Sirenas
2 A Ascensão da Bucaneira
Notas iniciais
Foi a bordo do navio Pía Marina que Tereza iniciou sua vida de pirata. Não queria deixar suas amigas para trás, mas seu instinto de sobrevivência gritava em sua mente. Aos poucos ela foi se afastando da cozinha e dos deveres de escrava e passou a ser a única bucaneira da nau, com o tempo ganhou respeito e admiração dos marujos que estavam a bordo e certa inveja do grupo de mulheres que ela fizera parte.
Não houve regras de hierarquia para ela. Após pôr na cabeça que precisava andar com alguém importante naquele navio, a moça passou a tentar seduzir Sebastian, o capitão: andava com um ombro de fora da blusa gasta, limpava o convés da embarcação se mexendo o máximo que podia, balançando seu traseiro; cantarolava baixo e tentava seduzi-lo com o olhar quando ele estava por perto.
Sebastian podia ser um homem contido e que estava ali para cumprir sua função de saqueador, mas acima de tudo era homem, e não negava atenção aos seus desejos.
***
Flashback On
O sol queimava demasiadamente a pele dos tripulantes naquele navio. Quase perderam a embarcação por conta de outros piratas que passavam pela mesma rota. Sebastian agora descansava em sua cabine, apreciando um rum barato que tinham no estoque de alimentos.
O imediato, Franz, ficava na chefia enquanto o capitão se retirava. Observava a movimentação dos homens no convés, até que voltou sua atenção para duas das não tão mais formosas moças a bordo.
Uma delas tinha o rosto bronzeado e cansado, essa era Maria, uma ruiva de olhos castanhos, anteriormente branca. Estava com um balde de carne de lula e peixe entre os braços, usaria o conhecimento das receitas que sua mãe um dia lhe transmitira. Recolheu um pouco de água do mar, mergulhou os animais mortos e os deixou secando ao sol, para que durassem mais.
A outra, Luíza, trazia pedras nas mãos para amolar as facas que usavam na cozinha e eventualmente acabava fazendo o mesmo processo em espadas. Não que ela não possuísse a chance de usá-las contra aqueles homens nojentos, mas sabia que se o fizesse com um, morreria pelas mãos de outro. Era preferível seguir com a vida do jeito que estava.
E uma terceira aparecia naquela luz ofuscante que o Caribe detinha. Sua saia era de um azul desgastado e rasgada nas bordas que acabava mostrando as pernas bem torneadas e morenas. Trazia consigo uma bandeja fajuta de metal com algumas ferrugens e canecas de cerveja e fumo para os homens. O mar estava tranquilo.
Havia pouco mais de vinte dias que saíram do porto da ilha e rumavam ao território britânico. A fartura era inegável e elas não eram acusadas de praticar magia ainda. Algumas das mulheres tinham tanto nojo daquelas condições em que foram impostas que se rebelavam e suicidavam.
Mas não a Tereza. No quinto dia em alto-mar, a moça testemunhara um ato violento e comum contra uma de suas companheiras de viagem: Um homem gordo, de pele manchada e gordurosa e dentes podres, mais parecia um porco que um humano, a violentara na madrugada. A maioria dormia e os que não, viam a cena sorrindo e cochichando sobre sua beleza. Ela tinha a boca coberta pela mão do homem que a possuía sem dó, ainda assim seus gritos abafados podiam ser ouvidos.
Uma lágrima escorreu pelo rosto da morena, que decidiu se retirar antes que alguém a visse ali e ela sofresse o mesmo que a moça ao convés.
Ao amanhecer, Tereza viu que algo era empacotado com sacos de batatas e amarrado com cordas velhas.
– O que houve aqui? – Sebastian os pegou no ato.
– Uma das mulheres que trouxemos não aguentou os agitos do mar, capitão. – o subordinado que respondeu exibiu seus dentes amarelados, demonstrando o duplo sentido da frase.
Sebastian apenas o encarou sem sorrir de volta e disse para jogá-la ao mar sem sacos ou cordas, pois talvez precisassem dos aparatos no futuro e não deviam desperdiçá-los com gente morta. E assim Margarida fora jogada a esmo nas águas.
Tereza percebeu que viver ali poderia ter suas regalias. Vez ou outra tentava puxar assunto com Sebastian, quando este não tinha companhia por perto, na intenção de se aproximar e seduzi-lo. Ele, no entanto, se negava a até mesmo olhá-la, devolvia respostas curtas e saía de perto.
Numa certa noite, depois de muito tentar, a moça decidira que não iria mais importunar o capitão. Foi nesse mesmo dia que ele a chamou para seus aposentos. Fê-la beber do mesmo rum e rir dos encantos que ele oferecia. Sebastian cedeu e iniciou-se, então, o jogo que ela tanto solicitara jogar, ela ia cada vez menos às galerias em que as outras trabalhavam, fazia cada vez menos as atividades que eram impostas a elas.
Sebastian a enchia de regalias, roupas novas, comida melhor, a chamara para passar todas as noites naquele quarto, pois agora ela era dele e talvez uma arma ou duas para se proteger.
Desse jeito que a Tereza ascendeu de posição, mesmo naquelas condições paupérrimas que a vida em alto-mar proporcionava. Assim ela se tornou a bucaneira do Pía Marina.
Flashback Off
Fale com o autor