Notas iniciais
Desculpem a demora, estava sobrecarregada ;3;
Boa leitura!

- Heinnyyy – Chamou Lohanny com um convite em mãos. A costureira não demorou muito em surgir da porta que dava para o jardim.

— Sim?

— Você já avisou nossos convidados que vamos a um festival não é?

— Claro.

A jovem brincou com o papel fino da carta por um tempo, arranhando e picotando as bordas dela de forma distraída. Olhou para a sua costureira e hesitou ao falar.

— Você acha que eu poderei encontrar alguns exorcistas por lá?

— Bem... Lady, você sabe que eu nunca mentiria para você – E suspirou – Em minha opinião você só está indo lá para descansar, não a trabalho.

Lohanny se remexeu na poltrona desconfortável com o comentário e deixando seus olhos piscarem em um rápido e ligeiro tom de vermelho.

— Bom, muito bom. Eu admiro seu tom sincero Heiny, porém você está errada ao pensar que eu estou indo para divertimento não para trabalho.

— Mil desculpas Lady. Eu só dei minha opinião – E com um gesto de cabeça saiu do cômodo.

Lohanny se remexia constantemente na poltrona de veludo vermelho. Calor? Não, ela estava aflita por pensar que todos a sua volta achavam que ela estava dando o pior de si para a rainha, afinal, aonde já se viu ir a um festival a trabalho não é mesmo?

Ciel não estava muito diferente dessa situação. Sua cabeça girava em mil perguntas desde o dia anterior e ele não parava de desejar sua morte. Será que era uma boa ideia chamar a Lady para matá-lo? Não, se fosse para morrer ele daria logo sua alma ao seu mordomo e quitava logo sua divida, além de rápido e eficiente ele não sujaria o nome de ninguém, fácil.

Seu mordomo estava dando a caminhada matinal no jardim da mansão, diferente dos outros dias Kurt não estava ao seu lado para ajudá-lo, ele tinha ficado responsável pelos ferimentos que Faustus adquiriu quando Heiny descobriu sua massa de bolo “defumada” e tentou enfiar uma vassoura no meio do nariz do mordomo fútil, não foi uma cena incomum.

A mente de Sebastian estava mais confusa/diferente/bagunçada/enigmática do que de qualquer outra pessoa no mundo ou no inferno, ele não mantinha um sorriso, uma expressão duradoura, nem sequer seu olhar parecia querer dizer algo. Poderíamos dizer que sua cara estava mais para uma sonolenta do que para uma misteriosa, aquela tal expressão “paisagem” sabe?

— Ciel... – Murmurou entre dentes enquanto a única resposta que obtinha era o constante farfalhar de folhas que a brisa produzia.

— Tsch. Está tão drogado que começou a conversar com as flores? – A voz era sínica.

— Heiny-san?

— Olá – Respondeu a mulher com um aceno – O que faz aqui sussurrando nomes, hein? – Um sorriso de canto formou-se – Por acaso está refletindo suas paixões?

Sebastian socou o muro de trepadeiras onde a costureira estava encostada com tanta força, que do meio até a borda produziu-se uma cratera. O mordomo retirou o punho e limpou a poeira cinza em um lenço que tirou do bolso magicamente, enquanto sua expressão “paisagem” se mantinha intacta.

Heiny continuava a mesma, nada disso havia assustado a mulher, se ela era masoquista nunca saberemos.

— Você não me respondeu.

— Não dou satisfações – Falou frio.

— Estamos falando do seu Boo-chan – Heiny deu ênfase no “seu” com uma piscadela nada discreta.

— Só eu o chamo assim.

— Tudo bem, tudo bem Romeu – Mais uma piscadela por conta da casa – Se prefere ficar aí cantarolando em vez de ficar ao lado do seu querido, amado e protegido conde que deve estar se corroendo, quem sou eu para negar? – A mulher sentiu uma rajada forte de vento e quando olhou para onde deveria estar o mordomo, este havia evaporado – Haha. Viu? Eu sabia que ia funcionar.

Descrever a reação de uma barata ao ser presa em um recipiente redondo e tampado seria a mesma coisa que descrever como Ciel estava no momento. Sua cabeça ainda rodava em perguntas depressivas (tanto que como eu sou uma pessoa feliz, vou poupar meus pobres leitores de ficarem a salvos da depressão) e suas mãos e rosto suavam mesmo com o clima instável.

Concluindo que ficar parado refletindo que sua vida era uma droga não chegava a lugar algum, o conde decidiu ler mais um pouco do livro de Victória como distração.

-"Primus et ultimus promitto”, ou seja “Primeira e última promessa” – Leu com as pálpebras caindo de sono enquanto bocejava com força — "In medio spinarum volui vivere", quer dizer... – Bocejou e suas pálpebras se fecharam junto do livro – “Em meio aos espinhos eu queria viver” – E o livro caiu de suas mãos ao chão, escorregando por incidente para baixo da cama.

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— Hum... – Resmungou Ciel ainda com os olhos cerrados – Q-Quê? – Abriu os olhos azuis e intensos lentamente e suspirou surpreso ao ver uma sombra sentada em um banco de frente a uma escrivaninha – S-Sebastian?

— Oh, já acordou Boo-chan? Boa noite.

— B-Boa n-noite? Q-Que horas... – Estava com muita dor de cabeça para completar a frase.

— São oito horas, está dormindo desde as quatro, você cochila bastante sabia?

— Cale a boca idiota – Respondeu massageando a cabeça – Aii...

— Algum problema?

— Dor de cabeça.

Sem mais perguntas o mordomo levantou-se do banco de madeira, soltou a pena no tinteiro e se aproximou perigosamente do conde com um olhar preocupado. Sua mão esquerda segurou o rosto do menor.

— O que está fazendo?

— Apenas relaxe – Respondeu Sebastian com um ar calmo.

Mesmo que aquele ato fosse estranho e muito sugestivo Ciel sentia um sentimento de proteção e confiança emanando do maior, ele estava com dor e confuso demais para reclamar então relaxar era a única tarefa bem-sucedida.

Ciel deixou a cabeça pender na mão do mordomo enquanto o maior deslizava a mão direita por baixo dos cabelos negros do outro com todo o cuidado do mundo, causando arrepios no conde que consequentemente fizeram-no gemer em protesto e causar ao mordomo uma sensação quente... Ou seria melhor calorosa? Não que fosse quente no sentido de ruim ou sufocante, era como cobrir-se com uma manta em um dia de inverno, reconfortante talvez.

As pontas dos dedos da mão direita começaram a massagear com calma a nuca de Ciel e este apenas soltou um breve resmungo enquanto sentia as bochechas corarem, Sebastian percebeu que isso queria dizer que o seu mestre estava gostando do “tratamento médico”.

— Como está? – Sua voz saiu em um tom preocupado, não atraente.

— Bom.

— Bom? Só? Tem certeza?

— Muito bom.

— Pare de ser convencido uma vez na vida.

— ESTÁ BEM! Está... Perfeito.

“Perfeito” era a última palavra que queria ouvir vinda de seu mestre, ainda tinha a “maravilhoso”, “confortável”, “Você é profissional nisso”, mas “perfeito”? Ele era um demônio, a única coisa perfeita nele era a sua crueldade, ou até isso já estava corrompido com aquele rosto adorável a sua frente? No bom sentido claro.

Sabe aquela sensação de quando você está mirando um doce delicioso que está ao ponto de derreter, mas você não come porque está de dieta? Era assim que nosso querido mordomo se sentia. Como ele conseguia se controlar com aquela face corada e resmungando de prazer a sua frente ninguém sabe, isso não vai durar muito.

— Ciel – Sussurrou o mordomo se certificando que o outro já estava relaxado demais para ouvir alguma coisa – Ciel?

— Hã? – Seus olhos se abriram, intensos e confusos.

Ambos ficaram se fitando por aproximadamente dois minutos, até que Sebastian tomou coragem e segurou a face rosada do conde com as suas duas mãos, fazendo o menor corar ainda mais e abrir a boca para proferir algum insulto, essa foi a miserável falha que nosso conde fez, o demônio aproveitou o momento e beijou o menor com vontade nos lábios deixando que ambas as línguas se roçassem por puro descuido. Ciel ainda tinha dúvidas se ia para o céu, mas aquilo para ele estava sendo o paraíso na terra, estava tão extasiado que se estivesse de pé e não sentado na cama, suas pernas bambas iriam fazê-lo cair de cara no chão.

— S-Seb-... – Sussurrou entre os lábios do maior que prensavam os seus – P-Pare – O mordomo não deu ouvidos e deu um selinho no conde voltando a prensar os lábios – Isso é errado, pare – Sebastian estava “surdo” demais para parar, com carinho lambeu o lábio superior de Ciel e deu um último selinho deixando um fio de saliva ligá-los. Conectados.

Esse foi seu primeiro beijo Boo-chan?

O conde ergueu uma sobrancelha ainda atordoado pelo beijo e respondeu brevemente.

— Segundo.

Agora foi a vez de o mordomo erguer as sobrancelhas, porém logo soltou um riso sensual.

— Você está falando do presente que te dei no Natal?

— F-Foi um presente? Droga Sebastian! N-Ninguém dá isso de presente... – E foi interrompido pelo indicador do maior parado de frente para sua boca.

— “Ninguém” como eu você quis dizer?

O conde engoliu em seco, estava ao ponto de dar um ataque e desmaiar e não fazia ideia de como ainda não havia tido um enfarto.

— P-Por que me beijou? – Respondeu Ciel suando frio.

— “Por que” você diz? – E fundiu os lábios novamente em um rápido beijo – Eu não sei o que significa “amor” para vocês humanos, mas pelo que estou vendo é bom. Muito bom.

Ciel estava ao ponto de um colapso será que Sebastian não notou isso?

Dizendo coisas vergonhosas como essas... “mas pelo que eu estou vendo”, ele disse claramente que me ama? Droga quero desaparecer!

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Lohanny foi a primeira a entrar na carruagem sendo seguida por Ciel, Sebastian e Isabel. Kurt esperou todos entrarem pacientemente, fechou a porta e logo os cavalos já galopavam.

Lohanny foi a primeira a notar o silêncio mortal entre Ciel e Sebastian, naturalmente eles sempre conversavam no meio das viagens.

Esses dois brigaram? Ahh, esse casal não tem jeito mesmo. O que posso fazer? Forçar um casamento não me parece boa coisa, pensou Lohanny enquanto sorria com a última ideia.

— Está rindo sozinha? – Ciel quebrou o silêncio.

— Pfff. Não é nada!

— Está me desafiando?

— Ora, depois não diga que não foi você que começou!

E ficaram os dois assim por um tempo, ambos se fuzilando pelo olhar e não demorou para que o mordomo do conde começasse a rir da situação.

— Vocês parecem duas crianças brigando por um brinquedo.

— IDIOTA! – Falaram em uníssono e continuaram a sessão de fuzilamento ótico.

Sebastian virou o rosto para a janela e ficou observando a paisagem, a grama verde e baixa, as árvores altas e com suas folhas se arrastando umas pelas outras, até que percebeu que o gramado mudava para um tom mais cinza, começando a chegar ao cimento das praças e quando menos esperava, a vegetação se transformou em um grande comércio onde milhares de camponeses vendiam produtos, alimentos, suprimentos e tudo mais que cabia dentro daquelas tendas coloridas.

Fazia certo tempo que não via multidões de pessoas, o máximo que havia visto depois de anos era a multidão da família Valentine que veio comemorar o natal na mansão da Lady.

Continuou com os olhos fixos na paisagem até que notou uma enorme praça coberta de pessoas, onde agora as tendas não eram apenas de vendas, mas também de jogos e apostas. Virou seu rosto para a janela dos fundos da carruagem e a abriu para falar com Kurt.

— Onde estamos?

— Esqueceu que iríamos a um festival?

— Mas de noite? – Estranhou o mais novo.

— De dia é vazio e cheio de guardas, de noite é lotado e os guardas mal conseguem identificar um melão de uma banana. Então é a melhor hora do dia para os exorcistas comparecerem.

— Mas por que um festival? – Ciel entrou na conversa gritando pela janelinha.

— Porque é o melhor e maior centro comercial anual e isso significa...

— Mais chance de existirem almas demoníacas – Completou Lohanny com seriedade no tom de voz.

— Ora! Chegamos.

Depois que todos desceram da carruagem Lohanny lançou um olhar mortal que sobrevoou todas as cabeças inocentes que passavam por ali. Seus olhos estavam vermelhos, não estavam dilatados como quando ficava com raiva, apenas procuravam algo invisível.

— Não estou vendo ninguém suspeito por aqui e você Sebastian-san? – Virou-se para o mordomo mais novo.

— Por que não pergunta para o seu servo?

— Hunf. Ele é inútil como sensor, só serve em batalhas – E fitou a expressão pouco preocupada de seu mordomo– Esse é o castigo por um demônio passar tempo demais com humanos.

Sebastian acenou com a cabeça em acordo, ele também havia gastado seus poderes passando tempo demais sendo bom para os humanos, mesmo que ele não fosse muito amável para todos, ainda sim ele estava trabalhando para a rainha legalmente não?

— Vamos Nee-chan! Vamos jogar dardos! – Isabel agarrou com força o pulso da irmã e saiu a arrastando enquanto essa tentava se debater inutilmente.

— Bom... Não querem ir também? – Perguntou Kurt enquanto caminhava até as duas.

— O que acha Ciel?

— Tudo bem.

Era impressão de Kurt ou era a primeira vez que o mordomo mais novo chamava seu mestre pelo primeiro nome? Ah! Esses dois são inexplicáveis.

Lohanny deveria ter jogado aproximadamente três vezes TODOS os jogos do festival junto de Isabel. Ela não se lembrava porque havia parado de contar no vinte e cinco.

A multidão dançava, jogava e bebia loucamente por lá, existiam outras crianças que Isabel fora brincar junto, porém logo teve que apartar a brincadeira já que Lohanny sempre lembrava qual era o verdadeiro motivo por quase todos estarem ali.

— Que cheiro é esse? – Ciel fungou o nariz deixando o cheiro doce lhe invadir as narinas.

— Algodão-doce – Respondeu Lohanny distraída enquanto vigiava Isabel brincando com alguns garotos de seis anos.

— Hã...?

— Vai me dizer que nunca provou? – E encarou Ciel como se ele fosse um extraterrestre.

— Não tenho a mínima ideia do que seja.

— Ahh céus! Venha cá!

Lohanny agarrou Ciel pelo braço e o puxou sem dó nem piedade com rapidez até uma tenda vermelha onde uma fila enorme se formava. Os dois esperaram até chegar a vez deles, Lohanny pediu dois dos doces e o conde ficou admirado enquanto via o que se formava daqueles pequenos grãos de açúcar.

A Lady ofereceu um dos doces para Ciel que o mordeu ainda admirado ficando com as bochechas rosadas e fazendo a garota rir com a cena.

— Você parece uma criancinha! HAHAHAHA! – Sua risada era brincalhona, não sádica como de costume.

— Eu não tenho culpa se fiquei uma década escondido em uma floresta!

— Oh, mas ainda não entendi porque diabos fazer essa palhaçada! – Exclamou raivosa – Você deixou todos os seus amigos para sumir! Por que não falou logo a verdade para eles? Seria tudo mais fácil!

— É complicado, eles não entenderiam – E ergueu uma sobrancelha pensativo – E por que não conta a verdade à sua irmã?

— Ela já deve saber.

Ciel paralisou-se, como assim? Quem estava falando a pouco tempo que a irmã precisava descobrir a verdade?

— Eu a vi remexendo em um livro da minha mãe, se ela for inteligente saberá os enigmas que ela escreveu lá.

— E-Espera um pouco. Aquele livro são enigmas?

— São, por quê?

— Por nada... – Se Isabel soubessem que eles eram enigmas com certeza ela iria me avisar!

E ficaram por um tempo conversando, em um momento rápido os olhos da Lady ficaram de um vermelho sangue, mas dessa vez eles estavam dilatados e trêmulos, o conde se assustou, porém mal havia tentado perguntar o que houvera e a garota já disparava no meio da multidão com rapidez.

Notas finais
Gostaram? Odiaram?
P.S: O algodão doce existiu em certa parte da época vitoriana, como Ciel ficou apenas uma década escondido, seria a década em que o algodão-doce começou a ser uma indústria.
Reviews?? Vamos lá~~ Mesmo pequenos eu os amo ♥