Sleep Proud- Um conto de Jotaro
1 Sweet Dreams
Notas iniciais
—Papai papai! Canta aquela música de novo pra mim!
A pequena mocinha pedia enrolada em seu cobertor, Jotaro não sabia se realmente deveria cantar, a canção mais animava-a do que lhe fazia cair no sono, mas hoje em especial ele queria cantar, cantar pra ele mesmo ouvir.
Jotaro tinha acabado de passar por uma longa viagem de campo, sua cabeça estava cheia, então ele só queria voltar logo para casa e por isso escolheu voltar de avião.
Fazia tanto tempo que ele não andava em um avião, não invocava boas lembranças, em uma das suas primeiras viagens ele quase morreu em um. Aquele dia poderia o ter traumatizado, a própria viagem teve muito estresse envolvido, no entanto não foram esses sentimentos que a marcaram.
Embora ele tivesse viajando com risco de vida e com sua mãe gravemente ferida, era tudo muito simples, pois ele estava entre amigos, bons amigos... Amizades que o tempo nunca trouxe de volta.
Era tudo muito sincero, um gatilho era o suficiente para fazê-los rir mesmo diante da morte, hoje era tudo muito silêncio...Muito sozinho...Não fazia sentido correr atrás daquelas antigas sensações, seria imaturidade da sua parte, ele não é infeliz do jeito como leva a vida e ganhou muitos outros laços e responsabilidades, ainda assim isso não o impedia de lembrar com grande nostalgia daqueles dias.
Jotaro olhou para a janela e apreciou o pôr do sol, aquelas cores o fizeram ir ainda mais a fundo no passado, do dia que um belo pôr do sol era seu maior medo e eles precisavam resolver tudo antes do anoitecer.
Naquele dia não foi apenas as chamas do sol que esfriaram, Jotaro também nunca sentiria novamente o calor de presenciar uma luta de Avdol... Que droga, ele nem o viu partir, ninguém viu. Inconscientemente Jotaro acabou mordendo seu lábio levando-o a sangrar.
Jotaro sempre se sentiu confortável perto de Avdol, provavelmente pelo ar de segurança e sabedoria que ele passava, mas também por que ele não falava muito, ele não precisava, as suas atitudes já acolhiam todos ao seu redor. Eles sempre se sentiram seguros com Avdol, ele até entregou sua vida duas vezes pelo mesmo amigo.
Aquele era um grupo de homens valorosos, Jotaro sentia falta de todos. Até mesmo Iggy os ajudou na jornada como um verdadeiro companheiro, ele não tinha que ir tão longe, nenhum deles tinha, Dio era um problema da família Joestar, ainda assim todos se envolveram...
Por que? Ele ainda se questionava. Era para enfrentar um grande mal? Como forma de gratidão? Nenhuma desculpa fazia sentido, a única conclusão que Jotaro conseguia chegar é porque eram eles.... Homens de belas almas.
—Deseja um doce senhor? — Uma gentil aeromoça estendeu uma bandeja com algumas barras de cereais, ele pegou a mais próxima.
Sabor cereja.
—Yare yare...-Ele sorriu enquanto abaixava seu quepe.
Como algo tão trivial como aquilo poderia o lembrar da amizade mais preciosa que ele já teve.
—Seu idiota, você sempre foi um cavalheiro, lógico que iria bancar o herói...
Ele era um homem gentil e um dos poucos que conseguiu se aproximar de Jotaro, foi difícil não poder contar para seus pais o que aconteceu...
“-Sabe Jotaro...Eu sempre andava triste, a realidade que eu vivia era diferente de qualquer outra, a solidão apertava a minha alma...
—...
—Chegou um momento que eu desisti de alcançar os outros e abracei essa vida. Eu imaginava qual seria o sentido da minha vida, não sei se você me entende.
Kakyoin abaixou sua cabeça com um olhar que atravessava o chão fitando diretamente o seu passado.
—Bem...Agora eu me libertei do manto do desespero- Ele levantou a cabeça sorrindo- Não estou mais sozinho, já sei o significado da esperança.
Naquele dia Jotaro apenas ouvia, ele não sabia como reagir àquilo.
—Eu não me arrependo de ter vindo, eu vou proteger esse sentimento, as esmeraldas que serviam para mostrar meu reflexo melancólico agora iluminam o meu caminho. Eu não estou fazendo um favor pra vocês Jotaro, vocês que me salvaram.”
17 anos de solidão, 45 dias de amizade... Jotaro abriu mais um sorriso ao se lembrar dele, Kakyoin não iria querer ser lembrado por sua morte, mas pelos bons tempos que passaram juntos.
—Papai! — A pequena Jolyne de 3 anos disse- Canta de novo, a musiquinha dos seus amigos.
—Claro..., mas prometa que irá dormir.
—Eu prometo!
Ele deitou ao seu lado na cama e ela se encolheu até ficar bem encostada nele.
—Quando as estrelas se encontrarem...
Após cem anos, se verá um ciclo renascer.
Valentes se erguerão de novo...
Com vigor, cruzando o tempo e seus confins.
Ele cantava com uma voz suave e lenta, apreciando cada verso.
As histórias vão se encontrar
E o destino irá revelar...
Forte luz a resplandecer.
Jotaro respirou fundo, e prosseguiu:
—Stand Up. Stand Up. Stand up.
Permaneça na luz.
All Right Now. All Right Now. All Right Now!
Desferindo poder.
Break You Down. Break You Down. Break You Down.
Sua alma verá
Um espírito audaz
Jotaro foi se lembrando como Joseph compôs aquela canção e cantava com eles em noites de pouca esperança, agora aquelas letras haviam ganhado todo um novo significado.
Remanescentes destemidos
A quem o sol, severamente em luz, se mostrará.
Vão defender nosso futuro
E escrever seus nomes nas constelações.
Sacrificarão o que for
Para proteger seu amor.
O que as cartas irão mostrar?
—Papai, você está me molhando.
—Perdão minha filha... Vamos dormir.
Ele se limpou com a manga de sua camisa e acolheu melhor Jolyne com seu braço.
Tantos amigos mortos no deserto.... Será que por isso ele havia decidido viver no mar?
Ainda de olhos abertos, encarando o teto e ouvindo a doce respiração de Jolyne ele se lembrou de mais uma estrofe da letra:
O escuro está sempre a rir da minha dor,
Mesmo assim eu sigo e persigo meu temor.
No deserto que estou, cada passo que dou
Faz um réquiem surgir...
Fale com o autor