Sirius.
1 Capítulo único
Certo, como explicar aonde vim parar?
Podemos começar com o meu primeiro ano em Hogwarts, por exemplo, sim, o primeiro ano, ou melhor, o primeiro dia, logo quando conheci as pessoas que mudariam a minha vida de cabeça para baixo e me tiraria do buraco negro que eu acreditava ter me enfiado — na verdade, que eu acreditava ter nascido.
Sabe, minha família, de sangue, nunca foi muito fácil de se conviver, com brigas, regras, castigos e tudo o que de pior se poderia vir. Minhas grandes marcas — físicas e emocionais — foram uma grande obra de deles.
Então, em meio a jantares profissionais, cobranças, ódio e ensinamentos em casa, eu realmente acreditava que a vida seria aquela, em um ciclo sem fim e contínuo de legado da família Black sem um retorno. A minha única felicidade e luz era poder contar com meu irmão mais novo, Regulus, e como me sentia responsável por ele, tentava fazer com que a sua experiência não fosse estragada tão cedo com a linhagem da Mui Antiga e Nobre Casa dos Black. Queria preservá-lo. Então, brincávamos como possível, contávamos piadas e nos jantares, ríamos dos parceiros de nosso pai.
Era uma forma de empurrar o que, mais tarde naquelas noites, meus pais iriam me relembrar em meu quarto: que eu era o herdeiro, eu deveria carregar a responsabilidade e o emblema de nossa família. E terminavam não com um abraço, coisa que recebia apenas de uma pessoa, e sim com uma demonstração de poder, uma das varinhas queimando em meu braço esquerdo — bem onde fiz a tatuagem da constelação do meu nome, para lembrar que sou mais do que aquilo.
Marlene diz que não faço ideia do quanto eu posso brilhar e iluminar os que estão à minha volta, e, que por trás de toda a minha confiança, existe alguém perdidamente triste, mas que assim como todas as estrelas, eu brilhava sem nem saber que fazia isso.
Marlene é boa em encher nosso astral quando precisamos e eu não sei se o que ela disse é verdade ou não, mas sempre que olho pra essa tatuagem lembro do dia em que ela me disse isso — e de como eu disse que gostava de Remus logo após e ela me abraçou e logo me deu um tapa na cabeça dizendo ''Eu sei, seu idiota!''
E então, eu fui pra Hogwarts. As coisas em casa começavam a se intensificar, algo a ver com a luta pela quais meus pais tanto acreditavam e eu queria ficar, não por eles mas por Regulus. Pensar em deixá-lo me doía, mas eu não tinha o que fazer.
E foi assim que aconteceu. Comigo e com quem viria ser o meu segundo irmão esbarrando e tentando entrar na mesma cabine, e por mais que eu quisesse mostrar o quão bom eu era pra ele, ele apenas me deu um sorriso e perguntou o meu nome.
Nunca havia sido simpático comigo desse jeito.
James no terceiro ano disse que na verdade planejava me dar um soco mas que sua mãe ficaria triste, mas todo mundo sabe que ele é incapaz de ser mal educado com qualquer ser vivo possível — ou inanimado, já que ele já chorou uma vez por bater a porta do carro muito forte, e não importa se ele estava um pouco bêbado. Ele chorou.
Correção: depende do ser vivo, ele consegue ser incrivelmente mal educado quando se trata de seguidores de Você-sabe-quem.
No meu primeiro mês com meus novos amigos eu já me sentia melhor do que alguma vez lembrava de me sentir. Nenhum medo de receber uma visita dolorosa durante a noite, nenhuma briga ou jantar que eu deveria saudar ou falar sobre coisas que sabia que eram erradas de se falar. Eu finalmente me sentia em casa.
Mesmo quando Remus viu minhas cicatrizes, ele me mostrou as dele, e eu soube que ele me entendia. Como agradeço por isso, mesmo que não da mesma forma, ele me entendia.
Mesmo com as cartas que chegavam, mesmo com sua prima — não Andrômeda — o olhando torto de tempos em tempos pelos corredores, mesmo os cochichos sobre um Black na grifinória, eu continuava a agradecer a quem quer que fosse por eu ter conhecido quem me acolhesse de verdade.
Como eu era grato.
Mesmo quando voltei para casa durante o natal, com Regulus mal dirigindo a palavra à mim, com mais marcas sendo colocadas nos meus braços, as cartas chegavam com histórias de James, com como Peter ganhara uma coleção de figurinhas dos jogadores de quadribol mais famosos, ou com Remus colocando uma parte de um livro que ele gostava, junto de uma parte de chocolate.
E conforme o tempo foi passando eu e eles, ou, como viríamos nos chamar, os marotos, fomos crescendo e ficando mais próximos. E fizesse chuva, sol, ou qualquer outra coisa, estávamos juntos. Até quando eu e James brigamos e ambos ficamos com um soco no olho por conta de ele ter falado mal de Regulus para mim, ou quando Peter e Remus nem ao menos se olharam por um mês por Peter falar para Remus lidar com seus próprios problemas sem que ele tivesse de se transformar em um animal, ou até mesmo quando eu e Lupin brigamos pouco antes de ficarmos juntos por termos ciúmes um do outro.
E como se não bastasse, estudamos para nos transformarmos em animagos para não deixar um de nós em seus momentos mais difíceis — e contra sua vontade, pois ele não teve direito a opinião. Há 4 anos atrás viramos um cervo, um cachorro, um rato e um lobisomem e nosso elo estava complicado.
O buraco negro da minha família tentava me sugar, mas eu tinha uma nova família, que me aceitava e se colocava ao meu lado. Sinto falta de Regulus, e tentei trazê-lo junto a mim, mas nem tudo o que queremos pode ser feito, e nem todos que amamos podem ser protegidos.
Lily quem me disse essa um dia em que estava fazendo sua ronda de monitora e me pegara — não chorando — encostado em uma parede das masmorras. Mais cedo havia conversado com Regulus, ou tentado, e ele dissera que, na verdade, ele o abandonara.
Tudo o que eu mais queria era salvá-lo mas ele sentia como se eu tivesse o abandonado, sem ver como aquilo o consumia. Evans apenas se sentou ao meu lado e acompanhou a minha respiração, que, aos poucos, foi se acalmando. Ela pegou minha mão, a apertou e, sem olhar pra mim disse ''Nem tudo o que queremos vai acontecer, assim como nem todos que amamos podem ser protegidos, Sirius.'' E assim ficamos por um tempo.
Fosse como fosse eu era verdadeiramente feliz com a família que tinha formado e escolhido, tinha pessoas de verdade ao meu lado que me apoiavam e estavam junto de mim para o que eu precisasse, até mesmo Frank, que me ouviu — dessa vez irei admitir — choramingar por Remus. Foi difícil de ele entender no início mas, depois de Alice conversar com ele por um tempo ele chegou em mim e disse ''Você combina com quem for e qualquer pessoa que você ficar tem muita sorte, cara.''
Uma das minhas memórias favoritas foi do dia em que fizemos o mapa do maroto, esse que está em forma de tatuagem na minha panturrilha, pois quebrei a perna depois de cair em um buraco que o mapa não mostrava. O mapa demorou pra ser feito, principalmente por que na maioria das vezes era apenas eu, Peter e James falando de ideias e Remus olhando irritado pois não ajudávamos em nada.
No final, conseguimos de forma correta e então, passagem por todo o castelo — menos quando havia passagens secretas que nos levavam a um barranco.
Quando finalmente fui expulso da casa dos Black e queimado da tapeçaria assim como minha prima Andrômedra, fui para a casa de James, que já estava acostumado em me receber , tal como seus pais. Depois de sair de lá fui até um local de fazer tatuagem e pedi um leão como da minha casa, para me lembrar sempre de quem sou e de minha coragem. Mas antes de ir sem arrependimentos ou segundos pensamentos, tentei falar com Regulus. Subi pela lateral da casa para sua janela e ele lia algum livro grosso qualquer que, reconheci ser de um autor trouxa, e sabia como isso era perigoso em casa.
''Regulus, não precisa abrir, só... me escuta. Você é meu irmão e eu queria te proteger, sempre quis, Reg, mas não foi minha culpa ir para grifinória e muito menos minha culpa não entender o pensamento de nossos pais e seus parceiros de serviço. Pode me odiar, dizer que te abandonei mas a verdade é que sempre quis você ao meu lado, porque você é meu irmão, acima de tudo, então saiba que, para o que precisar, o que for necessário, você pode me chamar, Reg. Seja para o que for.''
Regulus não me disse nada, apenas um feitiço que fez com que eu caísse e entendesse que eu deveria ir embora — de uma vez por todas.
No começo do ano recebi o aviso que meu irmão estava morto enquanto eu estava em uma missão, os comensais com quem eu lutava disseram no meio da batalha. James teve de tomar a frente com Frank pois me desestabilizei por um momento. Quando cheguei em casa Remus me abraçou e disse que dois dias antes havia chego uma carta de Regulus, nela ele era breve. Dizia que entenderia se não quisesse vê-lo mas da última vez que nos falamos tinha lhe dito para me chamar se precisasse de algo, e ele precisava, não podia explicar mas precisava que eu o encontrasse.
Sem precisar que eu dissesse algo, Remus me abraçou e deixou que eu molhasse seu ombro direito por bastante tempo. Ele era bom em me consolar e me emprestar o abraço apertado quando eu precisava, sempre foi e sempre vai ser, porque o abraço dele conserta tudo.
Um dia, no quinto ano disse isso a ele e ele me respondeu ''Meu abraço só é ótimo pra você porque você encaixa perfeitamente, em outros casos ele é mediano. Isso prova como somos encaixes perfeitos, sabe?''
Naquela época não estávamos juntos, mas sabia o que ele queria dizer.
Lembro de como Remus se sentiu na primeira vez em que nos transformamos com ele pois, mesmo que tenha ficado grato, também ficara péssimo pois me machucara com um corte nas costas, e estando em minha forma animal, não poderia me transformar, mas mesmo assim machucou.
Quando a cicatriz surgiu dei um jeito de ir até o local de tatuagens e fazer uma lua e a sombra de um lobo uivando, assim, sempre o teria comigo. Ele chamou de estúpido e saiu andando na nossa frente pelo corredor e Alice correra atrás dele, mas eu sabia o sorriso que tinha visto em seu rosto.
Essa é a explicação mais curta e breve que consigo explicar como vim parar aqui, com meus amigos de sempre, a minha família, na sala de estar dos Potter, com Alice, Marlene, Lily e Mary cantando alto ''Mamma Mia'', Frank e Peter conversando sobre a última temporada de quadribol, e Remus e James discutindo com quem o mapa deveria ficar e porque James queria que o nome dele fosse Secoya
''É um nome natural como Lily.'' o de óculos tentava argumentar.
''É um nome esquisito e nada parecido com Lily, Potter, eu duvido que ela saiba disso.'' Lupin revirava os olhos.
Eu havia parado ali, com a família mais completa e bonita que eu poderia ter, com Emmeline gritando porque trouxe os refris e Mary pedindo ajuda na cozinha pois estava quase queimando os salgados que estava assando.
E em meio a todos os tumultos, a missões que iremos pela Ordem, uma guerra acontecendo lá fora, naquele momento éramos apenas nós, rindo, cantando e aproveitando o tempo juntos porque, a verdade é que nunca saberemos o dia de amanhã.
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