Skinny love
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Amy, alguns anos antes.
— Améliaaaa, anda logo menina, parece que vai casar!
— Não fala uma coisa dessas Cecília! Minha princesa jamais!
— Ô pai, não exagera, né! E a senhora também, Ceci. Eu e Julie já estávamos até tomando café! — grito da cozinha, sentada com Julie numa mesa colorida, comendo nosso excelentíssimo café da manhã, basicamente café forte e bolachas salgadas com manteiga.
— Oh, me desculpe senhorita responsável, mas eu não estava acostumada com tamanha pontualidade... — disse ela, e vendo minha cara de emburrada me dá um beijo na bochecha.
Não sei o que seria de nós sem Cecília. Ela não é da nossa família, mas eu poderia facilmente me acostumar a chamá-la de vovó, embora eu já tenha tentado, mas ela não deixou, Ceci disse que começaria a me chamar de netinha e iria me paparicar até eu ficar com alguns quilos a mais e bochechas bem vermelhadas, de tanto serem apertadas, Julie acha que ela não gosta de se sentir velha, ela é muito vaidosa, não posso culpá-la, ela parece ter saído de um musical, seus cabelos são brancos e bem modelados, as bochechas saltados e olhos enrugados e simpáticos. Cecília conviveu por muitos anos com a família de meu pai. Depois que minha mãe simplesmente desapareceu de nossas vidas meu pai entrou em depressão, e ela se ofereceu para ajudar a cuidar de mim e da minha irmã mais velha, Julie.
— A diretora já comentou sobre as bolsas para facul, Amy? Você podia tentar.
— Eu ainda estou no primeiro ano, vou ter muito tempo pra isso.
— Pois, se eu fosse você, pensaria logo quanto a isso, a concorrência nunca descansa.
Julie era certamente a irmã inteligente e responsável, que conseguia ser divertida nas horas vagas, ainda que do seu jeito calmo e diplomático, além de ser linda até em plena manhã. Ela já está na faculdade, cursando medicina, mas podia se passar facilmente por minha irmã gêmea se deixasse o cabelo crescer e usasse lentes de contato.
— Vai querer carona? — pergunta ela com a chave do carro em mãos.
— Não, eu vou com o Rafael.
— Tem certeza, filha? — pergunta meu pai como se não gostasse da idéia, no andar de cima de nossa casa, como gostaria de ter sua incrível audição.
— Pai, o Rafael é o meu melhor amigo, tipo assim, desde sempre...
— Eu sei filha, — disse ele se aproximando de nós duas, dando um beijo na testa de cada uma — Mas uma das minhas funções como pai é nunca deixar de ser ciumento.
— Ainda mais quando tem motivo, não é?
— Não sei do que você está falando, Julie.
Finalmente saio de casa, caminho apenas alguns poucos metros até chegar na casa do nosso charmoso vizinho. E lá estava ele, me esperando na frente de sua casa, com aquele olhar divertido por trás de seus óculos, seu sorrisinho torto e seu cabelo acobreado e macio que eu já tive a experiência de cortar e deixar um espacinho careca nele por quase um ano.
Mal pude me conter em ajeitar o meu cabelo. Eu sei, ser afim do melhor amigo, que coisa mais clichê. Eu tentei me disciplinar, dizia a mim mesma para afastar essa idéia de "mais do que amigos", juro, a gente até se odiava quando crianças, até uns 9 anos (8 no meu caso) quando descobrimos que tínhamos mais coisas em comum do que desavenças, e principalmente que a companhia um do outro era sempre prazerosa e divertida (apesar de ele conseguir me irritar profundamente às vezes), e bem... Ele cresceu, está bonito e cheio de (argh) admiradoras e amigos, mas nunca me deixou de lado, embora eu ache que ele não sinta o mesmo por mim, por mais atencioso que ele possa ser.
— E aí, baixinha. — eu não era realmente baixa, tinha uma altura considerável, e por isso ela me chamava de baixinha, porque eu não era baixinha, esse cara sabia como me irritar, se bem que perto dele qualquer um parecia mais baixo. De repente, me olhou sério. — Seu pai teve alguma recaída?
Eu suspiro enquanto ele segura na minha mão, era uma sensação boa, sentir seus dedos entrelaçados nos meus, o jeito que eles se encaixavam, pare com isso Amy.
— Não, mas nunca se sabe. Se bem que, às vezes, ele parece triste, meio distante, e o pior é que eu não posso fazer nada. Confesso que chego a ter medo de que ele possa ter outro derrame.
Meu pai teve um derrame há quase um ano atrás, foi um milagre ele ter sobrevivido sem sequelas, mas o médico nos alertou de que ele precisava de cuidados e ajuda para se manter forte depois de tanto sofrimento.
— Não vai acontecer de novo, parece que ele nunca esteve tão bem, sério, confia em mim. — dizia ele apertando levemente a minha mão. Eu sorrio, tentando com todas as minhas forças acreditar nele.
— Amy calma! Ai meu Deus o que eu faço? Cadê o manual de O que fazer quando sua melhor amiga surta quando a gente precisa?!
Elize podia até se sentir inútil, mas o que ela fez foi o suficiente. Ela sabe muito bem que eu odeio chorar em público, então ela pagou a nossa conta em tempo recorde e, de alguma forma mágica, conseguiu me conduzir até o carro e me trazer sã e salva até o nosso apartamento, onde eu desabei. Eu cheguei a um ponto em que não conseguia parar de soluçar, me sentia como uma criança que precisasse de colo, Para com isso, Amy! Você já tem quase 19, tente se virar.
— Elize, traz o notebook pra mim, vou para o Brasil agora.
— Opa querida, — memes agora? Sério? — isso aqui não é novela! Você não sabe se tem vôos disponíveis para hoje, muito menos para agora, e se tiver vai ser mais caro que o meu rim! Além de que nós estudamos numa faculdade mais cara que os meus dois rins e temos aula amanhã, então te acalma aí e passa o número da sua irmã e me deixa falar com ela.
É, acho melhor não contrariá-la. Passo o meu celular com o número discado e ela se afasta, me deixando sozinha com os meus pensamentos.
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