Sky
1 Tem um garoto na minha cama.
Notas iniciais
Pais do Baro foram criados por mim, keke, não é fácil inventar nome coreano, socorro.
A maioria dos garotos enxerga a adolescência como o auge de suas vidas, e os que já passaram dessa fase relembram o passado com um gostinho de amargura, desejando serem jovens novamente. É a etapa da descoberta, do novo, dos desafios, onde você é obrigado a aprender sobre si mesmo e sobre o mundo, onde seus pais não sabem se soltam demais, ou te proíbem de frequentar as festas mais badaladas do colégio, e que claro, você quer ir de qualquer forma. Suas escolhas são tão extremas que ou é tudo ou é nada, ou é estudar mais pra prova ou passar o tempo no computador.
Ah, a preciosa internet, que torna a vida virtual muitas vezes mais importante que a real, porque todos estão conectados ao mesmo tempo, trocando informações e opiniões em apenas um clique, sem esquecer de deixar uma mensagem na rede social da garota que você tanto olha no colégio.
Claro, garotas são outro ponto importante na adolescência masculina.
Querendo ser o garanhão pegando todas, ou o cara romântico em busca de apenas uma. O que importa nessa fase é conhecer, ficar, e sabe se lá o que mais. A mente masculina pode ser ainda mais complexa que de uma garota, afinal eles não se acalmam com chocolates.
E estando exatamente nesse ponto da sua vida, Sandeul queria apenas uma coisa.
Morrer.
Não encontrava mais razão para continuar vivendo, ou melhor, o fato de estar vivo era um grande engano, um erro do destino, uma piada de mau gosto pra um garoto que nunca fez nada errado, bom, até aquele momento. A dor que sentia era uma punição, ele era um criminoso, seu lugar era na prisão mais suja de toda a Coreia do Sul. Porém como os policiais e a justiça não enxergavam da mesma maneira que ele, o deixaram livre.
Um assassino estava livre.
E como se não fosse suficiente, agora ele seria um peso na vida dos tios que nunca conheceu.
- É Sandeul, agora você será um estorvo na vida de estranhos. – Suspirou, afundando-se no assento do ônibus que o levava até a capital.
Quem sabe se dormisse, apagaria as lembranças que tanto o atormentavam, pois graças a elas passou a viver como um morto-vivo desde o acidente, não falava quase nada, só o suficiente, até para seu histórico de timidez aquilo já era demais, era como se a parte ainda viva do seu coração, lutasse pra morrer também. Fora o tempo no hospital e tudo que teve que encarar sozinho depois, já que seu tio não sabia sequer se ele estava vivo, ele não teve apoio dos parentes, não ouviu palavras acolhedoras.
Era apenas ele.
Encarando sua mãe frágil, pálida e morta dentro de um caixão.
Vizinhos ainda tentaram consolá-lo, mas o garoto não respondia, não chorava, não sentia.
Voltou a consciência um dia antes de estar sentado naquele ônibus com destino até Seul, com uma assistente social lhe contando que ele tinha sim parentes, o irmão de sua mãe, que a partir daquele dia era o responsável por ele e iria abriga-lo em sua casa.
Será que a vida lhe proporcionaria mais surpresas?
-x-
Os soluços do choro contido do seu marido pareciam ecoar pelo quarto, a mulher que aparentava ter uns trinta e oito anos tentava consolá-lo, mas desde que o casal ficou sabendo da vinda do sobrinho e da perda que tiveram, não sabiam direito o que fazer. Primeiro pela notícia da morte de sua cunhada, segundo pela existência de JungHwan, que até então era desconhecida.
Lembrava-se do temperamento forte da irmã de seu marido, e que ela fugiu no dia do casamento dos dois, oportunidade perfeita, a família toda estava em volta do casório e dos noivos, então a caçula simplesmente desapareceu como água evaporando no ar. Dias depois receberam um telefonema, era só um aviso da garota relatando que estava bem, e que estava com Lee, seu namorado na época.
E agora, dezessete anos depois a família volta a ter notícias, mesmo que sejam sobre o falecimento da cunhada.
Então o garoto era um pontinho de alegria em meio a tanta tristeza.
- Eu fui um péssimo irmão. – O homem finalmente falava algo, estava em prantos desde a ligação que recebera no dia anterior. Se sentia culpado por não ter procurado a irmã, sem saber se passou dificuldades ou não, sem conhecer o sobrinho.
- Yeobo, entenda que ela se afastou. Você não teve culpa de nada, foi um acidente. – Tentava a todo custo tirar a culpa do marido.
- Imagino o quanto ela sofreu para criar o garoto sozinho, é apenas um ano mais novo que nosso filho! – Disse incrédulo. – Eles poderiam ser criados juntos se ela tivesse voltado quando aquele infeliz a abandonou.
- A assistente social te disse alguma mais alguma coisa?
- Me mandou fotos dele. – Levantou-se para buscar o notebook. – É um garoto tímido, mas cheio de vida. – Mostrou para a mulher a foto do menino acompanhado da mãe, os dois sorriam abertamente cobertos de farinha, e suspirou sentindo seu coração se apertar ao olhar a foto novamente. – Porém ele ficou traumatizado com o acidente, afinal estava junto.
- Ele deve estar passando por tantas coisas. – A mulher disse melancólica.
- Sim, ele só tem a nós. – Olhou para a esposa sorrindo fraco. – Mas isso bastará, não é mesmo? – Ela acenou positivamente, o que o fez prosseguir. – Ligue para sua amiga psicóloga, acho que é bom ter um acompanhamento.
- Eu pensei nisso também. – Apertou os ombros do marido em sinal de apoio. – Não se preocupe, aqui ele vai ter um lar, e também receberá muito carinho e apoio nessa fase difícil. – Sorriu olhando a foto novamente e se simpatizando com o garoto. – Ele é bonito, se parece com sua irmã.
- É, eu também notei. – Pausou. – Já ligou para o seu filho irresponsável por falar nisso? Ele precisa saber. – Mudou de assunto, precisava ocupar a cabeça com outras coisas.
- Ah, yeobo, deixe o garoto se divertir. – Fez um pequeno bico com os lábios, o mimava demais por ser filho único. – Ele volta amanhã da casa do amiguinho, as férias já estão acabando.
- Aish, você estraga o Baro sendo tão paciente com ele.
- Mas ele é o meu bebê! – Indignou-se.
- Um bebê de dezesseis anos... – Riu. – Certo, você ganhou, amanhã quando ele chegar nós contamos, e JungHwan já estará aqui também.
- Já está quase na hora de ir buscá-lo, então tire essa cara de enterro, porque já basta o menino triste. – Aconselhou dando uns tapinhas nas costas do homem. – Vamos ao supermercado depois, já que ele ajudava a mãe na confeitaria que tinham deve gostar de cozinhar e isso ocupará um pouco a mente dele.
- Você é incrível sabia? – Encheu-se de orgulho da esposa, abraçando-a e depositando leves beijos em sua bochecha.
- Claro que sou, do contrário você não se casaria comigo. – Respondeu convencida recendo mais beijos.
Viviam um casamento feliz, não tinham do que reclamar.
Só esperavam poder transferir essa felicidade ao novo morador do apartamento.
-x-
Seul realmente era como nas fotos e na televisão, grandiosa comparada a pequena cidade onde vivia, a metrópole realmente era movimentada, o que o assustou. Estava acostumado com sua rotina calma, as mesmas pessoas, pois pela cidade ser pequena conhecia quase todo mundo, mesmo sendo um garoto de poucos amigos quando seu sorriso se abria, tudo em volta se resumia a fileira de dentes brilhantes do garoto. Era querido no bairro por ser educado e sempre ajudar quando necessário, um menino de ouro como dizia uma antiga vizinha que sempre preparava bolinhos salgados para ele.
No mesmo instante que lembrava do sabor dos quitutes, sua barriga roncou em reprovação, já estava chegando na rodoviária e causaria uma péssima impressão de morto de fome para os tios. “Se acalme aí”, mandou baixinho falando com seu próprio estômago, até imerso na tristeza não perdera a mania de falar sozinho. Se sentia um pouco melhor com os ares da cidade nova, quem sabe pudesse esquecer...
Perdido em pensamentos, quase deu um pulo no banco quando o ônibus finalmente chegava a seu destino, era a hora da verdade. Desceu do veículo retirando os fones de ouvido, e olhou em volta buscando com os olhinhos curiosos seus familiares desconhecidos. Ajeitou a mochila nas costas, e foi atrás do motorista para pegar sua bagagem, o resto chegaria depois conforme a assistente informou.
- Lee JungHwan, é você? – Ouviu uma voz masculina o chamando, não percebendo a leve emoção que ela transmitia. Já com suas malas em mãos olhou para trás em busca da voz.
Se deparou com um simpático casal, muito bonito também. A mulher sorria calorosa, com certeza não aparentava a sua verdadeira idade, pois daria um banho em muita colegial. O homem não sorria, sua cara era mais para surpresa do que felicidade, mas os olhos por trás dos óculos de armação fina brilhavam em expectativa.
Não era digno de pessoas tão boas.
- So-sou eu. – Acabou se enroscando na hora de falar.
- Ah, finalmente. – O homem dessa vez riu, e se aproximou não sabendo se abraçava o sobrinho ou se manteria a postura firme diante do garoto, mas acabou não fazendo nada pois sua esposa se adiantou.
- É mais bonito que nas fotos. – Disse amigável vendo o menino corar. – Bem-vindo a Seul, sou sua tia MinKi, mas pode me chamar de Noona. – Riu do comentário, para depois apontar para o marido. – E esse é seu tio SunDong, mas pode chama-lo de Ahjusshi.
Sandeul assentiu, fazendo uma leve reverência em sinal de respeito.
- Obrigado por cuidarem de mim, eu... Eu não sei como agradecer, mas prometo não dar trabalho. – Confessou.
- Olha que educado! – Surpreendeu-se. – É difícil ver jovens assim hoje em dia. Não se preocupe, não é trabalho nenhum, pelo contrário, estamos felizes em lhe receber.
- Minha esposa tem razão. – SunDong finalmente falava algo. – Estou encarando como um presente você ter vindo pra cá. – E se aproximou mais, colocando uma mão sobre os ombros do menino, que ouvia tudo atentamente, surpreendido pela boa recepção. – Agora me dê essas malas, onde já se viu carregar peso logo no primeiro dia. E ah, não sou ahjusshi, ok? Sou apenas dois anos mais velho que a “noona” ai.
- Hey, eu estou ouvindo! – A mulher informou.
Sandeul seguiu o casal que conversava animado, falando do quanto ele iria adorar a cidade, os centros comerciais, pontos turísticos, que logo iria se familiarizar com o ritmo mais rápido que os habitantes levavam, os dois também contaram um pouco da vida que levavam. O tio era advogado, e sua esposa dentista, ambos obtinham sucesso na profissão o que mantinha um padrão confortável de vida, o que ele pode notar ao entrar no carro que era um modelo caro pelo pouco que conhecia de automóveis.
- Belo carro. – Comentou educado.
- Seu tio aqui adora! – MinKi respondeu animada. – Ele tem uma coleção de carros em miniatura, quando chegarmos com certeza irá te mostrar, é o vício dele.
- E ela irá te mostrar sua coleção de bolsas. – Alfinetou.
O garoto riu baixinho, aquele casal era doido! Se comportavam como duas crianças, mas era perceptível o quanto se amavam, e só de pensar viver em um ambiente assim, se sentia péssimo. Perto de tanta bondade ele era um ponto sujo, o tio que ria com as graças da esposa, mal sabia ele tinha tirado a vida de sua irmã, e que era pra ele estar morto no lugar dela.
Chegaram ao apartamento muito bem localizado após algumas compras no supermercado, era gratificante para MinKi ver Sandeul com um pouco de cor no rosto, pois o garoto estava branco como papel quando o buscaram na rodoviária, possuía alguns hematomas por causa do acidente, o lábio cortado, um pequeno roxo na testa, e o pulso enfaixado, só não ficou preocupada porque o menor garantiu que estava tudo bem.
- Espero que tenha gostado da sua nova casa. – Seu tio comentou deixando as compras no balcão da cozinha. – Já que o quarto de hóspedes se transformou em um escritório, você terá que dividir o quarto com o meu filho.
- O apartamento é muito bonito, e grande também. – E era mesmo, não estava acostumado com tanto luxo, com uma pequena olhada ao redor percebeu o bom gosto do casal, todos os ambientes bem decorados, e todos os móveis nos seus devidos lugares. As paredes daquele lugar pareciam gritar a vida feliz que a família levava. – E não quero ser um incomodo, seu filho pode não gostar de dividir o quarto comigo.
- Ah, Baro pode reclamar no começo, mas é da personalidade dele. – Riu. – Tem um gênio forte, não sei pra quem aquele garoto puxou. – Coçou a cabeça indicando seu incômodo, não era muito fácil lidar com o único filho. – Venha, vou te levar até lá.
Indicou o caminho para o sobrinho, que ainda reparava na decoração da casa, no corredor até os quartos vários quadros estavam dispostos nas paredes, todos com fotos em família. Logo reconheceu seu primo nelas, algumas dele ainda pequeno vestido de super-herói, outras vestindo o típico uniforme escolar, e também fotos dos três juntos.
- Então Sandeul, seu novo quarto. – Anunciou assim que entraram no aposento, realmente muito espaçoso, caberia umas três camas ali. – É assim que gosta de ser chamado, não é? – O garoto assentiu. – Sua cama ainda não chegou, encomendei hoje mais cedo, mas como o Baro só volta amanhã não tem problema você dormir na cama dele por uma noite.
- Onde ele está? – Pela primeira vez Sandeul parecia interessado em algo, quase não falava por iniciativa própria desde que saiu do ônibus.
- Aquele garoto gosta de uma boa farra. – Falou cansado. – Está na casa de campo de um amigo, passou a semana lá se divertindo. Que saudades de ser jovem! – Riu. – Pode se acomodar, o porteiro já está trazendo suas malas.
E saiu do quarto deixando Sandeul sozinho, olhando o quarto tipicamente masculino composto por uma cama que dava para duas pessoas tranquilamente, uma escrivaninha um pouco bagunçada, uma televisão de plasma em um canto, onde embaixo vários jogos estavam espalhados perto do vídeo game, almofadas também no chão, e prateleiras com livros, cds, filmes... Uma outra porta que com certeza era de um closet seguido de um banheiro.
“Esse garoto tem tudo”, pensou se sentando na cama.
O que não era uma mentira.
-x-
Seus lábios eram moldados pelos lábios da garota, nutridos de uma saudade que não existia, porque os dois simplesmente não se desgrudaram ao longo da semana que passaram na casa do amigo em comum. A plateia apenas observava aquela cena sem sentido, seriam apenas alguns dias longe um do outro, logo as aulas se iniciariam e os pombinhos teriam muitos momentos como aquele.
Mas quem consegue controlar os amores e os hormônios da adolescência?
Baro não reclamava nem um pouquinho, pelo contrário, beijava a namorada com afinco enquanto se despediam, e pelo namoro ser recente parecia que a necessidade de ficarem juntos era maior.
- Cof, cof... – Uma tosse forçada fez o casal finalmente se desgrudar. – Aleluia, achei que essa “despedida” iria durar para sempre. – O garoto de cabelo laranja reclamou. – Aish, não devia ter dado carona pra vocês!
- Você deu porque você é um ótimo amigo, L.Joe. – Baro riu se soltando da garota.
- É, mas tenho mais gente pra entregar. – Apontou para o carro onde ShinWoo acenava acompanho de Luna. – E se a Sulli não quiser perder a carona é melhor andarem logo com essa despedida. – Alertou, entrando no carro.
- Ele tem razão, é melhor eu ir. – Deu mais um selinho no atual namorado, mal acreditando que eles estavam juntos. – Me ligue depois, ok? – O garoto assentiu o que a fez sorrir.
Baro também sorriu satisfeito vendo o carro partir, pegou sua mala e mandou um aceno para o porteiro que retribuiu.
Claro que passar os dias na casa de campo de JinYoung tinha sido maravilhoso, mas estava com saudades de casa, do seu quarto, das suas coisas, dos seus jogos... Ah, não via a hora de tomar um banho e relaxar na sua cama confortável, depois provavelmente sairia com os pais para jantar. Suspirou mais uma vez satisfeito com a vida que levava, e agora ainda mais, pois estava namorando uma das garotas mais bonitas do colégio.
- Você é um homem de sorte, caro SunWoo. – Murmurou para si mesmo entrando no apartamento, não estranhando ele estar vazio, afinal era quarta-feira e os pais deveriam estar trabalhando.
Porém, o apartamento não estava vazio.
Ao abrir a porta do seu adorado quarto, deparou-se com a figura de um menino sentado na sua cama, na sua preciosa cama. O garoto apenas o olhou confuso conforme a passos firmes avançava sobre ele, tomado de uma raiva sem igual.
- Quem é você? – Ditou sério, sua mão já se encontrava no braço do menor apertando com uma força maior que o necessário, intimidando só com o olhar. E o fato do garoto não o responder, o deixava ainda mais possesso. – Anda, ou gato comeu sua língua por acaso? Quem é você e o que faz aqui?
Sandeul apenas o olhava atônito, sem reação alguma devido a forma como o primo o tratava, assim que o garoto entrou o reconheceu imediatamente das fotos, mas não esperava ele reagir de forma tão violenta.
- Quer saber, não importa quem você é. – O soltou tentando controlar a raiva. – Vou ligar para minha mãe e me livrar de você, agora!
Pegou o celular no bolso com as mãos tremendo de raiva, tinha momentos em que simplesmente perdia o controle, e o resultado era o que Sandeul presenciava.
- Alô, mãe. – Tentou acalmar-se, falhando. – Eu não sei o que está acontecendo, mas tem um garoto na minha cama! – Bufou impaciente. – E é melhor a senhora me explicar isso agora.
-
“Naquele momento meu coração se apertou ainda mais, a certeza de que eu era um estorvo se mostrou clara quando meus olhos se encontraram com os dele. Um mar tão profundo e negro que me dizia o quanto minha existência era inútil. O sol não brilhava naquela manhã em que eu soube que ele me odiava.”
Notas finais
Vejo vocês semana que vem, beijos!
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