Sintonia
3 Três - Querida mãe.
Notas iniciais
As luzes que saíam da câmera do fotógrafo eram capazes de cegar Lily Luna. A ruiva era capaz de matar Dominique por ter obrigado ela a fazer um ensaio fotográfico para seu caderno de moda n'O Profeta Diário.
— Mas você é tão linda, Luninha. Faça esse favor pra mim! — a loira insistiu alguns dias antes do acontecimento atual.
Aquele vestido estava pinicando, mas ela não podia negar que ele era muito bonito. Era um verde-claro comprido, com a saia um pouco transparente, porém volumosa e como se tivesse outro vestido curto por baixo dela, com um tom de verde levemente mais escuro.
— Como está minha supermodelo? — Dominique chegara com uma felicidade tamanha e um pouco estranha, também.
— Tentando sobreviver com esse vestido. — Lily riu e bufou. — Por que me escolheu como modelo? As outras são tão mais bonitas.
— Shhh, sem esse papo. — a loira mexia nos cabelos ruivos e ondulados da prima. — Você é perfeita.
Lily abriu um sorriso como agradecimento. Nunca pensaria que estaria ali, participando de um ensaio fotográfico para sua prima estilista, afinal sua insegurança sobre sua aparência era uma das piores que tinha.
— Mas não se preocupe — ela disse. — está liberada. Não vou te torturar mais.
A Potter suspirou de alívio e a abraçou.
— Obrigada, cunhadinha. — falou.
Foi como se Dominique se despertara; por que diabos Lily tinha a chamado de cunhadinha? Lily, que não era burra, percebeu a expressão assustada da prima.
— Não finja que você não sabe que todo mundo da família está ciente do que houve entre você e o Jay. — ela disse, achando que Dominique estava fingindo aquilo tudo, mas logo viu que aquilo era verdadeiro. — Você não sabe.
A Weasley negou ao balançar a cabeça, ainda chocada com o que acabara de ouvir. Ela saiu em tamanha velocidade para procurar Kelly, sua assistente, enquanto Lily ia atrás dela tentando entender o que estava acontecendo.
— Kelly, há algum telefonema vindo da minha mãe? — Dominique perguntou assim que achou a quem procurava, e a assistente estava com uma expressão tão assustada quanto a própria chefe.
— Eu estava te procurando, senhorita Weasley. — disse, pausadamente, enquanto seu rosto ficava cada vez mais pálido. — Sua mãe te ligou pelo menos umas sete vezes na última hora.
Dominique estava prestes a surtar. Ela bufou e encostou-se à parede mais própria, pensando no quão frita estava. Sua mãe era cem por cento contra relacionamentos entre primos e não gostava de James justamente porque ela achava que ele era “próximo demais” de Dominique desde criança. Além disso, ela e a filha do meio não se deram bem por muito tempo, apenas nos últimos dois anos quando Dominique começou sua própria empresa e Fleur foi capaz de ver o quão propensa ao sucesso sua filha era. E agora, tudo isso iria por água abaixo.
— Domi, o que aconteceu? — Lily perguntou enquanto tocava no ombro da prima, evidentemente preocupada.
— O que aconteceu é que minha mãe é contra relacionamento entre primos! — a loira estava alterada, ainda não acreditando no que acontecera. — Eu preciso matar Fred antes que minha mãe possa me matar.
— Eu não ouvi isso do Fred, ouvi do meu irmão, mas provavelmente foi ele que contou a Albus.
Menos de cinco minutos depois, uma figura esguia e alta, loira e com expressão rígida no rosto aparecera. Kelly tentava enrolá-la para que Dominique conseguisse escapar de uma possível conversa, mas a loira sabia que aquilo não seria possível, então foi até a mãe por livre e espontânea “vontade”.
— Precisamos conversar. — Fleur parecia capaz de pegar uma bola de metal e amassá-la com as próprias mãos como se fosse de papel e Dominique sabia muito bem como aquilo não era nada bom.
— Eu sei. — ela respondeu, tentando parecer calma. — Podemos ir ao meu apartamento?
Fleur aceitou, e Dominique pediu para que Kelly assumisse o controle pelo resto do dia; o que não seria muito, já que faltava apenas meia hora para o turno da Weasley acabar. O nervosismo dela era mais do que visível, mesmo que ela nunca tinha apanhado da mãe — e provavelmente não apanharia naquele momento, já que tinha vinte anos —, as palavras que saíam de sua boca eram pior que veneno para Dominique.
XX
James no momento achava que nunca se sentira tão seguro enquanto agarrava aquelas mãos macias e beijava aqueles lábios tão doces. Aquelas tinham sido ótimas duas semanas, e eles poderiam finalmente comemorar. O turno dos dois aurores acabara, e ele levava Jill para o seu apartamento enquanto passava os braços na volta do pescoço dela.
— Por que simplesmente não aparatamos? — perguntou, olhando para ele.
— É errado eu querer passar um pouco mais de tempo com você? — ele também perguntou, e Jill riu levemente. — Aliás, fica bem pertinho daqui.
Ela assentiu, não o questionando mais. Mesmo que eles estivessem apenas se conhecendo e estavam juntos por meras duas semanas, Jill sentia que gostava muito dele. E aquilo era perigoso, considerando seu passado amoroso completamente falho, mas era assim que sua vida funcionava; ela se apaixonava com um segundo de conversa, rezava para dar certo, quebrava a cara, conhecia alguém novo e o ciclo se refazia. Porém Jill preferia sair de dez relacionamentos com o coração quebrado e continuar a acreditar no amor do que não sentir nada.
Quando chegaram, James mal trancara a porta e começou a beijá-la. Os sorrisos de Jill no meio do beijo diziam tudo. Faziam o Potter feliz, pois ele percebia que ela estava gostando tanto quanto ele. James pressionou-a contra a parede e beijava o pescoço de Jill delicadamente, fazendo-a arfar.
— Sabia que você é extremamente... gostoso? —ela sussurrou enquanto mordia os lábios e olhava no fundo dos olhos dele.
— Olha quem fala. — James sussurrou de volta e mordeu o lóbulo da orelha de Jill.
O clima foi cortado pelo bater das assas da coruja do Potter, Gratzel, que carregava uma carta em suas patas. Mesmo não querendo separar-se de Jill, teve que fazer isso, pois poderia ser algo importante. Ele deu um último beijo na testa dela e foi até a coruja, tirando o papel de suas garras.
“Ela descobriu.
Preciso de sua ajuda AGORA!
Xoxo – Dominique”
Mesmo sendo uma mensagem curta, James sabia exatamente o que significava. Dominique sempre demonstrara o desespero quando se tratava de Fleur descobrir sobre o caso dos dois. A mulher era contra relacionamento entre primos, sempre achando estranha a proximidade entre a filha e o primo, fazendo-a não gostar tanto assim dele.
Ele tinha a noção de o quanto isso era importante e devastador para a prima, mas também não queria deixar Jill ali, plantada. Ela olhava com uma expressão de impaciência misturada com a de curiosidade, enquanto seus braços estavam cruzados e as mechas do cabelo castanho para trás da orelha. Não sabia o que escolher; sua quase namorada ou a sua prima e melhor amiga, que precisava dele mais do que nunca.
— Me perdoe Jill. — ele desculpou-se com o tom de voz mais triste. — É uma emergência.
Ela suspirou e assentiu lentamente, mas ainda assim um pouco ressentida. Não queria que ele a abandonasse tão cedo.
— Está bem. — respondeu.
James sorriu, feliz com a compreensão aparente de Jill. Ele deu um beijo na bochecha dela e a levou para fora, logo fazendo seu caminho até o apartamento de Dominique.
XX
A loira estava fazendo de tudo para enrolar a mãe antes que ela começasse o assunto. Sabia que receberia todos os tipos de julgamentos possíveis e que era capaz de aquela ser a última vez que as duas teriam uma conversa apropriada, de tão furiosa que Fleur deve ter ficado. Intencionalmente, ela preparava um chá de camomila para as duas com o objetivo de os nervos da mãe acalmarem — algo quase impossível.
Tinha feito um desesperado pedido de socorro para James para que ela não passasse por aquele terror sozinha, mas duvidava que ele lesse a carta em tempo ou que sequer viria, afinal, devia estar com a tal da Jill.
— Dominique, quando virá com o chá? Tenho que me encontrar com a Srta. Crawley às 14h. — Fleur gritava impacientemente.
— Já vou, mamãe! — havia tremor na voz de Dominique, além do suor em suas mãos e as batidas rápidas em seu coração. Nunca se sentiu tão incapaz.
Ela fez questão de colocar o chá nas suas xícaras de porcelana mais chiques e de carregá-las em sua bandeja de prata, ciente do fato que coisas sofisticadas deixavam a mãe mais tranquila. Bill sempre a levava para um restaurante caro ou uma festa elegante quando tinha más notícias.
Dominique tentou ao máximo não tremer as mãos enquanto ia até a sala de estar e quebrar as xícaras de chá e, surpreendentemente, teve sucesso. Porém o sorriso estampado no rosto da mãe com certeza não era de felicidade em ver a filha.
Ela sentou-se no sofá que ficava de frente para o que de Fleur estava sentada e ficou encarando-a enquanto pegava uma xícara, esperando que ela falasse.
— Você precisa urgentemente começar a comprar outras marcas. Isso está horrível! — a mãe desprezava o chá servido, fazendo Dominique bufar como resposta.
— Se for para criticar meu gosto em chás, a porta é serventia da casa. — a filha implicou da maneira mais irônica possível. — Posso te mostrar se quiser.
Fleur não ficou nada surpresa com a audácia dela, as duas já estavam tão acostumadas a provocações e palavras ditas sarcasticamente, mas dessa vez era diferente. A garota nunca causou-lhe tanto desgosto na vida.
— Não, Dominique, não estou aqui para falar do seu gosto em chás. Sabe muito bem o meu motivo de estar aqui e não adianta ignorar ou evitar! — A fúria na voz da mulher era evidente, mas não assustadora o bastante para Domi.
— Então é o que? Desembuche mamãe! Ou sente tanta vergonha das escolhas da sua própria filha que tem tanto medo de dizer que ela estava fodendo o primo dela? — Dominique cuspia as próprias palavras como se estivesse cuspindo veneno da sua boca; se fosse para enfrentar a mãe, que fosse do jeito certo.
— Sim, Dominique, eu tenho tanta vergonha sua que não me atrevo a falar de suas atitudes. Apenas que elas são desprezíveis! Como se atreve?...
Fleur foi interrompida pelo soar da campainha, deixando-a ainda mais furiosa. Mas Dominique ficou curiosa, tendo até esperanças que James de fato recebera seu pedido por socorro, então foi atender quase que instantaneamente.
Seu coração agitado acalmou-se ao ver o lindo rosto de James Sirius, que também mostrava uma leve preocupação. Dominique ficou tão feliz que chegou a se jogar em seus braços no mesmo segundo que o viu.
— Eu preciso tanto da sua ajuda. — ela sussurrou no ouvido dele.
— Estou aqui agora. — ele abriu um sorriso e pousou a mão na bochecha dela.
Os dois entraram lentamente no apartamento, indo até a sala onde Fleur se encontrava. Obviamente, ela não apreciou a surpresa.
— Ah, aqui está o parceiro de crime. — a mulher ergueu as sobrancelhas e soltou a risada mais falsa possível.
— Não tem graça. — disse James com a expressão mais séria possível.
Ele nunca gostara tanto da tia, principalmente porque tratava seus primos de forma desprezível, além de ela nunca ter gostado dele também. Fleur sempre tratara Dominique como um fantoche, algo que ela pudesse manipular quando quisesse.
— Vocês dois me enojam. — ela voltou a falar, quase cuspindo no rosto da própria filha. — Não sei o que dizer. Envergonharam a família inteira!
— Diga por si mesma. Meus pais não deram um pio até agora e meus irmãos apenas fizeram piada. — James Sirius retrucou, enquanto Dominique apenas ouvia cabisbaixa.
— Cale essa boca, Potter! — exigiu Fleur. — Vocês foram irresponsáveis, admita!
— Não fale assim com ele! — Dominique gritou como nunca na vida. — James me ajudou em maneiras que você nunca foi capaz nem de tentar!
— Eu sou sua mãe, Dominique Weasley. Eu só quero o melhor para você, eu sei o que é o melhor para você. — disse.
— Não, você não sabe! Mãe, eu tenho vinte anos, saí de casa assim que me formei em Hogwarts. Sempre soube o que estava fazendo. Mas você? Nem quando eu tinha cinco anos você sabia o que era o melhor para mim. — a garota se segurava para não começar a chorar, mas falhou a tentativa. — Você encheu minha cabeça com a minha ideia de ser modelo, você disse que eu estava gorda demais, você plantou uma paranoia em mim que causou a minha anorexia! Você me visitou no hospital quatro ou cinco vezes, eu estive lá por quase um ano! Você nunca se importou comigo, mãe. E eu sempre fiz de tudo para que me amasse e me aceitasse.
Fleur continuava com cara de durona, mas sentiu cada palavra que sua segunda filha dissera e até sentiu um pouco de remorso.
— Vocês dois estavam pelo menos apaixonados? — foi como se ela ignorasse tudo que Dominique acabara de falar, e aquilo a atingiu mais do que o desejado.
— Saia do meu apartamento. — ela pediu.
— O quê? — Fleur parecia indignada.
— Saia do meu apartamento. Agora!
Dominique seguiu a mãe até a porta com passos raivosos e apressados, batendo a porta na cara dela. Porém, mesmo com a fúria, assim que ela se virou para olhar o rosto de James, desabou.
Ele instantaneamente a confortou com um abraço apertado e com um silêncio, para que ela chorasse sem ser incomodada. Dominique deixava as lágrimas pesadas molharem o terno do primo, que não se importou. Desejava vê-la bem.
— Oh, James, isso foi horrível! — ela falava entre os soluços.
— Eu sei Domi. Eu sei. — ele passava as mãos pelas costas da Weasley, massageando-a levemente para que ela se acalmasse. — Ela nunca te mereceu como filha.
— E-Eu pensei que tudo tinha se resolvido entre nós depois que me formei. — fungou. — Estava claramente errada, ela só esperava para um momento em que eu falhasse para me deixar completamente sozinha.
— Ei, Nique, olhe para mim. — James ergueu a cabeça de Dominique ao tocar em seu queixo. — Você não nunca está sozinha e nunca ficará. Sempre terá a mim.
Naquele momento, Dominique olhava diretamente nos intensos olhos azuis de James Sirius e desejava que pudesse beijá-lo novamente, tocá-lo novamente, sentir sua pele na dele, mas se controlou. Além das últimas semanas terem sido difíceis, ela também estava extremamente vulnerável do último acontecimento.
— Eu só queria que ela me amasse, James. Isso é tão difícil? — a loira perguntou, tentando fazer com que novas lágrimas não rolassem em sua bochecha.
— Te amar? Não, não é nada difícil. Tia Fleur que é uma idiota mesmo.
Com aquelas palavras doces, Dominique pôde finalmente abrir um sorriso apropriado, pensando em como ela não merecia um melhor amigo como James. Ele ainda depositou um beijo na testa dela, fazendo com o que o coração de Domi aquecesse ainda mais.
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