Sk8er Girl
1 Capítulo Único
— O quê?
Encarei a tela de meu notebook incrédula. Minha mãe me fitava com expectativa.
— Não! Sem chance!
— Maria Beatriz, isso não é um pedido!
— Mas, mãe, eu não posso... Isso — apontei para mim — faz parte de mim.
— Não estou pedindo para fazer isso pelo resto de sua vida, sei que um dia irá crescer, sair dessa fase e parar de usar essas... roupas de... menina rebelde — fez carta.
Bufei. Fechei os olhos, encarando o emaranhado de raiozinhos que aparecem na imensa escuridão procurando por uma ideia que a fizesse mudar de ideia.
— Eu nem sei me vestir assim, não sei combinar roupas.
— Não me venha com desculpas esfarrapadas, Mabi, sua mãe não vai cair nessa. Pede ajuda para alguma amiga sua.
Rolei os olhos. Se ela soubesse as roupas que a única amiga que eu tinha usa, não teria falado isso. Não tinha nada contra às roupas que Talita usava, mas eu duvido que minha mãe gostaria que eu aparecesse em seu casamento de saia jeans cumprida e suéter de lã com girafas desenhadas.
— Filha, não é nada demais. É só trocar essa calça rasgada e esse moletom masculino por um vestido longo e delicado. E, claro, pintar esse cabelo.
Arregalei os olhos e automaticamente levei as mãos aos meus cabelos.
Não.
N.
A.
O.
~.
— Meu cabelo não!
— Você não vai aparecer no meu casamento com esse cabelo azul, Mabi. Ou você pinta, ou...
— Mãe! — Choraminguei. — Eu amo meu cabelo e demorou tanto tempo para chegar a esse tom de azul — disse brincando com uma mecha.
Minha mãe respirou fundo.
— Tudo bem, o cabelo fica. Mas sobre as roupas, já sabe.
Soltei um muxoxo.
— Vou ver o que posso fazer.
Ela sorriu do outro lado da tela.
— Obrigada, minha flor! Bem, eu tenho que ir preparar a comida do Carlinhos. Beijos, filha, a mamãe te ama!
Sorri.
— Também te amo, mãe.
Assim que a transmissão terminou, a home do Skype apareceu. Pensei em chamar Talita, mas seu status estava ausente. Fechei os olhos e suspirei. Por que minha mãe tinha que fazer essas coisas? Ela sabe que eu não suporto essas coisinhas delicadinhas. Um pigarreio vindo da porta me chamou atenção e olhei para a mesma, encontrando meu pai escorado na madeira.
— Ânimo, Mabi!
— Eu não sou uma florzinha, pai, não gosto de me vestir como uma.
— Será apena uma semana, depois disso você pode voltar aos seus coturnos e skates.
Suspirei novamente.
— Pelo menos ela me deixou continuar com meu cabelo.
Ele riu e abaixou o tom de voz, como se não quisesse que ninguém nos escutasse:
— É porque no fundo ela sabe que seu cabelo é mais bonito que o dela.
Ri e balancei a cabeça negativamente. Não é que ele e minha mãe se odiassem ou coisa assim, mas entre nós duas, ele preferia a mim. E você não entendeu errado, minha mãe está se casando de novo. Meus pais não se separam por brigarem vinte e quatro horas por dia como a maioria dos casais que se divorciam hoje em dia, eles simplesmente perceberam que não combinavam um com o outro e estariam mais felizes se cada um seguisse a sua vida. Você deve estar se perguntando “se não se combinavam, por que se casaram então?” Na verdade, é uma história engraçada. Minha mãe era a popular da escola, a patricinha líder de torcida, sonho de consumo de todo garoto. Meu pai? Bem, ele era popular também, mas não era do time de futebol ou do clube de teatro, que todos consideravam como “os legais” da escola. Meu pai era o que para mim significava com um verdadeiro “legal”: ele era um loser. Mas ele não era qualquer loser, como os nerds perebentos que têm suas cabeças enfiadas nas privadas por garotos do time de futebol. Meu pai era um loser popular que ele tinha uma banda punk com mais três amigos. Oh, meu chapa, isso sim era ser “cool”.
Enfim, pessoas como a minha mãe não andavam com pessoas como meu pai, porém, ambos tinham um desejo reprimido um pelo outro que só foi realizado no dia do baile de formatura. A banda de meu pai tocou, minha mãe e seu fiel admirador, o capitão do time de futebol, foram eleitos a rei e rainha do baile, porém quando acabou o discurso da rainha e a dança com o capitão, minha mãe escapou do baile para respirar um pouco e acabou encontrando meu pai na arquibancada do campo de futebol externo. Tímida, ela perguntou o que ele estava fazendo ali sozinho e ele, com sua Heineken na mão, disse estava se sentindo sufocado, então saiu para ver as estrelas. Isso fez minha mãe virar uma manteiga e não se preocupou em pedir para se sentar ao seu lado, entretanto meu pai não reclamou. Ele perguntou porque ela saiu da festa e ela riu ao perceber que os motivos de ambos na verdade eram os mesmos. E então eles começaram a conversar e se conhecer melhor. E uma coisa leva a outra, tanto que a noite acabou com minha mãe enrolada nos lençóis de seda de um motel com meu pai ao seu lado. Arg! Só de pensar nessa cena me dá calafrios.
Foi uma noite mágica, ambos me disseram que curtiram muito, porém ele teve um final um pouco trágico. Quando meu pai levantou para jogar o preservativo fora, percebeu que este não estava... bem... lá e isso os apavorou e fizeram terminar a noite em um hospital. Meu pai na sala de espera e minha mãe em uma maca, com um enfermeiro com as mãos entre suas pernas para tirar a camisinha que ficou agarrada.
Bem, foi nessa noite trágica que eu fui concebida. \(*-*)/
Meus avós, tanto maternos quanto paternos, não aceitaram tão facilmente e obrigaram os jovens a se casarem. Mas não foi tão difícil assim, na verdade. Foi espantoso para as amigas dela e os amigos dele, mas tanto ela quanto ele sabiam que teriam uma vida boa ao lado um do outro. E tiveram. Papai largou a banda para se dedicar ao trabalho, à família e aos estudos enquanto mamãe cuidava da casa. Depois que eu nasci, ela cuidou de mim por dois anos até que não aguentou mais ficar dentro de casa e voltou a estudar. Cursou sua faculdade de administração e agora era dona de seu próprio negócio: uma rede de salões de beleza na Califórnia. O que papai fazia? Bem, ele largou a banda e começou a trabalhar em uma loja de móveis e eletrodomésticos enquanto à noite cursava música em uma faculdade local. Agora ele era nada mais nada menos que professor de música em sua antiga escola, que agora era minha, e sua antiga faculdade. Também dava aulas particulares, principalmente para mim, que aprendi a tocar vilão, guitarra, bateria e piano. Também aprendi a cantar, mas isso eu só fazia no chuveiro ou quando estava sozinha em casa.
Eu podia saber cantar, mas não tinha dom para fazer isso ao vivo como meu pai.
Por fim, como eu disse ali em cima, meus pais com o tempo foram percebendo que tinham menos em comum e isso foi desgastando a relação, até que um dia eles me chamaram para uma conversa. Me fizeram sentar com eles na sala de estar e anunciaram que iriam se divorciar. Não foi nenhum choque para mim, eu não era boba para perceber o que se passava com eles, então tudo que eu pude fazer foi aceitar e desejar que tivessem uma vida melhor que tiveram enquanto estavam casados. E eles tiveram. Dois anos se passaram e mamãe estava para se casar com um cara que conheceu pela internet, mas que combinava em tudo com ela. Meu pai não estava casado, porém estava de rolo com a mãe de um de seus alunos.
Às vezes eu penso o quanto isso deve ser trágico para o pobre Finn.
Meu pai veio até mim e se despediu com um beijo em minha testa. Estava saindo para mais uma de suas aulas na faculdade e depois iria ter um encontro com Susan, logo, eu teria a casa toda para mim.
O quanto isso pode ser excitante?
— Juízo, mocinha! E não espere por mim.
— Pode deixar. Eu vou ligar pro meu gogoboy preferido e vamos ter uma noite daquelas.
Ele fez careta e balançou a cabeça negativamente antes de sair do meu quarto. Eu ri.
Meu pai era um homem bonito. Ruivo, olhos azuis, uma boa musculatura. Não era de se espantar que Susan estivesse encantada. Já mencionei que os dois tinham o mesmo gosto musical? Isso era divino, não? Como era minha mãe? Bem, loira, magra, olhos azuis também. Parecia uma boneca de tão linda. Vocês devem imaginar que eu sou uma bela criação, não é?
Não é bem assim.
Eu puxei meu pai na cor dos cabelos e ambos na cor dos olhos. Era lotada de sardas pelo corpo esquelético, baixinha e não tinha peitos. Quer dizer, não como a maioria das garotas da minha idade. Eram pequenos e eu odiava isso. Até Talita tinha mais peitos que eu. Todos perguntam se eu sou louca por ter mudado a cor de meu cabelo. Talvez eu deva ser mesmo, mas eu amo azul e acredito que cheguei a ficar bonita assim.
Suspirei e olhei em volta de meu quarto1 quando ouvi um barulho vindo da casa do vizinho. Olhei pela janela a tempo de ver Ryan, meu vizinho idiota, e sua irmã Emma conversando. Nossas casas foram projetadas de forma errada, já que nossas janelas eram quase coladas uma na outra e eu podia ouvi-los conversando. Não sempre, é claro, isso é porque ambos falavam em um tom mais alto. Eu não era de invadir a privacidade alheia, mas confesso que fiquei curiosa ao ouvir Emma pedir conselhos de moda ao seu irmão. Sinceramente, ela estava pedindo que seu irmão, um homem, a ajudasse com suas roupas? Isso era esquisito. Era ela que deveria estar ajudando-o, mas dada às circunstâncias, ela realmente precisava de uns conselhos. Pelo o que eu entendi, Emma estava para sair com um garoto e não sabia qual roupa usar. Levou várias roupas de seu guarda-roupa até o quarto do irmão para ele a ajudar escolher, mas Ryan desaprovou todas, fazendo a garota ficar sem esperanças. Contudo, ele começou a modificar as peças. Isso mesmo que você leu! Ele pegou um vestido preto, cortou um pouco e deu um nó na lateral para que ficasse justo nas coxas, cortou as alcinhas finas na parte de trás para que fossem amarradas no pescoço. Mandou ela vesti-lo e colocar uma blusa xadrez grossa vermelha e preta por cima e amarrar as pontas na cintura enquanto ele ia pegar uns sapatos e uma bolsa da mãe deles. Se eu fiquei boquiaberta com o resultado? Com certeza! Emma ficou linda naquela roupa simples, porém bem projetada. Ryan disse para ela deixar os cabelos soltos e jogados para trás e ainda deu conselhos de maquiagem.
Algo estava muito estranho aí.
Ryan, além de meu vizinho, estava na mesma escola que eu e era capitão do time de futebol americano da escola. Nós crescemos juntos, mas depois que ele passou a ser o popular e eu a loser, passamos também a ignorar um ao outro.
Ele foi o primeiro e eu o culpo por isso.
Enfim, vendo-o dar conselhos de moda à sua irmã fez uma lâmpada acender em minha cabeça. Ryan tinha fama de garanhão da escola, isso era um dos “benefícios” que os populares ganhavam, porém eu nunca o vi com uma garota antes. Quer dizer, já vi ele abraçado com outras garotas e até alisando-as, mas isso me faz pensar agora que não se passa de uma fachada para esconder que na verdade ele é gay, porque se todos soubessem, ele perderia a fama e não seria mais popular.
Não pense que eu sou preconceituosa, mas vivemos em uma sociedade machista e se os “amigos” de Ryan soubessem que ele é gay, o chutariam para fora de seu “grupo” num piscar de olhos.
Agora sim tudo fazia sentido.
Outra luz se acendeu em minha mente, agora uma de LED, e eu sabia exatamente o que fazer para resolver minha situação.
~ / / ~
Estava quase desistindo de minha ideia e dando meia volta para voltar para casa quando porta da casa dos Bateman se abriu e Maggie apareceu com avental lotado de farinha e um sorriso genuíno.
Maggie era mãe de Ryan e Emma.
— Mabi, que bom ver você!
— Igualmente, Sra. Bateman, eu...
Ela levantou o dedo indicador impedindo-me de falar.
— Maggie, por favor!
Sorri e assenti.
— Maggie.
— O que a traz aqui, minha flor?
Arg! Por que todos tinham essa mania de me chamar de flor?
— Eu precisava falar com Ryan...
— Oh, não! Ele tá assistindo pornô com o volume alto mais uma vez? Ryan Beteman, desça já aqui! — Gritou a última frase.
— Não! — Me apressei em dizer. — É sobre a escola. Er... Nossa professora de Inglês nos colocou para fazer trabalho em dupla e eu vim resolver com ele quando e onde vamos começar.
Isso, ótima desculpa!
— Oh, sim, então suba. Ele tá no quarto, como sempre.
Ela deu passagem para eu entrar e eu sorri tímida. Subi as escadas pensando no que eu tava fazendo e se ainda dava tempo de fugir. Bem, não dava mais, pois assim que cheguei ao topo da escada/início do córrego, Ryan saiu de seu quarto e me viu.
— Jones?
Tentei dizer algo, mas ele tinha parado de colocar a camisa no instante em que me viu e a visão de seu tanquinho estava me distraindo.
Não que eu fosse atraída por esse ser idiota.
Lógico que não.
— Pode... continuar a... colocar a blusa.
Ele arqueou uma sobrancelha, porém não me questionou e terminou de ser vestir.
— O que está fazendo aqui? — Cruzou os braços.
Bom te ver também, imbecil.
Me aproximei olhando para os quadros nas paredes. Certeza que foram escolhidos pelo Sr. Bateman, já que o mesmo era designer.
— Euprecisodasuaajuda.
— O quê? — Franziu o cenho.
Bufei. Por que certas pessoas não têm inteligência o suficiente para entender o que nós dissemos rapidamente?
— Eu preciso da sua ajuda.
Ele ficou me encarando por alguns minutos tentando absorver minhas palavras.
— Em que posso lhe ser útil?
Arqueei as sobrancelhas.
Sério?
— Sério?
— Sério o quê?
— Pensei que você ia jogar alguma piada ou me mandar catar coquinho.
— Você é estranha.
— Okay! — Levantei as mãos na altura dos seios. — Vou direto ao assunto.
— Espere — pediu e entrou no quarto fazendo um sinal para segui-lo e eu o fiz.
Não consegui impedir meus olhos de examinar todo o seu quarto2. Era bonito e sofisticado, totalmente masculino. Ryan sentou-se na beirada de sua cama e apontou para a cadeira de sua escrivaninha. Sentei-me nela e olhei para ele.
— Vou ser direta.
— Espero que seja.
— Eu preciso que você me dê conselhos de moda.
Ele fica me olhando por alguns segundos e então finge uma risada descrente.
— Conselhos de moda? Tem certeza que pediu pra pessoa certa?
— Eu vi você com sua irmã hoje cedo.
Sua risada logo se esvai e ele me encara sério.
— Minha mãe irá se casar daqui a uma semana e ela quer que eu esteja apresentável, que para ela significa estar vestida como uma florzinha, coisa que eu estou longe de ser.
Ele olhou para minhas roupas e entortou a cabeça assentindo.
— Realmente.
Rolei os olhos.
— E então, vai me ajudar ou não?
— O que eu ganho em troca?
É claro que ele ia querer algo.
— Eu não conto para ninguém que você é gay.
Ele riu novamente, mas dessa vez não havia nenhum fingimento. Na verdade, Ryan estava gargalhando.
— De onde você tirou que eu era gay?
— Bem, você estava dando conselhos de moda.
— E não passou por sua cabeça que eu apenas entendo sobre o assunto?
Cri. Cri. Cri.
— Não.
Ele foi se recuperando aos poucos até sua respiração ficar estável novamente.
— Eu não sou gay. Terá que me apresentar um argumento melhor para me convencer.
— Okay — dei de ombros. — Posso contar para todos seu segredo com as roupas.
Ele cerrou os olhos.
— Não faria isso.
Assenti.
— Oh, com certeza.
Ryan bufou.
— Será sua palavra contra a minha.
— Não exatamente, já que eu tenho um vídeo que prova seu gosto por moda. — Ele arregalou os olhos. — Mas é simples: é só você me ajudar e eu apago o vídeo.
Ryan bufou e passou a mão no cabelo.
— Tudo bem, mas com uma condição.
— Olha, você não tá no direito de pedir...
— Pelo o que eu sei — começou, me interrompendo — sua mãe mora na Califórnia, certo? — Assenti. — Eu te ajudo se me levar com você.
Abri a boca para protestar, mas ele me interrompeu novamente.
— Eu sempre quis sair da Inglaterra e conhecer outro continente. Essa é a chance perfeita. Eu não preciso ir com você no casamento, se é essa sua preocupação.
— Duvido que minha mãe não vai querer que você vá, ela te adora.
Ele sorriu.
— Isso é porque eu sou adorável, você devia tentar ser também.
Rolei os olhos e me levantei.
— Então é isso. Quando começamos?
— Amanhã depois do almoço está ótimo para mim.
— Okay. Até amanhã — disse caminhando até à porta de seu quarto.
— Espera! Eu não terminei.
Virei-me e arqueei uma sobrancelha esperando que ele continuasse.
— Você paga as minhas passagens.
— O quê? Mas que mão de vaca!
Ele sorriu, mostrando uma fileira de dentes brancos, piscou e jogou beijo.
— ARG!!!
Bufei e saí do seu quarto batendo a porta.
~ / / ~
— Onde nós vamos primeiro? — Perguntei assim que entrei em seu carro.
— Bom dia pra você também, docinho.
— Primeiro: meu nome não é docinho; segundo: já passou de meio-dia, o que significa que devemos falar boa tarde e terceiro: você não respondeu minha pergunta.
Ele riu.
— Maluca.
Abri a boca em sinal de indignação.
— Me chamou de quê?
— Além de maluca é surda?
— Desculpe?
— Tá desculpada — piscou e jogou beijo.
Bufei e cruzei os braços, olhando pela janela. Queria poder dizer que o caminho foi tranquilo e silencioso, porém foi totalmente o contrário.
— Onde você pensou que poderíamos ir? — Ele pergunta e eu respondo sem encará-lo. — Ótimo. — Olhei para ele sem entender. — Não iremos nessas.
Rolei os olhos.
— Qual loja você indica?
— Eu acho que deveríamos ir na loja da minha tia, é grande e tem muita variedade. E — fez uma pausa dramática e olhou para mim quando paramos em um sinal vermelho — lá tem sapatos. Eu posso até gostar de moda, mas sou homem e não suporto acompanhar mulheres em lojas. A não ser que seja para dar uns amassos nos provadores.
Ficamos nos encarando até que suas sobrancelhas pularam duas vezes e ele me fitou sugestivamente.
— Definitivamente não — disse e voltei a encarar o lado de fora enquanto ouvia sua risada.
— Relaxa, docinho, você também não faz o meu tipo — ele disse e voltou a dirigir.
Senti um frio na barriga ao pôr os pés dentro da loja. Ainda dava tempo de desistir, mas se o fizesse, desapontaria minha mãe e ela não merecia isso. Ryan virou-se ao se dar conta de que eu fiquei parada na porta e deixei-o andando sozinho. Ele me encarou confuso. Respirei fundo criando coragem e fui até ele.
— Pronta?
— Não.
Ele sorriu.
— Você já fez compras antes? — Balancei a cabeça negativamente. — Não é nenhum bicho de sete cabeças.
— Você acabou de dizer que não suporta acompanhar uma mulher durante as compras.
— Porque odiar compras faz parte do instinto masculino, mas vocês mulheres, até as leigas em estilo como você, têm um desejo reprimido por estourar o cartão de crédito do papai com roupas, sapatos e bolsas e tudo mais.
— No momento eu tenho um desejo reprimido em dar um soco na sua cara.
— Okay — levantou as mãos em sinal de rendição. — Vamos propor um trato? Para começar isso bem, hoje você sair dessa loja renovada e começa a partir de hoje a usar roupas de mulher.
— Minhas roupas não são masculinas.
— São femininas, mas estilo boyfriend, que é masculinizado, ou seja...
Entortei a boca e cruzei os braços.
— Podemos começar então?
— É assim que se fala! Toca aqui — ele levantou a mão esquerda.
Encarei sua mão por alguns segundos e virei-me, indo em direção às araras. Ouvi-o bufar atrás de mim e logo em seguida seus passos me seguindo. Eu estava olhando para uma blusa xadrez quando senti Ryan puxando meu braço para o outro lado da loja.
— Alguém me salve, por favor!
— Não torne as coisas mais difíceis — fiz. estar furioso e foi impossível não rir.
Fomos até à área de lingeries e Ryan pegou um sutiã lilás de bojo com rendinhas e lacinhos. Fitei-o com cara de poucos amigos.
— Eu tenho quase certeza que você não é uma taboa de passar roupa ambulante e o que está fazendo-a parecer uma é o fato de estar vestindo um tipo de sutiã errado. Experimenta e depois volta pra eu ver se estava certo.
Bufei e peguei esse e mais alguns sutiãs que ele me entregou e fui até um dos provadores.
— Não disse? — Ele disse assim que abri a cortina da cabine. — Seus peitos estão me dizendo “olá” agora. Antes eu não sabia se eles eram tímidos ou mudos.
— Na verdade eles estão dizendo “vá se danar”.
Ele riu e me entregou duas peças de roupas.
— Saia? Eu odeio saia?
— Já experimentou usar alguma vez? Você precisa mostrar um pouco esse corpo. Está fazendo um calor de quase quarenta graus lá fora e você está usando calça de moletom.
— Porque é confortável!
— Meu bem, mulher não pode se dar ao luxo de ficar confortável se quer ficar bonita — disse com o dedo indicador levantado e imitando voz de travesti. — E você mais parece um mano do que uma mulher. Tá na hora de mudar isso! Agora vista essa saia e vem mostrar suas pernas pra mim. — Empurrou-me de volta pra cabine.
Eu me olhava no espelho sem acreditar ao certo que aquela no reflexo do espero era eu. Eu estava... bonita. Usava uma saia godê vermelha e um top azul-marinho de bolinhas brancas e decote coração. Confesso que me sentia até um pouco sensual, tirando o fato de que era uma Branca de Neve da vida.
— E então? — Ouvi a voz de Ryan vindo do outro lado da cortina.
Saí da cabine sentindo minhas bochechas formigarem. Os olhos de Ryan, que estava cravados em uma revista, se levantaram e passaram por meu corpo dos pés à cabeça. Ele abriu e fechou a boca algumas vezes, mas nenhum som foi pronunciado.
O pensamento de ter causado algum efeito nele passou por minha cabeça e um sorriso involuntário surgiu em meus lábios. Quis me matar por isso. Contudo, apenas abaixei a cabeça e mordi o lábio. Cruzei as mãos atrás de meu corpo e esperei que ele cortasse o silêncio. Ryan se levantou e veio até mim, parando bem à minha frente. Levantei o rosto e encarei seus olhos. Ele levantou as mãos e as levou até a parte de trás de minha cabeça, desfazendo o nó em meus cabelos e soltando-os. Colocou algumas mexas para frente e então me analisou novamente. Eu estava começando a ficar nervosa com o seu silêncio.
— E então? — Perguntei.
— É... incrível como o que duas peças de roupa como fazer com alguém.
— Devo levar isso como um elogio?
— Está linda, Jones.
~ / / ~
Ryan e eu só voltamos para casa quando o sol já estava se pondo. Compramos tanta roupa, muito mais que para usar só uma semana na Califórnia, e eu tinha certeza que meu pai ia me matar por quase ter estourado o limite do seu cartão de crédito. Mas no fim, Ryan tinha razão. Parece que nenhuma mulher era impune ao poder que uma liquidação tinha sobre ela. Saímos da loja de sua tia, deixando-a com um sorriso de orelha à orelha por termos gastado tanto e eu com um certo medo, mas nem um pingo de arrependimento. Passamos em um drive thru e pedimos hambúrgueres. Agora estávamos sentados no sofá de minha casa assistindo ao filme Olhos Famintos. Ryan não sabia se olhava pra TV ou para mim.
— Sério que você gosta desse filme?
— Uhum — murmurei sem tirar os olhos da tela.
— Você é diferente — ele fez uma pausa e esperou que eu olhasse para ele — das outras meninas que eu conheço.
— Por que eu gosto de filmes de terror quando a maioria prefere um romance água com açúcar? — Ele assentiu e eu ri. — Não é bem assim, eu sou uma garota comum. Também me apaixono, me decepciono... Posso ser diferente em várias coisas, mas no fundo sou como toda menina da minha idade. Afinal, não é vocês homens que dizem que mulher é tudo igual?
Ele sorriu e disse: — Não você.
Ficamos nos olhando por alguns minutos, era como se travássemos uma luta e quem desviasse o olhar primeiro seria o perdedor. No caso, eu fui a perdedora, já que meu celular tocou e eu desviei meu olhar para a tela. Era uma mensagem de meu pai dizendo que passaria na casa de meus avós antes de vir embora.
— É meu pai. — Olhei para Ryan — Estou com medo de como ele vai reagir quando ver a fatura do cartão.
Ele riu.
— Calma, todo pai passa por isso. A vez dele tinha que chegar.
— Você fala como se fosse normal quase estourar o cartão de crédito de alguém.
— E é — ele assentiu. — Você nunca comprou algo caro que o deixou irado?
— Já comprei coisas caras, como meus instrumentos, mas todos tiveram seu consentimento.
— Não acredito que você faz o estilo rebelde e no fundo é toda certinha.
Franzi o cenho.
— Eu não sou certinha! — Reclamei.
— Já saiu escondida durante à noite?
— Nunca tive um motivo.
— Mas hoje você tem! — Ele trocou de posição animado. Arqueei uma sobrancelha. — Vamos sair hoje quando nossos pais já estiverem dormindo.
— Oh, não! Não mesmo! Temos que pegar um avião amanhã às seis e meia e eu não quero correr o risco de perder a hora.
Ryan soltou um muxoxo.
— Não sei porque agendou tão cedo.
— Era o único voo disponível. O próximo é para o dia do casamento e minha mãe me quer lá antes para o jantar que farão na quarta.
— Ela aceitou de boa minha ida?
Assenti. — Ela meio que ficou mais animada quando anunciei que você ia junto.
Ryan riu como se estivesse em uma piada interna.
Ele estava escondendo algo.
— Desembucha!
— Primeiramente, não é minha culpa! — Levantou as mãos em sinal de defesa. — Depois que você foi embora ontem à noite, minha mãe me perguntou o que você queria comigo e eu disse que você veio pedir um livro de Física emprestado e ela meio que sorriu debilmente. Horas depois a escutei falando no telefone com a sua mãe que nós estávamos namorando.
— Arg!!! — Murmurei rolando os olhos e bufando ao mesmo tempo. — Eu disse a ela que fui combinar com você sobre o trabalho de Inglês que faríamos em dupla.
— Tá explicado.
— Minha mãe vai cair em cima quando chegarmos na Califórnia.
Ele riu.
— Não é tão ruim assim, vai! Toda garota sonha em namorar o capitão de futebol — disse apontando para o próprio peito.
— Pois é! Como você disse, eu sou diferente de todas.
~ / / ~
— Devemos dar as mãos?
— Vai se danar, Bateman!
Ele gargalhou. Estávamos saindo do avião e indo em direção à sala de desembarque. Minha mãe estava nos esperando com Henry, seu noivo, e Nick, seu enteado. Devo comentar como ela estava animada por ver Ryan? Não mais do que por me ver, é claro, principalmente por ver que eu usava roupas mais femininas, mas ela parecia feliz como pinto no lixo e nos lançava olhares sugestivos de vez em quando. No caminho para casa, ela não se aguentou e despejou que a Sra. Bateman contou sobre o nosso suposto “namoro” e o pior de tudo: Ryan deu corda dizendo que a mãe dele estava muito animada com a novidade e ainda passou seus musculosos em volta de mim. Confesso que não era um lugar ruim de ficar. Sabe, nos braços de Ryan Bateman.
Eu queria me matar por admitir isso. Mas a verdade era que ele não era insuportável como eu imaginava. Ryan era... legal. E talvez fingir que estávamos namorando para fazer minha mãe feliz poderia ser algo também legal.
Assim que chegamos, mamãe nos mostrou toda a casa. A parte que eu mais gostei foi a biblioteca, Ryan gostou da piscina. Ela deixou Ryan no quarto de hóspedes já pronto para recebê-lo e me levou até meu quarto alegando que mesmo os jovens de hoje serem mais “pra frente” do que no tempo da vovó, ela não nos deixaria dividir o mesmo quarto.
Se eu amei o meu quarto? Obviamente que sim! Era todo decorado em roxo e preto com uma sacada e uma suíte. Mas a parte que eu mais amei foi o violão no canto perto do puff. Eu queria ter trazido o meu, mas papai me convenceu a não fazê-lo, contudo tinha um aqui me esperando pronto para ser tocado.
— Eu não entendo de instrumentos, então dei o dinheiro ao Nick e o pedi que comprasse o melhor.
— Oh, mãe, muito obrigada! — Sorri e abracei-a fortemente. Ela retribuiu ainda mais forte.
— Senti tanto a sua falta, bebê.
— Eu também senti a sua, mamãe.
O almoço foi tranquilo e divertido. Mamãe contou detalhes do casamento e disse que na segunda-feira me levaria para escolher o vestido de madrinha. Mamãe iria se casar no estilo brasileiro, que significa poucas damas de honra e com idade inferior a dez anos usando vestidos parecidos com o da noiva. Eu seria uma das madrinhas e Nick seria meu par. Perguntei mamãe se poderia levar Ryan junto para ter uma segunda opinião e ela não deixou. Disse que levaria sua amiga Leia. Tentei protestar, mas ela disse que Ryan só poderia me ver com o vestido no dia do casamento. Ryan tentou me ajudar dizendo que isso só se aplicava aos noivos, porém minha mãe disse para ele segurar a ansiedade e que no dia do casamento ele poderia ver “sua Mabi” pronta.
Agora Ryan e eu estávamos na piscina curtindo o calor dos Estados Unidos enquanto minha mãe e Leia tomavam banho de sol e Henry e Nick foram ao mercado.
— Por que Maria Beatriz? — Ele perguntou após se aproximar de mim, que estava com a cabeça encostada na borda de mármore da piscina. Abri os olhos e encontrei os seus bem próximos, o que me fez suspirar involuntariamente. Ryan sorriu.
— Minha mãe curte quase tudo no Brasil e quis me batizar com um nome brasileiro.
— Maria Beatriz Jones. Soa engraçado.
Sorri e assenti.
— Sim.
Olhei na direção de minha mãe e sua amiga e pude vê-las tentando em vão disfarçar seus olhares sobre nós.
— Elas estão nos olhando — sussurrei.
Ryan se aproximou mais e tocou minha cintura com sua mão.
— Ryan...
— Mabi...
Ele ficou em minha frente e de costas para nossa plateia. Eu não sei o porquê, mas não fui capaz de dizer uma palavra. Era como se eu estivesse na posição de observadora, apenas esperando pelas próximas ações de Ryan. Entretanto, quando ele estava perto o bastante para que eu pudesse sentir sua respiração e com os braços na borda da piscina, deixando-me sem saída, fui tomada por algo que eu não sei bem o que era. Coragem? Razão? Não sei dizer, só sei que isso me fez afundar e me desviar de seus braços. Nadei até o outro extremo da piscina, onde ficavam as escadas e saí, enrolando-me na toalha e indo em direção à casa com o corpo trêmulo e a respiração descompassada.
~ / / ~
“I couldn't tell you
Why she felt that way
She felt it everyday
And I couldn't help her
I just watched her make the same mistakes again
What's wrong, what's wrong now?
Too many, too many problems
Don't know where she belongs, where she belongs
She wants to go home, but nobody's home
that's where she lies, broken inside
With no place to go, no place to go
To dry her eyes broken inside”
Não havia ninguém em casa naquele momento. Quer dizer, além de Ryan e eu. Minha mãe, Henry e Nick saíram em um jantar para conhecerem a namorada dele e Ryan e eu achamos que seria melhor se ficássemos em casa e deixássemos esse momento para os quatro. Quer dizer, eu achei, já que Ryan queria ir pela comida, mas eu o convenci a ficar. Tenho certeza que Nick apreciou o gesto, ele já estava vermelho demais quando os três saíram de casa.
E enquanto Ryan estava no banho, eu estava em meu quarto, sentada em meu puff e tocando Nobody’s Home, da Avril Lavigne. Como eu disse, não tinha coragem de cantar perto de outra pessoa então quis aproveitar a oportunidade. Entretanto, quando estava quase no fim, passei os olhos pelo quarto e avisei Ryan escorado na porta me fitando. Isso me assustou a ponto de fazer-me desafinar e parar de cantar imediatamente. Ryan entrou no cômodo e sentou-se na ponta de minha cama.
— Não pare, por favor! Sua voz é linda.
Fiquei encarando-o por alguns segundos enquanto meu corpo era invadido por uma coragem que eu nunca tive antes e voltei a cantar e tocar de onde parei até finalizar. Ryan sorria para mim e assim que terminei, ele levantou as mãos e me aplaudiu. Senti minhas bochechas formigarem e mordi o lábio para esconder meu sorriso, porém foi em vão.
— Eu vi esse sorriso — ele disse e eu não consegui conter uma risada. — Você já cantou para alguém antes?
— Não...
Ficamos em silêncio apenas observando um ao outro.
— Fico feliz em ser o primeiro.
Involuntariamente meus lábios se separaram e respirei fundo tentando acalmar meu coração, que mais parecia uma bateria de uma banda de heavy metal. Ryan se levantou e veio até mim, tirou o vilão de meu colo e o colocou no canto. Segurou em minhas mãos e puxou-me para ficar de pé em sua frente. Levou suas mãos em cada lado de meu rosto e observou-me por alguns segundos.
— Tão linda.
Senti minhas bochechas formigarem e mordi meu lábio inferior tentando esconder meu sorriso, porém Ryan passou o polegar sobre ele, soltando-o de meus dentes.
— Não faça mais isso. Adoro vê-la sorrir.
— O-Okay...
Ele suspirou.
— Eu quero te beijar agora, Jones, e gostaria que você não me impedisse.
— Você me disse que eu não fazia o seu tipo.
— Vamos esquecer o que eu disse, Okay?
Assenti e fechei os olhos quando ele se aproximou. Seus lábios tocaram os meus tão suavemente que quase não pude sentir. Contudo, foi o suficiente para que uma corrente elétrica passasse de seu corpo para o meu e me arrepiasse por inteira. Sua língua tocou meus lábios em um pedido mudo para entrar em minha boca e eu não pensei duas vezes em conceder. Gememos juntos ao sentir nossas línguas se tocando. Ryan desceu suas mãos para minha cintura e me puxou mais contra ele, colando nossos corpos. Suspirei ao senti-lo contra minha barriga e ele sorriu entre o beijo.
— Sinta o que está fazendo comigo, Skater Girl.
Ri com o apelido e mordi seu lábio inferior, fazendo-o gemer. Ryan desceu suas mãos até minhas coxas e ergueu-me, levando-me até minha cama, onde me deitou e deitou-se sobre mim. Deu-me um selinho casto e enterrou sua cabeça na curva de meu pescoço, onde passou a dar mais atenção. Minhas mãos invadiram sua blusa e passearam sobre suas costas definidas. Não podia mais negar que Ryan era um pedaço de mal caminho — ou melhor, o mal caminho inteiro — e sim, eu me sentia atraída por ele.
Muito.
Mas não podia deixar isso ir para frente.
Suas mãos foram até a barra de minha blusa e quando ele começou a levantá-la, eu o impedi e interrompi o beijo. Ryan me fitou confuso.
— Está tudo bem?
— Sim, é que... Acho que deveríamos ir devagar — mordi o lábio
Ele ficou me encarando, estudando-me por alguns segundos até que finalmente entendeu e assentiu.
— Tudo bem.
Ele sentou-se e eu o acompanhei. Ficamos nos encarando por alguns minutos e rimos um do outro. Ryan deitou-se e me puxou para ficarmos abraçados. Deitei minha cabeça em seu peito e fechei os olhos, admirando o som levemente acelerado de seu coração.
— Já pensou no que irá comprar para sua mãe? — Perguntou Ryan enquanto fazia um cafuné em meus cabelos.
— Droga!
Ele riu. Levantei o rosto para encará-lo.
— O que eu vou fazer?
— Ainda há tempo de comprar algo, mas presentes não vão faltar para eles e é algo tão tradicional... Você poderia fazer algo mais original e sentimental.
— Não consigo acompanhar seu ritmo, colega.
— Por que não canta pra eles — pausa dramática, típico de Ryan Bateman — no dia do casamento? Você podia cantar uma música da sua diva Avril Lavigne.
Arqueei as sobrancelhas.
— Está louco? Eu não canto pra ninguém!
— Cantou pra mim hoje.
— Eu fui atingida por um raio de coragem momentânea e como diz o ditado, “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”.
— Sua mãe sabe dessa sua timidez de cantar em público? — Assenti. — Imagina o quanto ela ficaria feliz em ver que você superou isso?
Rolei os olhos.
— Eu não consigo.
— Sem pensamentos negativos. Eles não te levam a lugar nenhum! Ou melhor, levam você cada vez mais para baixo. Ao invés de pensar que não consegue, ou que não é boa o suficiente, o que totalmente mentira já que você é ótima, pense que isso é pra eles e eles ficariam imensamente felizes com esse presente.
Meus lábios formaram uma linha reta enquanto eu pensava no assunto. Ryan estava certo. E já era hora de superar esse medo da plateia se um dia eu quero realizar meu sonho.
— Odeio você.
Ele sorriu e beijou-me.
— Pra onde você quer ir quando terminar o colegial? — Perguntou mudando de assunto.
— Ainda não conversei com meu pai, mas estava pensando em vir para os estados unidos e passar um tempo com a minha mãe. Pretendo estudar Música na Julliard e um dia ser professora como meu pai.
— Por que não tenta algo mais ousado como cantora de uma banda de rock?
Ri e balancei a cabeça negativamente.
— Por mais que eu goste de cantar e tocar, meu lugar não é no palco sob holofotes. Isso foi o sonho do meu pai, não o meu. Eu tenho uma mega admiração pelo o que meu pai faz, já me peguei várias vezes pensando em seguir a mesma carreira no futuro e me pareceu uma boa ideia. — Ele assentiu mostrando que entendeu. — Mas me fale de você. O que pretende fazer?
Ryan suspirou enquanto brincava com uma mecha de meu cabelo.
— Toda a minha família quer que eu faça Medicina.
— Mas isso não é o que você quer. — Ele balançou a cabeça negativamente. — E qual é o sonho do Sr. Bateman?
— Ser escritor.
Por um momento eu pensei que ele estivesse brincando, mas quando os minutos se passaram e ele continuou com a mesma expressão séria, percebi que estava sendo sincero.
— Isso é... Eu nunca adivinharia.
Ele riu.
— Ninguém nunca adivinharia.
— Como assim?
— Você é a única quem sabe.
E mais uma vez fiquei sem palavras. E mais uma vez percebi que estava errada julgando Ryan pela sua aparência.
Sorri e aproximei meu rosto do seu e antes de beijá-lo mais uma vez, sussurrei:
— Fico feliz em ser a primeira.
~ / / ~
Eu me olhava no espelho, admirando meu reflexo enquanto passava as mãos pelo vestido3 lilás. Meu cabelo estava trançado de lado e meu rosto continha uma maquiagem de cores suaves. Hoje era o grande dia para minha mãe e Henry, o compromisso entre eles agora seria oficial. Por um momento me peguei pensando se um dia me casaria. Bem, dizem que todos têm uma metade da laranja perambulando pelo mundo. Espero um dia encontrar a minha.
E se... talvez eu já tivesse encontrado?
Sorri e saí do quarto, parando em frente à porta do quarto de hóspedes, estava ansiosa para ver Ryan todo arrumadinho e mais ainda para saber o que ele acharia da minha escolha para o vestido de madrinha. Já ia bater quando ouvi meu nome sendo pronunciado do lado de dentro.
— Fala sério, Bateman! Mabi Jones? Aquela loser? Você pode ter coisa melhor, meu chapa!
— Que porra... — sussurrei e colei o ouvido na madeira pouco me importando com as boas maneiras. Pelas vozes, percebi que Ryan falava com Lochan e Will, provavelmente via Skype.
— Eu já falei pra vocês que não há nada entre a gente, que doença vocês têm?
— Confessa, Ryan, você tá caidinho!
— Que merda! Não! Nós não combinamos um com o outro e nunca teríamos algo juntos além dessa troca de favores.
— Pelo menos você comeu ela, né?
Minha respiração travou e eu fiquei esperando a resposta de Ryan. Por favor, diga a verdade!
A resposta não veio.
— Sabia! — Lochan gritou. — Quem cala, consente, bro.
— Ahhh, muleque! Comedor de losers!
Fechei os olhos.
— O quê? Não! Não aconteceu nada, não transamos.
— Eu sei que é vergonhoso, mas já era, bro, vamos ter que contar pros guys. Dianna vai ficar uma fera quando ficar sabendo que você a largou pra ficar com a skatista feiosa.
— Pra começo de conversa, Dianna e eu não estamos juntos desde o início do ano. Eu não estou com a Mabi e ela não é feia.
— Lá vem ele com o papinho apaixonado — caçoou Will.
Ryan bufou.
— Querem saber? Cansei de vocês!
Ouvi o notebook sendo fechado com violência e dei um passo para trás ao ouvir passos se aproximando.
3ª pessoa narrando
Ryan fechou o notebook furiosamente não querendo mais ver a cara de seus amigos, nem ouvir as vozes deles. Se estivessem frente a frente seria capaz de socá-los. Ryan não entendia mais o porquê de rotular as pessoas. Era como se Mabi tivesse lhe mudado e feito ser uma pessoa melhor. Conhecê-la melhor o fez perceber que essa coisa de rótulos só servia para rebaixar as pessoas para que eles parecessem os melhores e ficassem no topo da pirâmide social da escola. Mas o que isso importava afinal? Se observarem direito, Ryan e seus amigos têm mais chances de serem fracassados dos que o que são considerados por eles os perdedores da escola. Realmente, isso não fazia o menor sentido e Ryan agora enxergava isso. O ruim é que seus amigos não.
Ryan abriu a porta do quarto pronto para esquecer a conversa de segundos atrás e ir até Mabi, vê-la linda e poder admirá-la pelo resto da noite. Entretanto, o que encontrou não o agradou em nada. Muito pelo contrário, o despedaçou.
Mabi não estava de costas muito menos de cabeça baixa. Ela o encarava com o queixo erguido, com uma pose que mostrava que estava tentando ser forte, mas só tentando mesmo, pois seus olhos lacrimejados confessavam que assim que estivesse só, ela desmoronaria.
— Mabi... — sussurrou — me desculp...
Não conseguiu terminar de falar, pois foi interrompido pela mão dela que foi de encontro ao seu rosto em um tapa ensurdecedor.
Ela quis lhe dizer coisas feias, xingá-lo de todos os nomes possíveis, mas não conseguiu. Não estava com raiva, mas sim decepcionada. Confiou em Ryan, acreditou que ele fosse diferente dos outros neandertais do time de futebol e no fim descobriu que estava errada. Ela balançou a cabeça negativamente e foi para o quarto, batendo a porta atrás de si. Ryan não perdeu tempo e foi até à porta, batendo e chamando por ela, pedindo para lhe deixar explicar, porém Mabi se recusou a ouvi-lo. Ele podia ouvi-la chorando e isso lhe partia o coração.
— Por favor, Mabi, deixe-me explicar!
Mabi, que estava encostada do outro lado da porta, fechou os olhos, sentindo mais lágrimas escorrerem por suas bochechas.
— Eu confiei em você, pensei que estava enganada e até me culpei por tê-lo julgado mal. Eu o trouxe pra dentro da casa da minha mãe, nós ficamos juntos durante esses dias... Como pôde fazer isso? Como pôde me enganar e me fazer pensar que tinha algum interesse em mim?
— Por favor, Mabi, abre a porta.
— Não... — Murmurou.
Ryan fechou os olhos e encostou a testa na madeira. Disse baixinho, mas tendo certeza de que ela escutaria:
— Eu sei que fui um idiota e mereço isso, mas não vou desistir.
Mabi apertou os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem silenciosamente por suas bochechas. O som de passos se afastando chamou sua atenção e ela se desencostou da porta, abrindo-a devagarinho o olhando para o corredor vazio. Fungou e fechou a porta novamente, indo até o banheiro para refazer sua maquiagem.
~ / / ~
Mabi narrando
Não olhei para Ryan enquanto entrava no salão de festas do hotel ao lado de Nick, nem quando chegamos na área descoberta onde seria a festa. O casamento havia sido lindo, dava para perceber de longe que minha mãe e Henry estavam muito apaixonados um pelo outro. Me emocionei, tendo que retocar minha maquiagem pela segunda vez na noite. Nick e eu nos sentamos na mesa junto com outros jovens. Não fiquei surpresa por encontrar Ryan lá, nem por meu nome estar marcado ao lado do seu, afinal, todos achavam que estávamos comprometidos. Sendo assim, fiquei entre Ryan e Mary, uma amiga que fiz durante a semana. Ela era filha dos músicos que tocariam na festa, que por sua vez eram amigos de mamãe e Henry. Contei para ela sobre meus planos de cantar para os noivos e ela me convidou para dormir em sua casa para ensaiar com seus pais. Claro que minha mãe apenas pensava que nossos santos tinham se batido e estávamos começando uma amizade para o resto da vida. Ryan queria ir junto, mas pedi que ficasse com mamãe, pois seria uma surpresa para todos. Agora eu me arrependia, pois ele acharia que a música era para ele também.
Assim que Nick e eu sentamos à mesa, pude sentir o olhar de Ryan queimando-me. Olhei de relance para ele, mas logo desviei o olhar e entrei em uma conversa com Mary. Mamãe e Henry estavam com o fotógrafo e logo seríamos chamados para tirar fotos com os noivos. Ryan sairia nas fotos e sempre que eu olhasse o álbum de casamento me lembraria dele e do que fez.
— Mabi... — Senti o lado direito de meu corpo se arrepiar por inteiro quando ele se aproximou seus lábios de minha orelha e sussurrou meu nome. Não olhei para ele, ao invés disso, encarei a plaquinha com meu nome sobre o prato à minha frente e esperei que ele falasse. — Me dê uma chance de me explicar.
— Explicar o quê? Eu ouvi tudo — murmurei baixinho para que só ele escutasse.
— Eu sei, mas eu não posso ir embora sem que você me perdoe. — Olhei para ele. — Por favor.
— Você vai embora?
— Assim que a festa terminar.
Fiquei observando-o. Ao mesmo tempo em que queria que ele sumisse da minha frente, não queria que ele fosse embora. Suspirei.
— Depois da música, não quero ficar mais nervosa.
Os cantos de sua boca se elevaram em um sorriso fraco.
— Obrigado.
Os minutos foram se passando. Fomos chamados para tirar fotos com os noivos. Nick e eu fomos os primeiros a ser chamados. Logo em seguida, Ryan e Alaska, a namorada de Nick, se juntaram a nós. Quando finalmente fomos dispensados, voltamos para a mesa. Comemos alguns aperitivos enquanto esperávamos pelos noivos. Quando finalmente a sessão de fotos acabou, eles foram até sua mesa e Henry fez o famoso discurso do noivo, que arrancou risadas e lágrimas. Estava feliz por minha mãe ter encontrado alguém que a amasse verdadeiramente. Não que meu pai não tenha a amado. Eles se amaram por anos e ainda se amam, mas como amigos agora. Agradeci aos céus quando o jantar finalmente foi servido, minha barriga já doía e roncava. Enquanto os minutos se passavam, meu nervoso só crescia. Depois que a sobremesa foi servida, o pai de Mary anunciou que havia um número adicionado de última hora, uma surpresa para os noivos. Imagine a cara de minha mãe e Henry quando Victor chamou meu nome e eu me levantei, indo até o palco. Ajeitei o microfone à minha altura e encarei minha mãe e Henry, ignorando o restante de pessoas nas mesas, ou melhor, todas menos uma.
— Primeiramente, boa noite! — Sorri envergonhada. — Mãe, Henry, queria dizer que estou mais que feliz por vocês dois. Ver que minha mãe finalmente encontrou o verdadeiro amor me faz ficar aliviada e orgulhosa. Posso ver de longe o quanto você a ama, e talvez não precise dar esse conselho a você, mas acho que nunca é demais, então, Henry, se um dia você magoar a minha mãe, eu jogarei óleo quente nas suas bolas e depois as esmagarei.
Os convidados explodiram em risadas e Henry riu e balançou a cabeça negativamente.
— Vou lembrar disso.
Eu ri e continuei.
— Eu estava em dúvida em qual presente dar a vocês. Sou péssima para escolher presente, por isso recebi uma luz de Ryan, que me encorajou e, por isso, cá estou eu. — Apontei para mim e ri nervosa. Minha mãe cerrou os olhos desconfiada. — Mãe, Henry, parabéns pelo casamento! Eu espero, verdadeiramente, que vocês sejam muito felizes!
Fiz um sinal para os músicos, que começaram a tocar My Love is Like a Star4, da cantora Demi Lovato.
♪ My Love is Like a Star ♫
(Demi Lovato)
The space in between us
O espaço entre nós
Starts to feel like we're worlds apart
Começa a parecer que somos de mundo diferentes
Like I'm going crazy
Como se eu estivesse ficando louca
And you say it's raining in your heart
E você diz que está chovendo em seu coração
You're telling me nobody's there
Você está me dizendo que ninguém está lá
To dry up the flood
Para tentar secar a inundação
Oh but that's just crazy
Oh mas isso é loucura
'Cause baby I told ya I'm here for good
Pois, baby, eu já disse que estou aqui para sempre
My love's like a star, yeah
Meu amor é como uma estrela, yeah
You can't always see me
Você não pode sempre me ver
But you know that I'm always there
Mas você sabe que eu estou sempre lá
When you see one shining
Quando você vê alguém brilhar
Take it as mine
Tome como se fosse meu
And remember I'm always near
E lembre-se que estou sempre por perto
If you see a comet
Se você vir um cometa
Baby I'm on it
Baby, eu estou nele
Making my way back home
Voltando para casa
Just follow the glow yeah
Apenas siga o brilho, é
It won't be long
Não vai demorar
Just know that you're not alone
Apenas saiba que você não está sozinho
Eu tentei, juro que tentei, mas não consegui impedir que meu olhar vagasse pelos convidados até encontrar os olhos de Ryan. Vê-lo sorrindo com a admiração brilhando em seus olhos me fez sorrir e cantar com mais deleitação.
I tried to build the walls
Eu tentei construir as paredes
To keep you safe when I'm not around
Para mantê-lo seguro quando não eu não estiver por perto
But as soon as I'm away from you
Mas assim que eu estiver longe de você
You say they come tumbling down
Você diz que o mundo desaba
But it's not about the time
Mas a questão não é o tempo
That we don't get to spend together
Que nós não conseguimos passar juntos
It's about how strong our love is
É sobre quão forte é o nosso amor
When I'm gone and it feels like forever
Quando eu for embora e parecer que foi para sempre
(Refrão)
You say the time away makes your heart grow numb
Você diz que o tempo longe faz seu coração anestesiar
But I can't stay just to prove you wrong
Mas não posso ficar só para provar que você está errado
Oh, just look at how far we've come
Veja até onde nós viemos
Don't you know
Você não sabe
Don't know that you're the one?
Não sabe que é o único?
(Refrão)
Assim que terminei de cantar e esperei os músicos finalizarem a melodia, respirei aliviada por ter conseguido vencer esse medo. Procurei os olhos de minha mãe, que chorava emocionada e ri sentindo meus olhos marejarem. Os aplausos vieram assim que a melodia terminou e eu senti-me flutuando. Agradeci e desci do palco, indo em direção aos noivos e abraçando-os.
— Minha bebê, você conseguiu! — Minha mãe disse entre lágrimas. — Foi linda, perfeita!
Ri.
— Obrigada, mãe.
— Eu que agradeço, minha flor! Melhor presente que recebi, ameeeei! — Ela me apertou de novo.
— Você foi ótima, Mabi! Devia seguir carreira — disse Henry.
Sorri e agradeci. Voltei para a mesa, mas antes de me sentar, Ryan se levantou.
— Podemos conversar agora?
Assentiu e ele pegou em minha mão, puxando-me para longe da agitação para termos mais privacidade. Acabamos parando ao chegarmos no meio de uma ponte iluminada apenas pela luz da lua cheia. Ficamos olhando por alguns minutos a paisagem à nossa frente até que virei-me para Ryan e cruzei os braços.
— Seja rápido, não quero perder a festa.
Ele sorriu.
— Você fica fofa tentando parecer brava.
Bufei e ele pigarreou.
— Eu sei que fui um idiota, mais que isso, eu fui um covarde. A princípio, a ideia era aproveitar e assim que voltarmos para a Inglaterra, cada um seguir a sua vida. Mas algo aconteceu nesse momento, não foi apenas um beijo. Eu conheci o seu verdadeiro eu e deixei que você entrasse na minha vida, conhecendo-me por dentro. Temos que admitir que estamos enlaçados um pelo outro. Eu não sei o que deu em mim, talvez medo de perder o posto de o maioral da escola, mas, sei lá, quando estou com você pouco me importa esses rótulos. Quando eu estou com você eu só quero ficar com você, curtir você, curtir isso entre nós. Sei que o que vou dizer é meio gay, mas essa coisa que está nascendo entre nós é como uma flor que está desabrochando. É algo belo e eu não quero perder.
— Realmente, isso é bem gay.
Nós rimos.
— Por favor, Mabi, me perdoe por isso, eu juro que não irá se repetir. Você é importante para mim e eu quero ter você na minha vida.
Sorri e funguei.
— Droga, você tá me fazendo chorar. Te odeio!
Ele riu e me puxou contra ele, envolvendo suas mãos em minha cintura.
— Namora comigo.
Fitei seus olhos e mordi o lábio, tentando esconder um sorriso.
— Sim, — ele sorriu. — Mas só se pagar as passagens de volta.
Ele rolou os olhos.
— Aff! Não te quero mais.
Gargalhei e lhe dei um tapinha no braço. Ryan me fitou com um sorriso brincando em seus lábios e selou os meus.
— Sabe o que você podia fazer nesse momento pra deixar nossa noite mais mágica?
— O quê?
— Admitir que também gosta de mim — juntou sua testa a minha.
— Pra você se achar ainda mais? — Ele fez bico e eu ri. — Okay, okay! Eu até que gosto um pouquinho de você — dei de ombros. — Assim tá bom?
Ele sorriu.
— Pra um começo está.
— Okay, agora chega de assunto e me beije.
— Mandona!
Fim?
Ryan se afastou e me fitou curioso.
— Uma pergunta, o que você vai fazer com aquele vídeo?
Franzi o cenho.
— Que vídeo?
— Aquele que você gravou de eu dando dicas de moda pra minha irmã?
Ferrou.
— Então... — Ri envergonhada. Ryan cerrou os olhos.
— Você não gravou nenhum vídeo?
Balancei a cabeça negativamente e mordi o lábio.
— Você me chantageou com algo que nem tinha em mãos? Eu vou te matar... de beijos!
E com isso, ele voltou a colar seus lábios nos meus.
Agora sim, fim.
Notas finais
2 - Quarto do Ryan: http://4.bp.blogspot.com/Uj7ttMTYcZE/U_O0eit4k7I/AAAAAAAAOA8/hdLYwBsA2qg/s1600/quarto-solteiro-masculino-decora%C3%A7%C3%A3o-18.png
3 - Vestido da Mabi: http://www.topswedding.com/images/dress/Classical-Sweetheart-Empire-Ruched-Lilac-Prom-Dresses-with-Rhinestones-CDG0080.jpg
4 - Música que a Mabi canta no casamento (My Love is Like a Star): https://www.youtube.com/watch?v=PS5Sr-LLES4
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