Slytherin Past
8 Comunicação
O meu primeiro instinto foi jogar o papel no chão e proteger a minha cabeça com os braços. Mas até aí, o estrago já estava feito. Eu senti uma dor familiar de queimadura que me levou de volta para o incidente com os Explosivins.
Quando finalmente consegui abrir os olhos, entendi o que estava acontecendo. Nossa recém-adquirida cabana estava em chamas, iniciadas por um dragão de fogo que tinha sido libertado do envelope. Era um feitiço elaborado e bem específico, certamente feito por um bruxo habilidoso. Sem saber o que fazer e já sentindo meus olhos lacrimejarem e minha garganta fechar, tentei localizar Jesse e Héstia. Foi quando ouvi o berro do meu primo:
— Héstia, desaparate para longe!
Percebi que ele tinha sido jogado para longe pela explosão e tentei enxergar além da fumaça para o outro lado da cabana. No meio daquele caos, era de se esperar que eu pensasse em coisas inteligentes, como feitiços que envolviam água ou qualquer coisa que nos tirassem daquela situação. Mas não, lembrei de quando estava na Sala Precisa com Draco e aquele maldito hipogrifo de fogo invisível nos atacou.
Ótima hora para lembrar do ex, Liz. Incrível como a minha mente funciona.
Então finalmente resolvi me esforçar para pensar — porque como vocês sabem, isso não vem muito naturalmente para mim — e saquei a minha varinha, tentando lembrar de todos os feitiços que envolviam água que eu conhecia e o que eu tinha feito naquele dia com Malfoy.
Infelizmente, cheguei a conclusão de que minhas decisões na Sala Precisa não foram tão brilhantes. Eu tinha usado um feitiço que soltava jatos de água diretamente no hipogrifo, mas isso não tinha adiantado, só tinha deixado ele mais furioso, o que causou a minha queda livre de uma altura considerável e quebra de vários ossos.
Enquanto eu fazia o mapa mental na minha cabeça de como eu tinha saído daquela situação, o momento presente não era muito agradável. O dragão não era muito maior que uma águia, mas isso era consideravelmente grande, levando em conta que estávamos dentro de uma barraca, que mesmo sendo enfeitiçada para ser maior, ainda era do tamanho de um pequeno loft. O bicho estava em frenesi, jogando fogo em tudo o que via, o que incluía a bela decoração rústica dos donos anteriores
Eu tentei acertá-lo com um feitiço estuporante, finalmente lembrando do que Draco tinha feito para parar o hipogrifo, mas o dragão era muito mais rápido e ágil. Enquanto isso, vi Jesse jogando água em tudo e berrando coisas inaudíveis para mim. Ele parecia não estar levando em consideração que o dragão estava rugindo — ou sei lá o que dragões fazem- extremamente alto enquanto soltava fogo.
Finalmente, consegui acertar o animal enfeitiçado e Jesse pôde extinguir as chamas, mas não antes de ter metade do acampamento entrando na barraca para ver o que estava acontecendo. Típico, as pessoas sempre chegavam para ajudar depois do problema ter acabado.
Todos se prontificaram a recuperar as nossas coisas e eliminar a fumaça. Depois da situação se acalmar, Jesse explicou o que tinha acontecido da forma mais vaga possível. Ele disse que tinha recebido uma carta de um amigo em Hogwarts e que ela tinha libertado um dragão de fogo, mas não especificou de quem era a carta ou porque estávamos nos comunicando com a escola.
— Temos que tomar cuidado com tudo que vem da escola. — Alicia se aproximou de repente e falou só para mim, como se quisesse me consolar, em vez de educar o meu primo com suas sabedorias óbvias. — Eles podem até nos rastrear caso sequestrem corujas ou interceptem elfos. Vocês tiveram sorte de só terem recebido esse dragão. Tivemos dois amigos que foram estuporados e levaram dias para voltar a plena consciência.
A encarei com o canto do olho, enquanto mantinha a visão periférica fixa no meu primo, com pensamentos a mil. Eu não queria ignorar Alicia e seus comentários pertinentes. Mas, vejam bem, tudo apontava para coisas muito suspeitas.
Quer dizer, se a família de Jesse era sangue puro e tinham até um elfo doméstico, qual eram as chances deles não estarem do lado de Voldemort? E o fato dele saber do meu passado e esconder essa informação já era preocupante o suficiente. Mas então um dragão de fogo surge na minha única comunicação exclusiva sem ele? Qual é!
Tentei analisar mentalmente novamente as instruções que Jesse tinha dado para Héstia sobre a minha carta e percebi que ele não disse nada sobre a resposta. Só comandou que a elfa checasse se Su tinha uma frequentemente. Era extremamente conveniente. Talvez confiar em Héstia não tivesse sido a melhor ideia. Mas quando eu faço alguma coisa certa, não é mesmo?
— Sim, sorte. — comentei, finalmente voltando a conversa. Eu não quis parecer tão irônica quanto soei. — Como vocês estão se comunicando com as pessoas de Hogwarts?
Ela me encarou, provavelmente pensando se podia ou não confiar em mim. Eu vi os seus olhos me analisaram e notei imediatamente o momento em que ela decidiu que não. Mas quase conseguiu disfarçar, dizendo:
— É bem difícil, mas conseguimos de vez em quando. Um dia eu te mostro.
Certo, o dia em que Voldemort beijar um trouxa. Ou qualquer pessoa, pra ser sincera.
— Ok. — concordei, porque eu sabia que confiança era uma coisa que não podia ser exigida. E eu, mais do que ninguém, não podia pedir, considerando que eu não confiava em quase ninguém. — Te vejo mais tarde, na patrulha?
Ela sorriu, daquele jeito que me lembrava CeCe e acenou com a cabeça:
— Sim! Tenho que te ensinar o Patrono, não esqueça!
Dei um meio sorriso. Pelo menos alguma coisa eu iria tirar daquela experiência. Enquanto a nossa barraca esvaziava gradualmente, eu peguei o envelope queimado e vi que a carta de Suzanna estava intacta no chão.
Com certeza ela tinha feitos feitiços de proteção que não tinham sido quebrados pelos colocados no envelope posteriormente por alguém. Essa era a Su, sempre prevenida e muito mais inteligente que eu.
"Cara Liz,
Eu também sinto tanta a sua falta! Você não tem noção da minha felicidade ao receber a sua carta. Infelizmente você está certa, a minha vida é melhor por ser da Sonserina, mas isso não é bom. Eles não gostam de desperdiçar sangue-puro e não vão nos matar, mas isso não impede que nos torture. Agora imagina o que acontece com os mestiços... E falar que Snape está causando com os Carrow é uma atenuação enorme. Os Carrows fazem os alunos aplicarem a maldição Cruciatus em outros alunos que pegaram detenção, Liz! Cruciatus! Eles fazem a Umbridge parecer um anjo e você sabe que até eu odiava aquela mulher.
Se você estivesse aqui, você provavelmente teria comentários engraçados e sarcásticos para me entreter, mas por enquanto está bem difícil de ver qualquer coisa positiva.
Por outro lado, o grupo de Harry Potter, o mesmo que se juntou contra a Umbridge, formou uma resistência bem sólida sem ele. Eu estou tentando ganhar a confiança dos líderes para ver se consigo entrar, mas eu duvido, todos ainda têm muito pé atrás com os sonserinos, ainda mais por sermos sangue-puro.
E sim, eu imaginei que os parentes de CeCe iriam "recrutá-la", eu conheço Throfinn, ele é péssimo para dizer o mínimo. E pela primeira vez em muito tempo, concordo com você. Ela vai ficar bem, não seja imprudente e vá atrás dela sem um plano. Eu te conheço, por favor não seja tão "você" dessa vez.
Você sabe que tem que focar em recuperar as memórias e ir atrás do que conversamos ano passado. Eu pesquisei muito sobre como te ajudar nisso, mas a verdade é que não há muito o que fazer. Com o bruxo que fez o feitiço em você morto, as memórias devem vir a tona com mais frequência. Tente se concentrar em coisas específicas do seu passado que vão fazer você lembrar.
Apesar de ser perigoso, eu recomendaria que você passasse na Borgin e Burkes, tenho certeza que vai despertar muitas memórias sobre R.L que talvez te ajudem a encontrar quem você precisa.
Eu coloquei feitiços de proteção nessa carta e tenho certeza que eles serão eficazes contra qualquer impostor que tentar lê-la. Só você conseguirá lê-la, não se preocupe.
Boa sorte, Liz. Tente confiar mais no Jesse, a elfa dele foi extremamente útil.
Com muita saudades, angústia e medo do que está por vir em Hogwarts,
Suzanna T."
Como sempre, Suzanna era mais inteligente em uma carta do que eu na vida inteira. Ela confirmou minhas suspeitas de que eu tinha que ir na loja de Rabastan se eu quisesse lembrar de coisas mais úteis, mas não me falou como eu podia fazer isso sem despertar suspeitas de Jesse. Como eu queria que ela estivesse comigo para contar tudo o que eu tinha lembrado dele.
Era extremamente frustrante tê-la tão longe, especialmente agora sabendo o inferno que estava Hogwarts. Mas era de se esperar, com Snape como diretor. Que ideia brilhante, universo, francamente. Li de novo a carta, sabendo que eu ia ter que queimá-la e sorri de novo na parte que ela falou que eu teria comentários sarcásticos e engraçados sobre a situação.
Talvez eu tivesse, assim como ela teria ideias brilhantes para me ajudar.
Suspirei e fui do lado de fora para queimar, não querendo colocar nem um pouquinho de fogo dentro da cabana, já tivemos muito para um dia só.
Jesse não me seguiu e nem perguntou o que tinha na carta, ele estava agindo estranho para um possível espião. Será que Su estava certa e eu devesse confiar mais nele?
Mas como poderia quando sabia que ele estava mentindo sobre tudo?
— Ela falou alguma coisa sobre CeCe? — foi tudo o que ele perguntou quando eu entrei de volta.
Encarei seus olhos claros e neguei com a cabeça. A sua preocupação era real, era impossível fingir aquilo. E isso vem de uma pessoa que aprendeu a ler as sutilezas e expressões mais inexpressivas possíveis.
— Ela explicou a situação em Hogwarts, está um verdadeiro pesadelo. — respondi.
Expliquei para ele o que estava acontecendo na escola e ficamos em um longo silêncio depois disso, meio que sem saber o que pensar ou fazer.
— Quando você voltar da patrulha, vou chamar Héstia de volta e perguntar o que aconteceu. Isso não foi feito dela, nem de ninguém amador. — ele falou, cabisbaixo, e saiu da barraca.
Ótimo, agora Jesse também estava de mau-humor, já não bastava eu sendo negativa e pessimista. Sem muitas esperanças e comentários sarcásticos, escrevi uma resposta para Suzanna:
"Querida Su,
Hogwarts realmente virou um inferno governando pelo próprio Satã de cabelos ensebados. Eu sinto muito de ouvir que você esteja sofrendo por aí, queria estar com você. Mas ao mesmo tempo não, porque isso iria significar que eu morreria bem mais rápido.
Normalmente eu não apoiaria a sua ingressão no clubinho de Potter, mas confio em você e sei que se você está com isso em mente, é porque é a melhor solução. Eu preciso te contar coisas que não podem ser faladas por carta. Você sabe de alguma outra forma de comunicação? Eu sei que as pessoas da resistência estão se comunicando com Hogwarts de algum jeito, só não sei como. Vou tentar descobrir.
Aconteceram muitas coisas e eu não posso falar o nome de ninguém por questão de segurança. A sua carta foi interceptada e eu estou com medo de acontecer a mesma coisa com a minha. Eu acredito que ninguém a tenha lido, mas com certeza tentaram. No que se tornou as nossas vidas, honestamente?
De qualquer forma, obrigada pelas dicas. Eu pensei nisso também, mas é difícil convencer Jesse, já que ele não sabe de nada. O jeito é continuar fazendo o que estou fazendo e torcer pelo melhor. Agora pensando pelo lado positivo, eu encontrei o meu ex-namorado falso, lembra? Estou muito feliz de ter alguém que confio e posso conversar sobre coisas bestas. Espero que você encontre alguém assim por aí também.
Com amor e muitas suspeitas,
Liz.”
Dobrei o papel e guardei no bolso da minha calça, segura para que ninguém pegasse sem eu perceber. Respirei fundo e saí da barraca, era hora de aprender a conjurar um patrono.
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