Skins - Juventude à Flor da Pele
2 S01E02 - Marce
Notas iniciais

Os olhos se abriram, e por um bom momento isso foi tudo. A menina olhou pros buracos no teto, pras rachaduras, torcendo pra que aquele fosse o dia em que tudo desmoronaria de vez em sua cabeça. Pelo menos assim não precisaria ir pra sessão gratuita de tortura ao qual chamavam de escola.
Levantou devagar, sentindo umas boas pontadas na cabeça, e reparou que Leopold, seu hamster de estimação e única criatura viva no planeta Terra que a escutava, ainda estava dormindo. Aproximou o dedo da gaiola e deu um pequeno empurrão, fazendo a roda girar e acordando de vez o pequeno amigo.
Pôs uma calça preta, deixando um pequeno espaço entre o calcanhar e a panturrilha, e um sobretudo da mesma cor, com uns detalhes vermelhos ao redor dos bolsos. Calçou as sapatilhas, vestiu as meias brancas e passou rapidamente um pouco de sombra sobre os olhos. Agora sim, estava pronta para enfrentar mais um dia de prováveis humilhações, tanto na escola quanto em qualquer outro lugar onde colocasse os pés.
Olhou no espelho e viu uma garota baixinha, de cabelos curtos e olhar vazio. Seria essa garota alguém de verdade? Ou uma sombra a qual todos queriam machucar? Nem ela mesma sabia o que diabos estava acontecendo e cada vez mais desejava que a raça humana deixasse existir, de um dia pro outro, soterrada em sua própria ignorância.
— Marce, tá tudo bem com você, meu anjo? — perguntou sua mãe batendo de leve na porta — O café já tá na mesa.
— Já vou — disse Marce procurando, às pressas, alguma coisa no fundo do estojo de maquiagem.
— A sua aula começa em menos de uma hora, querida. Cuidado pra não se atrasar.
A menina não se deu ao trabalho de responder uma segunda vez. Depois de retirar todos os objetos de dentro do estojo, encontrou um pacote transparente com um pouco de pó branco no fundo, e imediatamente despejou um pouco sobre o punho. Olhou pela janela e reparou que havia um velho, em um apartamento encardido do outro lado da rua, espionando atentamente o seu desespero. Mostrou o dedo do meio pra ele, em um sinal claro de reprovação, e inalou de uma vez o restinho de cocaína que havia conseguido com uns garotos da escola.
Apanhou dois livros que pendiam numa cadeira, quase caindo no chão, e jogou dentro da bolsa, junto com os objetos que tinha tirado de dentro do estojo de maquiagem. Pegou um pouco do dinheiro amassado que guardava embaixo da gaiola de Leopold, salpicou uns farelos de comida pra ele e desceu as escadas correndo.
Lá embaixo, bebeu o café de uma vez, queimando a língua e o céu da boca, numa tentativa de ter o mínimo de contado possível com seus pais, e caminhou em direção à porta, ignorando a cena esdrúxula do seu pai, de pernas abertas no sofá, lendo o jornal.
— Já vai? — perguntou sua mãe, saindo apressada do banheiro.
— Já — ela respondeu, sem olhar pra trás.
— Você tem notícias do seu irmão? — gritou Lilian, torcendo pra que a filha escutasse.
— Não.
Marce colocou os fones de ouvido para não correr o risco de ter que responder mais alguma coisa e saiu apressada para o ponto de ônibus, onde o transporte da escola deveria passar dentro de poucos segundos. A música pesada, uma mistura de noise-rock com post-punk canadense, excluía a presença desagradável das outras pessoas, enquanto construía na sua cabeça um mundo caótico onde todo mundo sofria por igual. Pra ela, esse era o conceito de justiça.
—
No ônibus, as coisas aconteceram como de costume. Primeiro uns garotos de riso frouxo tentaram arrancar seus fones, sem sucesso, até ela mudar de lugar. Depois, uma nerd de saia comprida e rabo de cavalo sentou ao seu lado e começou a puxar conversa, como se o fato de que todos naquele lugar as vissem como perdedoras fizesse com que as duas pudessem ser amigas.
Até aí tudo bem, bastava ignorar a menina e se certificar de que os idiotas não tentariam puxar seus headphones outra vez. Porém, algumas paradas antes de chegar na escola, os membros do time de futebol invadiram o ônibus, jogando tinta e papel picado em todo mundo, fazendo a maior algazarra.
Um deles chegou bem perto dela, com uma lata de tinta nas mãos, e esfregou um pouco do líquido no rosto dela, enquanto os outros jogavam papéis picados por cima da sua cabeça.
— O que você pensa que tá fazendo, seu babaca? — Marce gritou para Mário, o capitão do time e provável organizador da bagunça.
— Xii, Mário, ferrou. A esquisitona ficou bravinha. Cuidado pra ela não te morder e você acabar virando mais um da espécie dela — disse um dos garotos com o uniforme amarelo e roxo, as cores do time de futebol da Escola Mundial.
— Hahaha, ela? Até agora eu não sei se isso aí é menino ou menina — respondeu Mário, rindo com os amigos — Será que a espécie dele é hermafrodita?
O garoto tentou abrir o sobretudo dela enquanto todos no ônibus se divertiam com a situação. Marce, ao contrário do que uma garota comum faria, começou a empurrar as mãos de Mário pra longe, resistindo bravamente. Depois de um tempo, ele e os outros se ocuparam com a turma do fundão e deixaram a menina em paz.
Marce colocou os headphones de volta nos ouvidos e limpou a sujeira em seu rosto. A garota nerd, do seu lado, estava acabando de tirar a tinta dos óculos, falando alguma coisa inaudível.
— Oi? — perguntou Marce, tirando os fones da cabeça e expressando um olhar de desinteresse.
— Às vezes eu tenho vontade de colocar fogo naquela escola maldita, com esses idiotas todos lá dentro, amarrados pelo pinto — a menina falou, sem se importar se alguém mais estava ouvindo a conversa.
Marce soltou uma risada tímida de deboche e voltou a olhar pela janela, observando a sequência disforme de casas que formavam o caminho até seu destino. A droga tinha começado a fazer efeito.
— O que foi? Do que você tá rindo? — perguntou a outra, procurando ver através da janela o que quer que fosse.
— Tem uma mancha de tinta azul no meio do seu dente — foi só o que Marce disse, antes do transporte frear bruscamente.
Saiu do ônibus sem olhar pra trás, desviando de todo mundo, com cuidado pra não arranjar mais problemas, e logo em seguida se perdeu no meio da multidão que se espremia na entrada da escola.
—
No banheiro, Marce lavou o que havia sobrado de tinta no rosto e no cabelo e também aproveitou para escovar os dentes. Usar o lavatório da sua casa implicava em disputar o território com a sua mãe ou com o seu pai, e, no passado, com o seu irmão Paulo. Por isso sempre tomava banho antes de dormir e deixava pra lavar o rosto na escola. Tudo pra permanecer em paz e longe de qualquer pessoa.
— Nossa, ela parecia ter morrido ali, no meio da festa, até que um dos meninos levantou ela e levou correndo pro hospital — a voz veio do corredor até onde ela estava.
— Eu teria dado um rim pra ver essa cena, hahaha. E ainda tirava foto pra colocar no mural da entrada — uma tonalidade um pouco mais rouca continuou o diálogo.
As duas meninas entraram no banheiro e, ao ver que a 'esquisitona' estava se arrumando, ficaram quietas imediatamente, olhando pelo espelho. Marce, por sua vez, continuava com os fones no ouvido, mesmo sem música, pra que ninguém ousasse puxar conversa. De repente a conversa das garotas começou a chamar sua atenção.
— Será que ela tá escutando a gente? — perguntou a menina de pele escura e brinco vermelho, em formato de estrela.
— Acho que não. Aposto que ela tá escutando algum podcast de autoajuda, pra ver se aprende a viver feito gente normal — a loira riu disfarçadamente, enquanto tirava o batom da bolsa.
— Hahaha, coitadinha…
— Ai, Laura. Deixa de querer dar uma de Madre Teresa de Calcutá — reclamou a loira, passando um batom rosa-suave nos lábios — Essa daí só pode ser de outro planeta.
Marce estava chapada, rindo consigo mesma e chacoalhando o corpo como se estivesse realmente ouvindo música. A conversa das duas não a incomodava, pelo simples motivo de que, para ela, ser diferente daquelas duas era o mínimo que um ser humano precisava pra ser uma pessoa minimamente louvável.
O rosto de Laura empalideceu de repente, como se alguma coisa no seu estômago estivesse prestes a explodir.
— Você tá bem, Laurinha? — perguntou a outra, devidamente maquiada.
— Eu só preciso de um segundo… — Laura entrou no box e ficou em silêncio por um tempo. Em seguida surgiu um barulho de vômito e de descarga, fazendo surgir uma expressão de nojo no rosto de Marce, que estava terminando de escovar os dentes.
— Então quer dizer que você tá ouvindo tudo que tá acontecendo nesse banheiro? — perguntou a loira, ao percebe que Marce não estava ouvindo música nenhuma.
A menina continuou fingindo que não escutava nada, lavou a boca rapidamente e começou a guardar seus pertences para poder sair dali. Nesse momento, Laura saiu do box, enxugando o canto da boca com uma das mãos.
— O que foi, Margarida? Aconteceu alguma coisa? — perguntou ao ver o rosto de dúvida da amiga.
— Nada… Por um segundo eu achei que a menina monstro tava escutando a gente… — Margarida respondeu, olhando para o rosto de Marce através do espelho.
— Você fala como se eu tivesse algum interesse na vidinha medíocre de vocês — Marce falou para Margarida, antes de sair do banheiro — A propósito, esse batom faz você parecer ainda mais vadia.
Laura escondeu o riso enquanto Marce caminhava em direção ao corredor. Como resultado da conversa, Margarida passou mais meia hora no banheiro, escolhendo uma nova cor de batom que combinasse com a sua pele e retocando a maquiagem pós ataque de nervos.
—
— Os glóbulos brancos, também chamados de linfócitos, são responsáveis por proteger o corpo humano do ataque de bactérias e outros organismos nocivos…
A voz do professor Afrânio ecoava pela sala, enquanto seus pequenos dedos gordos apontavam para uma tela cheia de pontinhos vermelhos, brancos e amarelos. Ao redor, alguns alunos prestavam atenção em suas palavras enquanto a grande maioria dormia ou mexia no celular.
— Você acha que eu tô parecendo uma vadia? — perguntou Margarida para Mário, seu namorado.
— Claro… Quer dizer, isso é bom, não é? — Mário matinha um sorriso bobo no rosto, sem entender o motivo da pergunta.
— Deixa de ser idiota — falou Davi, baixinho, dando um tapa na cabeça de Mário — ela quer que você diga que ela tá linda. A propósito, você tá divina hoje, Margarida.
Mário sorriu, desconsertado, enquanto seu amigo Davi tentava corrigir sua falta de gentileza. Margarida retribuiu o comentário com uma piscadinha, fingindo estar copiando o que o professor dizia.
Marce não pôde deixar de ouvir a conversa à sua volta. Era interessante notar que aquela menina, que aparentemente era super segura de si mesma, tinha se preocupado com algum comentário seu. Como se de repente ela existisse, de fato, e sua opinião valesse de alguma coisa.
— Ok, pessoal. Mesmo com a metade da turma dormindo e a outra metade conversando, eu preciso fazer o sorteio das duplas pro trabalho da próxima semana — o professor Afrânio levantou um pouco a voz para que a turma o notasse de pé, ali na frente — Como vocês já devem estar sabendo, esse trabalho vai impactar bastante a nota da disciplina, então eu espero que vocês façam com vontade.
Para Marce, essa era a pior parte de ser estudante. Os trabalhos em equipe. Ouvir música pra não responder ninguém era fácil, cheirar cocaína pra não se importar com as humilhações era uma maravilha, mas nada daquilo funcionava quando ela se via obrigada a interagir com alguém pra ganhar nota. E dessa vez, mais do que nunca, as esperanças de ter um ano tranquilo foram por água abaixo.
— Margarida, minha querida, você vai fazer o trabalho com a… Marcelina Guerra — o professor Afrânio notou na mesma hora o olhar de insatisfação de ambas — Lembrando que essa é uma ótima oportunidade pra vocês se conhecerem melhor. E quando eu falo vocês, eu quero dizer a turma inteira.
Laura, Davi e Valéria não conseguiam parar de rir, enquanto Mário tentava acalmar a namorada.
— Calma, amor, é só um trabalho sem importâcia... Se você quiser, eu fico do seu lado pra ela não te morder.
Mário olhava de canto de olho pra Marce, lembrando da valentia da menina durante a brincadeira no ônibus. Margarida estava de cabeça baixa, provavelmente imaginando sua nota indo pro espaço, junto com a sua dignidade.
— É melhor você ser boa em Biologia, porque senão, eu vou fazer da sua vida um verdadeiro inferno — disse Margarida olhando nos olhos de Marcelina.
— Eu gosto do inferno... — falou Marce, anotando no caderno o que deveria ser entregue — Lá é o único lugar onde eu posso viver de verdade.
—
A aula acabou e Marce saiu da sala. No corredor, todos eram seus inimigos declarados. Esbarrou em uma menina baixinha que se meteu na sua frente, desviou do pé de um garoto, que provavelmente tinha o intuito de derrubá-la, evitou andar pelo saguão pra não dar de cara com as líderes de torcida e seus sorrisos maquiavélicos. Tudo isso pra ter um dia um pouco mais tranquilo.
Estendeu a bandeja para uma mulher vestida de sardinha, tagarelando sobre os efeitos do omega 3 no corpo humano. Pôs um pouco de salada no prato e equilibrou uma laranja entre o braço e o cotovelo, enquanto procurava um lugar pra sentar.
Achou uma mesa afastada e sentou, sem fazer movimentos bruscos. Comeu quieta, sem olhar pros lados, ouvindo música e imaginando o quão divertido seria se tudo aquilo pegasse fogo. Marce adorava a sensação do fogo encostando na sua pele. Talvez porque a dor era uma das poucas coisas reais na sua vida. Mais até que amor, tristeza e todos esses sentimentos falsos inventados pra vender marca de sutiã.
—
Depois do almoço, era chegada a hora da pior aula de todas, atletismo. Além de saltar com varas, as meninas tinham que correr ao redor de uma pista enorme, se equilibrar em cordas e fazer acrobacias constrangedoras na frente umas das outras.
Obviamente, Margarida, Laura e Valéria, o trio oficial de vadias da Escola Mundial, segundo Marcelina, também eram suas colegas de esporte. E evitá-las parecia ser uma tarefa cada vez mais impossível. Pelo menos a pista de corrida era longa e tinha bastante espaço pra todo mundo.
— A Margarida não é uma pessoa tão difícil de lidar quanto parece — disse Laura, correndo ao lado de Marce na pista — Você só precisa baixar a cabeça pra ela de vez em quando.
— Eu não ligo pra sua amiga, com tanto que eu ganhe a minha nota — disse Marce, ofegante.
— Você devia dar uma chance pra ela — Laura respirava com dificuldade enquanto falava — Fazer amigos, de vez em quando, não faz mal pra ninguém.
— Até parece que alguém se importa…
Marce acelerou, deixando Laura pra trás, e pôs os fones de ouvido pra não ser mais incomodada. No banco, dava pra ver que Margarida e Valéria falavam sobre ela. De repente, as duas levantaram às pressas, e correram em direção à pista.
Mais atrás, Laura se encontrava no chão, sem forças. De início, Marce ficou parada, esperando que Margarida e Valéria ajudassem a menina, mas ao perceber que as duas estavam completamente desesperadas sem saber o que fazer, não houve outra alternativa senão ir lá ajudar.
— Provavelmente ela tá desidratada — disse Marce, avistando a cantina ao longe — Alguma de vocês pode ir buscar água?
As duas se entreolharam, espantadas. A cabeça de Laura descansava sobre o colo de Margarida.
— Anda, o que você tá esperando? — Margarida fez um sinal para que Valéria fosse até a cantina.
Valéria saiu correndo, deixando Marce e sua arqui-inimiga à sós.
— Por que todo mundo sempre te obedece, como se você fosse algum tipo de autoridade? — perguntou Marce enquanto checava a pulsação de Laura.
Margarida ficou sem reação, encarando pela primeira vez a visão de alguém que não era sua amiga, sobre a forma como ela tratava os outros.
— Limpa o rosto dela com isso aqui — Marce tirou a toalha que estava presa em seu short e entregou para Margarida.
Os cabelos loiros e longos de Margarida tapavam seu rosto envergonhado e, quanto mais Valéria se aproximava com a água, mais vermelha ela ia ficando.
— Toma — Valéria estendeu a água para Marce — Eles me deram de graça porque eu sou "bonita e atraente".
— Parabéns — Marce pegou com toda força a água das mãos de Valéria e colocou devagar entre os lábios de Laura.
— Por que você tem que ser sempre tão arrogante? — perguntou Margarida, tentando entender o que se passava na cabeça da menina ajoelhada à sua frente.
Marcelina fingiu que não escutou. Fez um sinal para que as outras à ajudassem a levar Laura até o vestiário e juntas abandonaram a pista de corrida. No caminho, Margarida sorriu para o treinador e conseguiu fazer com que as quatro fossem dispensadas do resto da aula.
— Viu? — comentou Margarida, quando elas já estavam fora da pista — É só você sorrir que as pessoas retribuem sendo gentis e simpáticas.
— Pode deixar que eu vou lembrar disso quando o seu namorado me sujar de tinta de novo no ônibus — Marcelina parecia ter se enfurecido de repente — ou quando alguém colocar o pé na minha frente pra eu cair no meio do corredor, ou quando alguém rir pelas minhas costas me chamando de esquisita, extraterrestre, hermafrodita…
— Dá pra vocês duas pararem com essa discussão? Eu tô mal pra caramba aqui — reclamou Laura, sentando devagar no banco do vestiário.
As quatro ficaram em silêncio e, aos poucos, uma a uma, foram tirando a roupa pra tomar banho. Marcelina esperou que as duas primeiras saíssem e, ao ver que Laura ainda não estava em condições de levantar, virou de costas e tirou a blusa.
— O que foi? — perguntou Laura, apalpando a barriga- Você tá com vergonha porque os seus peitos são pequenos? Relaxa… Todo mundo aqui tem uma parte do corpo que detesta, não é mesmo, Val?
— Com certeza! — gritou Valéria, debaixo do chuveiro — Eu tenho um peito maior do que o outro. Pelo menos os seus são igualzinhos.
Marce soltou um pequeno sorriso, imaginando como seria ter um peito maior do que o outro. A água fria molhou o seu corpo, fazendo com que se sentisse viva, e a sensação de estar na companhia das outras meninas a fez refletir sobre algumas questões mais profundas. Podia até ser que o mundo não estivesse preparado pra recebê-la, mas talvez ela carregasse uma boa parte da culpa consigo, não permitindo que as pessoas se aproximassem.
— Eu até que acho o seu irmão bonitinho — disse Valéria, enquanto as três se enxugavam do lado de fora dos boxes — Se eu não já tivesse o Davizinho…
Marce ficou quieta, se enxugando sem deixar que elas vissem muito do seu corpo.
— Nossa, Val, que horror. O Davi eu até entendo, ele é bonitão e tal… Mas o Paulo? — exclamou Margarida, surpresa com a revelação.
— A Val tinha uma crush nele desde o dia em que ele colocou as baratas no carro do professor Bloods! — gritou Laura, debaixo do chuveiro.
— Aquele dia foi incrível — comentou Valéria — Chega a ser engraçado uma menina tão… Sei lá… Tão comportada, ser irmã dele... Aquele menino só pode ser filho do diabo.
Margarida segurou o riso, ao ver que Marce não tinha gostado muito do comentário. De fato, ser irmã do Paulo Guerra, possivelmente o pior aluno da escola, era um título e tanto. Mas a menina também conhecia o outro lado da história. E pra ela o irmão era o único ser humano capaz de entendê-la. Mesmo que ele não soubesse demonstrar isso.
—
Depois do banho, Margaria, Laura e Marce decidiram ir a pé pra casa, enquanto Valéria permaneceu na escola, esperando o treino dos garotos acabar.
— E então, você acha que até o fim da semana a gente consegue juntar alguma coisa pro trabalho? — perguntou Margarida, olhando para a menina ao seu lado.
— Não esquenta com isso. Eu vou dar uma pesquisada esses dias e ver se consigo ir adiantando alguma coisa — Marce caminhava um pouco mais rápido que as outras, torcendo pra chegar a hora de cada uma seguir o seu caminho.
— Ufa, ainda bem. Eu tô cheia de coisa pra fazer essa semana. Fora o Mário, que fica direto no meu pé me chamando pra casa dele…
— Hmm… — Comentou Laura, debochada — Pelo visto ele tá comparecendo, ein…
— Ai, para, Laura. A gente ainda tá só nas preliminares. Nem louca que eu vou dar o que ele quer, assim sem mais nem menos — Margarida sorriu — Ele vai ter que me implorar de joelhos, que nem todos os outros.
Marce já estava completamente enjoada da conversa e tudo que mais queria era chegar logo em casa. Quando dobraram a esquina, porém, um grupo de garotos com o uniforme amarelo e roxo esperavam por elas, com bexigas cheias d’água nas mãos.
Nesse momento, Margarida e Laura se afastaram dela, lançando um sinal pra Valéria do outro lado.
— Relaxa, amiga, a gente só quer te ajudar a esfriar um pouco mais a cabeça — disse Valéria, dando um toque de leve nas costas de Davi.
A partir daí, tudo que Marcelina pôde ver foram bexigas sendo arremessadas em sua direção. Valéria, Davi e Mário lideravam o bando, enquanto Margarida precisou se apoiar em Laura pra não cair de tanto rir.
— Nossa, mas que ideia idiota essa de vocês — comentou Laura, assistindo a humilhação de perto.
♪ James Blake — "Retrograde" ♪
Depois que o ataque acabou, Margarida se aproximou de Marce, encharcada e com o rosto coberto pelas duas mãos, e cochichou algo em seu ouvido.
— Você nunca vai ser uma de nós. Nunca.
Marce sentiu uma vontade enorme de chorar, embora aquilo não fizesse parte da sua rotina. Ser humilhada nunca foi novidade, mas confiar em alguém, mesmo que por uma fração de segundo, e ser traída logo em seguida era diferente. E mais do que nunca o seu desejo de que o mundo acabasse voltou a reinar em sua mente.
— Anda, Marga, acabou o showzinho — disse Laura, esperando que a amiga se juntasse aos outros.
— O trabalho é pra semana que vem. Boa sorte.
Margarida virou de costas e seguiu com o grupo. Marce acompanhou os passos deles, cerca de dez pessoas, alegres e satisfeitos com o que tinham feito, até sumirem no horizonte. Apertou firme o rosto com as mãos e cravou as unhas na testa, esperando que a dor física ultrapasse a amargura a amargura que estava sentindo por dentro. Tinha se enturmado com as meninas que mais detestava, e até ajudou uma delas em uma situação crítica, mas nada daquilo valia de alguma coisa perante a piada pronta que ela era. A garota que todos adoravam machucar.
Seu coração batia forte, na medida em que levantava. As pessoas na rua olhavam pra ela, sem coragem de falar alguma coisa. Ela caminhou sob a mira de todos, escondendo o olhar vazio de quem mais uma vez perdia as esperanças na humanidade. E por alguns segundos, pensou em se jogar na frente de um carro e acabar com todo aquele constrangimento. Mas não queria causar nenhum incômodo para os pais. Nem para o motorista que carregaria o fardo da sua morte.
Quando chegou na porta de casa, ficou um tempo parada, olhando pra fechadura. A água ainda escorria por todo o seu corpo, como um rio tranquilo, um sopro de vida. Lá dentro, sua mãe avistou uma silhueta estranha na porta, através do vidro, e imediatamente se deu conta do que tinha acontecido. Não seria a primeira vez que ela chegava assim em casa. Da calçada, dava pra ver uma menina baixinha sendo acolhida pelos pais. Uma toalha em volta do seu corpo trêmulo, uma xícara de café quente nas mãos e um olhar perdido de quem não faz ideia de qual é o seu lugar no mundo.
—
De noite, Marcelina caminhou da sua casa até a praça onde ficava o trailer do irmão. Ela levava consigo uma sacola com alguns suprimentos, como arroz, biscoito, frutas e pasta de dente. Lá fora, Paulo fumava um cigarro, sentado na grama e observando as estrelas.
— Ual, que fartura — debochou Paulo, vendo o que tinha dentro da sacola.
— Pelo menos o mais importante nunca falta por aqui — comentou Marce olhando para a garrafa de vodka ao lado do irmão.
— Senta aí — Paulo apalpou a grama ao se lado com a ponta dos dedos.
Marce sentou e, antes de falar qualquer coisa, tirou o cigarro da boca do irmão e deu um trago enorme. Depois voltou seus olhos para cima, procurando algo específico.
— Vai com calma, senhorita drogadinha — Paulo riu, abrindo a garrafa e se preparando pra tomar um gole.
— Olha só quem tá ali — Marce tinha um tom suave na voz.
— É, eu vi — Paulo olhava pro céu, na mesma direção que ela.
— Lembra quando a gente era criança e o papai teve que passar uma semana fora por causa do trabalho? — perguntou Marce, dando um segundo trago um pouco mais devagar dessa vez — Ele disse que essa estrela era um infiltrado dele no céu, que via se a gente tava se comportando direito.
— Lembro... Foi a única semana da minha vida em que eu não fiz nenhuma besteira.
— Eu gosto dessa estrela — Marce tomou um pequeno gole da vodka e fez uma careta — Esse negócio deve tá vencido. Pelo amor de deus.
Os dois riram um pro outro.
— Sabe — Paulo fez uma pausa, como se não tivesse certeza se deveria mesmo colocar pra fora o que estava pensando.
— Fala — Marcelina deu um último trago e recolocou o cigarro na boca do irmão.
— Às vezes eu fico aqui fora, imaginando que você, a mamãe e o papai tão dentro dessa estrela, vendo se tá tudo bem por aqui.
Marce ficou um tempo calada. Faziam quase dois meses que Paulo tinha sido expulso de casa.
— Você não tá perdendo nada. A vida continua a mesma droga de sempre.
— Eu sei, Marce… Eu sei… — Paulo tragou profundamente e fez um círculo de fumaça no ar.
Os dois se entreolharam, com um pequeno sorriso no canto da boca, e voltaram a mirar na estrela. Do alto, se viam duas criaturas, uma garrafa de vodka e um trailer. Lá de baixo porém, a única certeza era de que o infinito morava logo acima. E que, não importava o quanto a vida parecesse uma piada idiota e sem sentido, sempre haveria um céu, as estrelas e uma porção de coisas que valiam a pena serem vistas. Coisas que, pela própria natureza, não carregavam um sentindo, mas nem por isso deixavam de ser belas.
Marce abraçou os joelhos, sentindo a brisa leve que dominava aquela noite iluminada de Bristol.
— Eu só queria que tudo despencasse logo de uma vez...
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