Skype, ipad e zumbi
1 "Zumbi!"
Wayne praticamente arromba a porta quando adentra a sala, tamanha a força de sua chegada. Todos olham em direção à entrada, ainda surpresos com o estrondo súbito. “Olá a todos”, diz o jovem, que joga a mochila com seus cadernos sobre o sofá e corre escadas acima, em direção ao seu quarto.
Sua irmã e sua mãe, que estavam na cozinha acenam com um sorrisinho no rosto, mostrando educadamente que foi impossível não notar que o nada sutil menino chegara em casa.
No andar de cima, já de porta trancada, o notebook já estava ligado. Na verdade ele nunca era desligado. A rotina de chats, downloads, instalações e desinstalações de programas e jogos era praticamente ininterruptas. Se algum amigo dissesse que o seu computador estava desligado, Wayne achava graça. Era como se fossem uns “atrasados”.
Tênis e meias jogados no meio do caminho e lá estava ele sentado em frente a tela e com os dedos ágeis no teclado. Seu Skype já estava aberto, de modo que apenas mudou seu status para on line. Na lista infinda de nomes de amigos e nobres desconhecidos ele procurava um em especial. Seu amigo, Jeff, que morava a algumas quadras de distância apenas. Estudaram juntos por cinco longos anos, porém neste ano estudaram em escolas diferentes. Isso não desencorajou a amizade, forjada ao longo de meia década de travessuras e planos maquiavélicos estudantis em comum.
Wayne diz: Cara, tenho algo pra te contar, você não vai acreditar...
Jeff diz: O quê? Assumiu sua homossexualidade e apresentou o namorado pra mamãe? Kkkkk Wayne diz: To falando sério, idiota.
Jeff diz: To esperando...
Wayne diz: Lembra do senhor Armand, professor de Literatura?
Jeff diz: O enjoado que sempre cobrava resumos de seus livros, mais enjoados que ele? Coitado, não fazia ideia de que pegávamos todos as resenhas no Google kkkkk.
Wayne diz: Sério, cara. Ele morreu! Jeff diz: Caramba... de quê?
Wayne diz: Não sabemos direito. A diretora falou que ele faleceu devido a complicações de saúde. Só isso. Mas ele estava bem na terça-feira. Parecia assombrosamente normal.
Jef f diz; Como dizia minha bizavó: Pra morrer basta estar vivo.
Wayne diz: Então, como ele mora no seu prédio, pensei que soubesse de algo. Jeff diz: Ele mora no meu prédio?!
Wayne diz: Não. Morava. Ele morreu, esqueceu... dã. Jeff diz: Fala sério.
Wayne diz: Falo sério cara. Outro dia minha mãe foi me buscar na escola, porque estava chovendo demais, e o carro dele quebrou. Como iríamos passar por aí, minha mãe lhe ofereceu uma carona. Ele havia se mudado a pouco tempo, acho...
Jeff diz: Entra e sai tanta gente dessa pocilga que eu mal conheço um vizinho e já tem outro ocupando o apartamento. O pior é que só mora velho e doido. Nenhuma vizinha da minha faixa etária kkk.
Wayne diz: Se souber algo, me liga. Jeff diz: Espera...
Wayne diz: ok.
Passaram-se alguns minutos e Jeff não dava sinal de vida. Wayne deixou o Skype ligado e foi se trocar, sempre de olho na tela e no cursor que piscava, pedindo para que algo fosse escrito.
Jeff diz: Que doidera cara... maior gritaria aqui no prédio... Espera...
Wayne diz: O que houve??
Mais alguns minutos de silêncio absoluto. Como a demora aumentava, assim como a fome pré-almoço, Wayne desceu as escadas correndo e pegou um bolinho na cozinha. Sua mãe falou algo sobre bons modos e também sobre o relacionamento familiar corrompido pelo advento da internet e tal, mas a expressão “entrava por um ouvido e saia pelo outro” fez todo o sentido do mundo. Sua irmã o ignorava solenemente e Wayne ignorava sua mãe do mesmo modo. Subiu novamente as escadas, correndo como sempre. Já de olho na tela do Notebook, outras três pessoas o chamavam para conversar, e ele agia como se ainda estivesse na cozinha pegando seu bolinho: Ignorava.
Jeff diz: Você sabe em que andar morava o velho Armand? Sabe se ele tinha família?
Wayne diz: Não sei em que andar, mas um dia desses ele deixou sua carteira cair e eu vi uma foto de uma mulher gorda e duas meninas. Devem ser sua esposa e filhas... Porque a pergunta?
Jeff diz: Tá rolando maior barraco uns dois andares abaixo... Voz de mulher gritando. Alguém falou algo sobre chamar a polícia.
Wayne: Você deveria se mudar daí...
Jeff diz: E morar aonde? Na sua casa? Como se a polícia nunca tivesse sido chamada pelos seus vizinhos, não é? Kk. Lembra daquele dia em dormi aí? Pensei que sua mãe iria matar o seu pai, cara! Kkkkkkkkkkk.
Wayne diz: Pelo menos eu tenho pais de verdade. Não é, ô adotado! Kkk
Jeff diz: Rá rá. Muito engraçado. Pra ser filho dos meus pais eu tenho que parecer com meus irmãos? Só na regrinha do seu mundinho...
Wayne diz: Mas deveria pelo menos parecer com um de seus pais, não acha?
Silêncio.
Wayne diz: Ficou chateado?
Wayne diz: Jeff?
Wayne diz: Oh, Brother, desculpe, eu não quis ofender. Estava de brincadeira...
Wayne diz: Jeff??
Jeff diz: Cacete! Acho que tá dando maior merda lá embaixo! A polícia chegou e tem um monte de gente saindo do prédio correndo! Espera, vou ligar a câmera do ipad...
Wayne diz: Tudo bem!
Câmera ligada e apontada para fora da janela. De sua casa Wayne via as pessoas desesperadas que corriam pela rua em frente ao prédio onde morava seu amigo, sem se importarem com os carros que passavam e poderiam causar uma tragédia.
Cê tá vendo isso cara?? – Perguntou Jeff, com a câmera virada agora para seu rosto.
Mas você não tem ideia do que está acontecendo?? O que sua mãe está fazendo?
Cara, alguns vizinhos arriscaram e desceram, mas a maioria está nas janelas assistindo tudo e tentando entender. Minha mãe está na porta do apartamento espreitando o corredor e as escadas.
Jeff voltou a câmera novamente para a janela, para que pudessem acompanhar juntos o que se passava. Logo três ou quatro carros de polícia pararam em frente à entrada, impedindo o fluxo de carros na rua. Policiais desceram apressadamente de suas viaturas, com suas pistolas em punho e fizeram um semicírculo, aparentemente ouvindo instruções do que parecia um superior. Seis policiais entraram correndo no prédio. Wayne ainda podia ouvir vozes de mulher gritando nos andares abaixo. Logo em seguida fez-se silêncio.
Jeff virou para si a câmera e perguntou – Está ouvindo, cara?! — Não. Ouvindo o quê?
O silêncio.
Ouvindo o silêncio? Cê tá brincando, né?
O silêncio, cara! As mulheres pararam de gritar. Dá até pra ouvir o falatório na rua e algumas pessoas chorando lá na calçada.
Será que é algum incêndio? Você está vendo fumaça? – perguntou Wayne.
Que incêndio, que nada! Não tocou nenhum alarme... E, por acaso, você viu alguma fumaça? Corpo de bombeiros? Muito estranho... Vou voltar pra janela pra gente acompanhar de camarote.
O silêncio foi quebrado por um estampido. logo eram dois, cinco, dez, quinze... tiros. Os meninos ficaram em silêncio. Wayne na segurança de seu quarto, mas preocupado pelo que poderia acontecer com seu amigo.
Ouviu isso, cara?! – Perguntou Jeff.
Será que havia algum bandido aí no prédio?
Pela janela eles acompanharam a debandada dos policiais, não mais seis. Apenas três saíram do prédio. Absolutamente esbaforidos.
Onde estão os outros policiais? Perguntou Wayne.
Cara, eu não sei, mas estou ficando preocupado. Vou ver como está minha mãe.
Enquanto ele andava através do apartamento, com o ipad em mãos, com sua câmera ligada sempre em riste, Wayne acompanhava a movimentação. Viu a mãe de seu amigo, com a porta entreaberta, espreitando o que acontecia no corredor. Viu também alguns vizinhos passando em direção a escada, assustados. A mãe de Jeff pedia para eles voltarem, mas umas duas ou três famílias insistiram em sair de suas residências. Jeff foi com a câmera até o corredor e voltou logo correndo para dentro de casa, com sua mãe trancando a porta com violência atrás de si. Os vizinhos que acabaram de descer, não todos, voltaram gritando escadas acima, com olhar de desespero, correndo em direção à segurança de seus cubículos residenciais.
Na hora de descer, pais e mães seguravam com firmeza as mãos de seus filhos. Alguns eram pequenas crianças. Na volta, pelo menos num primeiro momento, era certo que algumas dessas pessoas não subiram de volta.
Contudo, naquela gritaria desordenada, antes da última porta ser trancada novamente, Jeff e Wayne ouviram algo que os perturbara profundamente. Uma voz masculina gritou a palavra “Zumbi”.
Jeff voltou para seu quarto, acompanhado de seu amigo conectado. Sua mãe, sentou-se na sala e tentou se mostrar forte, mas pela fresta da porta de seu quarto, viu o olhar de preocupação estampado como um flagrante.
Não sei se você ouviu o que eu ouvi, mas...
Zumbi? – ambos fizeram silêncio por alguns segundos – Eu também ouvi.
Achei que estava ouvindo coisas... Vamos ver como estão as coisas lá fora.
Agora havia muito mais carros de polícia. Três ambulâncias estavam paradas, dando assistência médica para algumas pessoas. Havia inclusive um caminhão de bombeiros também, mas os combatentes não estavam se preparando para combater incêndio. Estavam parados conversando entre eles. Os policiais começaram a afastar toda e qualquer pessoa que estivesse próximo ao prédio, colocando faixas de isolamento. Logo, helicópteros estavam sobrevoando o local. Era possível ver que eram da força nacional de segurança. Estava claro que não era incêndio. Talvez algum fugitivo tivesse pego alguma família de refém. Quem sabe um terrorista estivesse ameaçando explodir tudo. Mas uma coisa martelava na cabeça de ambos e era a hipótese mais improvável: Zumbi?
A distração dos garotos observadores foi abalada quando ouviram uma pancada muito forte na porta da frente. Foram para a sala e perceberam que não era na sua porta e sim no apartamento ao lado. Olharam pelo olho mágico, mas não conseguiram ver qualquer movimentação no corredor. As pancadas
recomeçaram, dessa vez muito mais forte. A gritaria desesperada de seus moradores fez com que a coluna cervical dos três se arrepiasse, assim como os pelos dos braços. Parecia que alguém estava querendo arrombar a porta e pelo som que fazia, logo iria conseguir.
Jeff voltou correndo pra a janela, com seu amigo a tiracolo e começou a acenar para os policiais lá embaixo. Gritava, pedia socorro, dizia que alguém tentava invadir o apartamento ao lado, mas pela altura de sua janela, os policiais não podiam ouvi-lo. Alguns homens da lei enfim notaram os acenos e falavam algo entre si para logo em seguida voltarem suas atenções para a entrada do prédio. Era impossível ajudá-los imediatamente.
A porta do apartamento ao lado cedeu abaixo e quem quer que estivesse socando conseguiu finalmente adentrar. Gritos, sons de luta, móveis arrastando no chão, vidro quebrando e, novamente, silêncio. A mãe de Jeff gritou para que ficasse em seu quarto enquanto ela iria dar uma olhada no que se passava.
Jeff não contentou-se em ficar parado e seguiu de perto sua mãe. Wayne acompanhava tudo pelo vídeo. Viu a porta se abrir e ambos puseram a cabeça para fora, olhando o corredor. A porta ao lado estava escancarada. A luz da sala banhava a parede bege que ficava em frente. De súbito, sua mãe viu algo e gritou. Jeff entrou correndo de volta e aquilo que estava no apartamento ao lado saiu de lá e veio em sua direção, correndo. Forçou a porta de fora pra dentro com tanta violência, que a pobre mãe foi jogada pra frente, caindo de quatro no tapete da sala. Num grito horripilante ela mandou que Jeff entrasse em seu quarto e trancasse a porta. Wayne estava branco de susto, sentado na segurança do seu quarto. Novamente o silêncio assolou o cômodo ao lado. Jeff não conseguia mais dar atenção ao amigo, mas manteve o tablet em suas mãos. Não havia mais conversa entre eles. Só pânico e respiração ofegante.
Sua mãe estava na sala com aquela coisa e ele sentiu-se covarde. Passaram-se cerca de dez minutos e o silêncio da sala continuava. Ouvia-se apenas eventuais sirenes do lado de fora e helicópteros voando nas proximidades.
- Jeff? Jeff? – Sussurrou Wayne.
O menino então vira o ipad para si e aterrorizado responde:
O que é isso? O que está acontecendo?
Não sei, cara. A polícia não entrou novamente?
Ninguém entrou. A minha mãe... Ela estava na sala... Preciso ver se ela está bem...
Não Jeff, fique aí quieto e espere a polícia! Não saia daí!
Eu só vou ver...Espere. Ouvi passos no corredor. Acho que ele saiu.
Jeff, encostou o ouvido na porta de madeira e ficou em silêncio por alguns instantes. Nenhum sinal de vida. Resolveu então abrir um pouco a porta. Girou a chave, destrancando-a. O fez com o máximo de cuidado, tentando não fazer barulho. Em seguida girou a maçaneta. O ipad continuava em sua outra mão. Por alguma razão ele não o largou, mas também não o segurava de forma que Wayne pudesse acompanhar. Naquele momento a presença, mesmo que distante, do seu amigo era seu porto seguro; a única coisa em que ele podia agarrar-se. Por alguma razão, a luz da sala estava apagada. Viu então que o abajour que antes a iluminava estava quebrado num canto, junto com a mesinha de vidro que ficava num dos cantos. Viu um corpo deitado no chão, no escuro e nada mais. Mesmo com a luz de seu quarto acesa, não foi possível ver em que estado sua mãe estava. Se morta ou desmaiada; pois o facho de luz não atingia aquele canto. Foi sorrateiramente, meio agachado, tateando no escuro, em direção a sua mãe. Tocou em sua perna e ela ainda estava quente. Tinha medo de que estivesse gelada e isso lhe trouxe um pouco de conforto. Passou pela mãe e tocou o interruptor, acendendo a lâmpada do teto, deixando tudo as claras novamente. Sua mãe ainda
respirava, mas sangrava pela boca e ouvido. Seu vestido estava rasgado. Mas, ela respirava e era isso que importava naquele momento.
Estranhamente, algo lhe chamou a atenção. No chão, várias pétalas de flores brancas e amarelas espalhadas. Flores que sua mãe não possuía, pois ela tinha alergia a elas. De súbito, e com um tremor repentinno , lembrou-se de onde conhecia as flores. Eram aquelas pequeninas que enfeitavam caixões, nos sepultamentos. Lembrou-se do enterro de seus avós e de uma tia de seu pai. Com certeza eram flores de ornamentação de caixões...
Enquanto ainda refletia sobre plantas e caixas de madeira, notou uma presença na sala. Alguém estava de pé na porta do corredor, se pondo entre ele e seu quarto. Pois na sala só havia cacos de madeira espalhados. Não quis arriscar sair pelo prédio afora e num arroubo de coragem correu em direção ao seu quarto. O ser esperou e não se moveu até que ele estivesse muito próximo. Num salto violento, pousou sobre o garoto e ambos chocaram-se contra a porta, que soltou-se de seus parafusos e caiu quarto adentro.
O pequeno tablet, com a câmera ainda ligada, então desgrudou-se da mão de Jeff e deslizou para um canto do quarto, onde ficou focalizando o teto.
Wayne gritou em desespero e ficou fixo na tela. Sua mãe e irmã subiram ao encontro dele. Já haviam visto algo na TV sobre o que ocorria no bairro. Ouviam grunhidos e sons estranhos vindo do quarto de Jeff e ficaram parados, estáticos, presos mentalmente ao que ouviam.
Gritos horrendos de Jeff eram emitidos pelos auto-falantes no quarto de seu amigo. Mas não demorou a cessarem.
O que ninguém esperava finalmente aconteceu e um rosto familiar apareceu na tela do seu computador. Pele cinza, olhos totalmente brancos, cortes profundos na face e sangue em sua boca. Era seu professor de literatura: Sr. Armand.
FIM
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