Sleeping with Ghosts
1 Capítulo Único - Fantasmas do Passado
Notas iniciais
Oioioi, gente! Conforme disse em respostas de comentários anteriores das minhas últimas fanfics, esse é o último spin off da fanfic "Dead Roses", que é minha despedida de vez dela (não é necessária a leitura da fanfic de origem para entendê-la, mas se quiser ler para entender melhor, fique à vontade).
Inspirada na música "Sleeping with Ghosts" da banda Placebo (só clicar nela em parênteses, no final da fanfic, caso queira ouví-la), ela se passa oito meses antes dos eventos de DR, quando a Lisa ainda namorava o Yuzuru Hanyu na trama.
Sobre os avisos de gatilho: já aviso de antemão que as menções a eles não estão relacionados a Lisa ter sofrido eles. Conforme vocês forem lendo a fanfic, vocês entenderão o motivo deles estarem aí.
Sem mais enrolação, boa leitura ^^
Em uma ordinária tarde de verão, dentro de um luxuoso quarto em uma mansão localizada no nobre bairro de Gangnam, Coreia do Sul, com Sleeping With Ghosts da banda inglesa de rock alternativa Placebo como trilha sonora, a popular integrante do grupo idol de Kpop Blackpink, Lisa Manoban e o respeitado tetra campeão da patinação artística Yuzuru Hanyu tinham uma conversa inevitável sobre os fantasmas do passado que carregavam até o presente momento; afinal, eles namoravam há dois meses e quanto mais sincera a relação, melhor para ambos.
A idol ouvia atentamente Yuzuru falar sobre todos os dissabores do seu passado: desde quando ele e sua família perderam tudo em um terremoto, passando pelas inimizades no seu meio, o conservadorismo da família e meio de trabalho que obrigavam-no a esconder sua bissexualidade até o amor intenso pelo ex-namorado, o também patinador Javier Fernandez, a revelação de que ele apenas gostava de Lisa, pois os seus sentimentos de amor ainda eram para Javier e a promessa de fazer a relação deles dar certo. Depois disso, eles olharam o Instagram da idol, cheio de xingamentos contra ela, desde que assumiram o namoro no mês passado. Especificamente as acusações da cantora usar sua orfandade como estratégia de vitimismo para conquistar Yuzuru ou até mesmo dar o “golpe do casamento” para ficar ainda mais rica:
— Já enviei os prints de comentários de ódio para a minha agência acionar a polícia e eles tomarem as devidas providências.
— Lali, não importa o que eles digam, só nós sabemos o que se passa em nossos corações para gostarmos um do outro. — respondeu o patinador. Logo em seguida, ele deu um selinho em uma Lalisa.
— Fora que… assim como você tem os seus fantasmas que ninguém precisa saber e agradeço por você confiar em mim a ponto de dividi-los, eu também tenho meus fantasmas que ninguém precisa saber e eu só divido eles quando eu quero, como agora. Peço, por gentileza, que não tenha pena de mim ao sabê-los, pois foram infortúnios da vida gerados por uma sociedade doente.
— Farei o que pedir, mas dependendo do que você contar, por favor, não peça para eu não chorar. Minhas lágrimas serão a forma de demonstrar minha empatia aos seus fantasmas do passado, ou como diria a própria música, os fantasmas cujos quais dormimos. Pode começar. — finalizou Yuzuru.
Lisa respirou fundo, deu um gole na garrafa de vinho tinto que estava aberta na cabeceira da cama, e começou:
— Como falei para você antes, durante muito tempo no orfanato, eu senti raiva pelos meus genitores terem me abandonado, por eu nunca conseguir ser adotada até que, na época da formatura, os pais da Tzuyu se ofereceram para me ajudar a encontrar os meus pais biológicos. Eles contrataram detetives particulares para descobrir o meu passado e infelizmente a verdade era pior do que eu poderia imaginar… Vou contar desde o início, a família da minha genitora era bem pobre mesmo, meu genitor era vizinho da minha genitora e ele era obcecado por ela desde que ela era pirralha, mas a minha genitora nunca teve desejo por ele, afinal ele era bem mais velho do que ela. Até que um dia, quando minha genitora tinha quatorze anos e voltava da escola, meu genitor levou ela à força até a casa dele, a estuprou e deixou ela grávida de mim. Sim, é exatamente isso que você está ouvindo, eu fui gerada de um estupro…
Yuzuru não sabia como reagir ou o que pensar ao ouvir isso. Só conseguia compreender os motivos da namorada esconder isso, a mídia não precisava mesmo ouvir algo tão pessoal; algo que ainda fazia Lalisa chorar muito enquanto contava. Continuou a ouvi-la:
— Depois do crime, ela contou o ocorrido para os pais, mas eles acharam que foi tudo culpa dela, por ter voltado mais tarde da casa coleguinha de escola e principalmente por não ter percebido “os sentimentos” do meu genitor. Então, eles obrigaram ela a se casar com o meu genitor e a continuar com a gravidez – infelizmente, na minha terra natal há uma Lei na qual um estuprador, para não pegar cadeia, pode se casar com a vítima. O casamento não foi fácil para ela. Segundo o que descobri, meu genitor cometia todos os tipos de violência contra ela; desde proibi-la de falar com as pessoas até a estuprá-la mesmo grávida. Nove meses depois, eu nasci, porém ela não aguentou mais tamanho martírio. A minha genitora teve uma crise de ódio e matou meu genitor, toda a família dele, a própria família inteira, depois se matou e assim eu fiquei órfã, mas antes dela matar geral, ela me deixou na porta do orfanato onde fui criada. O meu caso, na época, ficou famoso como a “tragédia Manoban”, mas com o tempo foi “esquecido”. Contudo, lá também tem uma crendice ridícula que crianças órfãs filhas de estupro são amaldiçoadas, por isso, eu nunca consegui ser adotada. Assim que a família que tinha interesse por mim sabia do meu passado, eles desistiam na hora da minha adoção. Por causa disso, o povo lá no orfanato (tirando meus amigos) tinha medo de mim e quando eu perguntava sobre o meu passado para o diretor do orfanato ou os cuidadores, eles simplesmente falavam: “Você não tem passado. Te deixaram aqui na porta e nunca soubemos o porquê”.
Hanyu continuou a ouvi-la em silêncio:
— No início, eu tive muita raiva. Raiva do povo do orfanato, exceto meus amigos e o meu ex, pois eles tudo isso junto comigo, raiva dos meus genitores, raiva de todo mundo. Entretanto, quando eu fui buscar respostas sobre o porquê crianças como eu, quando órfãs, eram consideradas “amaldiçoadas”. Respostas sobre o porquê eles permitiam essa Lei de estuprador casar com sua vítima, o porquê minha genitora teve que sofrer tudo o que sofreu. Aí nessas buscas, obtive todas as respostas que precisava: eu não tive culpa de nada e muito menos minha genitora. A culpa é dessa sociedade doente que acha que é correto um cara pensar que uma menina é propriedade dele, é dessa sociedade que acha que se a menina criou peito, cintura e quadril, já pode transar, é dessa sociedade que acha que a culpa de um estupro é da mulher, que acha que o homem é superior a mulher e põe as poucas conquistas delas como “igualdade”. O machismo e o patriarcado indiretamente não me permitiram ter noção de convívio familiar consanguíneo, mataram minha genitora e tudo aquilo que, segundo essa sociedade, tinha potencial para ser chamado de “família” e matam diariamente outras mulheres oprimidas por aí. A partir dali, procurei instituições que trabalham para mudar a realidade dessas mulheres vítimas de violência e passei a colaborar com elas, me juntar na luta e fazer minha parte. Sou feminista não por status, textão em redes sociais ou algo do tipo, sou feminista para que nenhuma mulher no mundo sofra o que minha genitora sofreu.
Yuzuru manteve-se em silêncio, apenas ouvindo atentamente a namorada:
— E o resto… são todos os fantasmas que acho que dá para compartilhar com o mundo, pois fizeram parte da minha história para chegar até onde cheguei. Na época de colegial em Bangkok, toquei nas ruas a troco de uma garrafa de água, comi restos de comida que o povo na escola jogava fora, porque não tinha dinheiro para comprar no refeitório e o orfanato não tinha como me fornecer comida, fiz bicos de barwoman e barista para juntar grana e realizar meu sonho de ser idol; nos meus tempos de trainee, eu trabalhei como barwoman, caixa de boate, garçonete, atendente de telemarketing, faxineira, tocava na noite, eu literalmente me virava para me manter em Seul e foi nessa época em que conheci Yuuri Katsuki, justamente na pior fase da minha vida, quando eu ganhava uma merreca em telemarketing e atendia duas mil ligações, além de treinar. Estava quase para desistir de tudo, na época, quando vi o vídeo dele fazendo a maquiagem do Jaibo, do mangá Litchi Hikari Club (inclusive meu apelido virtual da época surgiu dele), vi as outras maquiagens dele, pois peguei a época que o canal do Yuuri era público, comentei nos vídeos, mandei meu desabafo para ele e a partir da resposta maravilhosa dele, ele ficou praticamente no mesmo patamar de ídolos mor igual a Björk, a Lauryn Hill e o 2NE1. Continuei a luta até eu, de fato, conseguir estrear na indústria o resto… você e todos sabem.
Hanyu apenas abraçou a namorada e eles deixaram as lágrimas rolarem, pois sabia que palavras, naquele momento, eram desnecessárias.
“(…) Esta visão de mundo
Nos denuncia ao compromisso
Quão boa é a religião
Quando é uns aos outros que desprezamos
Dane-se o governo
Dane-se sua matança
Danem-se suas mentiras (…)”
(Sleeping with Ghosts — Placebo)
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