Siren
25 A Fonte da Felicidade
Notas iniciais

Ao ver sua mãe se aproximando para golpear Jisoo, Jennie agiu de forma rápida e instintiva. Pegou a espada de Jungkook que estava no chão e empurrou Jisoo para o lado, parando o golpe de sua mãe com a espada e salvando Jisoo bem a tempo. Ficaram se encarando, as espadas travadas em defesa, Jennifer fazendo força para cravar a espada em Jennie, e Jennie tentando a todo custo segurar o golpe.
— Por favor, pare com isso… — Jennie implorou, as lágrimas escorriam pelo seu rosto — Não quero que isso acabe assim.
— Não seja tola, ou você me mata ou eu irei matar você — Jennifer tinha um ódio mortal no olhar.
Mesmo com o corpo fraco e a saúde debilitada, Jennie colocou força no golpe e conseguiu empurrá-la.
— Por favor, eu imploro, pare com isso! — Jennie implorou novamente, mas a mulher, se quer a escutava, estava cega de ódio.
Jennifer avançou novamente para atacá-la, sua fúria e ódio eram palpáveis à distância. Manejando a espada de forma hábil, Jennie desferiu um golpe certeiro, cravando a lâmina no estômago de Jennifer. A mulher paralisou, incrédula, encarando Jennie de perto enquanto sentia o sangue escorrer e se misturar à areia. O olhar de ódio de Jennifer se transformou em surpresa e dor, um último suspiro escapou de seus lábios antes de cair de joelhos, sem forças para continuar a luta.
— V-você… — Jennifer se esforçou para falar.
— Me desculpa — Jennie se ajoelhou no chão, aos prantos — Eu não queria fazer isso.
— Eu… eu… eu te odeio, vagabunda — Essas foram as últimas palavras de Jennifer antes de finalmente fechar os olhos para sempre.
Jennie chorou, um choro doloroso e profundo. Jisoo correu até ela, abraçando-a com força, tentando impedir que ela continuasse vendo o corpo sem vida de Jennifer. Jisoo não sabia o que dizer, e talvez não houvesse palavras que pudessem consolar Jennie naquele momento. Então, simplesmente a segurou, oferecendo o conforto silencioso de sua presença e a força de seu abraço.
…
Com a ajuda de Jungkook, Jisoo e Rosé cavaram um buraco no chão e enterraram Jennifer. Jennie, com um semblante pesado, pegou um punhado de terra com as mãos e o jogou sobre o corpo de sua mãe, um gesto simbólico de despedida e luto. O silêncio imperava, respeitando o luto de Jennie. Não que que alguém ali com exceção de Jennie sentissem remorso ou dor, mas em consideração a ela respeitavam o momento, pois, apesar de toda a perversidade e crueldade, aquela mulher ainda era sua mãe. Lalisa se aproximou e a abraçou, acariciando seus cabelos.
— Descanse em paz — Disse Jennie tristemente — Vou orar para que você encontre o caminho da paz e para que se livre de todo o ódio e amargura que estava em seu coração.
Jungkook e Rosé, então, começaram a cobrir o buraco de terra até a superfície. Jisoo improvisou uma lápide de pedra, enquanto Rosé fez uma coroa de flores e a colocou sobre a lápide. Permaneceram ali por um tempo, em silêncio. Rosé abraçou Jennie e Lisa, seguida por Jisoo, que as envolveu em seus braços.
Juntas, compartilhavam a dor e a tristeza daquele momento, mas também a força e o apoio mútuo que as mantinham unidas.
…
Jisoo e Jungkook providenciaram um grande javali para comerem. As sereias comeram a carne crua, enquanto Jungkook, naturalmente, assou a sua parte. Sabiam que teriam uma longa viagem de volta para casa e precisavam estar bem alimentados e descansados.
Depois da refeição, caminharam até a costa, no porto de Arts em Fratris, onde embarcariam em um navio com destino ao Golfo das Águas Vermelhas nos Desertos de Harenae. Optaram por atravessar o país de navio, um meio muito mais rápido e seguro do que a pé ou a nado.
O navio era pirata, mas a tripulação demonstrava grande respeito e admiração por Jungkook. Graças a essa relação, as sereias foram tratadas como verdadeiras princesas. A bordo, havia uma diversidade de criaturas, incluindo humanos, elfos e híbridos, que se assemelhavam em muitas coisas com a tripulação das Crianças Perdidas.
A viagem durou algumas semanas, e finalmente chegaram aos mares de casa, onde uma nova etapa de sua jornada as aguardava.
— Obrigada Sir Kook — Disse Jisoo — Você nos ajudou muito, és um humano de coração puro e bondoso, será um grande herói nesse país.
— Obrigada por salvar e defender minhas amigas — Disse Jennie — Saiba que as águas de Amicitia lutam contigo e estaremos sempre aqui para o que precisar.
— Não precisam me agradecer, fiz o que era certo, e fico feliz que estejam bem — Jungkook sorriu para elas.
Elas fizeram uma reverência em sinal de respeito. Após se despedirem, elas pularam na água e mergulharam para o fundo do mar.
…
Quando chegaram em AquaMarine, a cidade entrou em alvoroço. Todos comemoravam a volta das jovens sereias. Seus pais tentaram repreendê-las, mas a alegria e o alívio de vê-las novamente prevaleceram, resultando em abraços apertados e lágrimas de felicidade. Todas foram levadas ao castelo de Jennie, onde receberam atendimento dos curandeiros até se recuperarem completamente.
Assim que Rosé, Jisoo e Lalisa pegaram no sono, Jennie se levantou silenciosamente e saiu do quarto. Nadou pelo castelo, sem conseguir dormir, até que notou a porta do quarto de seu pai entreaberta. Ele também parecia estar acordado.
— Papai? — Jennie bateu na porta.
— Oh, Jennie, entre minha filha — Jack limpava o seu tridente.
— Precisamos conversar, papai — Seu tom de voz era sério.
— Sim filha, realmente precisamos. Sente-se, meu amor, vamos conversar — Jack guardou seu tridente e se sentou na cama, olhando para Jennie com expectativa.
Jennie contou ao pai tudo o que havia acontecido. Falou sobre o mapa que encontrou no navio naufragado e sobre a suposta fonte da felicidade que parecia chamá-la constantemente, mas que depois descobriu ser uma armadilha de sua mãe. Descreveu tudo o que sua mãe havia feito com ela e Lalisa, como foram salvas por Jisoo, Rosé, e Jungkook, e como ela mesma teve que colocar um ponto final naquela história triste. Enquanto relembrava a cena, lágrimas caíam de seus olhos, e Jack a abraçou com força.
— Me desculpe, Jennie. Me desculpa por ter mentido para você.
— Por que, papai? Por que mentiu pra mim? Todo esse tempo eu achei que ela fosse uma bondosa heroína que morreu salvando o nosso povo. Preciso saber a verdade.
Jack suspirou tristemente.
— Sua mãe sempre foi uma pessoa má, mas eu nunca percebi isso. Eu a amava de verdade, mas ela apenas queria tomar o reino, por isso se aproximou de mim. Quando nós tivemos você, foi a minha maior alegria, mas ela ficou ainda pior e seu coração foi completamente tomado pelo ódio. Ela achava que você fosse uma rival e que tomaria o reino que ela julgava ser dela. Depois que você nasceu ela tentou por diversas vezes te matar, mas graças aos deuses consegui impedi-la. Tive que banir sua mãe do reino, mas ela não se agradou disso e trouxe orcs marinhos para nos atacar e nos matar. Foi uma batalha intensa, perdemos muitos tritões e muitas sereias, mas vencemos, conseguimos derrotá-los. Como eu a amava, tive misericórdia e a deixei partir, mas me arrependo, pois eu quase te perdi por isso… — Jack fez uma pausa, sentiu um nó na garganta — Não queria que soubesse a verdade, queria que achasse que sua mãe foi uma boa pessoa.
— É melhor uma verdade dolorosa do que uma história bonita e falsa — Jennie olhou para ele e sorriu — Está tudo bem agora, papai. Sei que fez isso para me proteger, mas não sou mais uma criança. De agora em diante quero que me conte a verdade, por mais difícil que seja, combinado?
— Combinado! Obrigado, filha — Jack sorriu e a abraçou.
…
Alguns meses se passaram e numa bela manhã de primavera, Jack veio animado até o quarto de Jennie para acordá-la.
— Jennie! Acorde, meu peixinho dourado!
— O que foi, papai? — Perguntou ela sonolenta, coçando os olhos.
— Eu tive uma grande ideia!
— Uma grande ideia? Qual? — Jennie bocejou.
— Veja bem, eu estou ficando velho e quero te ver se casando antes de eu morrer.
— Mas pai, eu já falei que não que…
— Sem “mas pai”, quero que se case sim, Jennie. Você é a princesa de AquaMarine, precisa formar uma linda família.
— Mas pai, eu não gosto de…
— Jennie! — Ele a interrompeu — Você tem que me obedecer, depois de ter fugido de casa e colocado sua vida em risco, é o mínimo que deve fazer.
Jennie bufou irritada.
— Está bem, está bem… mas duvido que exista algum tritão bom o suficiente para mim nesse reino.
— É aí que entra a minha grande ideia!
— Ai ai pai — Jennie revirou os olhos —, diga…
— Vou organizar um grande torneio, um evento onde todos os tritões lutarão em duelos até termos o último vencedor, e o vencedor terá a honra de se casar com você, a princesa dos mares.
— Que ideia mais idi...
— Mais o que? — Ele a olhou sério.
— Que ideia mais genial — Ela forçou um sorriso.
O clima de expectativa e agitação permeava o ar enquanto os preparativos para o grande torneio estavam em pleno andamento. Os Tritões se movimentavam freneticamente, ansiosos para os duelos que determinariam quem conquistaria o coração da bela princesa dos mares. Jennie, sentada ao lado de seu pai em um altar elevado no coliseu, irradiava elegância em seu vestido branco, um símbolo de seu futuro matrimônio. Seus olhos refletiam a intensidade da ocasião enquanto ela observava o campo de batalha abaixo.
Nas arquibancadas, o povo de AquaMarine aguardava com expectativa o início do tão aguardado torneio, cujo desfecho determinaria o próximo príncipe de AquaMarine. O murmúrio da multidão ecoava pelo estádio, repleto de torcedores ansiosos para testemunhar as habilidades dos competidores e descobrir quem se destacaria como o pretendente ideal para a princesa.
Jisoo e Rosé olharam preocupadas para trás.
— Cadê a Lisa? — Jisoo perguntou.
— Ela não vem — Disse Rosé — Está muito mal com tudo isso. Ela ama Jennie e não quer vê-la se casando com outra pessoa.
Jisoo suspirou entristecida.
O locutor ergueu uma concha, ampliando sua voz para alcançar todos os presentes, e deu início ao torneio. Enquanto os tritões se aqueciam, alguns estalando os dedos, outros praticando golpes na água e outros manejando suas espadas e facas, Jennie observava tudo com um misto de desagrado e resignação. Embora não estivesse gostando da situação, ela optou por permanecer em silêncio, respeitando as decisões de seu pai, e fitava os competidores com seriedade.
Assim que a batalha teve início, os tritões ficaram imobilizados, encarando-se mutuamente, enquanto a plateia vaiava, sem compreender o que estava ocorrendo. Por mais que tentassem, não conseguiam se mover, até que Lalisa adentrou a arena com passos lentos. A cada passo que dava, um tritão desfalecia no chão, sob o impacto de sua poderosa energia.
Lalisa irradiava uma aura tão intensa que apenas os mais fortes conseguiam se manter de pé. Mesmo os tritões mais robustos e musculosos eram incapazes de oferecer resistência contra ela. Um por um, eles sucumbiam, deixando a plateia perplexa diante da demonstração de poder. Quando Lalisa finalmente parou perante o Rei Jack, todos os participantes jaziam no chão, mergulhados em um sono profundo.
Sem sequer precisar entrar em combate, Lalisa deixou claro seu domínio sobre a arena, embora sua incapacidade de testar suas habilidades em um verdadeiro confronto a deixasse profundamente decepcionada. Ela teria apreciado ver os tritões serem derrotados por uma sereia, mas a demonstração de seu poder já era impressionante o suficiente.
— Venci! — Disse Lalisa — Sou a melhor guerreira de AquaMarine e quero me casar com sua filha, vossa majestade.
— Mas, mas… Lisa? Como assim? — Jack a olhava confuso, enquanto Jennie sorria e comemorava batendo palmas em pura felicidade.
— É simples, papai. Nós nos amamos e queremos ficar juntas!
— Mas filha… ela é uma sereia.
— Isso importa? Lisa derrotou facilmente todos esses tritões chatos. A regra não era essa? Que eu iria me casar com o vencedor?
Jack suspirou, vendo que não poderia voltar atrás com sua palavra.
— Tem razão, Jennie. Apesar de ser tudo ainda meio confuso para mim, preciso cumprir com o combinado.
O Rei Jack se levantou e desceu até a arena junto com Jennie. Se aproximou de Lalisa e pegou em sua mão.
— Cuide bem da minha Jennie — Ele sussurrou para ela.
— Vou cuidar — Lalisa sorriu.
Jack ergueu o braço de Lalisa em um gesto triunfante, proclamando-a como a vencedora do torneio. A plateia irrompeu em delírio, aclamando-a com entusiasmo. A admiração pelo feito de Lalisa era evidente, e a aceitação de sua posição como a nova princesa de AquaMarine, ao lado de Jennie, parecia agora ainda mais justa e merecida. A vitória de Lalisa era não apenas uma conquista pessoal, mas também uma celebração para todo o reino.
…
Lalisa tornara-se a mais nova princesa de AquaMarine, embora o título não a cativasse; seu único interesse residia em unir-se a Jennie em matrimônio. Com frequência, ela escapava das aulas de etiqueta e diplomacia para aprimorar suas habilidades de combate contra os tubarões que comandavam as bocadas do fundo do mar.
Enquanto isso, Rosé assumira o papel de professora de canto, encontrando grande satisfação em ensinar música às crianças, com foco especial em técnicas de canto mágico e hipnótico. Embora seguisse firme em seu relacionamento com Jisoo, ela não imaginava que Lalisa, a mais avessa ao casamento, seria a primeira a subir ao altar. Embora feliz pelas amigas, estava determinada a pegar o buquê.
Jisoo assumiu o cargo de conselheira da princesa, sendo reconhecida como a mais centrada e responsável do grupo. O Rei sentia-se mais seguro com ela orientando as duas princesas.
Numa certa noite de celebração pelo noivado de Jennie e Lalisa, as quatro amigas brindaram com taças, que obviamente estavam cheias de água, apenas simbolizando a ocasião.
— Por Amicitia! — Exclamou Jennie, erguendo sua taça.
— Por Amicitia! — Ecoaram as outras três em uníssono.
Jennie sorriu, radiante por ter todas as suas amigas reunidas. Ela percebeu, enfim, que sua verdadeira fonte de felicidade sempre esteve ao seu lado, eram suas queridas e amadas amigas.
Fim.
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