Sirenes

1 Sombra


Notas iniciais
Ah, como eu amo ficção! Não pretendia publicar isso aqui, porém, alguém acabou me fazendo mudar de ideia ??“ indiretamente.

Boa leitura.

Tentei chamar a polícia – em vão, o sangue que antes escorria pelos meus dedos agora estava seco e quase completamente espelho no chão molhado, consequente da chuva que fazia. O vento forte fazia meus cabelos esvoaçarem, infelizmente, não era o bastante para levar o meu desespero junto. O estacionamento da loja estava vazio, e a mesma, fechada; a floresta, logo a frente, parecia mais sinistra á noite, e iluminado pela luz da bela lua – que brilhava intensamente –, uma sombra conhecida escondia-se por trás das árvores.

Não consegui, por um momento, compreender meu estado. Aquela pessoa, ou aquilo, estava observando-me, captando todos os meus momentos, enquanto observava, calmo, minha expressão de choque. Estava à bons metros de mim, mas se aquilo decidisse atacar-me, sabia que eu teria a mínima chance de fugir. Entretanto, fingindo que não o vi, abaixei a cabeça para o corpo sem vida, abaixo de mim. Parecia-me familiar, porém, não conseguia lembrar de onde havia visto aquela garota antes; seu rosto estava desfigurado; o uniforme da escola, rasgado, mas sem marcas de qualquer abuso; seus cabelos longos, castanhos, escondiam boa parte de suas costas e olhos; e em sua orelha esquerda, tinha um pequeno sinal de uma mordida feita por dentes de bebês não desenvolvidos. E estava, como um bolo feito pelo melhor cozinheiro do mundo, confeitada graciosamente de sangue – diria que essa cena me dava arrepios, se não fosse habitual.

Já era a terceira vez na semana, mesmo sendo apenas quarta, que aquela ‘coisa’ perseguia-me. É como se fosse um gato, considerando eu seu dono, e estivesse me dando alimentos para continuar vivo; mas eu não comia seres humanos, tampouco havia adotado aquela forma humanóide, horrenda, assustadora. Nunca consegui o ver de perto, estava sempre, pelos meus conhecimentos em matemática – poucos, mas ainda assim, o bastante para sobreviver – não chegava perto de mim, não menos que sete metros. Como se tivesse uma barreira o impedindo, mas assim era melhor para nós dois. Além do mais, como nunca o vi por perto, costumo pensar o quanto se parece com a ‘sombra’ de Peter Pan. Mas isso me assusta, prefiro imaginar que é apenas um maluco me perseguindo, tenho certeza que é mais fácil de matar – mas esse maluco parece gostar de comer o rosto de suas vítimas antes de entregá-las para mim. Aquilo acontecia vinte e sete vezes por mês. Eu sei que se as coisas continuarem assim essa cidade irá ficar inabitada, com exceção à mim e… o sombra.

Percebi, mesmo pela lonjura, que olhava diretamente para minhas mãos – essas, manchadas de sangue. Parecia querer voltar até a garota e terminar o trabalho, mesmo que eu diria que estivesse bem feito. O ar, antes frio, agora parecia ter sido tomado por um aroma de medo, angústia, mas não consegui distinguir bem. As badaladas do relógio, grande e esbelto atrás de mim, pareciam ter aumentado; então, percebi que estava acontecendo de novo – estava indo embora, e eu teria que limpar sua bagunça. Suspirei fundo, fechei os olhos, e esperei, mais uma vez, o futuro pegar-me em cheio. Ácido, tenebroso.

Então, ele havia desaparecido. Pisquei uma, duas, três vezes para saber se não estava, realmente, delirando; porém, a verdade nua e crua estava bem a minha frente. Um grito. Sirenes. Tudo tinha parado, e eu nem havia precisado chamar a polícia como das outras vezes.

Pelo menos, na prisão, eu não teria que aguentar seu olhar em cima de mim – e dessa vez, não teria nenhum outro morto em meus pés. Estou pensando em publicar um livro, não sei ao certo. Será que o sombra vai ler? Espero que goste. Oh Deus, eu estou pirando.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!