Sins of Our Fathers
10 Catelyn
Notas iniciais

Catelyn abriu os olhos naquele dia sentindo-se fraca e entontecida, mas estranhamente resoluta, como se um grande peso tivesse sido tirado de cima dos seus ombros. Sonhara com a queda de Bran, um terrível sonho de sangue e desgosto, mas a dor em suas mãos, ainda presente após oito dias, servia para lembra-la de que era real.
– Tragam-me um pouco de pão e mel – disse às criadas – e mandem um recado a Meistre Luwin, dizendo que minhas ataduras precisam de ser trocadas – olharam-na e correram para cumprir suas ordens.
Catelyn lembrava-se de como estivera antes, e sentiu-se envergonhada. Falhara para com todos, os filhos, o marido, a Casa. Não voltaria a acontecer. Ia mostrar àqueles nortenhos como uma Tully de Correrrio podia ser forte.
Jon chegou antes dos alimentos. Rodrik Cassel veio com ele, seguido de Hallis Mollen, um guarda musculoso com uma barba castanha e quadrada. Era o novo capitão da guarda após a partida de Jory com Ned, disse Jon. Reparou que o sobrinho vinha vestido com couro fervido e cota de malha, e que trazia uma espada à cintura.
– Já descobriram quem era o homem? – perguntou-lhes Cat.
– Ninguém sabe o seu nome – informou Hallis – Não era de Winterfell, senhora, mas há quem diga que foi visto aqui e nas imediações do castelo ao longo destas últimas semanas.
– Então é um dos homens do rei – disse ela – ou dos Lannister. Pode ter ficado para trás, à espreita, quando os outros partiram.
– Pode ser – disse Hal – Com todos aqueles estranhos a encher Winterfell nos últimos tempos, não há maneira de dizer a quem pertencia.
– Ele esteve escondido nas cavalariças, podia-se sentir o cheiro nele, como pôde passar despercebido? – disse ela num tom penetrante. Hallis Mollen pareceu atrapalhado.
– Com os cavalos que Lord Eddard levou, as cavalariças ficaram meio vazias. Não seria grande truque esconder-se dos moços da cavalariça. Pode ser que Hodor o tenha visto, dizem que o rapaz anda esquisito, mas simplório como é... – Hal abanou a cabeça.
– Encontrámos o lugar onde dormia – interveio Jon – Tinha noventa veados de prata num saco de couro escondido debaixo da palha.
– É bom saber que a vida do meu filho não foi vendida barato – disse Cat amargamente. Hallis Mollen a olhou, confuso.
– As minhas desculpas, senhora, mas diz que ele foi mandado para matar o seu rapaz?
– Ele veio por Bran – disse Catelyn, convicta – Ficou o tempo todo resmungando que eu não devia estar ali. Provocou o incêndio da biblioteca pensado que eu correria para tentar apagá-lo, levando os guardas comigo. Se eu não estivesse meio louca de desgosto, teria funcionado.
– Por que haveria alguém de querer matar Bran? – perguntou Jon – Não passa de um rapazinho indefeso...
Catelyn lançou ao sobrinho um olhar de desafio.
– É um príncipe Jon, pense um pouco. Responda à sua pergunta. Por que haveria alguém de querer matar uma criança adormecida?
Antes que Jon pudesse responder, as criadas regressaram com uma bandeja de comida fresca acabada de vir da cozinha. Havia muito mais do que ela pedira: pão quente, manteiga, mel e conservas de amoras silvestres, uma fatia de bacon e um ovo cozido, uma porção de queijo, um bule de chá de menta. E com os alimentos chegou Meistre Luwin.
– Como está meu filho, Meistre? – Catelyn olhou para toda aquela comida e descobriu que não tinha apetite. Meistre Luwin baixou os olhos.
– Sem alterações, minha senhora.
Era a resposta que esperava, nem mais, nem menos. As mãos palpitaram-lhe de dor, como se a lâmina ainda estivesse nelas, cortando-as profundamente. Mandou as criadas embora e olhou para Jon.
– Já tem a resposta?
– Alguém tem medo de que Bran acorde – disse Jon –, medo do que ele possa dizer ou fazer; medo de qualquer coisa que ele sabe.
Catelyn sentiu orgulho do sobrinho. Sempre o achara parecido com Ned, com seus cabelos escuros e olhos cinzentos, e a sua noção de justiça. Agora via também um pouco da astúcia de Rhaegar Targaryen cintilar nele.
– Muito bem – virou-se para o novo capitão da guarda – Temos de manter Bran a salvo. Se existiu um assassino, poderá haver outros.
– Quantos guardas serão necessários, senhora? – perguntou Hal.
– Recordo-lhe que Lord Eddard pediu a Jon para governar Winterfell na sua ausência e na de Robb – respondeu ela. Jon pareceu crescer um pouco.
– Ponha um homem no quarto, de noite e de dia, um junto à porta, dois ao fundo das escadas. Ninguém pode ver Bran sem minha autorização, ou da minha tia.
– Certamente, meu príncipe.
– Trate disto já – sugeriu Catelyn.
– E deixe que o lobo dele fique no quarto – acrescentou Jon.
– Sim – disse Catelyn. E depois de novo – Sim – Hallis Mollen fez uma reverência e deixou o quarto.
– Senhora Stark – disse Ser Rodrik depois do guarda sair – Teria a senhora, por acaso, reparado no punhal que o assassino usou?
– As circunstância não me permitiram examiná-lo de perto, mas posso certificar que era afiado – respondeu Catelyn com um sorriso seco – Porque pergunta?
– Encontrámos a faca ainda na mão do vilão. Pareceu-me uma arma boa demais para um homem daqueles, por isso olhei-a longa e atentamente. A lâmina é de aço valiriano e o punho, de osso de dragão. Uma arma assim não tem nada a ver com um homem como ele. Alguém lhe deu.
Catelyn fez um aceno, pensativa.
– Jon, fecha a porta.
Ele a olhou de um modo estranho, mas fez o que lhe foi pedido.
– O que vou dizer não deve sair deste quarto – ela avisou – Quero que jurem.
– Lord Eddard é como um segundo pai para mim – disse Jon – Presto esse juramento.
– A senhora tem o meu juramento – disse Meistre Luwin.
– E o meu também, minha senhora – ecoou Ser Rodrik.
– No dia em que Bran caiu, Jaime Lannister foi visto perto da torre – o quarto estava no silêncio mortal – Não me parece que Bran tenha caído – disse ela para o silêncio – Penso que foi atirado.
O choque era claro no rosto dos três homens.
– Minha senhora, essa sugestão é monstruosa – disse Rodrik Cassel – Até mesmo o Regicida hesitaria em assassinar uma criança inocente.
– Não há limites para o orgulho ou a ambição dos Lannister – disse Catelyn.
– O rapaz sempre teve antes a mão segura – continuou Meistre Luwin, pensativo – Conhece todas as pedras de Winterfell.
– Deuses – praguejou Jon, com o rosto escuro de fúria.
Meistre Luwin puxou a corrente do colar onde lhe irritava a pele do pescoço.
– Tudo o que temos são conjecturas. Quem queremos acusar é o irmão querido da rainha. Ela não o aceitará de bom grado. Temos de encontrar provas, ou ficar em silêncio para sempre.
– Sua prova está no punhal – disse Ser Rodrik – Uma bela lâmina como aquela não pode passar despercebida.
Catelyn compreendeu que havia apenas um lugar onde a verdade podia ser encontrada.
– Alguém tem de ir a Porto Real.
– Eu vou – disse Jon.
– Não – respondeu-lhe imediatamente – Seu lugar é aqui. Deve haver sempre um Stark em Winterfell, e todos nós concordamos que é tão Stark quanto as minhas crianças – olhou para Ser Rodrik com suas grandes suíças brancas e para Meistre Luwin, com sua túnica cinzenta. Esforçou-se por empurrar os cobertores, com os dedos tão rígidos e inflexíveis como pedra, e levantou-se da cama – Devo ir eu mesma.
– Minha senhora – disse Meistre Luwin – será ajuizado? Decerto que os Lannister encararão a vossa chegada com suspeita.
– E Bran? – perguntou Jon. O pobre rapaz parecia agora completamente confundido – Não pode ter a intenção de abandoná-lo.
– Fiz por Bran tudo o que podia fazer – disse – Sua vida está na mão dos deuses e de Meistre Luwin. Tenho agora outros filhos em que pensar – fez uma pausa – Não necessitarei de grande escolta, um grupo grande atrai atenções indesejadas, não quero que os Lannister saibam que estou a caminho.
– Minha senhora, deixe-me pelo menos acompanhá-la. A estrada do rei pode ser perigosa para uma mulher só.
– Não irei pela estrada do rei – retrucou. Pensou por um momento e consentiu com a cabeça – Dois cavaleiros podem deslocar-se tão depressa como um, e bastante mais depressa do que uma longa coluna sobrecarregada com carroças e casas rolantes. Aceito sua companhia, Ser Rodrik. Seguiremos o Faca Branca até o mar e alugaremos um navio em Porto Branco. Com cavalos e ventos vivos, deveremos chegar a Porto Real ao mesmo tempo que os Lannister – e então, pensou, veremos o que tivermos de ver.
Catelyn chegara a Porto Real pouco antes de Cersei Lannister, instalando-se num velho edifício de perfil irregular que se erguia na Viela das Enguias. A dona era uma velha enrugada com um olho preguiçoso, que os mirou com suspeita e mordeu a moeda que Catelyn lhe ofereceu a fim de se certificar que era verdadeira. Mas seus quartos eram grandes e arejados, e tinham-lhe jurado que o seu guisado de peixe era o mais saboroso em todos os Sete Reinos. O melhor de tudo era que não tinha nenhum interesse em seus nomes.
Dias mais tarde, acordou com um toque na porta.
Sentou-se de repente. Da janela viam-se os telhados de Porto Real, vermelhos à luz do sol poente. Dormira durante mais tempo do que planejara. Um punho voltou a martelar na porta e uma voz gritou:
– Abra, em nome do rei.
– Um momento – gritou, vestindo-se rapidamente. O punhal encontrava-se sobre a mesa de cabeceira. Agarrou-o antes de destrancar a pesada porta de madeira. Os homens que entraram no quarto usavam a cota de malha negra e os mantos dourados da Patrulha da Cidade.
– Temos ordens para escolta-la.
– Sob autoridade de quem? – perguntou, temendo.
– Ele mostrou-lhe uma fita. Catelyn sentiu que sua respiração estava presa na garganta. O selo era um tejo, com cera cinzenta. Mindinho, pensou, tão depressa. Seu rosto surgiu-lhe em frente aos olhos; um rosto de rapaz, embora já não o fosse. Seu pai morrera havia vários anos, e ele era agora Lord Baelish, mas ainda o chamavam de Mindinho. O irmão de Catelyn, Edmure, dera-lhe esse nome, há muito tempo, em Correrrio. Os modestos domínios da família de Petyr ficavam no menor dos Dedos, e ele tinha sido baixo e magro para a idade. Fora protegido de seu pai e tinham crescido juntos. E embora Cat o visse como um irmão, as suas afeições eram mais do que fraternais. Lembra-se da suas suplicas a Brandon Stark para que poupasse o jovem Petyr de quinze anos. Sabia que tinha ido longe, sempre fora inteligente e conseguira um assento no pequeno conselho do rei como mestre da moeda.
Os guardas escoltaram-na até um bordel. Sentiu o seu rosto queimar de fúria e de vergonha, mas seguiu os homens, ignorando as mulheres seminuas em seu redor, até uma pequena sala nos fundos. Ele estava sozinho, sentado a uma pesada mesa de madeira. Quando a introduziram no aposento, posou a pena e olhou-a.
– Cat – disse em voz baixa.
– Porque motivo fui trazida aqui desta maneira?
Ele levantou-se e fez um gesto brusco para os guardas – Deixem-nos – os homens partiram – Não foi maltratada, espero.
– Não estou habituada a ser convocada como uma meretriz.
– Zanguei-a, senhora, essa nunca foi minha intenção.
Os anos não o tinham mudado muito. Petyr fora um rapaz pequeno, e crescera até transformar-se num homem pequeno, quatro ou cinco centímetros mais baixo que Catelyn, esbelto e rápido, com as feições inteligentes que ela recordava e os mesmos olhos risonhos cinza-esverdeados. Usava uma pequena barbicha pontiaguda e tinha traços de prata no cabelo escuro, embora não tivesse ainda trinta anos. Combinavam bem com o tejo de prata que prendia ao manto. Mesmo quando criança, sempre gostara de sua prata.
– Porque motivo está em Porto Real?
– Creio que me seja permitido visitar a Capital.
Mindinho soltou uma gargalhada.
– Ah, muito bem, minha senhora, mas com certeza não espera que eu acredite que está cá a passeio. Conheço-a bem demais. Como eram as palavras dos Tully?
– Família, Dever, Honra – recitou rigidamente. Ele de facto conhecia-a bem demais.
– Família, Dever, Honra – repetiu ele – E todas estas coisas requeriam que tivesse permanecido em Winterfell, onde Lord Stark a deixou com seus filhos. Não, minha senhora, algo aconteceu. Esta sua súbita viagem sugere certa urgência. Suplico-lhe, deixe-me ajudar. Os velhos amigos íntimos nunca deveriam hesitar em apoiar-se uns aos outros. Seria muito pedir-lhe que me mostre o punhal?
Catelyn fitou-o com uma descrença atordoada.
– Como sabe sobre o punhal?
– Ser Rodrik falou com Ser Aron Santagar no armeiro do rei, e conversaram sobre um certo punhal. Por volta do pôr do sol, saíram juntos do castelo e dirigiram-se àquele pavoroso casebre onde estão alojados. Ainda estão lá, bebendo na sala de estar, à espera do seu regresso.
– Como pode saber isso tudo?
– Lord Varys sabe tudo, e alguns dos seus passarinhos estão ao meu dispor. Tem o punhal convosco, não é?
Catelyn puxou-o de dentro do manto e atirou-o para cima da mesa.
– Aqui está. Talvez um dos passarinhos de Varys possa segredar o nome do homem a quem pertence.
– Nada mantém o gume como o aço valiriano – disse Mindinho, sopesando a faca com ligeireza, sentindo-a. atirou-a ao ar, e voltou a apanhá-la com a outra mão – Que belo equilíbrio. Quer encontrar o dono, é este o motivo da visita? Não há necessidade de Ser Aron para isso, minha senhora. Devia ter-me procurado mal chegou.
– Se o tivesse feito, que me teria dito?
– Teria dito que só existe uma faca como esta em Porto Real – pegou na lâmina com o polegar e o indicador, ergueu-a sobre o ombro e atirou-a pela sala com uma torção hábil de pulso. O punhal atingiu a porta e enterrou-se profundamente na madeira de carvalho, estremecendo – É minha.
– Sua? – não fazia sentido.
– Até ao torneio no dia do nome de príncipe Joffrey – disse ele, atravessando a sala para arrancar o punhal da madeira – Apostei em Ser Jaime na justa, tal como metade da corte – o sorriso acanhado de Petyr fazia-o parecer meio rapaz de novo – Quando Loras Tyrell o fez cair do cavalo, muitos de nós ficamos um nadinha mais pobres. Ser Jaime perdeu cem dragões de ouro, a rainha perdeu um pendente de esmeralda, e eu perdi a minha facada. A rainha obteve o pendente de volta, mas o vencedor ficou com o resto.
– Quem? – exigiu saber, com a boca seca de medo. Seus dedos latejavam de dor.
– O Duente – disse Mindinho, observando o seu rosto – Tyrion Lannister, é uma pena não me ter procurado, temo que o tenha perdido. Ele viaja neste momento para o Rochedo.
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