Sleepover
1 Capítulo Único
Notas iniciais

“Come on, let's sleep in my bed,
Can I just be in my head with you?”
— Hayley Kiyoko
“Trate bem seu convidado.” Tenji ia garantir que a vontade de Rina seria cumprida.
Shinki não tinha dito uma palavra, nem em protesto ou aprovação, embora o semblante atrevesse o primeiro. Desde o momento que Tenji conseguiu trazer sua equipe até à Suna para a conveniente pausa de descanso na casa dele, todo o cansaço tinha dissipado.
Algo lhe dizia que Shinki sabia disso.
A noite já caía pelo deserto e, após o jantar, todos os seus companheiros pareciam prestes a adormecer. O que tornou mais curioso ver Shinki ser o primeiro a se levantar e ir em direção ao quarto.
Tenji seguia-o pelos corredores, estavam partilhando o quarto naquela noite; uma sorte na qual se deleitava.
Amigos de infância se acostumavam a partilhar a casa, mesmo assim, o coração palpitava a cada oportunidade. Disparava com o tempo, com o entender e lapidar de seus sentimentos.
— Já está indo dormir? — perguntou Tenji ao alcançarem a porta.
— Já parou a brincadeira com a sua colega?
Tenji sorriu perante o ciúme óbvio, desejando confirmar a sua natureza. Seguiu-o para dentro do quarto, se havia alguém que não precisava lutar pela sua atenção, era ele.
O quarto era iluminado pelo luar ardente do deserto, uma visão de roubar o fôlego, ainda mais dentro do lugar onde Shinki se refugiava.
Aquele era o lugar dele.
Pintado pela escuridão e uma organização impecável, era possível destacar quase todos os móveis e objetos contraluz, assim como, obviamente, a silhueta quieta de Shinki à sua frente.
Tenji ficou imóvel o observando, pensava no que dizer ou tentava adivinhar no que ele estava pensando.
Olhou em volta, haviam algumas plantas adornando o parapeito da janela, Shinki parecia garantir o seu bem estar no meio do ambiente infértil. O fez sorrir.
Só ali notou no quão pequeno era aquele quarto.
— Eu vou dormir onde?
Shinki finalmente se virou para ele, olhando-o como se não estivesse perguntando coisa com coisa.
— No seu saco de dormir.
Tenji franziu a testa.
— Se fosse para acampar não teríamos parado aqui. — Riu sozinho.
— Vocês já estão ficando aqui em vez do meio do deserto. É suficiente, eu acho. — A afirmação saiu estranhamente sincera.
— Sua mãe não iria ficar feliz. — Tenji encolheu os ombros. — Eu acho.
— O que quer dizer com isso?
Ele riu, o sentindo aproximar-se com aquela carranca ciumenta que desejava causar um dia.
— Se eu lhe falasse que está me fazendo dormir no chão, acho que iria levar um ape... — O olhar de Shinki escureceu tão rápido que o silêncio surgiu por si.
— Nem pense.
Tenji assentiu solenemente e, com um pulo nada sutil, deixou as costas afundarem na cama do amigo. Shinki arregalou os olhos, o fitando com o queixo baixo. Tenji agradeceu estar deitado, não sabia se iria aguentar muito tempo erguido com ele o olhando daquele jeito.
— Ser filho do Kazekage te dá um ótimo colchão, hein? Deve ser por isso que o Boruto tem tanta energia.
— Você vai dormir? — Shinki parecia ignorar a conversa.
— Eu acho que sim...
— O lado da parede é meu.
Não conseguiu pensar, muito menos observar onde ele tinha ido. Num segundo, Shinki tinha saído do quarto e o deixando sozinho processando o quanto seu plano havia se virado contra ele.
Não era suposto aquele ser o resultado, ele fazia ideia do que estava falando?
Encostou-se na almofada, deixou o lado da parede, que ele tanto queria, livre. Era tão estreito, no que ele estava pensando?
Shinki regressou a meio dos pensamentos, Tenji já estava vestido para dormir desde que tinha se instalado. Shinki, por si, passou a maior parte da tarde fora de casa, mal participou na conversa entre ele e os colegas de equipe.
O silêncio sufocava-o, estava prestes a explodir, recolhendo estilhaços de palavras que o fossem distrair de tê-lo deitado ao seu lado; e persistia uma vontade de vingar-se por virar o plano contra ele.
Shinki rodou o corpo em direção à parede.
— Boa noite. — Tenji soltou um riso. — Qual é a piada?
— Você consegue dormir só com esse lençol?
Shinki voltou-se para o fitar, a testa enrugada.
— Do que está falando? — Para além do lençol, uma manta grossa o cobria, aprofundando a confusão.
Claro, até Tenji puxá-la para o seu lado.
O sorriso imaturo escondeu-se com o lençol, por um momento, sentindo-se normal e não totalmente à mercê daquela proximidade.
Shinki olhou-o, inexpressivo, mas conseguia ver a divisão entre a incredulidade e o sono. Não estava irritado, por alguma razão. Tenji apenas via a expressão irritada de Shinki em vestígios, algo alheio dirigido aos outros, nunca a ele.
Era razão daqueles surtos de coragem entre o nervosismo iminente.
— Está com tanto frio assim?
Tenji mordeu o lábio, por que raios ele estava se preocupando? Era suposto se irritar! Sair daquela cama antes que seu coração parasse de bater!
Ele o olhava sério, como sempre, não parecia tão incomodado com o fato de apenas um lençol o cobrir pelo resto da noite. Tenji sabia que no deserto fazia frio de noite, pelo menos era isso que se lembrava ou diziam, pois, naquele momento, estava demasiado quente para verificar.
— Não... mas essa manta é bem fofa. — Shinki o olhou por mais alguns segundos antes de encolher os ombros.
Depois voltou a deitar-se de costas para ele. Tenji sentiu que pôde respirar por alguns segundos, largando a manta que não acreditava não ter rasgado nos últimos momentos.
— Ah! — berrou quando o olhar finalmente focou-se numa coisa além do garoto a seu lado.
Um vulto se formava na escuridão, flutuando por cima dele e bem na frente de seus olhos, Tenji ficou boquiaberto até perceber que o casaco característico do amigo agora o cobria como substituto da manta roubada. Tenji encostou-se na cama, como raios Shinki parecia tão tranquilo?
Certo, poderia começar porque não sentia o mesmo.
Mesmo assim, pelo que se recordava do amigo, ele nunca fora o mais aberto a partilhar o que quer que fosse, então não entendia como estava tão relaxado partilhando a cama. Como Tenji iria conseguir dormir ali sem o irritar ou correr para fora dela?
— Isso... é areia, não é?
Shinki suspirou.
— De aço, sim. — Sempre soava orgulhoso ao mencioná-lo.
— Como isso é confortável?
A pergunta era verdadeiramente curiosa, mas começar uma conversa desnecessária e recheada de perguntas idiotas não era só uma estratégia, como puro instinto.
— Por cima do lençol não é tão mau assim. — Shinki era sempre tão paciente com ele, ridículo. — Por que você ainda não se deitou?
Engoliu seco quando viu Shinki agora virado na sua direção, o queixo erguido para fitá-lo. Estava escuro, mas ele conseguia distinguir sua expressão perfeitamente séria, não entendendo a agitação dele, sem um pingo de irritação.
— Me assustei com areia voando do nada. — Shinki suspirou semi divertido, pelo menos foi assim que Tenji interpretou.
Shinki continuou olhando-o, quase como uma ordem, e Tenji deixou o tronco deslizar para sua morte ao deitar-se. Estavam demasiado próximos e a culpa era inteiramente dele, por que raios tinha feito aquilo a si mesmo?
Shinki iria achá-lo um idiota para o resto da vida.
Quando as costas se colaram ao colchão, lá ficaram. Estático e com o olhar vidrado no teto. Não conseguia virar o rosto um grau. Sua vontade era de enterrar a cara na almofada ou que magicamente uma desculpa perfeita se fabricasse para ir dormir noutro lugar.
Claro, se seu cérebro funcionasse ele nem estaria ali.
Respirou fundo, recuperando a mobilidade, Shinki tinha fechado os olhos, mas ainda não estava adormecido. Tenji sabia disso porque seu coração não tinha disparado de vez.
Fitou a areia flutuante por cima dele, ainda tinha sua oportunidade e sabia que provavelmente seu amigo iria não querer falar com ele para o resto da vida.
Tenji tinha que sobreviver de uma maneira ou de outra.
Não era como se fosse irracional, quem mais ele tinha visto na vida dormindo coberto por areia flutuante?
Deixou o dedo relutar até à manta improvisada e tentou tocar-lhe, parecia escapar, talvez fossem as mãos trêmulas não querendo por erro tocar em Shinki e aperceber-se da proximidade impossível em que se encontravam.
— Isso aquece de verdade?
Shinki soltou um murmúrio em protesto, lúcido o suficiente para Tenji saber que não o estava acordando.
— Sim… — Ele abriu um pouco os olhos, fazendo Tenji estremecer com o olhar tão próximo. — Você não vai se tapar?
Só aí notou como a paralisia anterior o tinha impedido de colocar qualquer lençol além da cintura. Shinki tinha a testa enrugada, profundamente estranhando o comportamento dele, porém não ao ponto de o questionar nem de parecer desconfortável.
Era difícil explicar como Shinki o tratava, era o motivo de se encontrar naquela situação.
— É... Uh… — Respirou fundo, se cobrindo. — Essa parece mais divertida.
Por alguma razão, era como se Shinki nem conseguisse ler a brincadeira, ou talvez lesse demais.
Ele suspirou, Tenji então notou como o véu negro se esticou para o seu lado, cobrindo-os aos dois. Duas camadas por baixo, Tenji não podia dizer que se sentia muito mais acolhido.
Mais calor era realmente a última coisa que seu corpo precisava naquele momento.
Não conseguiu impedir a euforia no peito sabendo que estavam cobertos pela mesma coisa. Shinki tinha controlado aquele pedaço de areia apenas para os dois.
Fez sua garganta secar.
— Tenji, vá dormir.
Ele enrugou a testa, estranhando a razão de Shinki o pedir. Claro, sem ser o fato de ainda estar acordado e obviamente inquieto. Shinki provavelmente conseguia contar os segundos até à próxima brincadeira e seu sono não estava afim.
Mesmo assim, era precisamente o que Tenji queria e precisava, puxá-lo para fora daquela cama o mais rápido possível, mesmo que demorasse. Tinha que haver uma maneira dele conseguir irritá-lo até aquele ponto, certo?
— Só estava pensando que... no deserto faz muito frio à noite, não é?
— Sim…
— Ah... é estranho, né? Tipo, calor de dia e depois fica muito… — A pele arrepia-se ao deixar os olhos vaguearem para Shinki atento a seu lado. — frio.
— Você continua com frio, Tenji?
Ele engoliu seco, frio? Ele? Quem lhe dera, a última coisa que sentia naquele momento era frio, na verdade, esquecia-se da sensação. O que era ter frio, mesmo? Não fazia ideia, sentia o suor escorrer na testa e esperava que sua franja fizesse o trabalho de escondê-lo, ao mesmo tempo, preocupava-se com seu precioso cabelo frisar na umidade.
— Eu?
— Não tem mais ninguém aqui. — Eu sei! É esse o problema. Tenji engoliu.
Shinki continuava olhando-o. Demasiado perto. Demasiado atento. Também parecia cansado.
— Ah... não, eu fiquei bem depois de roubar sua manta. — Shinki revelou o fantasma de um sorriso.
— Então... — Tenji sentiu a tensão apertar naquele silêncio. — Xiu.
O pedido fê-lo arregalar os olhos, mas não tanto quanto a palma de Shinki sobre seus lábios. Tenji sentiu o corpo falecer contra o colchão como se o amigo estivesse o pressionando.
Qualquer pressão foi sumindo com o tempo.
Seus olhos eram a única parte que Tenji conseguia mover, fitando Shinki pelo canto deles. Ele estava adormecido, ou quase.
Mesmo que a dúvida restasse, não durou muito, sentiu a mão de Shinki deslizar de sua boca sem qualquer controle. Seu amigo remexeu-se uma última vez, não desperto.
O toque continuou caindo sobre o pescoço.
Tenji perguntou-se se Shinki sentiu seu coração parar quando a mão acabou sobre seu peito.
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