Skyrim - Das cinzas
12 Capítulo XII - Visões não vistas
Notas iniciais
Serana lançava relâmpagos, cristais de gelo, ou o que fosse contra a criatura, nada parecia pará-la, apenas retardá-la. Duncan tentou lançar fogo, mas nem isso adiantou muito: eles apenas agora tinham um gigante de metal fervente atrás deles ao invés de simplesmente um gigante de metal. Duncan tentou olhar seus arredores, para ver se algo poderia ser usado por ele, e viu um enorme arco de metal, uma versão aumentada de sua besta. Os Dwemers podiam ser uma raça cruel, mas genial.
—Serana, consegue atraí-lo para baixo das escadas? Para o portão?
—Acho que sim! – Serana jogou mais dois cristais de gelo na cabeça do gigante.
O Centurião respondeu com uma lufada de vapor quente, que quase fez Serana torrar. A vampira, porém, conseguiu ser rápida o suficiente para escapar a tempo. Ela correu, descendo as escadas, e o Centurião foi atrás. Duncan esperou o momento certo e disparou com aquela besta gigante. A flecha atravessou o autômato, mas não o parou. Novamente, ele soltou vapor quente em Serana, e dessa vez, ele acertou.
Duncan entrou em pânico. Serana gritou de dor. Tudo o que Duncan pôde pensar em fazer foi desembainhar as espadas. A partir daí, ele só agiu. Sem pensar, sem hesitar, sem pestanejar. Ele pulou de onde estava e caiu sobre o gigante, enfiando as duas espadas no corpo metálico. Não, ele não queria que aquela coisa continuasse de pé. Não depois de machucar Serana. Esfaqueou, atacou, queimou, rodopiou, desviou. Tudo era calculado. Mas nada era pensado. Ele não sentiu seus músculos fadigarem, nem doerem quando o metal de suas espadas se chocava com aquela massa de aço dourada. Não sentiu dor nem mesmo quando a criatura acertou seu ombro. Se sentiu, não ligou.
Ele era um animal. Aquilo era a presa dele. Para ele, apenas isso importava. Não, ele não ia recuar. Se recuasse, se hesitasse, ambos seriam mortos. Não estava em posição de optar. Apenas de lutar. E foi o que ele fez. Seus olhos – agora meros pingos de tinta preta num mar amarelado, como se fosse um reflexo perfeito da cor do Centurião – iam de um lado para o outro, procurando brechas e pontos fracos. Seus dentes quase formavam presas. Suas espadas eram quase que uma extensão de seu corpo, implacáveis, imparáveis. Não houve misericórdia alguma ali. Apenas um lobo solitário caçando um mamute de ouro maciço.
Quando a criatura ruiu, soltando ainda faíscas, com suas engrenagens voando para todos os lados, Duncan se permitiu parar e cair de joelhos. Mas não por muito tempo. Ele levantou e correu até Serana, que se rastejava para uma parede.
—Serana...?
As roupas dela estavam quase totalmente destroçadas e queimadas devido ao vapor quente, exceto pela agora fervente couraça de metal que fazia parte do uniforme da Dawnguard, mas esse não era o pior detalhe: seu corpo também fora terrivelmente queimado. Ela lutava para respirar. Cada centímetro de pele do corpo dela ardia de forma insuportável. Ao ver a cena, Duncan não pôde deixar de se lembrar da noite que definira quem ele era, nos cadáveres queimados, nas cinzas crepitando, do cheiro de carne tostada, da dor, do sofrimento. Ele ajoelhou ao lado dela e desesperadamente arrancou-lhe a couraça, ignorando a ardência em sua mão.
—Pelos Oito... – disse ele – Serana, há algo que eu possa fazer, qualquer coisa?
Ela tentou falar, mas não houve quase som algum. Duncan não soube se era por causa da dor ou porque sua garganta também queimara. “Vamos, idiota, pense... o que eu faço?” pensou ele “Ela precisa que eu aja rápido. O que pode curá-la?”
De repente uma ideia ocorreu. Sangue. Ele poderia usar o próprio sangue para curar Serana. Sem pensar duas vezes, arrancou a luva de couro e aço e abriu um corte em sua mão, profundo o suficiente para jorrar sangue. Colocou acima da boca do agora quase cadáver de Serana e deixou a cascata de sangue cair, pressionando a ferida. Sua visão ficou turva, e depois escureceu. Faltou ar. Ele tinha perdido sangue demais contra o Centurião, e foi burro de fazer aquilo sem pensar. Seu corpo não tinha peso. Ele não sentiu o impacto com o chão.
Seus olhos pesavam e sua visão estava turva. Há quanto tempo estivera lá? Olhou em volta e viu uma Serana, agora linda como sempre fora e já trajandoa couraça de metal leve novamente, sentada ao seu lado.
—Bom dia, dorminhoco... – ela sorriu – hora de acordar.
—Estamos... mortos? – a cabeça de Duncan latejava, sua mão doía e levantar o corpo foi um esforço enorme.
—Não... sou imortal, lembra?
Duncan olhou para a mão. Estava coberta por bandagens.
—Usei suas poções de cura e algumas bandagens no seu cinto. – Serana contou.
—Obrigado.
—Na verdade... – Serana se aproximou dele, ainda sentada e deu um delicado beijo em sua testa – eu é que te agradeço. Já é a terceira vez que seu sangue me salva de dormir eternamente.
Duncan não conseguiu conter que suas bochechas esquentassem. Serana sorriu.
—Vamos, salvador – ela disse – ainda temos muito o que fazer.
Duncan meneou a cabeça.
—Já estamos no fim de Alfland, a passagem para Blackreach deve estar logo ali na frente.
Os dois subiram o lance de escadas e viram que havia outro centurião, já destruído, talvez pela ação do tempo. Mais um pequeno lance de escadas, e havia um portão. Esse portão levava à uma pequena sala com uma mesa ao centro, uma passagem com uma escada giratória (similar ao do Mostrador da Lua de Valerica) e dois cadáveres que já estavam em estado avançado de decomposição. O cheiro era horrível.
Em cima dessa mesa de centro, feita de pedra, havia um aparato Dwemer com algo que chamou muito a atenção de Duncan. Ele tirou da bolsa em seu cinto a Esfera de sintonia e percebeu que se parecia muito com a esfera encaixada no aparato. Exceto por um detalhe. A esfera que Duncan tinha nas mãos parecia feita de... argila. A outra, era realmente mais parecida com um artefato Dwemer.
—É uma cópia. – constatou Duncan –O velho nos tapeou.
—Vamos. Quem quer que seja que já esteve aqui abriu a porta para nós.
E foi o que fizeram.
Ao descerem as escadas e adentrarem a porta, Duncan não pôde conter sua surpresa. Era um lugar surreal de mais para parecer verdade. Parecia um mundo dentro de outro. Uma caverna gigantesca com cogumelos brilhantes gigantes e outras formas de luz bioluminescente. Devido à leve neblina que havia no local, medir o real tamanho de Blackreach era difícil, mas Duncan não se assustaria se lhe fosse dito que era o equivalente a pelo menos uma das províncias de Skyrim.
A enorme besta postada logo na entrada como forma de artilharia já indicava que ali um dia já houveram Dwemer, mas dando apenas alguns passos adiante, Duncan e Serana descobriram que descendo uma pequena rampa, eles entrariam no que poderia ser a maior cidade fantasma Dwemer já vista em Skyrim.
—Isso é deslumbrante... –Serana comentou – fico contente por você estar aqui comigo para ver.
Duncan sorriu de canto. Por mais que ele odiasse admitir, esse tipo de comentário de Serana vem fazendo os dias dele desde que eles saíram em sua primeira jornada juntos, em busca de Dexion.
Aquela felicidade, porém, duraria pouco. Era uma ruína Dwemer, e como habitual em ruínas assim, o lugar havia sido tomado por Falmer. Não era uma surpresa, afinal era uma ruína no meio de uma caverna subterrânea, os Falmer não tiveram problema em se adaptar ali.
Eles tiveram que passar boa parte do trajeto andando silenciosamente, e se escondendo de Chaurus, criaturas similares à centopeias gigantes que os Falmer usam como cães de caça, e tomando cuidado para não ativar os Centuriões adormecidos lá. Levaram por volta de quatro horas para fazer todo o trajeto.
Durante o caminho, notaram que os cogumelos brilhantes pareciam sibilar quase que uma canção. Após descer a margem de um rio cuja água era opaca, eles chegaram ao elevador de acesso à Torre Mzark.
Ao subirem, notaram que a Torre parecia algo similar à uma torre militar, com um pequeno acampamento postado logo na entrada. Após passar por um pequeno corredor, chegaram à uma câmara onde haviam várias estruturas complicadas de mais para o entendimento de Duncan, com diversos cristais em cima de um complexo mecanismo, sendo que o do meio estava aberto, com um suporte. Era o Oculory. Serana deu uma boa olhada.
—O Elder Scroll... estava aqui! – afirmou ela.
—Como sabe? – perguntou Duncan
—Dá para medir, baseado no que eu carreguei e no que está com você.
—Quer dizer que a pessoa que estava em Alfland...
—Veio atrás da mesma coisa que nós.
Duncan rosnou
—Aquele velho...
—Calma. – disse Serana – Provavelmente ele não sabia.
—Eu sabia que não devíamos ter confiado em uma pessoa que não falava nada com nada. Perdemos tempo, e por nada.
—Agora já foi. – Serana suspirou. – Vamos achar um jeito de sair daqui e voltar à Winterhold, talvez aquele Orc ainda possa nos ajudar.
—Certo...
Havia um lance de escadas que levava provavelmente ao que seria usado para operar o dispositivo e, abaixo das escadas, uma passagem que levava à outro elevador. Esse elevador, por sua vez, levava à superfície.
—É bom respirar ar fresco de novo.... – disse Serana, respirando fundo.
O ar estava gelado como sempre, mas ela tinha razão. Melhor esse vento gelado que o ar abafado de ruínas com cheiro de morte.
***
Após a viagem de quase dois dias de volta até Winterhold, uma vez mais eles entraram no castelo do Colégio. Duncan estava exausto apesar de ter dormido por algumas horas numa estalagem fuleira em Windhelm, e isso era notório pelas fundas e escuras bolsas embaixo de seus olhos. Uma vez mais eles adentraram no Arcaneum, a vasta biblioteca do Colégio. E uma vez mais lá estava o velho Urag, trajando um manto amarelado e lendo um dos vários livros de seu acervo. Ao ver os dois se aproximarem, ele os saudou.
—Vocês voltaram? Espero que tenham tido sorte em sua caçada ao Elder Scroll.
Duncan tirou a esfera e o cubo de argila de seus bolsos e colocou em cima da pequena escrivaninha.
—Foi isso o que Septimus nos deu para que entrássemos em Blackreach. – ele disse, com o cansaço deixando sua voz ainda mais rouca.
—Versões de argila de velhos aparatos Dwemer? Pelos Oito... realmente o homem está fora de si.
—Talvez... você saiba onde o Pergaminho do Dragão está? – perguntou Serana.
—O Pergaminho do Dragão? – perguntou o velho Orc. – Sei, sim.
—Onde conseguimos? – os olhos dela brilharam.
—Não conseguem. – ele respondeu – Esse Elder Scroll em particular está no acervo do Colégio, e foi trazido até nos pelo atual Grão-Mestre. Na verdade, eu o encaminhei para Septimus, assim como encaminhei vocês.
—Então... ele era a pessoa que estava na nossa frente...
—Precisamos do Scroll. – Duncan afirmou. – Urgentemente.
—E para que exatamente querem um dos artefatos místicos mais poderosos e perigosos de toda Tamriel?
Duncan e Serana se entreolharam. Explicaram detalhadamente cada detalhe que sabiam da Profecia e de sua jornada até então, enquanto Urag escutava atentamente, olhando por cima de seus óculos de leitura com os braços cruzados. Quando acabaram, ele tirou os óculos e massageou as têmporas.
—E sem esse Scroll, não podem terminar de ver qual a profecia, e não podem impedi-la, certo?
—Exato. – disse Serana.
Urag respirou fundo e pegou, debaixo de sua mesa, um baú muito similar à que Valerica usava para guardar o Pergaminho do Sangue. Ele desenhou um complicado sinal no ar e o baú se abriu, revelando o Elder Scroll. Ele pegou o Scroll e o ofereceu à Serana, visto que Duncan já carregava um em suas costas, mas antes que Serana pegasse, ele advertiu aos dois:
—Depois que usarem para seja o que for, devolvam-no para mim. Posso perder meu trabalho por conta disso. E isso fica entre nós, está bem?
—Certo. – Duncan respondeu.
Serana concordou com a cabeça e prendeu o Scroll às costas usando a cinta que havia no mesmo.
—Ah... eu tinha esquecido como isso era pesado. – resmungou ela.
“Não sei do que ela está reclamando” Duncan pensou “Ela tem super força. E eu, que estou carregando essa coisa desde que saímos do Soul Cairn?”
Para o bem ou para o mal, eles haviam conseguido os dois Scrolls. Era Hora de voltar à Dexion e à Dawnguard, para acabar com isso de uma vez por todas.
—Muito obrigado, Urag. – disse Duncan. – Você foi de grande ajuda.
—Disponha . – o Orc respondeu. – Você é amigo de um Orc, e isso deve ser levado em consideração.
Duncan olhou interrogativamente para Urag.
—Durak, da Dawnguard, enviou um informe de passe-livre para você e sua amiga para todas as vilas Orcs em Skyrim. Não demorou muito para que isso chegasse até mim também.
Duncan sorriu. Ele jamais imaginou que Durak faria algo por ele.
—Ele é um guerreiro muito honrado, sem dúvida. – comentou Duncan – Foi ele que me ensinou a usar a besta.
—Com certeza é. – Urag confirmou.
Com um aperto de mãos entre Urag e a dupla, eles se despediram.
Duncan implorou à Serana que dormissem na estalagem de Winterhold antes de seguir viagem. A vampira riu gostosamente.
***
Assim que chegaram ao Forte Dawnguard, a maioria dos recrutas queria ouvir as notícias, afianl, eles estavam sumidos há mais de uma semana, segundo alguns, segundo outros, há quase uma semana. O que havia de geral era a preocupação. Eles ocultaram toda a parte de Valerica da história, e do Soul Cairn, afinal, os Dawnguard eram muito desconfiados e iam criar teorias mirabolantes e loucas. Logo, foram em busca de Dexion, que estava sentado em um dos bancas, perto da área de alimentação. O ancião por´m estava vendado, e isso preocupou Duncan.
—Dexion? – Duncan chamou.
—Ah, Duncan. – o velho respondeu – Como é bom ouvir sua voz de novo! Estava preocupado... espero que sua jornada tenha sido um sucesso.
—Foi. Temos os dois Elder Scrolls que faltavam.
—Isso... são boas notícias, eu acho. Mas eu sinto muito, meu amigo, acho que já não sou mais útil para esse tipo de coisa.
Duncan negou com a cabeça. O tom de voz transparecia descrença:
—O que houve, Dexion? Como assim, não é mais útil?
—Foi minha culpa. – ele explicou, tristemente – em minha pressa de ler o primeiro Scroll, eu negligenciei as preparações de segurança necessárias. Eu achei que poderia aliviar os efeitos colaterais, mas me enganei. E agora... – ele suspirou – estou pagando o preço.
—Então... essa venda nos seus olhos é porque você realmente ficou... – Duncan deixou a frase morrer ali.
—Cego? – Dexion completou, de forma melancólica – Sim, eu temo que sim.
—Olhe, Dexion, se eu puder ajudar, eu vou. Tenha certeza disso.
—Não há o que você possa fazer, Duncan. Agradeço a oferta, mas temos que deixar as coisas seguirem seu curso. E há sempre a chance de que eu nunca me recupere.
—Eu.... sinto muito. – Duncan disse.
—Não foi sua culpa. Como eu disse, eu fui descuidado. Mas... há ainda uma chance de pelo menos sua missão continuar. A pergunta é: quanto você está disposto a arriscar para achar o Arco de Auriel?
—Só me diga o que fazer. – Duncan disse, firmemente.
—Não posso garantir que você estará livre de qualquer ferimento ou perigo. Ficar cego pode ser a última de suas preocupações, dependendo de como tudo acontecer.
—Já passei por muita coisa para desistir agora, Dexion. Diga logo.
—Espalhados por toda Tamriel, existem lugares isolados conhecidos como Clareiras Ancestrais. Existe uma em Skyrim, na Floresta de Pinheiros. Se conseguirem realizar o ritual da Mariposa Ancestral na clareira, isso poderá trazer as respostas que precisam.
—Continue. – Duncan cruzou os braços para prestar atenção.
—Consiste em remover cuidadosamente a casca das Árvores Cantantes para atrír as Mariposas Ancestrais até você. Assim que houverem Mariposas os suficiente, elas lhe darão a segunda visão necessária para decifrar os Scrolls. Mas para manter a tradição, você deve usar uma ferramenta específica ao descascar a árvore, que é um Canivete específico. Todo Moth Priest é ensinado a realizar esse ritual, mas poucos sequer têm a chance de realizá-lo. Considere-se com sorte se funcionar contigo.
—Não se preocupe com isso, – Duncan respondeu dando um sorriso enigmático – a sorte está comigo. Eu precisaria ler os Scrolls em alguma ordem específica, ou qualquer uma está bom?
—Pelo que vi na minha Visão, o Scroll que fala do desafio aos deuses usando sangue mortal é a chave para a profecia.
—Certo. Onde eu acho esse Canivete?
—Ele estará na Clareira, se você tiver sorte.
—Pra mim é mais do que suficiente. – Ele olhou para Serana – Vamos.
O lugar mais próximo da Floresta de Pinheiros que tinha uma estrada era Falkreath. Ao se localizarem por lá, tentaram pedir informação na cidadezinha, onde apenas um senhor de idade disse saber mais ou menos onde era, e marcou no mapa de Duncan. Segundo o mapa, seguiram a estrada leste e continuaram até chegar a uma interseção de quatro vias. Seguindo a estrada nordeste e em breve chegaram a um posto avançado composto por duas torres de madeira ligadas por uma ponte, também de madeira, em pé sobre o caminho.
O lugar estava infestado de bandidos e saqueadores, mas os mesmos não representaram ameaça. Duncan conseguiu despachar os arqueiros com a besta antes que fossem vistos, e o resto dos bandidos foram eliminados de forma rápida, a ponto de sua reação ser retardada e abrir brechas suficientes para que os truques com mortos vivos de Serana abrirem caminho. Os que não foram reanimados (e viraram cinzas após o feitiço de Serana perder o efeito) serviram de alimento para a vampira. Após ela limpar o sangue de sua boca, prosseguiram por um trajeto pequeno de uma montanha marcado com uma pilha das pedras.
Após algum tempo e incessantes comentários e reclamações de Serana, a trilha de terra logo foi substituída por neve, ao ritmo que subiam. Após um curto período de tempo que para Duncan pareceu uma eternidade, chegaram à uma entrada de caverna marcada com uma pequena bandeira, com um símbolo que Duncan não reconheceu.
—É aqui. – disse Serana.
—Como sabe? Para mim, estávamos procurando uma clareira.
—De acordo com o mapa, é aqui.
—Mas isso é uma caverna, não uma clareira. – teimou Duncan
—Eu não sei, aparentemente tem vegetação ali dentro. Talvez seja o que procuramos.
Entraram na caverna escura, incertos do que encontrariam lá dentro. O único problema é que aquela caverna, apesar de ter vegetação em seu interior, era pequena, fechada e apertada de mais para ser classificável como uma clareira.
—Nada de muito impressionante, não é? – comentou Serana – Olhe, se isso foi uma viagem desperdiçada, seu amigo Dexion e eu vamos ter uma conversa séria quando voltarmos.
—Você sabe que eu poderia ter vindo sozinho. – disse Duncan, farto de ouvir Serana reclamar de tudo.
—E perder de saber o resto de uma profecia que me tem no meio da história? Vai sonhando.
—Então pare de reclamar.
—O que quer dizer com isso?
—Serana, tudo o que você fez foi reclamar desde que saímos do Forte. Reclamou do caminho, reclamou da cidade, reclamou do sangue dos bandidos, reclamou da neve, reclamou do peso...
—Você tem que admitir que esses Scrolls são pesados.
—Você é uma vampira, tem super-força. Já se perguntou o quanto isso está pesado para mim? E mais, quem dirá Shadowmere, que nos carregou, mais o peso dos Scrolls, até Falkreath. E acho que você não ouviu nenhum de nós reclamando.
Serana parou por um momento.
—Desculpe. – disse ela – Estou ansiosa.
—Eu sei.
—Isso pode significar o fim da ameaça que essa profecia representa.
—Eu sei.
—Quem sabe, quando isso acabar, meu pai até volte ao normal.
Duncan ficou em silêncio. Ele não pensava assim. Mas dizer isso na cara de Serana parecia errado. Serana, porém, entendeu.
—Me desculpe. – ela disse uma vez mais.
—Tudo bem.
Eles subiram um pequeno monte, e Serana pensou ouvir um barulho.
—Está ouvindo isso? Parece... água.
Eles atravessaram um tronco tombado e passaram por uma pequena passagem. Logo, a caverna se abriu em uma enorme clareira subterrânea, onde a luz parecia vir de um sol artificial, visto que, lá fora, era noite.
—Uau – afirmou Serana – Olhe esse lugar.... ninguém esteve aqui em séculos. Duvido que haja outro lugar como esse em Skyrim. É... lindo.
—De fato. Essa luz machuca você?
—Não... na verdade, traz até uma certa paz. Acho que é o mais próximo da luz do sol que eu sinto em milênios... sem me ferir, claro.
Ela se postou ao lado de Duncan, e seus dedos chegaram a se roçar, mas ambos recuaram as mãos.
Havia uma pequena estrada, claramente feita de forma artificial, que passava por alguns pinheiros, mas de fato, aquilo era uma clareira, por onde um pequeno córrego passava. No centro da clareira, onde aquela estranha luz era mais intensa, haviam cinco árvores com belíssimas folhas rosadas. Eram as Árvores que Dexion mencionara. O lugar estava cheio de mariposas com um estranho tom dourado, que voavam em grupos, desenhando círculos por todo o lugar, espalhadas. Atravessaram o córrego, que ao invés de incomodar por estar molhando as botas, na verdade, passou uma sensação de paz profunda. No meio das árvores, havia um círculo, e bem no meio desse círculo, uma pedra, similar às pedras dos aprendizes, que abençoavam os guerreiros que buscavam um caminho específico, mas no furo que essa apresentava, flutuava uma lâmina com não um, mas dois cabos, um em cada extremidade: a ferramenta que Dexion mencionara.
Duncan pegou-a, e a magia que parecia mantê-la flutuando se dissipou.
—Bom, temos a faca. – disse Serana – Agora, é só tirar a casca de uma dessas árvores.
E foi o que Duncan fez. Ele encostou a lâmina no tronco de uma das árvores e, usando os dois pegadores, puxou-a para baixo no movimento mais suave que pôde. Depois, pegou a lasca.
—Espero que as mariposas gostem tanto dessa casca quanto Dexion disse que gostam. – disse Serana.
Duncan e Serana começaram a andar pela clareira, e sempre que um grupo de mariposas próximo farejava a lasca da árvore, começava a voar em volta de Duncan, nos mesmos círculos, de maneira delicada.
—Olhe só, pelo jeito elas gostaram de você. – riu a vampira. Mas logo levantou uma sobrancelha. – E... a não ser que eu esteja vendo coisas, você está começando a... brilhar...
Duncan olhou para as próprias mãos.
—Não, não estou.
—Hã... está, sim.
Quanto mais mariposas se acumulavam, mais Duncan parecia ouvir uma canção. Uma canção delicada, suave e trêmula, como se fosse o tilintar de cristais. Ele olhou novamente para si. Agora, sim, ele estava brilhando.
—É, eu estou.
—Eu disse. – ela riu.
Quando já havia uma quantia considerável de mariposas e o brilho de Duncan já estava ficando incômodo, eles voltaram ao centro da clareira, e Duncan se posicionou onde o sol artificial mais iluminava: um ponto com um símbolo no chão. Era como se a canção o atraísse para lá. Ele olhou para Serana, pegando o Scroll. Ela meneou a cabeça, e deixou o dela e o que antes havia sido lido por Dexion ao lado dele. Ele abriu o Pergaminho do Sangue.
Um choque percorreu-lhe a espinha, da nuca até o fim da coluna. Ele foi primeiramente cegado por uma luz forte, que depois, se resumiu à um complexo círculos com letras, símbolos, números e desenhos. Ele abriu o próximo, e, dessa estranha visão, apesar de mais números e símbolos terem aparecido, ele viu uma linha mais forte no meio da confusão. Abriu o último. Viu que na verdade as linhas formavam um mapa. Ao mesmo tempo, sua mente foi invadida de maneira caótica por uma enxurrada de informações desconexas. As letras, os números e os símbolos começaram a se organizar, mostrando a profecia num todo, e no fim de tudo, no fim de uma caverna, de uma trilha, de ruínas e de um enorme castelo, o Arco de Auriel. Seus ouvidoz zuniam, sua cabeça parecia a ponto de explodir. Duncan rangeu os dentes, tentando aguentar o caleidoscópio que se formara em sua mente, o turbilhão de luzes e cores, até que tudo sumiu.
Ele estava de volta à Clareira Ancestral, com uma Serana preocupada postada à sua frente.
—Você está bem? – ela perguntou – Achei que tivesse te perdido! Você ficou branco como a neve!
—Eu estou bem.... só foi.... estranho.
—Nunca mais me assuste assim, está bem, seu idiota? – ela disse, dando um tapa em seu ombro que, por ele estar ainda amortecido, não doeu. Os olhos dela se encheram de lágrimas. – Nunca confiei em abrir essas porcarias de Scrolls. E imaginar o que poderiam ter feito à você? Olhe para o que houve com Dexion..,
—Espere... você realmente ficou tão preocupada assim?
—Mas é claro, seu imbecil! – ela quis falar algo a mais, mas desistiu. – E o Arco de Auriel? Sabe onde encontrá-lo? – ela disse, por fim, frustrada.
—Sim. É numa caverna chamada Darkfall.
—Então estamos quase no fim. Vamos finalmente poder colocar um fim nessa profecia ridícula. Onde fica essa caverna?
—Os Scrolls me deram a localização exata. – As palavras saltaram da boca de Duncan de forma metálica.
—Então vamos. Quero chegar lá antes que meu pai tenha a chance de nos rastrear.... ah droga.
—O que foi?
Ela fungou o ar.
—Tarde demais. – respondeu.
Vindo da entrada da Clareira, um rugido estremeceu o lugar todo.
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