imediatamente e continuou:
— Prof. Snape está usando os irmãos Carrow para disciplinar os estudantes. Está tudo bem diferente, senhor.
Jesse a encarou e acenou com a cabeça.
— Continue me atualizando. Liz, vamos escrever uma carta para Suzanna. Como está a segurança, Hestia? Você consegue passar a carta sem interferência?
— Sim, a Aparatação dos elfos domésticos ainda não está sendo vigiada.
Claro que não, quem tem elfo doméstico são famílias ricas e de puro-sangue. Ou seja, o lado do mal. Apesar da minha relutância em colaborar com aquele abuso, eu fiquei feliz de poder me comunicar com Su. Podia pedir para ela investigar sobre memórias e como recuperá-las com mais facilidade.
Jesse me entregou um pergaminho e uma pena e eu o encarei com incredulidade, negando-os. Não estávamos em Hogwarts, eu não usaria um pergaminho e uma pena. Pelo amor de Merlin, eu não sabia porque os bruxos gostavam de complicar a própria vida. Quer dizer, o que tem de errado com uma caneta? A aversão por tecnologia eu até entendia –mais ou menos-, mas pergaminhos? Em que século eles achavam que viviam? Nem me deixem começar a falar sobre as roupas...
Tirei um caderno e uma caneta da minha bolsa e comecei:
“Querida Suzanna,
Eu sinto sua falta. Você não tem noção de como fazer as coisas – qualquer coisa – está sendo difícil sem seus planos brilhantes. Imagino que por ser da Sonserina, talvez a sua vida esteja mais fácil em Hogwarts, eu realmente espero estar certa. Soubemos que Snape está causando com os irmãos Carrow, né? Bom, toma cuidado. Eu e Jesse estamos indo atrás do que conversamos no ano passado, mas ainda não me lembrei do que deveria, você sabe alguma forma eficaz de recuperar memórias alteradas?
De qualquer forma, acho que deveria saber que CeCe foi capturada pelo seu primo, um Comensal da Morte chamado Thorfinn, e está na Mansão Malfoy fingindo treinar para ser uma Comensal. Depois te contamos os detalhes. Não se preocupe, estamos pensando em um jeito de ajuda-la, mas aposto que ela vai se virar bem até lá.
Por favor, queime essa carta no minuto que recebê-la, como sei que fará.
Com muito amor,
Liz.
PS: A elfa é de Jesse, então por favor seja o mais vaga possível em suas respostas, já que não posso garantir que sua carta chegue com o mesmo cuidado em nossas mãos como foi para as suas.”
Entreguei a carta para a elfa, que olhou para o seu mestre em busca de orientações. Sem delongas, Jesse ordenou:
— Entregue essa carta diretamente nas mãos de Suzanna Travers, da casa Sonserina em Hogwarts, somente quando ela estiver sozinha. Não fale com ninguém sobre sua missão ou leia o conteúdo dessa carta de forma alguma. Em suas visitas recorrentes a escola, cheque se Suzanna tem uma resposta.
Tentei ver alguma falha naquela fala, checando se talvez houvesse a possibilidade de Jesse conseguir ler a carta ou nos trair, mas parecia que tudo estava perfeitamente de acordo.
— Sim, senhor. – a elfa falou, antes de desaparecer subitamente da mesa. Encarei meu primo e pensei em tudo que ele estava escondendo de mim. Uma elfa doméstica certamente nos ajudaria muito e por que ele não quis que ela falasse o nome de sua família?
Além de tudo, se ele era de uma família sangue-puro e rica, em uma posição importante o suficiente para ter um elfo doméstico, como ele morava naquele lugar? Com mais perguntas do que nunca, esperei que a carta chegasse a Su o mais rápido possível e que ela me respondesse com boas notícias. Eu sentia falta de falar com alguém que eu confiasse, para variar.
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