Sk8er Boy
2 O garoto no skate
Notas iniciais

Fones no ouvido, casaco enrolado na cintura, calças pretas e rasgadas em certos pontos, uma camiseta de uma banda qualquer, mochila nas costas e skate em mãos. Dessa maneira eu já estava pronto para ir para a escola nova para meu primeiro dia. Tocava, nesse instante, a música Life In Color da banda OneRepublic, também conhecida como a minha banda favorita.
Meus pais me desejaram um bom dia de aula, mas nem mesmo me abraçaram ou coisas do tipo. Já estava acostumado com isso, mas algumas vezes me sinto um pouco solitário demais, até mesmo dentro da minha própria casa. E, ainda que minha relação com eles seja estranha, nos demos bem, na medida do possível.
O motivo de eu estar trocando de escola é bem simples: reprovei duas vezes no segundo ano e, ao chegar pela terceira vez no mesmo, os professores já não aguentavam mais ter que lidar comigo. Eu não tenho culpa de ter dislexia. Eles pensam que é interessante ter dezoito anos e não saber, muitas vezes, nem falar direito? Eles pensam que é interessante não saber ler direito, escrever direito e tudo o mais?
Não é nada interessante. Eu queria que as coisas fossem diferentes para mim, mas, não é como se eu tivesse uma cura para o meu problema e meus pais não querem me ajudar com o tratamento que poderia de fato me ajudar. Eu acabo sem muitas escolhas.
Meus amigos na antiga escola tentavam me ajudar. Eu sou esforçado, quero aprender, mas eu não consigo. Não é de propósito, eu juro.
Como eu já disse, eu tenho dezoito anos. Me chamo Elliott Lincoln e sim, meu sobrenome é em homenagem a Abraham Lincoln. Nem um pouco original da parte de meus pais, não é? Qual é, nós vivemos na Flórida, até Mickey seria um segundo nome melhor do que o meu próprio. Mas isso não é relativamente importante.
Em aparência, sou um garoto simples como qualquer outro. Tenho 1,78 de altura, cabelos negros e lisos sempre desajeitados na minha cabeça, tenho olhos castanhos, a pele clara e é isso. Meus braços são cheios de tatuagens que comecei a fazer quando tinha dezesseis anos.
Sempre gostei de usar calças com várias partes rasgadas, camisetas largas e de bandas, um casaco amarrado na cintura e o skate sob mim o tempo inteiro. Para onde eu vou, meu skate e meus fones de ouvido vão junto. Eu não sei sobreviver a um dia sem música e, óbvio, sem que a música esteja tocando exclusivamente para mim. Eu sou um pouco ciumento com as músicas que eu escuto, confesso.
O meu caminho para a escola foi bem tranquilo, não tive nenhum quase acidente como normalmente tinha pelas ruas. Quando cheguei ao colégio, logo fui em busca do diretor para saber qual seria minha sala de aula. O encontrei no corredor e já fui xingado por estar andando de skate ali dentro, mas ignorei esse detalhe e me deixei ser guiado até a sala de aula.
Meus fones ainda estavam em meus ouvidos quando cheguei na sala de aula e eu sabia, naquele instante, que tudo iria mudar e sabia que seria para melhor. A música que eu ouvia nunca mais seria apenas uma música, pois eu tinha certeza de que eu nunca mais a ouviria sem lembrar daquele que estava bem na frente dos meus olhos.
Foi ali que eu soube que Let’s Hurt Tonight se tornaria um hino para nós dois. E pode parecer exagero, mas olhando para ele eu enxerguei o futuro. Um futuro com ele. Eu nunca senti nada parecido com isso, nem nunca pensei que fosse algo tão maravilhoso de se sentir.
— Sr. Lincoln, fones de ouvido só fora do horário de aula. – O diretor informou, tirando-me do transe que há tão pouco eu havia entrado.
— Foi mal aí. – Falei sem nem pensar, encarando em seguida o professor. – Sou Elliott Lincoln... aluno novato.
— Aluno novo. – Corrigiu-me o professor, fazendo algumas pessoas da sala rirem. – Sente-se aqui nesse lugar que está livre.
Ele apontou justamente para a classe ao lado do menino pelo qual eu quase babei no momento em que o enxerguei. Sentei-me ali e peguei meu material na mochila. Todos me encararam como se eu fosse anormal, talvez fosse pela aparência um pouco mais velha ou talvez pelas tatuagens, ou ainda pelos alargadores nas orelhas. Várias eram as hipóteses, mas eu nunca me preocupei muito com ser encarado.
Larguei meu caderno forte na classe, fazendo um estrondo ecoar na sala que estava em silêncio. O professor me olhou de maneira repreensora e eu apenas me mantive em silêncio, pegando meu estojo e o abrindo para tentar escrever alguma coisa.
A aula era de cálculos e, se eu já sou péssimo com letras, imagine com números. É horrível se sentir burro da maneira que eu me sinto. Eu tentava a todo custo prestar atenção no que o professor dizia, mas tudo, absolutamente tudo, me distraía. Era difícil prestar atenção desse jeito, mas não tinha muito como eu fazer diferente.
— Peço que façam esses exercícios aqui para entregar, por favor. – O professor anunciou.
Arranquei a folha do meu caderno e comecei a tentar fazer os tais exercícios que ele passou no grande quadro. Os números pareciam saltar para fora da folha e nada fazia sentido na minha cabeça. Para mim, tudo aquilo era apenas o amontoado de um monte de números que não significavam nada.
Olhei para o lado, o menino que eu observei ao entrar na sala estava completamente concentrado nos exercícios. Seus cabelos castanhos muito bem arrumados para cima eram de dar inveja. Seus óculos eram arrumados em seu rosto a cada cinco segundos. Ele parecia ser mais baixo que eu, não deveria ter nem 1,70.
Quando percebeu que era observado, olhou em minha direção e foi aí que eu vi algo nele que era realmente lindo. Seus olhos. Um azul e um castanho. Eu nunca tinha visto ninguém com olhos tão lindos quanto os daquele menino. Nossa, ele era tão lindo.
Se restam dúvidas: eu sinto atração por garotos sim. Mas não é como se eu nunca tivesse beijado meninas e tudo o mais. Já beijei várias garotas, mas também já beijei vários garotos. Não gosto das pessoas por elas serem homens ou mulheres. Existem muitas coisas mais importantes do que isso.
Seu olhar para mim era indecifrável, mas eu podia jurar que ele estava pedindo para eu não encará-lo. Eu não consegui prestar atenção, eu me prendi naqueles olhos e fiquei os encarando apenas pensando no quão lindos eles eram. Ele tinha um olho de cada cor, tem como alguém não achar isso bonito? É perfeito!
Quando o sinal tocou, entreguei minha folha ao professor e voltei a sentar, encarando o menino que nesse momento também me encarava.
— Oi, menino. – Cumprimentei-o, sorrindo. – Sou o Elliott, mas pode me chamar de Elli se quiser.
— Hey, Lincoln. – Ouvi uma voz conhecida e virei na direção da pessoa.
— Dalton! – Exclamei, levantando e o dando um rápido abraço de amigos.
Deixe-me explicar quem é Dalton. Ele é meu vizinho e nós somos amigos há muito tempo, desde que somos crianças, para ser mais exato. Ele tem dezessete anos e, assim como eu, reprovou na escola, porém apenas uma vez. Nós nunca estudamos na mesma escola, mas por morarmos na mesma rua sempre nos falamos, é engraçado agora estarmos na mesma sala.
— Que maravilha, vamos estudar juntos, cara. – Ele sorriu grandemente.
Fiquei conversando com ele por alguns minutos, acabei conhecendo sua namorada, Lana, muito simpática por sinal. Quando ele se afastou de mim, voltei a me sentar e encarar o menino que eu não sabia ainda o nome.
— Como você se nomeia? – Inquiri, levando um olhar confuso. Eu e a minha confusão em forma de frases. Ninguém nunca entende que meus pensamentos são muito mais organizados do que as coisas que falo. Me irrito comigo mesmo por isso.
— Eu não me nomeio. – Riu de maneira tímida, mostrando o aparelho em seus dentes. Até aquilo o deixava mais bonito. Como pode? – Mas meus pais me nomearam e me deram o nome de William S. Mackenzie.
— Qual a desse S louco aí? – Perguntei, vendo-o rir de novo.
— Não é de Shakespeare. – Me garantiu. – É de Sebastian, mas como isso deixa meu nome enorme eu prefiro só o S mesmo.
— William Sebastian Mackenzie fica mais melhor. – E ele sorriu. – Você é legal.
— Se você diz... mas, pode me chamar como achar melhor.
— Até de Will?
— Isso não. – Moveu a cabeça em forma de negação. – Will é muito íntimo. Tem que merecer me chamar desse jeito.
— Vou me esforçar. – E mais uma vez eu ri.
William era legal. Ele foi a primeira pessoa que conversou comigo e não se importou com meus erros e, caso tenha se importado, não se preocupou em me corrigir. São raras as pessoas que conseguem ignorar erros que muitas vezes são tão grotescos quanto os meus. Mas, como eu já disse, eu não faço de propósito. Nunca fiz.
Apenas sei que eu gostei dele, de todas as formas que poderia ter gostado. Já sei que não vou me afastar. Ele terá que me aguentar por perto.
...WILLIAM SEBASTIAN MACKENZIE...
O menino novo era mesmo diferente. Ele me olhou e não pareceu se incomodar com a cor dos meus olhos. Todo mundo que chega para falar comigo sempre perde tempo falando dos meus olhos, dizendo que são estranhos, até mesmo que eu sou anormal, coisas que obviamente me machucam.
Eu fui educado com Elliott, da mesma maneira que vou ser educado com qualquer um que venha me falar. Eu realmente gosto de ficar sozinho, gosto de passar desapercebido, mas conversar não é um problema, desde que ele se mantenha no seu canto e me deixe no meu. Se ele tentar invadir meu espaço, não serei tão amigável quanto estou sendo até agora.
Tudo tem limite e as pessoas precisam respeitar o meu.
Alguns alunos riram dele quando ele chegou e falou que era o aluno novato ao invés do aluno novo, mas eu não achei nada de estranho nisso. Qual era o problema na fase dele? Então eu conversei brevemente com ele e percebi que ele fala um pouco diferente, mas nada que não possamos ignorar, não é?
As pessoas prestam tanta atenção em coisas que não deveriam se prender e acabam ignorando o que realmente importa, tipo o fato de ele ser lindo e ter seu próprio estilo. Amei ver as tatuagens em seus braços, o piercing no canto de sua boca e os alargadores nas orelhas. Ele tinha seu estilo. Quantas pessoas têm um estilo próprio? Ele definitivamente tinha.
Ele não usava roupas da moda ou um estilo famoso, ele apenas estava vestido como gostava, sem se preocupar com o que os outros pensariam. Qual o problema que os outros veem nisso? Porque eu, particularmente, não vejo nada.
Gostei do fato de ele não ter se prendido ao meu segundo nome, aos meus olhos, aos meus óculos ou ao aparelho que uso nos dentes. Nós dois poderíamos ser considerados diferentes e nós dois simplesmente ignoramos as diferenças um no outro. Talvez porque tenhamos justamente gostado dessas diferenças, ou talvez porque elas não sejam importantes.
O que realmente importa, é que, pela primeira vez, alguém tinha me chamado atenção. Mas atenção de verdade. Sabe quando você vê uma pessoa e sente que não sabe mais como se pisca ou se respira? Você vê a pessoa, sua respiração parece sair do automático, seu coração não sabe mais bater calmamente, suas pálpebras não se fecham, sua boca fica seca e seu cérebro se torna um turbilhão de pensamentos.
Você tenta entender o que diabos aconteceu e apenas consegue pensar que está muito ferrado se seus pensamentos se tornarem algo sólido.
Eu pensei que o queria por perto. Olha justamente onde ele sentou. E, pior que isso, ficou me encarando tão penetrantemente que eu rezei internamente para não corar com tal olhar.
Mais uma vez minha mente estava conturbada e confusa. Ao mesmo tempo que eu sabia o que era, eu não fazia ideia do que era. Confuso, não é? Extremamente. Talvez por isso eu tenha me fechado durante todo o resto da aula, ainda que ele tenha tentado puxar assunto.
Eu não precisa olhar na direção dele para vê-lo em minha frente.
Por que esse garoto do skate – já que chegou com um em mãos – precisava ter se fixado tão bem nos meus pensamentos?
Eu não conseguia entender, apenas esperava que ele não se fixasse no meu coração como fez com meus pensamentos.
Esperava com todas as forças.
É uma pena que as coisas nunca aconteçam da maneira que eu quero.
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