Skinny Love
1 Capítulo Único.
Vamos, amor frágil, apenas dure o ano
Coloque um pouco de sal, nós nunca estivemos aqui
Meu, meu, meu, meu, meu, meu
Encarando a poça de sangue e aparência esmigalhada.
00:42 A.M 04/05/2004
Eu soluçava. Chorava como nunca tinha chorado em toda minha vida. Sentia como se tivesse engolido uma bola de tênis. Uma bola de dor e agonia se formara em minha garganta, e nem os gritos que eu soltava contra o travesseiro ajudavam a aliviar aquilo. Sentia uma vontade enorme de me enfiar debaixo das cobertas e só sair de lá quando tudo isso passasse. "Idiota, mais uma vez foi abandonada, mais uma vez foi deixada para trás. Isso sempre acontece com você, você é uma inútil, um nada. Porque não some? Nada nem ninguém sentirá a sua falta." Em minha mente, ecoavam apenas palavras que só pioravam a situação. Adorava fazer aquilo, me machucar. Não fisicamente, nenhum corte ou queimadura fazia a dor amenizar. Nada. Agora, me torturava com palavras. Fraca, ridícula, sem amigos, sem amor, gorda, feia, eram as minhas preferidas. Aquilo doía tanto, mas de alguma forma, ajudava a calejar. Mas as horas foram passando, e nada ajudava a melhorar. Não amenizava, não melhorava, não calejava.
Eu digo ao meu amor para destruir tudo,
Cortar todas as cordas e me deixar cair
Meu, meu, meu, meu, meu, meu
Bem no momento em que essa tarefa é quase impossível.
3:54 P.M 08/05/2004
Acordei com uma dor de cabeça terrível. Havia passado a noite toda chorando. Olhei pro relógio e era quase quatro horas. Meu Deus, eu tenho dormido quase doze horas por dia... Nem me preocupei em levantar da cama. Virei pro outro lado e fiquei fitando a parede. Tinha crises de choro. As vezes crises de riso. E não era porque eu estava feliz ou melhorando. Eu ria de mim mesma. Do quão ridícula eu era. Como pude? Como pude ser tão tola? Eu não vou ser feliz, nunca fui, nem nunca vou ser. Vou ser infeliz pelo resto da vida, e ponto. Não sei porque diabos cheguei um dia a acreditar que eu seria como aquelas pessoas felizes que via no shopping, ou no centro da cidade. Era ridículo e impossível.
Minha cabeça doía mais do que o normal, levantei da cama pra pegar um remédio. O contato dos meus pés com o chão foi estranho. Deu algum tipo de choque, algo assim. Coloquei os chinelos e fui a cozinha. Tomei meu remédio, voltei pro quarto, deitei na cama; sussurrei um "o que eu estou fazendo da minha vida" virei pro lado e dormi.
Eu te disse para ser paciente
Eu te disse para ficar bem
Eu te disse para ser equilibrado
Eu te disse para ser gentil
De manhã estarei com você
Mas será de um jeito diferente
Porque eu estarei segurando todas as multas
E você estará assumindo todas as contas.
12:01 P.M 09/05/2004
Acordei e estava chovendo. O barulho das gotas batendo na janela acalmaram um pouco meu coração. A dor tomou conta de mim de tal forma que não conseguia se quer abrir os olhos. Então, pensei: para que continuar com isso? Porque não dar um fim nisso tudo? Abri os olhos e fitei o teto. Seria o certo? Não, certo não, mas seria o mais sensato. Conviver com tal dor estava me matando aos poucos. Levantei da cama, olhei o espelho. Não reconheci aquele reflexo. Estava mais magra, triste, e apagada. Meus cabelos estavam em um coque espetado, minha cara amassada, e olheiras profundas haviam se formado abaixo dos meus olhos. O que havia acontecido com aquele antigo eu? O que aconteceu? Eu não sabia explicar.Mas havia tomado uma decisão.
Vamos, amor frágil, o que aconteceu aqui?
Amamente-se da esperança em peitos magros
Meu, meu, meu, meu, meu, meu
A carga de amargura está completa; então vá devagar na separação.
Caminhei em direção ao topo do prédio onde morava, quando cheguei lá, senti o vento. Me senti viva. Estranho isso: se sentir viva quando se quer tirar a vida. Caminhei até a borda. Meu coração acelerado, minha alma queria sair voando. Olhei para baixo. Vários metros e meu corpo encontraria o chão, a morte, o fim.
Quem vai te amar?
Quem vai lutar?
Quem vai ficar bem para trás?
Lembrei-me de um momento feliz (um dos últimos que tinha tido, antes de tudo acontecer).
"Mas eu quero uma rosa! Uma rosa vermelha! Milhares delas, milhares, ouviu?
Ah meu anjo, te darei quantas milhares de rosas tu quiser.
Se for pra lhe ver feliz, darei-te as rosas."
Eu amava rosas vermelhas, havia pedido uma a ele, uma semana antes de descobrir tudo. Descobrir que ele tinha outra. Descobrir que ele amava mais a ela do que a mim. Descobrir que ele fazia as mesmas promessas a ela, que fazia as mesmas declarações, as mesmas coisas. Depois disso foi o fim.
Abri meus braços e me joguei no vazio. O vento batia forte em meu rosto, senti meu coração dar um solavanco e parar. Então tudo ficou quieto. Uma paz. Uma tranquilidade. Algo que a tempos não sentia. Vi meu corpo jogado no chão, mas não estava nele. Olhava de cima, olhava de um outro ângulo. Percebi ali, que toda a dor havia acabado. Finalmente, seria feliz.
Vamos, amor frágil...
Meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu
Meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu, meu...
Em seu enterro, ele a trouxe rosas. Milhares delas. Vermelhas, vivas. Mas ela não estava mais ali para pega-las do braço, para cheira-las. Não estava mais ali para toca-lo, para beija-lo, muito menos para ama-lo.
"Os mortos recebem mais flores que os vivos, porque o remorso ė mais forte que a gratidão" — Autor Desconhecido
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