Sk8er Boy
8 Sentimentos
Notas iniciais

Eu fiquei segurando a cabeça de Elliott em cima das minhas pernas, sentindo uma tristeza enorme me consumir por vê-lo de tal maneira, aparentemente tão, tão, tão desolado. Ainda que machucado, ele sorria. Odiava o fato de ele conseguir sorrir até nos momentos mais difíceis. Parecia até escárnio.
Na ambulância, eu o acompanhei. Não valeria a pena avisar agora meus pais, já que ainda era o horário que eles estavam no trabalho. Eu continuei segurando a mão de Elliott, sentindo que lágrimas se acumulavam novamente em meus olhos.
— E-eu posso te... p-pedir uma... coisa? – Elli perguntou, despertando meus pensamentos.
— Pode. – Minha voz quase não saiu.
— Me beija, Will?
Meus olhos se pregaram em seu olhar e meus pensamentos se fixaram em seu pedido. Ele parecia tanto querer aquilo, querer um beijo meu. E ele estava tão frágil naquele instante, que eu sabia que não podia negar, mas, será que eu deveria mesmo beijá-lo?
— Eu te prometo que... – Tentei começar, tentando ter noção do que estava prestes a prometer. – Pode me beijar quantas vezes quiser desde que se mantenha firme. Você está muito machucado agora, mas se cooperar e se esforçar ao máximo para ficar bem, permito que me beije. Pode ser?
— E se eu não ficar bem? – Um biquinho se formou em seus lábios e, ao ver a médica estar prestando atenção em outra coisa, me aproximei mais e lhe dei um demorado selinho. – Não quero um selinho, quero um beijo de verdade, Will. Por favor.
— Mas... aqui?
— ‘Tá, você não quer. – Se emburrou e fechou os olhos por alguns segundos. – Eu estou me sentindo fraco.
— Elliott, estamos quase chegando ao hospital. – A médica disse, eu já tinha a informado sobre o nome de Elli. – E vamos fazer vários exames, então precisamos que fique acordado. É normal que se sinta fraco, não sabemos se você fraturou algo. A única coisa que eu posso dizer é que você quebrou o braço, mas ainda assim faremos outros exames para garantir que isso tenha sido o mais grave. Fique calmo.
— Aqui dói. – Ele passou a mão pela lateral de seu corpo.
— Faremos um raio x, você pode ter quebrado uma costela. – Avisou ela, me fazendo praticamente entrar em pânico. – Já chegamos.
Descemos da ambulância e eu precisei ficar na sala de espera, aguardando por notícias. Eu tinha ficado com o celular de Elliott e procurei pelo número dos pais dele, não demorando para achar. Os avisei do que acontecera e eles disseram que viriam o mais rápido possível para o hospital.
— Você é o William? – Um homem alto, aparentando ser uma versão mais velha do Elli, surgiu. – Sou o pai dele.
— Prazer em conhecê-lo. – Falei baixo, apertando sua mão. – E a mãe dele não veio?
— Ela ficou presa no trabalho. – Explicou. – Já teve alguma notícia?
— Na verdade, ainda não. – Soltei um alto suspiro.
Nunca pensei que ficaria em um silêncio tão tenso e constrangedor com o pai de Elliott, o qual nem mesmo me disse o próprio nome. Era até difícil acreditar que alguém tão doce quando Elli tinha um pai assim. Será que sua mãe era diferente? Será que ela era mais amistosa? Não saberia dizer, já que nas seis horas seguintes ela não chegou ao hospital.
A enfermeira me chamou dizendo que Elli tinha acordado falando meu nome. Senti a ira nos olhos do pai dele, mas segui a enfermeira. Meu amigo em primeiro lugar. Entrei no quarto e o vi já com o braço engessado e alguns outros curativos e faixas em seu corpo.
— Oi, Will. – Sorriu para mim ao me ver. A enfermeira nos deixou a sós e eu sentei na cadeira ao seu lado.
— Como se sente?
— Sei lá, estão agindo como se eu tivesse acordado de um coma, mas foi só umas duas horas dormindo. ‘Tô me sentindo em um experimento também, me reviraram demais fazendo exames. – Ria ele enquanto contava. Segurei sua mão, no lado esquerdo que estava com apenas uma faixa no pulso. – Sonhei com você, aliás.
— Eu estava preocupado com você, Elli. – Disfarcei o jeito que ele me fez corar. – Seu pai veio até aqui, ficou meio irritado por você ter chamado a mim. Eles pelo menos te disseram o que aconteceu além do braço quebrado?
— Dei um mau jeito no meu pulso que está enfaixado, torci o pé e quase quebrei na queda, quebrei duas costelas do lado direito e trinquei uma do lado esquerdo e esse braço quebrado. E cortei a boca também. – Suspirou de maneira frustrada. – E ‘to nem aí para o meu pai, ele não liga para mim mesmo. Você se importa melhor comigo.
— Claro que me importo, ainda mais que eu pedi para você sair do meio da rua e você não me escutou. Agora eu me sinto culpado e... – Sua mão alcançou meu rosto e eu me perdi encarando seus olhos. – Não tenta me desconcentrar, Elliott, estou tentando te xingar e você fica fazendo isso.
— Você disse que se eu ficasse bem eu poderia te beijar o quanto quisesse. – Disse em meio a um sorriso que parecia doer para estar em seu rosto, provavelmente devido ao fato de ele ter cortado a boca. – E eu vou cobrar isso.
— Pode cobrar. – Corei, me aproximando mais dele e escorando a cabeça em seu ombro. – Só não reclama se eu acabar gostando e pedir que você cobre juros.
— Ah, pode deixar que eu não vou reclamar. Peço muitos juros. – Novamente riu, entrelaçando sua mão nos fios do meu cabelo e me acariciando. Eu também o acariciava em meio ao abraço de lado, sentindo meu coração se acelerar até demais, quase que querendo pular para fora do meu peito. – Você é tão bonito, Will, queria que você conseguisse enxergar tudo o que eu vejo...
— Tudo o que você vê é um menino de óculos, que tem os olhos coloridos, um aparelho nos dentes, um cabelo arrumadinho e uma facilidade enorme de ficar vermelho de vergonha. – Eu disse baixinho, envergonhado. – Tem mais em você do que em mim para se admirar.
— Por que? O que você mais despreza em você é o que tem de mais lindo, Will. Seus olhos coloridos são tão perfeitinhos. – Encarei-o ao ouvir aquilo e sorri com a carícia que recebi no rosto. – E eu gosto que use óculos e até o aparelho te deixa uma graça. E em mi não tem nada para se admirar, para com isso.
— Tem sim. – Rebati, empinando o nariz em um ar superior, fazendo Elliott rir. – Adoro suas tatuagens, seus piercings também são bem legais. Amo a sua maneira de se vestir. E adorava te ver andando de skate, mas agora fiquei um pouco traumatizado.
— Segundo meu pai eu só faço isso por atenção. ‘Tô falhando muito porque ele não ‘tá nem aí para a minha existência. – Riu novamente. – E assim que eu me recuperar eu me atiro em cima daquele skate de novo.
— Não se eu esconder ele em um lugar bem distante de você.
— E aí você me veria mito infeliz. – Choramingou, fazendo biquinho.
— E se eu compensar o sumiço do skate com beijos? – Tentei, estava disposto a mantê-lo longe daquele transporte horrível que o fez parar no hospital.
— No início vai ser bom, mas vai chegar em um momento que só isso não é o bastante e eu duvido que você queira compensar de outro jeito. – Pelo seu sorriso safado eu entendi bem o que ele queria dizer. E ele estava certo. – Viu só? Você ficou vermelho. Por que fica tão tímido comigo? Sou só eu, nada demais.
— Se você ao menos soubesse...
A porta se abriu antes que eu pudesse completar aquela frase, para minha sorte. O pai de Elliott entrou na sala junto com a mãe do mesmo, que eu reconhecia por ter visto uma foto anteriormente. Fui quase obrigado a sair do quarto, ainda que Elliott tivesse me pedido para ficar ali com ele.
A enfermeira me disse que na manhã seguinte ele poderia ir para casa e eu prometi que passaria para vê-lo após a aula e ficaria junto com ele o quanto ele quisesse. Esse foi o único jeito de ele me deixar ir embora. Sua mãe foi mais atenciosa comigo do que o pai, mas ainda assim tinha um olhar frio em seu rosto.
Ainda me pergunto como alguém como Elliott pode ser filho de pais como aqueles, mas tudo bem, isso não é da minha conta. Eu já tinha avisado meus pais onde estava, então liguei e pedi para meu pai me buscar, porém quem buscou foi minha mãe.
— Mãe, preciso conversar com você sobre uma coisa. – Cocei a nuca, nervoso. Minha mãe me olhou de canto e voltou a dirigir. – Acho que estou apaixonado...
— E não seria melhor falar com seu pai sobre isso? Ele vai conseguir te entender melhor do que eu. – Sorriu para mim.
Como dizer aquilo? Não tinha um jeito certo, nem havia como eu prepará-la. Bem, seja o que Deus quiser, certo? Ela é minha mãe, pode até ser um choque, mas ela vai entender, não vai? Ela precisa entender.
— É que eu não sei como dizer isso para o pai. – Olhei para fora do carro, uma chuva amena caía. Voltei a olhar para minha mãe. – Acho que estou me apaixonando por um menino... – Finalizei minha frase baixo.
Nos meus pensamentos ela quase causou um acidente, freando o carro bruscamente e descendo dele para me bater. Mas foi só nos meus pensamentos, porque na realidade seu sorriso se tornou um tanto quanto sapeca e ela me fez um olhar sugestivo ao parar no semáforo.
— É o Elliott, não é? – Eu quase engasguei com o ar depois daquela pergunta. Era tão óbvio assim?
Eu era tão óbvio assim? Não podia ser. Ela sabia antes mesmo de mim! Será que esse é o poder que as mães dizem ter quando somos pequenos? Sério que ela já sabia?
— Pelo seu constrangimento, é ele sim. – Debochou ela, trocando a marcha do carro e voltando a dirigir. Cruzei os braços e me afundei no banco, tentando me tornar parte dele. – Ele é um doce de menino, adorei ele. Qual o problema em estar se apaixonando? Amores adolescentes são a melhor parte nessa fase da vida, meu anjo. É normal e saudável, não se preocupe.
— Só que ele parece interessado e isso me assusta, mãe. Me assusta muito. Eu não quero ser o estereótipo de homens que eu vejo na escola, quero ser o garoto certinho que pertence a uma só pessoa e pronto, entende? – Ela me deu um sorriso doce em resposta. – Ele já tentou me beijar, mas acabou que só rolaram selinhos. Eu tenho medo até disso. Por que eu tenho tanto medo?
— Você está apaixonado. Não fique apenas no ‘eu acho que estou apaixonado’, consigo ver nos seus olhos que você está mesmo sentindo isso. E é absolutamente normal sentir esse medo.
— Mas o papai diz que é da natureza masculina ter isso de impulso e tudo o mais e ele culpa os hormônios. Será que eu não tenho isso? – Perguntei assustado, ouvindo uma risada em resposta.
— Ele fala isso para parecer um cara sensacional, porque no nosso primeiro beijo eu que tomei atitude, ele era tão tímido quanto você. Nosso primeiro beijo foi um com o outro e ainda estamos juntos, tendo um menino lindo de olhos coloridos como nosso filho. – Suas palavras me fizeram sorrir. – E se você está sentindo esse friozinho na barriga, pode confirmar que está mesmo apaixonado. Não se preocupe com esse medo, apenas deixe as coisas fluírem. Se for para acontecer, então acontecerá. Apenas aconselho que pesquise bem na internet, porque em outros sentidos não sei se poderei te ajudar. Ainda assim, poderei tentar caso queira. Sabe que sou sua amiga além de mãe e sabe que eu não tenho problema para falar sobre o que for. Mas, como sei da sua timidez, busque na internet, não tenha vergonha disso, tudo bem?
— Obrigado, mãe. Você é a melhor. – Soltei um suspiro. – Mas será que o pai vai aceitar isso? E se ele não gostar de saber que o filho dele gosta de outro menino?
— Ele vai aceitar. Acredite ou não, no dia em que Elliott foi lá em casa, seu pai disse que ele seria um genro muito bem aceito. Daí você pode tirar suas conclusões.
E depois disso eu só conseguia sorrir. A parte mais difícil era essa e minha mãe simplesmente reagiu tão bem... É óbvio que eu fico com medo da reação do meu pai, mas agora sinto que as coisas vão dar certo. Mesmo que dê errado, pelo menos eu tenho a minha mãe e ter o apoio dela já é ótimo, excelente.
Mas eu decidi que não contaria ainda para o meu pai, não naquela noite. Minha mãe disse que tudo bem e que eu deveria fazer as coisas ao meu tempo. Ainda conversamos um com o outro antes de eu dormir, em base falamos bastante sobre o Elli e o estado dele no hospital.
Ele ainda me ligou no final da noite, dizendo que tinha pego seu celular e estava ligando escondido apenas para agradecer por eu ter ficado lá e por ter cuidado dele. Eu disse que mesmo por telefone ele ainda era capaz de me fazer corar e a frase dele foi o que mais me surpreendeu naquela ligação:
— Só de imaginar você vermelhinho de vergonha agora eu me apaixono ainda mais...
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