Skulls
2 O Tutor
Talvez, eu estivesse obcecada. Apenas talvez.
Uma silhueta alta se desenhou no vão da porta, pernas compridas, forma musculosa e imponente. Fingi estar no mais leve dos sonhos, abrindo o olho minimamente para ver a sombra se deslizar para perto do meu guarda-roupa. Abriu a gaveta na parte de calcinhas, e ficou olhando cada uma, com uma apreciação.
Já fazia anos que eu esperava por esse momento com a mais sólida repugnância e medo aparente. Era tudo uma questão de tempo. Pra ser mais precisa, uma espera pro desenvolvimeno do meu corpo. E agora com 15 anos estava pronta.
Seu nome algo relativamente impreciso que preciso manter sobre o poço do meu cerebro, para minha própria lucidez. Seu rosto, não posso descrever sempre fui cautelosa em nunca observar, seus olhos, nunca encarar. Como já diziam escritores antigos, olhos são as janelas da alma. Porém por algum motivo, encareios em algum momento da minha vida. Talvez no dia da morte da minha mãe, onde com apenas 5 anos lembro-me de ter visto olhos penetrantes e sombrios. E eu deis de sempre tinha pesadelo com aqueles olhos.
A sombra se deslizou e se debruçou na minha cama, Senti um vapor quente sussurar no meu ouvido. Estava sóbrio e atento, como uma velhina vendo novela em frente a tv. Pousou a mão no meu cabelo e me deu um beijo na testa.
Continuei estar dormindo, porém, ele sabia, e escutava meu coração golpear o sangue com uma rapidez indesticrivel. Ele ouvia minha voz interior implorar para que parasse.
Sua mãos deslizaram por todo meu corpo. Seus labios acompanhavam o ritmo das suas mãos que desciam cada vez mais, e se abrigavam debaixo da minha camisola.
Apesar do hálito quente que rodeava todo meu rosto, envolto em beijos, senti um frio forte, como se eu estivesse enterrada em neve. Lagrimas escorreram no meu rosto. Ele falava coisas no meu ouvido. Não, eu não me lembro sobre o que dizia. Apenas me lembro que ele dizia meu nome, repetidas vezes.
Então, decidi, que os meu pesadelo não iria acontecer. Tudo que eu havia esperado que um dia chegaria não ia se concretizar definitavamente. E abandonando minha tentativa deplorável de fingir que dormia, me levantei da cama mais rapido que pode e corri para o banheir.
O quaro estava escuro, mas eu podia ver a silhueta dele, se movendo surprendida ao pé na minha cama. E pela segunda vez, senti aqueles olhos caírem em cima de mim, como se varios lustres de crital caíssem em cima de mim. Grande, pesado e cortante. Minha espinha gelou, e senti que ele vinha em minha direção, calmo e sereno, como se não houvesse nada de mais. Não podia ver seu rosto, porém sabia que sorria com um gato que vai finalmente matar seu passarinho.
Fechei a porta do banheiro e tranquei. Segundos depois ele socava a porta com intuito de arromba-la. No começo pensei que estava segura, até então, depois de alguns minutos, vi que a porta estava cedendo, e que as dobradiças estavam se soltando. Ele ia entrar em qualquer momento e eu tinha que ter alguma coisa pra defender-me. Porém não havia nada naquele banheiro, a não ser o espelho, que reluzia a imagem de uma menina assustada com lagrimas nos olhos, transbordando medo. Não pensei duas vezes, com minhas próprias mãons começei a socar o espelho com toda a força que eu ainda tinha. A força de sobreviver. Depois de vários golpes, com a porta quase cedendo por completo, o espelho se desfez, em poucos pedaços, mas o suficiente.
A porta finalmente cedeu, e rapidamente eu peguei o maior pedaço de vidro que estava a minha disposição e me refugiei no canto do banheiro apertando o vidro com muita força. Minha mão doía e sangrava muito, mas, eu tinha outras coisas a que me preocupar.
Ele parou na soleira da porta e observou meu estado por alguns minutos, com seus olhos felinos e selvagens. E lambendo os labios ele se jogou em minha direção.
Dessa parte pouco me lembro. A única coisa que realmente sei é que rolei no chão como uma doida sentindo o peso daquele corpo cruel me envolvendo. Apesar de ter estado meio iponente no começo, o gopeêi com o pedaço de vidro, por inúmeras vezes, até que senti a sombra desaparecer de cima de mim, e pela primeira vez na minha vida me senti realmente leve.
Alguém acendeu a luz do banheiro, provavelmente assustado com a gritaria. Eu me virei, e me senti dando um sorriso. A pessoa veio ao meu encontro e me tomou nos braços, e me beijou. Senti lagrimas não minhas tocarem minha testa e quando levantei os olhos, vi um par de olhos catanhos e penetrante, olhando na minha direção. Lindos.
Foi então que percebi que aqueles olhos eram familiares. Era meu tutor que me abraçava e me afagava.
No começo fiquei atônita, virei minha cabeça de lado e vi uma poçinha de sangue abaixo do meu tronco. Senti uma dor forte e penetrante. O caco de vidro tintilava na minha, refletindo o banheiro. E no qual, apenas se via um corpo morrendo no chão repleto de sangue, e esse era meu.
Olhei para aqueles olhos, que haviam me assombrado por tanto tempo, e pela primeira vez fixei os meus neles. Ele chorava, me beijava, e as últimas palavras que eu ouvi foi:
- Te amo.
E esse foi o momento mais feliz da minha vida.
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