Sintonia

7 Baladão


Notas iniciais
Sabe aquele capítulo que te envolve de uma maneira inexplicável, que tem uma intensidade tão grande que faz sentir como se fosse parte dessa história? Espero que vocês sintam ao ler a mesma emoção que senti enquanto escrevi. Sigam a FIC no Instagram: sintonia_fic

LUKE

— Tu tá gatão hein, rapaz? — brinquei com Josh no camarim enquanto era finalizado a arrumação do nosso figurino.

— Luke, se eu gostasse da fruta você seria minha primeira opção, pode ter certeza... — Josh riu e se sentou no sofá para ajustar o sapato no pé.

— Ahhh que pena…. — afinei a voz num tom afeminado. — Mas se por acaso decidir mudar de idéia estamos aí, bonitão… — joguei a cabeça de lado ao fingir uma jogada de cabelos. Josh gargalhou.

— E aí cara, conseguiu pegar toda a coreografia do “Baladão” de boa?

— A Nataly é maravilhosa, pegar a coreografia se tornou o menor dos meus problemas... — Josh me encarou com um ponto de interrogação na testa. — Bicho, você já prestou atenção naquela “mulé”? Rapaz, eu desejei pegar muitas coisas durante essa semana, mas infelizmente, só peguei a coreografia mesmo... — ele riu entendendo o que eu quis dizer. — O problema maior foi manter a concentração ao lado dela.

— É… A Nataly é gata mesmo.

— Gata? A Nataly é a gata, mais gata, no meio de todas as gatas rapaz. Eu to é lascado, isso sim… — após eu dizer disso, senti uma mão grande dando dois tapinhas nas minhas costas.

— Pelo visto o tanto faz caiu bom pra bom você, né Luke? — Fred passou por mim rindo e caminhou na direção do corredor que o levaria ao palco. O próximo bloco do programa já daria início ao quadro “Você pode dançar?”. Eu nem percebi que Fred tinha entrado no camarim e muito menos que estava por perto quando confessei minha queda por Nataly Brooken. Só espero que ele não queira usar essa informação para tentar me envergonhar em rede nacional. Fred adorava fazer umas piadinhas constrangedoras ao vivo.

Avistei Nataly sozinha e dispersa no corredor quando sai do camarim. Aproveitando o momento de distração da bailarina, caminhei de mansinho até suas costas e aproximei minha boca do seu ouvido. Foi o maior erro que cometi. O perfume maravilhoso dela me invadiu de um jeito tão intenso, que me fez perder a noção até do que eu ia dizer.

— E ai nervosa? — não sei nem como as palavras saíram da minha boca. Na minha cabeça eu só implorava para me lembrar da coreografia a tempo de entrar naquele palco.

— Caramba, Luke! Quer me matar do coração? — era até irônico Nataly me fazer essa pergunta, quando ela tinha tentado isso a semana inteira com aquele perfume e aquele sorriso durante nossos ensaios.

— Jamais! Eu sofri igual uma rapariga nos ensaios desta semana para querer te matar antes da nossa apresentação. — falei num tom descontraído para disfarçar a verdade por trás das minhas palavras. Porque eu sofri mesmo. E como sofri! Até na Mama Bruschetta pelada eu tive que pensar para manter o meu autocontrole ao lado de Nataly Brooken. O que estava ficando cada dia mais difícil.

Notei sua inquietação enquanto mexia os braços e pernas. A bailarina estava nitidamente nervosa. Talvez estivesse com medo que eu estragasse tudo. Eu não queria ser uma decepção na vida dela. Nataly tinha se empenhado tanto para me ensinar todos os passos em tão pouco tempo. Ela colocava a sua vida na dança, dava pra sentir a sua devoção e o seu amor por aquilo tudo. O que eu mais queria era que Nataly soubesse que eu estava com ela e faria meu melhor para demonstrar isso. Aliás, eu estava começando a desejar estar com ela para qualquer coisa que ela quisesse. Num ato impensado, segurei sua mão. — Fica calma viu? Vai dar tudo certo. Não vou envergonhar você, professora, eu prometo. — coloquei toda a sinceridade existente em mim naquelas palavras, ao beijar suas mãos. Nataly possuía dedos tão delicados.

— Eu tenho certeza disso, aluno. — e então, ela sorriu. Aquele sorriso. Aquele maldito sorriso que acabava comigo. Eu não conseguia desviar os olhos dela e ela sustentou o meu olhar. Alguma coisa estava acontecendo ali, mas antes que eu pudesse entender o que era, ouvi a voz de Alan atrás de nós.

— Ei vocês dois, dêem um aceno aqui. — pediu o fotógrafo quebrando nossa conexão de olhares. Irritado com aquela interrupção, não escondi minha cara de insatisfação ao me virar fazendo um sinal de paz e amor com os dedos. Já Nataly, abriu um sorriso forçado. Alan estava segurando o riso enquanto mexia na sua câmera. — Valeu, pombinhos. — agradeceu o fotógrafo ao sair andando pelo corredor. Olhei para Nataly que estava com as bochechas da cor de um pimentão. Comecei a rir.

— Está rindo do que palhaço? — perguntou toda sem graça ao me dar um beliscão no braço. Ah, como eu adorava quando ela ficava constrangida. Eu tinha vontade de segurar aquele rostinho lindo e morder suas bochechas.

— Você fica mais linda ainda sem graça, sabia? — pensei. Quer dizer... Só fui perceber que tinha verbalizado meu pensamento alto demais, quando Nataly arregalou os olhos com minhas palavras. Ô diacho!

— Luke e Nataly vocês serão os próximos. Fiquem preparados e a postos que o Fred já vai chamá-los. — Sylvio apareceu, tirando-me de uma tremenda saia justa, graças a Deus. Nataly se afastou de mim para arrancar um negócio que estava preso em seu cabelo e o roupão que cobria nosso figurino. Uma sensação de vazio invadiu-me após aquele breve afastamento. Era como se me faltasse algo. O mais depressa que pude, arranquei o roupão do meu corpo e arremessei de qualquer jeito no corredor. Tudo para tê-la encaixada em meu braço novamente, o quanto antes.

— Chegou a nossa hora Nataly Brooken… — apertei o braço dela com firmeza dando-lhe um sinal de confiança. Eu queria tanto que ela confiasse em mim.

Apertamos nossas mãos quando Fred anunciou nossos nomes. E foi assim que atravessamos o palco até o encontro do apresentador. Juntos e de mãos dadas.

— E ai meu? — disse Fred nos cumprimentando.

— Oopaaa! — abri um sorriso e dei um abracinho nas suas costas, rezando para que tivesse esquecido o episódio do camarim. Não deu nem tempo de eu começar a ditar o primeiro Pai Nosso. — Você falou a semana passada… — começou Fred, fazendo uma breve pausa para tascar um beijo no rosto de Nataly. — Tanto faz… — apontou para a bailarina, olhando pra mim. Eu sabia que aquele lazarento ia querer me lascar. Fred nunca perdia uma piada. — E o tanto faz? Caiu pra você legal? — questionou o apresentador com um ar inocente. Aquele filho “duma rapariga”. Já que eu estava lascado mesmo, resolvi falar a verdade.

— Rapaz, a mais bonita do tanto faz veio pra minha mão aqui, Graças a Deus! — apontei para Nataly, sem precisar encará-la para saber que estava sem graça.

— Aiii garoooto!! — zombou Fred dando uma risadinha. Nataly recriminou meu comentário, apertando com força meus dedos que estavam entrelaçados nos seus. Por um momento, achei até que fosse quebrá-los enquanto dizia “Ééé” balançando a cabecinha para o Fred. Fingi que nada estava acontecendo.

— Ele é obediente ou ele faz o que ele quer? O pai dele era assim… fazia o que queria… — Fred direcionou pergunta para a bailarina. O meu pai quando estava vivo tinha carta branca no programa do Fred. Eu sentia muita saudades do meu velho que me deixou cedo demais.

— Ele é obediente, muito disciplinado… Ele não gosta nem de tomar água, Fred… — Nataly falou e eu ri ao lembrar da nossa piada interna.

— Olôco! É… É porque ele gosta de tomar outra coisa… — Fred me zuou mais uma vez e pediu para mostrar a edição dos nossos ensaios da semana. Tinha ficado muito “mara”. Era bacana demais rever nossos momentos de diversão por outro ângulo. Eu, sinceramente, nem lembrava da existência de câmeras enquanto nós estávamos ensaiando. Todo o meu foco de atenção estava voltado para Nataly Brooken e em não pegar nos peitos dela durante o tal maldito “cambret” que acontecia no início da coreografia. Aquele passo inicial era um teste de resistência pra mim, todas as vezes que precisávamos repassar aquilo. Uma “mulé” linda daquela, parada de frente pra mim, reclinada com a cabeça para baixo na parte de trás do seu tronco e aqueles peitos perfeitos apontados na minha direção, enquanto eu supostamente fingia jogar uma poção mágica, com as mãos a centímetros do paraíso sem poder tocá-los. Eu sonhei a semana toda com aqueles peitos, rapaz.

Instantes antes de entrarmos nesse palco, eu dei minha palavra à Nataly de que não a decepcionaria. E foi nessa promessa que eu concentrei todos os meus pensamentos quando as luzes se apagaram e a batida indicando o início da nossa apresentação tocou. Naquele momento tudo que existia no mundo desapareceu. Não havia mais Fred, nem júri, não havia auditório, nada. Naquele instante eu não fui capaz de enxergar mais ninguém. Era apenas Nataly Brooken e eu naquele palco. Cada movimento, cada passo, cada giro, cada batida de palma e cada expressão foi para contemplar aquele sorriso de satisfação que estava estampado no rosto dela a cada acerto meu. Nataly estava radiante. Eu queria que a bailarina entendesse todo o valor que eu via em seu trabalho. E mais ainda, demonstrar toda minha admiração por aquela mulher. Tudo o que estava acontecendo ali era única e exclusivamente por causa dela.

Eu mal podia acreditar que havia conseguido acertar todos os passos e ainda não estava raciocinando direito, quando a música acabou indicando o fim da nossa apresentação. Aos poucos minha mente foi voltando para a realidade ao ouvir Fred ovacionar meu nome, enquanto o local era invadido pelos gritos eufóricos da platéia.

— LUUUKE STEWART… A GALERA ESTÁ DE PÉ… COM NATALY BROOKEN! — Fred anunciou com empolgação. Eu precisava urgentemente de Nataly Brooken. Felicidade explodia dentro de mim. E foi motivado por essa alegria que, por impulso, agarrei a bailarina erguendo-a em meus braços. Enfiei meu rosto naquele cangote perfumado que já havia se tornado minha perdição diária e abracei-a com toda minha força. — O JURI ESTÁ APLAUDINDO… — eu não queria soltá-la nunca mais. Ainda abraçados, fizemos reverência ao júri e a platéia. Foi quando percebi que todos, inclusive o júri, estavam nos aplaudindo em pé. Jesus! Parecia que o teto ia cair em nossa cabeça de tanto barulho. Fred ainda estava chocado. — NUNCA ACONTECEU ISSO… NUMA ESTRÉIA, TAMBÉM O JÚRI DE PÉ. — os gritos se intensificaram, Nataly estava tremendo. Segurei a bailarina pela cintura, mantendo seus pés firmes no chão enquanto ela se apoiava em mim, com o braço em volta do meu ombro. Nos afastamos, apenas por um segundo, só para trocarmos de posição e sermos avaliados pelo júri. Estendi meu braço para que Nataly se encaixasse nele. Aquele era o lugar dela. Fred falou algumas coisas que não prestei muita atenção e passou a palavra ao júri. Tinham duas modalidades de júri. O artístico que era composto por celebridades e o técnico que era composto por profissionais da dança. No final de todas as apresentações ainda teríamos a nota da platéia para compor a soma do ranking. Se futuramente passássemos para a segunda fase da competição, teríamos além dessas três avaliações, o julgamento do público de casa também. A adrenalina ainda estava intensa em meu corpo. Eu nem conseguia prestar atenção direito no que o júri dizia. Só ouvia eles nos elogiando e dando nota 10. No final das avaliações, fomos a primeira dupla da noite a levar historicamente 10 de todos os jurados da bancada.

— Parabéns, cara! Que bela estréia… — disse Fred após a votação do último jurado. — Só toma cuidado que depois ela vai querer amarrar você na porra da dança, da valsa, do paso doble e é outro estilo, né? Muito bem.- brincou o apresentador interagindo com um dos jurados. Eu ri para disfarçar os meus pensamentos impróprios após o comentário de Fred. Mal ele sabia que existia muitos lugares onde eu adoraria estar amarrado por Nataly Brooken. Se bem que depois do episódio do camarim, Fred sabia sim. Por isso, não parava de me provocar com isso.

Nos dirigimos ao canto do palco, onde encontramos Gazon e Cristian com suas parceiras que já tinham se apresentado. Ficamos lá aguardando o término de todas as apresentações. Todo mundo tinha mandado muito bem. Era legal porque estávamos numa competição em que todos torciam um pelo outro. Nós já havíamos criado um vínculo familiar ali. A única pessoa que não parecia muito feliz com os resultados era a parceira de Josh, Jeniffer Mason. A bailarina não fazia a mínima questão de esconder sua cara de insatisfação.

Após a apresentação, nós teríamos um jantar comemorativo, onde todos os participantes foram convidados.

O próximo bloco seria o último do programa, onde nós teríamos o resultado da votação do auditório e a nossa colocação no ranking. Quase inconscientemente Nataly e eu mantinhamos nossos braços dados ou algum outro tipo de contato físico. Quando Fred nos chamou para o centro do palco para revelar a votação da platéia Nataly apertou minha mão. O público ali era sempre mais exigente. Tinha gente que dava nota ruim só para zuar mesmo ou porque era fã de algum outro participante. Era muito difícil tirar a nota máxima deles. Por isso, quando ouvi Fred dizendo nota 10 para nós mais uma vez, quase despenquei para trás. Nataly Brooken e eu havíamos batido um novo recorde naquele programa. No final, fomos a única dupla da noite a receber 10 em tudo.

Após o término do programa todos nós fomos direcionados para o backstage, onde faríamos a tradicional foto e entrevista para o site de entretenimento da emissora. Nataly ainda não havia soltado meus braços desde a hora que saímos do palco. Acredito que a bailarina estava tão eufórica, que nem percebeu que todas as outras duplas já haviam se afastado um dos outros. Pra mim, estava ótimo assim. Com certeza, não seria eu a pessoa quem iria avisá-la.

— CARAAAAACAS MARIDAAA!! TU ARRASOU DEMAIS HOJE! — a bailarina professora de Nick, avançou animadamente pulando em cima de Nataly quase derrubando nós dois. Sorte que Nataly ainda estava segurando em meus braços, senão teria se estabacado no chão. — Ops! Foi mal aí, Luke. — ela se desculpou sorrindo ao encarar o braço de Nataly enroscado no meu. — Não percebi que vocês estavam se preparando para dançar de novo. — a garota sorriu novamente, dessa vez com nítida malícia.

— Está doida, May? — indagou Nataly, inocentemente.

— Ué, não é por isso que vocês ainda estão agarradinhos? — a bailarina apontou dois dedos para os nossos braços juntos e caiu na gargalhada. Só então, Nataly encarou nossos braços juntos, olhou pra minha cara e suas bochechas assumiram aquele tom pimentão que eu adorava.

— Como você é ridícula, May Anderson. — Nataly se afastou de mim dando um tapa de leve na amiga.

— Pra quem não queria e estava toda preocupada, até que mudou de idéia bem rapidinho hein, marida? — Nataly arregalou os olhos e fez uma expressão engraçada para a outra bailarina. Eu não estava entendendo “lhunfas” daquela conversa. Mulheres… Franzi o cenho em confusão, ao encarar a Nataly.

— Esquece Luke! A May não tomou os remedinhos dela hoje... — Nataly fez um sinal com o dedo dizendo que a amiga era louca. — Cala a boca, May! Olha ali o Alan te chamando para tirar foto... — segui os olhos na direção de Alan. O fotógrafo nem estava olhando pra cá. Fiquei curioso em saber o motivo pelo qual Nataly nitidamente estava tentando dispensar a amiga e o que a outra bailarina doidinha quis dizer com aquelas palavras. Tentaria entrar nesse assunto com Nataly no jantar mais tarde.

— Venham, Nataly e Luke! São vocês agora... — Rebecca nos chamou cheia de sorrisos. Ela seria a repórter da noite, já que Kristen não estava. Rebecca era uma linda mulata de cabelos cacheados. Porém, não chegava aos pés da loira ao meu lado. Sentindo abstinência do seu contato, abracei Nataly pela cintura. Quase que instintivamente, ela se apoiou no meu ombro esquerdo. Eu estava adorando como a cada dia, as coisas estavam fluindo com mais naturalidade entre a gente.

— Querido! Conta pra gente? — com empolgação, Rebecca se apoiou no meu ombro direito aproximando seu corpo do meu. Eu me senti num sanduíche, mas continuei com os braços em volta de Nataly.

— Rapaz… não tem o que dizer não. É tudo culpa dela. — falei apontando o dedo para a minha professora dando uma risadinha.

— Não, não, gente… — Nataly foi interrompida por Rebecca.

— Gente, vocês tem noção? Vocês tem noção que tiraram 10 em tudo? 10 do AUDITÓRIO, meu amor… Sabe o que é isso? — Rebecca parecia uma criança com um brinquedo novo.

— Rapaz, a famosa zebra… — a repórter caiu na gargalhada. — Mas foi o que falei ali atrás. Quando chega aqui, a gente ama isso aqui e se diverte…

— Se joga né?

— É, se joga. Mas como eu falei, é TUDO culpa dela… — apontei Nataly de novo. — Porque se não tivesse tido excelência para poder me passar tudo… Foi o que falei, no caso do time masculino, as mulheres fazem com que os homens conduzam. Cara, é muita habilidade... — no caso de Nataly, habilidades não faltavam no currículo daquela mulher.

— E… aonde é que você aprendeu esse negócio aqui? — Rebecca deu uma viradinha e colocou a mão em sua “perseguida” gritando “AU” no estilo Michael Jackson. Acho que alguém colocou cachaça na água dela. Nataly havia visto em algum vídeo meu pela internet, uma imitação que eu fazia do Michael Jackson durante um show e achou que os passos ficariam legal na coreografia. E ficou mesmo.

— É para não perder o emprego. — brinquei com ela. — Faz de tudo... Não tem isso não… — ri descontraidamente. Em seguida, Rebecca perguntou para Nataly o que ela achava de mim. Concentrei toda minha atenção em sua resposta.

— Super disciplinado, está super afim… — Nataly trocou olhares comigo ao dizer essas palavras. Ela sabia que eu estava SUPER afim mesmo, principalmente, dela. E depois dos ocorridos de hoje, já não tinha mais porque esconder isso. — Então é isso aí, gente. — A bailarina falou sem graça começando a ficar impaciente com a entrevista. Rebecca não percebeu a atmosfera que nos rodeava e permaneceu animada.

— O próximo ritmo é FORRÓ. Vocês estão sabendo, né?

— Lá de casa. — brinquei. Nataly apontou pra mim.

— Da casa dele… Da casa dele…

— Um paraibano pra dançar aqui… — afastei minha mão da cintura de Nataly para dar ênfase ao que eu dizia. — Olha, eu cresci dançando quadrilha… — gesticulei com os dedos. — Não é, não? Me ajuda ai, me ajuda ai… — cutuquei Nataly.

— É, então gente… — a bailarina se apoiou no meu ombro novamente.

— Bota alguma coisa lá de casa pra gente fazer… — ri me lembrando do que eu fazia quando dançava forró na minha terrinha. Não seria uma má ideia usar minha habilidades no forró com Nataly Brooken.

— Acompanhem, né? Pra saber o resultado. — Rebecca olhou sorridente para a câmera falando com o público de casa.

— Acompanhem… — repetiu Nataly. Acompanhe-me também Nataly Brooken.

— Vamos ver no que que dá né? Garanto que a gente vai fazer com o mesmo gosto e com o mesmo amor que a gente fez aqui… — falei com sinceridade sem pensar em minhas palavras.

— Mesmo amor… — Nataly repetiu essas palavras num tom baixo, como se estivesse falando para si mesma.

— Assistam também com o mesmo gosto e com o mesmo amor que vocês assistiram essa… — apontei para o público ao sorrir deliberadamente para a câmera. — É isso ai… isso ai. — disse Nataly com um largo sorriso.

— Parabéns meus amores… — Rebecca se aproximou nos juntando para um abraço coletivo. Nataly colou a cabeça na minha e lá estava eu, perdido no perfume dela de novo. — Aguardem o próximo ritmo. — finalizou a repórter ao encerrar a entrevista.

— Orraaa… Até que enfim! Achei que a entrevista do casalzinho “mesmo gosto e mesmo amor” não fosse acabar nunca! — a amiga de Nataly se aproximou de nós, segurando uma grande sacola em seu ombro. — Caramba Becca, respeita a minha fome! — disse para a entrevistadora que sorriu enquanto olhava algo na câmera de Alan. — Vão se trocar logo, só faltam vocês dois para irmos ao restaurante. — a loira disparou a falar. — Já estão todos lá fora esperando e se eu tiver que ouvir a Mason falar mais alguma asneira essa noite, eu juro que vou quebrar os dentes dela. E se isso acontecer, eu perderei meu emprego. Portanto, AGILIZEM! — a bailarina doidinha saiu da mesma forma que chegou, sem nem dar a chance da gente abrir a boca para dizer algo. Gostei dela. May Anderson era espontânea, sincera e não tinha medo de expressar seus pensamentos por temer o que iriam pensar dela. Pessoas assim eram raras no mundo hoje em dia. Fiquei feliz por Nataly tê-la como amiga.

— Ela é sempre enfezada assim? — perguntei para Nataly que estava rindo do escarcéu da amiga. Já eu, estava rindo do apelido que ela nos deu, “Casalzinho mesmo gosto e mesmo amor”. Gostei disso. Nataly pareceu não dar muita importância para essa parte. Só eu que prestava atenção em cada detalhe relacionado a ela?

— A tendência é piorar quando ela está com fome...

— Vish Maria! Então acho melhor agilizarmos mesmo… — sorri ficando de frente para a bailarina. — Eu não quero morrer antes de te mostrar todo o meu potencial no forró… — coloquei uma mão na barriga e levantei o ombro fazendo um gingado com o corpo. Nataly riu.

— Aham, tá… — disse com desdém. — Vai achando que o forró é só esse negocinho de dois pra lá e dois pra cá que você usava pra pegar as “mulé” nos São João da vida, na sua terrinha… — ela revirou os olhos, me fazendo rir ao imitar o meu jeito de falar “mulé”. Por que ela tinha que ser tão linda, Jesus?

— Você está desdenhando minha Paraíba, Nataly Brooken? E o pior, está duvidando do poder do meu forrozinho? — semicerrei os olhos para ela, fingindo indignação.

— Depois do que eu vi hoje não duvido de mais nada vindo de você. — ela abriu aquele sorriso radiante que aquecia meu coração.

— Tudo isso só foi possível graças a minha professora, nota 10. — até aquele momento eu não havia tido a chance de falar com Nataly sobre o ocorrido da noite. Ela alargou ainda mais o sorriso ao olhar dentro dos meus olhos.

— Você foi incrível Luke! Orgulho define meu sentimento por você nesse momento. — Não contive o sorriso largo com as palavras da bailarina. Sem pensar duas vezes, a puxei para um abraço bem apertado. Nossos braços se encaixavam de um jeito tão bom e perfeito, como se fossem a montagem de duas peças, do mesmo quebra cabeça. — Obrigada por me proporcionar tudo isso, meu aluno nota 10. — ela falou com a boca próxima ao meu ouvido, sem afastar nossos corpos. Continuamos abraçados em silêncio, enquanto minha mente processava o prazer que o som da palavra “MEU” causou dentro de mim, ao ser emitido pela boca dela. Definitivamente, eu estava perdido. Nataly Brooken havia acabado de foder com qualquer fio de estrutura que ainda restava em mim. Eu não fazia a menor idéia de como as coisas aconteceriam daqui pra frente, nem se esse turbilhão de emoções que eu estava sentindo seriam correspondidos por ela. Só havia uma única coisa que era certa nisso tudo. Eu já sentia pertencer totalmente a ela.

Notas finais
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