Slytherin
3 1972
Notas iniciais
O dia amanheceu nublado na Grande Londres. O clima ameno pairava sobre a cidade há dias. As vestimentas eram ambíguas, aquecidas o suficiente, mas que não ousassem se tornar quentes demais.
Pé ante pé desceu as escadas até chegar à sala de refeições da casa. Estava cansado, entediado, na verdade. Era estranho porque, depois de 11 anos, o dia tão esperado chegou e, agora, tudo que sentia era indiferença sobre o acontecimento que se sucederia.
Entrou na sala de refeições após um longo bocejo, o qual sua mãe repreenderia se houvesse ocorrido sobre a mesa.
Encarou o ambiente com a mesma indiferença anterior.
Seu pai, à ponta, lia o Profeta Diário, parecendo realmente interessado enquanto tomava sua habitual xicara de chá com leite. Sua mãe escrevia alguma carta enquanto molhava seus biscoitos amanteigados no lente quente. O elfo doméstico limpava a louça incessantemente enquanto seu irmão comia como se não houvesse amanhã.
Seu irmão era o desastre de sua vida e, para melhorar seu dia, foi o primeiro a notar a presença do mais novo no cômodo.
— Olha ele ali! Se não é o pequeno Reizinho — o mais velho proferiu as palavras com um tom irônico, chamando a atenção da mulher para o mais novo.
— Régulo, meu querido! — a mulher veio rapidamente em sua direção, dando-lhe um beijo na testa e acariciando suas madeixas negras e cacheadas. O Black sorriu amavelmente para a mãe, o que a deixou ainda mais encantada.
— Está nervoso? — seu pai lhe perguntou, sem dar-se ao trabalho de desviar os olhos do jornal até o filho.
— Claro que não. — Régulo respondeu com um tom de desdém, enquanto sentava-se à mesa.
— No entanto, eu estou. — Orion Black disse, agora encarando os olhos do filho profundamente. — Estou nervoso com a simples hipótese de que minha segunda prole também desonre seu próprio nome e, comportando-se como um traidor sujo de seu próprio sangue, habite outra casa que não seja a Slytherin. — Orion Black finalizou sua fala quase cuspindo suas palavras enquanto encarava o filho mais velho, sentando despojadamente em sua cadeira.
Sirius Black, que mantinha o queixo levemente baixo, olhou findo nos olhos do pai e sorriu com escárnio, dando uma risada irônica em seguida. Orion Black fechou o punho sobre a mesa.
— Não se preocupe, papai, é claro que o pequeno reizinho — o mais velho disse sarcasticamente — não irá lhe desapontar dessa maneira.
Régulo, já acostumado com a implicância diária entre Orion e Sirius, continuou a tomar seu café como se o recém acontecimento não houvesse existido. Não importava qual fosse o assunto, sempre terminava em Orion e Sirius se alfinetando, graças ao fato que Sirius Orion Black é um grifinório e todos os outros Black são sonserinos.
— Eu sei que não irá. — Orion disse olhando fixamente para Régulo, como se procurasse alguma hesitação do filho mais novo. Régulo sustentou o olhar do pai e apenas acenou com a cabeça, de forma afirmativa.
O resto do café foi silencioso, assim como o caminho para a Estação de King Cross.
Quando Régulo atravessou a plataforma, deu um leve abraço em sua mãe, prometendo mandar cartas regularmente, e então foi se despedir do patriarca.
Orion pôs a mão sobre o ombro do filho e, olhando em seus olhos, sussurrou.
— Toujours pur.
— Toujours pur. — Régulo repetiu o lema da família Black e, pegando sua coruja, se dirigiu à maria fumaça vermelha que se estendia pela estação. Ao embarcar, não olhou para trás.
/*
A viagem foi tranquila, Régulo passou-a na cabine com suas primas, Bellatrix, Andrômeda e Narcisa, e alguns aliados, Régulo não poderia os considerar amigos.
Chegando em Hogwarts, desviou, junto de Rabastan Lestrange, para os barcos que os primeiranistas utilizavam. O caminho foi recheado de palavras vazias em diálogos rasos.
Quando, no topo da escada, encontraram a professora McGonagall, Régulo sentiu uma pontada de nervosismo em seu interior. Obviamente, não demonstrou.
Entraram no salão e Régulo o admirou o quanto pode. Ao virar a cabeça para a esquerda, pode perceber que todas as pessoas do seu vagão o olhavam tensos. Ao virar o rosto para o outro lado, encontrou o olhar de seu irmão mais velho, que parecia suplicar algo.
Régulo olhou para frente, erguendo sua cabeça e assumindo a pose de arrogância que lhe pertencia. Era o Rei, afinal.
Poucas pessoas haviam sido chamadas quando seu nome foi proferido.
— Black, Régulo Arcturos.
Caminhou confiante até o banquinho e sentou-se, sentiu então sua visão ser coberta pelo chapéu.
"Olha o que nós temos aqui, o último Black de sua geração". Régulo achou engraçada a maneira que o chapéu pareceu realmente ansioso por estar ali. "Ah sim, jovem Black, desde que seu irmão contrariou todo o histórico dos Black eu estou ansioso por te conhecer." Régulo revirou os olhos, no final tudo sempre voltava ao fato de que Sirius era um maldito grifinório. "Ah, então não gosta que seu irmão seja o Centro das atenções? Entendi, entendi, você quer ser grande e mostrar para todos o que você é capaz de fazer. Porque você sabe que é capaz de muito. Tem um coração bom, eu vejo, não deixe que o convertam, jovem Black. Eu sei o lugar perfeito para você!"
Régulo trancou sua respiração, esperando ouvir o que queria, e precisava, ouvir.
— SONSERINA!
A Mesa da Sonserina se ergueu em aplausos, Régulo sorriu verdadeiramente e seguiu seu caminho até chegar perto de suas primas. Seu olhar acidentalmente cruzou com o de seu irmão e ele parecia triste. Régulo desviou os olhos e focou em sua conversa com Bellatrix, sua prima louca, mas ainda assim, sua preferida.
/*
Na manhã seguinte, pediu para que Bella o levasse ao corujal antes do café. Pegou um pedaço pequeno de pergaminho e o endereçou ao Ministério, onde seu pai trabalhava.
"Junto dos nossos, no meu lugar de direito."
Foi tudo que escreveu.
Fale com o autor