Sleeping With Ghosts
1 Because Im surrounded by them. Thousands of them.
Notas iniciais
Dedicada à minha querida e fofa Amanda! ♥ Obrigada por ter me mostrado aquela música! Espero que a história tenha ficado à altura dela!
Agradecimentos especiais à MelKeigo que tão gentilmente betou essa fanfic para mim ontem! Obrigada mesmo, Mel! ♥
Obrigada por ler e bom proveito :)
– Você! – A criança magrinha apontava o dedo para frente, para o outro igual a si, mas num estado bem melhor, mais vívido. – Você me matou.
— Eu não... – Tentou se justificar, mas a criança não ouvia.
— Você me matou! – Rosnou. – Como ousou? Nós não havíamos prometido? Daquela vez... – Ele baixou o rosto cavernoso para, logo em seguida, voltar a olhar no fundo dos olhos do outro, aquelas íris que um dia foram azuis hoje cinzas, quase inexistentes. – Nós prometemos que iríamos ficar juntos! Que iríamos superar aquilo! Por quê?
— Eu não... – O outro tentou novamente, mas era em vão dialogar com a criança.
— Por quê? Por quê, Fay, por quê?!
Por que você me matou?
Nós não ficaríamos juntos?
Você é a sombra do egoísmo.
Aquele que traz o mau augúrio.
O gêmeo amaldiçoado.
É você, Fay.
V-O-C-Ê!
Acordei num espasmo, a respiração oscilante, o coração acelerado. Olhei para todos os cantos, as unhas arranhando firmemente o tatame, eu apertando mais o corpo contra ele, como se aquilo fosse me proteger de alguma forma.
Fechei os olhos, puxando o ar com mais força, numa tentativa de me acalmar. Não funcionou. Aliás, só piorou a situação toda.
Senti a bebida virar no meu estômago, a sensação de ânsia subindo por todo o meu esôfago.
O tempo que eu tive foi somente para me virar, deslizar a porta e tentar me atirar para a beirada da varanda de madeira, antes que tudo voltasse por onde entrou.
A sensação que eu tinha era de que meu estômago iria sair pela boca.
Apesar de tudo, a sensação não me era tão estranha, muito menos rara. Acontecia com uma frequência bem assustadora.
E a culpa era minha mesmo. Não adiantava querer negar, eu sabia que era.
A minha surpresa daquela vez foram as mãos grandes e fortes que apoiaram meus ombros como uma forma de amparo.
Senti meu estômago virar ainda mais por conta disso, colocando para fora até o que não havia ali dentro.
- Oe, calma. – A voz dele encheu o ar e, como se suas palavras fossem absolutas, eu consegui parar, respirando em jorros. – O que aconteceu?
- Na-nada. – Foi o que eu respondi, limpando o fio de saliva que escorria pelo canto da boca. – Não foi nada. Eu acho que abusei na bebida, só isso.
Era mentira e, pela expressão que o moreno me fizera, estava bem claro que havia notado. Mas eu não iria contar a verdade a ele.
Se pudesse, não contaria ela a ninguém.
Se pudesse, eu a deixaria enterrada, para que mais ninguém soubesse.
A não ser eu mesmo. O único pecador.
A escória.
- Você está bem mesmo? – Kurogane perguntou mais uma vez e eu sorri, aquele sorriso falso que ele tanto odiava.
- Estou bem, Kuro-sama. Não precisa se preocupar. Agora, se me der licença...
Tentei me levantar, mas acabei cambaleando para trás, sendo amparando novamente por seus braços fortes. Afastei-me assim que consegui, olhando-o espantado.
O moreno me fitava de uma forma repressora, questionadora. Desviei os olhos para qualquer canto que não fosse sua face, pois eu não conseguia encará-lo.
Aliás, como encarar alguém como ele? Justo, honrado, fiel... Verdadeiro.
Tão diferente de mim.
- O que você vai fazer agora? – Ele questionou.
- Vou deitar de novo. – Foi o que me resumi a responder com o rosto baixo, entrando novamente no quarto, sendo seguido por ele.
Nós estávamos deitados em cantos separados do quarto. Só havia um único futon e nenhum de nós acabou usando-o, dormindo pelo tatame mesmo. Ao redor, várias garrafas de bebidas estavam espalhadas, todas vazias.
Sorri bem pequeno, lembrando como foi divertido atiçar e incomodar o moreno enquanto nós bebíamos. Mas esse pensamento logo desapareceu.
Naquele momento, tudo o que predominava eram aquelas assombrações. Aqueles fantasmas.
Os meus fantasmas.
Deitei-me num canto qualquer do quarto, encolhido, leves espasmos assolando o meu corpo, a brisa fria que entrava pela porta semi-aberta cortando a minha pele.
Pior do que aquela sensação de mal estar era o frio.
Fechei os olhos, apertando os dedos no kimono, sentindo as unhas quase na pele.
Tudo só piorou quando eu fiz isso. Fechar os olhos, tentar dormir... Para a maioria das pessoas isso era algo corriqueiro... Para mim não.
Um pecador que nem eu não dormia.
Era assombrado.
Assombrado por todos os seus fantasmas.
Abri novamente os olhos, suando frio, a tremedeira só piorando conforme o tempo passava. Aos poucos as palavras do sonho voltavam até minha mente, ecoando sem parar, parecendo se multiplicar.
Você é a sombra do egoísmo.
Aquele que traz o mau augúrio.
O gêmeo amaldiçoado.
Sentia meus olhos se encherem de lágrimas, a vista começando a ficar turva. Eu... Não podia chorar. Não enquanto ele estivesse por perto. Enquanto alguém estivesse por perto. Eu não tinha esse direito.
Direito de ser consolado.
De ser amado.
Querido.
O único direito que eu tinha era o de sofrer. Sofrer por todos os pecados que eu havia cometido. Contra meu irmão, contra Ashura-ou, contra aquelas crianças...
O pecado de eu ter mentido para ele.
Ele, que era tão honesto, tão honrado, tão...
Tão diferente de mim.
Quando eu estava a um fio de desabar, o inesperado aconteceu mais uma vez. Os braços dele tocaram meu ombro, delicados da maneira que conseguiam.
- Oe, levante-se. – A voz do moreno soou um pouco próxima do meu ouvido. Virei-me e pude ver que seu rosto não estava tão longe do meu. Ele arregalou levemente os olhos, provavelmente vendo as lágrimas presas aos meus. Engoli em seco, com medo de que ele perguntasse algo. – Vamos, levante-se. – Ele pediu novamente e se levantou também.
- O-o que aconteceu, Kuro-sama? – Perguntei, a voz oscilando levemente. Eu estava a um passo de colapsar, mas não podia deixar isso acontecer na frente dele.
- Não fique aí atirado ao relevo. Eu desdobrei o futon, vamos deitar lá. – Ele disse com sua voz grave, o tom baixo, levemente sedutor.
- Tudo bem pra você? Dividir o futon, digo. – Pisquei, surpreso. Ele coçou a nuca, parecendo incerto.
- E o que teria de mau? Somo companheiros de viagem, afinal. Nós já não dividimos um quarto?
- Um quarto é uma coisa, agora um futon só...
- Se você não calar essa boca e ir logo pra lá, eu mesmo te levo. Nem que eu tenha de dormir no chão. – Crispou, surpreendendo-me mais uma vez.
Ele... Estava preocupado comigo?
- Kuro-sama, não precisa...! – Tentei contornar a situação, mas ele estreitou a vista, ficando realmente irritado.
Esperei por alguma resposta mal educada, mas ao invés disso ele me pegou, atirando-me sobre seu ombro e começou a caminhar até o futon.
- E-Ei, Kuro-sama, isso não tem graça. Me ponha no chão! – Retruquei, mas ele sequer deu bola. Assim que atravessou o quarto, me largou no futon. – Ai... – Foi o que eu consegui replicar, ainda meio desnorteado com a atitude dele.
- Agora me dê espaço, vamos. – Ele praticamente ordenou. Sorri daquela forma corriqueira, abrindo o espaço que ele havia pedido.
Ele se ajeitou de costas para mim, tentando não ocupar muito espaço – o que era meio difícil, já que ele era uma porta com mais de um e noventa de altura. Fiz o mesmo, tentando não ficar muito encostado nele, receoso de incomodá-lo.
O vento agora não chegava até mim, mas as vozes continuavam. Os fantasmas... As minhas eternas companhias. Eles vinham sussurrar à minha orelha todos os meus pecados. Bastava eu fechar os olhos e eles estavam lá, sorrindo para mim.
Sorrisos falsos.
Sorrisos sádicos.
O doce prazer de me ver sofrer.
Os espasmos continuavam, mesmo sem o vento. Remexi-me um pouco, tentando ver se aquela sensação incômoda amainava. Era em vão.
Tudo que eu tentava era em vão. Remar contra a maré era quase impossível.
Continuei me remexendo, de olhos fechados, tentando fazer os fantasmas sumirem dali. Aquelas palavras que ecoavam... Queria afastá-las, queria mandá-las para longe.
Apenas uma vez eu queria ter uma boa noite de sono.
Era um pedido grande demais para um pecador?
- Oe. – A voz de Kurogane se vez ouvir mais uma vez. Concentrei-me nela para tentar ignorar as assombrações. – Vire-se.
- He-hein? Por que me pede isso, Kuro-sama? – Congelei. Provavelmente ele estava irritadíssimo com as minhas viradas frequentes e, estando tão próximo, eu não teria como escapar de uma possível agressão por parte dele.
- Vire-se. – Ordenou.
Engoli em seco e respirando bem fundo, fiz o que ele me pediu. A primeira coisa que eu vi quando me virei foram seus olhos vermelhos.
Ah, eu os achava lindos. Eram penetrantes e determinados como os de um falcão.
Mas olhá-los tão de perto assim me assustava. Assustava pois eu tinha certeza que ele conseguia ler além de mim, além daquela farsa que eu era.
Tinha certeza que ele via o meu pecado.
E isso me assustava mais do que qualquer outra coisa.
Estava prestes a me virar novamente quando eu senti os braços fortes passarem em volta do meu corpo, trazendo-o para próximo do seu, minha face se afundando no peito largo e bem trabalhado. Arregalei os olhos, sentindo meu rosto queimar de vergonha.
O que ele estava fazendo?
- Vamos ver se assim você fica quieto. – Foi o que Kurogane resmungou, mas não parecia realmente irritado.
Fiquei respirando tenso por alguns minutos, meus músculos todos duros, surpresos com a ação do moreno. Depois de um bom tempo, quando eu tive a certeza de que ele não me largaria, resolvi relaxar e me acomodar da maneira que podia próximo ao corpo dele.
Eu não tinha escolha, afinal.
Pouco a pouco eu senti a sonolência chegar, o doce perfume que o corpo dele exalava inundando minhas narinas, deixando-me extasiado. O calor de seu corpo perto do meu era como uma canção de ninar cantava por uma bela voz. E a única coisa que eu ouvia era o barulho dos grilos no jardim.
A criança magrinha havia retornado. Olhava para o outro igual a si, mas num estado muito melhor, mais vívido, apontando o dedo acusadoramente mais uma vez.
— Você! – Crispou. – Você me matou. Você me traiu!
— Eu não... – Ele tentou dialogar novamente, mas a criança magrinha era acusadora e impiedosa.
— Você é a maldição. Você é o mau augúrio. Por que me matou, então? A sua existência é a errada!
A sua existência.
Errada, errada, errada.
Sua existência é um pecado irremediável.
— Eu não...! – A criança sadia estava a um passo de chorar, várias vozes o acusando, mãos que surgiam de lugar algum apontando para si. – Eu não quis! Eu não quis que ele morresse, eu... Eu... – As lágrimas corriam pelo rosto alvo, as mãos pequenas presas as mechas louras, apertando, puxando. – Eu fui culpado! Mas eu... Eu...
Eu quero ser perdoado!
De repente, braços fortes envolveram a pequena criança. Ela virou-se, deparando-se com aquele que lhe era tão conhecido já há algum tempo.
— Kurogane? – Perguntou. O moreno olhava-o com aquelas íris vermelhas sempre tão indagadoras, parecendo transpassar seu corpo. – Eu... – O menino baixou a cabeça, chorando mais. – Eu não quero te contar! Não ainda. Mas... – Ele olhou para os íris vermelhas novamente. – Eu quero ser perdoado, Kurogane!
Nem você poderia me perdoar?
O moreno sorriu, um sorriso sereno, que o louro não lembrava de ter visto – ou talvez tenha visto, mas nunca fora para si. Até então.
— Você... Me perdoa, Kurogane? – Indagou, receoso.
O moreno afirmou com a cabeça e a criança, sem se conter, jogou-se em seus braços, apertando firmemente suas roupas.
E chorou.
Acordei novamente num espanto, sentindo meus olhos molhados. A primeira coisa que fitei fora o peito de Kurogane, exposto pelo kimono que se abriu durante a noite. Não via nenhum movimento sequer de seu corpo e nem uma oscilação de sua respiração.
Levei a mão até o rosto, enxugando as lágrimas antes que o moreno despertasse e as visse. Meu movimento fez com que ele acordasse, resmungando qualquer coisa que não fazia sentido.
- Pra que tão cedo? – Ele perguntou, esfregando os próprios olhos. Fitou-me, surpreendendo-se, mas logo sua feição retornou ao normal. – Aconteceu algo?
- Não. – Menti. Ele sabia, mas não questionou. – Né, Kuro-sama... Posso te pedir um favor?
- Haa? – Ele me fez aquela expressão de deboche, típica de quando não gostava de uma ideia.
- Será que... Podemos dormir assim a partir de agora? – Escondi o rosto no meio de seu peito, conseguindo ouvir quando seu coração acelerou.
- E por que você quer isso? – Sua voz era firme, mas seu peito denunciava sua possível insegurança.
- Porque é... Bom. – Foi o que eu consegui responder, agarrando-me mais ao seu corpo largo.
Porque você espantava os meus fantasmas.
Todos eles.
E, ao menos ao seu lado, eu poderia ter bons sonhos.
Porque você era a luz que meus fantasmas temiam.
Você era minha redenção.
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