Notas iniciais
Oiiii e benvindos leitores novos~~! Como podem ver, este capítulo é um pouco maior que os anteriores, pelo seguinte motivo, que não inclui o facto de eu adorar o Bran: o próximo capítulo muito provavelmente demorará alguns dias pra sair, porque vou começar a trabalhar amanhã e entre trabalhar e estudar, não me sobra muito tempo. De qualquer modo.. Recebi a minha primeira recomendação aqui e estou eufórica! O número de leitores também cresceu, embora sejam timidos para comentar. Espero pela vossa opinião e que gostem do capítulo!



A manhã estava fria, com uma aspereza que sugeria o fim do verão. Partiram ao nascer do dia para ir ver a decapitação de um homem, vinte ao todo, e Bran cavalgava com os outros, nervoso e excitado. Fora a primeira vez que se considerara que ele tinha idade suficiente para ir com o senhor seu pai e irmãos ver fazer-se a justiça do rei. Era o décimo primeiro ano de verão e o nono da vida de Bran.

O homem tinha sido capturado no exterior de um povoado nos montes. Robb pensava que se tratava de um selvagem, com a espada a serviço de Mance Rayder, o Rei-Para-Lá-Da-Muralha que ele, seu pai e o rei iriam enfrentar em poucos dias. Pensar nisso fazia a pele de Bran formigar. Lembrava-se das histórias que a Velha Ama lhes contava à lareira, sobre como eles eram homens cruéis, assassinos e ladrões. Ou de como as suas mulheres se deitavam com os Outros durante a Longa Noite e geravam terríveis crianças meio humanas.

O homem que encontraram amarrado pelos pés e mãos ao muro do povoado era velho e descarnado, não muito mais alto do que Robb. Perdera ambas as orelhas e um dedo, queimados pelo frio, e vestia-se todo de negro como um irmão da Patrulha da Noite.

O rei ordenou que cortassem as cordas que prendiam o homem ao muro e o arrastassem até junto do grupo. Robb e Jon sentavam-se, altos e imóveis sobre os cavalos, com Bran entre eles, no seu pônei, tentando parecer ter mais do que os seus nove anos, e fingindo que já assistira a tudo aquilo antes e sentindo orgulho por lá estar, enquanto os príncipes dourados estavam junto da mãe como dois bebés. Um vento tênue soprava através do portão do povoado. Sobre as suas cabeças agitava-se o estandarte dos Stark de Winterfell: um lobo gigante cinzento correndo por um campo branco de gelo. Fê-lo pensar na sua pequena cria de lobo que ficara para trás com Arya.

O pai de Bran sentava-se solenemente sobre o cavalo, com longos cabelos castanhos a ondular ao vento. A barba bem aparada estava salpicada de branco, fazendo-o parecer mais velho do que os seus trinta e sete anos. Tinha uma sombra severa sobre os olhos cinzentos e parecia bem diferente do homem que se sentava em frente ao fogo, e falava suavemente da era dos heróis e das crianças da floresta.

O rei fez algumas questões ao homem, que mais tarde Bran não recordaria. Por fim, deu uma ordem e dois dos guardas do senhor seu pai arrastaram o homem esfarrapado até ao toco de pau-ferro no centro da praça. Empurraram-lhe a cabeça à força contra a madeira dura e negra.

– Chamem o carrasco.

– Não. O homem que dita a sentença deve brandir a espada. Como Guardião do Norte é meu dever – disse seu pai, desmontando do cavalo. Jory Cassel, o capitão da guarda de sua casa, apresentou-lhe a sua espada. Chamavam Gelo àquela espada. Era larga como uma mão de homem e mais alta ainda do que Robb. A lâmina era de aço valiriano, forjado com feitiços e escuro como fumo. Nada mantinha o fio como o aço valiariano. O pai de Bran descalçou as luvas e entregou-as a Jory. Pegou Gelo com ambas as mãos e disse:

– Em nome de Rhaegar da Casa Targaryen, o Primeiro do seu Nome, rei dos Ândalos e dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor dos Sete Reinos e Protetor do Domínio, pela voz de Eddard da Casa Stark, Senhor de Winterfell e Guardião do Norte, condeno-o à morte – e ergueu a espada bem alto sobre a cabeça.

Jon aproximou-se – Mantenha a rédea curta – sussurrou – E não afaste os olhos. Lord Stark saberá se assim fizer.

O pai cortou a cabeça do homem com um único golpe, dado com segurança. O sangue borrifou a neve, tão vermelho como vinho de verão. Um dos cavalos empinou-se e teve que ser segurado para que não fugisse. Bran não conseguia tirar os olhos do sangue. A neve bebia-o com sofreguidão, ficando para vez mais vermelha enquanto ele observava. A cabeça bateu numa raiz grossa e rolou.

Jon colocou uma mão no ombro de Bran, que olhava para o primo – Esteve bem.

O tempo parecia mais frio durante a longa viagem de regresso a Winterfell, embora o vento tivesse caído e o sol estivesse bem alto no céu. Bran cavalgava junto aos irmãos, bem adiantados em relação ao resto dos cavaleiros.

– O desertor morreu com bravura – disse Robb. Era grande e largo e crescia dia a dia, com as cores da mãe, a pele clara, os cabelos vermelho-acastanhados e os olhos azuis dos Tully de Correrio – Tinha coragem pelo menos.

– Não – disse Jon – Não era coragem. Este estava morto de medo. Podia-se ver em seus olhos, Stark – os de Jon eram de um cinzento tão escuro que pareciam quase negros, mas pouco havia que não vissem. Tinha a mesma idade que Robb, e enquanto o irmão era gracioso e ligeiro, o primo era forte e rápido.

Pensava nos olhos do homem esfarrapado quando seu pai pôs o cavalo a par com sua montaria. Robb e Jon afastaram-se, disparando numa corrida pelos bosques. O pai fitou-o com simpatia.

– Está bem, Bran?

– Sim, pai – respondeu. Olhou para cima. Envolto em peles e couros, montado no grande cavalo de guerra, o senhor seu pai pairava acima de si como um gigante – Robb diz que o homem morreu bravamente, mas Jon disse que ele tinha medo.

– E o que pensa?

Bran refletiu sobre o assunto.

– Pode um homem continuar a ser valente se tiver medo?

– Esta é a única maneira de um homem ser valente – seu pai respondeu – Compreende porque eu o fiz, e não deixei que o rei chamasse um carrasco?

– Não – respondeu corando.

– Como Guardião do Norte é meu dever executar os desertores da Patrulha. Poderia ter um carrasco, mas o nosso costume é mais antigo.

– O homem que dita a sentença deve manejar a espada – disse, repetindo as palavras do pai mais cedo. Ele assentiu.

– Se tirar a vida de um homem, deve olhá-lo nos olhos e ouvir suas últimas palavras. Se não conseguir suportar fazê-lo, talvez o homem não mereça morrer. Um governante que se esconde atrás de executores pagos depressa se esquece do que é a morte.

O resto do caminho fora feito em silêncio. Bran passou o resto do dia sozinho, tentando sem sucesso ensinar o lobo a buscar um pedaço de pau. Era mais inteligente que qualquer um dos cães no canil do pai, e juraria que ele entendia cada palavra que lhe era dita, mas mostrava muito pouco interesse em perseguir pedaços de pau. Ainda andava à procura de um nome. Robb chamara ao seu lobo Vento Cizento porque ele corria muito depressa. Sansa chamara Lady ao seu, e Arya dera ao seu o nome de uma rainha qualquer feiticeira das canções, e o pequeno Rickon chamara ao seu Cão Felpudo, o que Bran julgava ser um nome bastante estúpido para um lobo gigante. O lobo de Jon, o branco, chamava-se Fantasma. Bran gostaria de ter pensado primeiro nesse nome, apesar do seu lobo não ser branco. O lobo enviado à sobrinha de Ser Arthur também não tinha nome. Talvez ela viesse a ter a mesma dificuldade que ele.

Por fim, cansou-se do jogo do pau e decidiu escalar. Havia cerca de duas semanas que não subia à torre, provavelmente desde a chegada do rei a Winterfell.

Atravessou o pátio correndo. O lobo corria junto aos seus calcanhares.

– Fica aqui – disse ao animal na base da árvore sentinela que crescia ao lado da parede do armeiro – Deita. Isso. Agora fica.

O lobo fez o que lhe foi ordenado. Bran coçou-o atrás das orelhas e depois virou-se, saltou, agarrou um ramo baixo e içou-se. Estava no meio da árvore, deslocando-se com facilidade de ramo em ramo, quando o lobo se pôs em pé e começou a uivar.

Bran olhou para baixo. O lobo calou-se, olhando-o através das fendas de seus olhos amarelos. Um estranho arrepio atravessou-o, mas recomeçou a trepar. Uma vez mais o lobo uivou.

– Quieto – gritou – Senta. Fica. É pior que a minha mãe – os uivos seguiram-no até ao topo da árvore quando, por fim, saltou para o telhado do armeiro e para fora da vista.

Os telhados de Winterfell eram a segunda casa de Bran. A mãe dizia frequentemente que ele já era capaz de escalar antes de aprender a andar. Bran não se lembrava de quando começara a andar, mas tampouco se lembrava de quando começara a escalar; portanto, supunha que devia ser verdade.

Bran poderia ficar horas empoleirado entre as gárgulas sem forma, desgastadas pela chuva, que matutavam no topo da Primeira Torre, observando tudo: os homens que se exercitavam com madeira e aço no pátio, os cozinheiros que cuidavam de suas plantas no jardim de vidro, cães irrequietos que corriam para um lado e para o outro nos canis, o silêncio do bosque sagrado, as moças que mexericavam junto ao poço das lavagens. Fazia-o sentir-se senhor do castelo, de um modo que nem mesmo Robb conheceria.

A mãe andava aterrorizada com a possibilidade de Bran um dia escorregar de um muro e matar-se. Ele dissera-lhe que isso não aconteceria, mas ela nunca acreditou. Uma vez o fez prometer que permaneceria no chão. Ele conseguiu cumprir a promessa durante quase uma quinzena, infeliz todos os dias, até que uma noite saiu pela janela do quarto quando os irmãos estavam mergulhados no sono.

Confessou o crime no dia seguinte, num ataque de remorsos. O senhor seu pai ordenou-lhe que se fosse purificar no bosque sagrado. Foram destacados guardas para assegurar que Bran permaneceria lá toda a noite, sozinho, a refletir sobre a sua desobediência. Na manhã seguinte, Bran não se encontrava em lado nenhum. Foram finalmente encontrá-lo, profundamente adormecido, nos ramos superiores da mais alta árvore sentinela do bosque.

Por mais zangado que estivesse, o pai não conseguiu evitar uma gargalhada.

– Não é meu filho – disse a Bran quando o trouxeram para baixo – é um esquilo. Que seja. Se tem de escalar, então escale, mas não deixe que sua mãe o veja.

Bran fez o melhor que pôde, embora achasse que nunca conseguiria realmente enganá-la. Como o pai não o proibia, ela virara-se para outros lados. A Velha Ama contou-lhe uma história sobre um mau rapazinho que escalou alto demais e foi atingido por um relâmpago, e sobre o modo como os corvos vieram depois bicar-lhe os olhos. Bran não se impressionou. Havia ninhos de corvo no topo da torre quebrada, onde nunca ninguém ia, além dele, e às vezes enchia os bolsos de milho antes de escalar até lá, e os corvos comiam da sua mão. Nenhum jamais mostrou alguma vez a mais leve intenção de lhe bicar os olhos.

Mais tarde, Meistre Luwin moldou um pequeno rapaz de barro, vestiu-o com as roupas de Bran e atirou-o do muro para o pátio a fim de demonstrar o que aconteceria a Bran se caísse. Foi divertido, mas depois da demonstração Bran limitou-se a olhar para o meistre e dizer:

– Não sou feito de barro. E seja como for, nunca caio.

Durante algum tempo os guardas perseguiam-no sempre que o viam nos telhados e tentavam puxá-lo para baixo, era como brincar com os irmãos, exceto que naquele jogo era sempre Bran quem ganhava. E fosse como fosse, a maior parte das vezes nem sequer o viam. Era uma das coisas que mais apreciava em escalar; era quase como ser invisível. Mas acima de tudo, gostava de ir a lugares onde ninguém mais podia ir e de ver a extensão cinzenta de Winterfell de um modo que ninguém vira. Transformava todo o castelo no lugar secreto de Bran. O seu local favorito era a torre quebrada. Antigamente tinha sido uma torre de atalaia, a mais alta de Winterfell. Há muito tempo, cem anos antes mesmo que seu pai tivesse nascido, um relâmpago a incendiara. O terço superior da estrutura tinha tomado para dentro, e a torre nunca fora reconstruída. Ninguém ia até ao topo irregular da estrutura, salvo Bran e os corvos.

Conhecia duas maneiras de chegar lá.

Podia-se ir diretamente, escalando o lado da própria torre, mas as pedras estavam soltas e Bran nunca gostara de pôr todo seu peso em cima delas. A melhor maneira era partir do bosque sagrado, escalar a grande sentinela, atravessar o armeiro e o salão dos guardas, saltando de telhado em telhado descalço, para que os guardas não ouvissem. Depois disso, estava-se no lado oculto da Primeira Torre, a mais antiga parte do castelo, uma fortaleza quadrada e atarracada que era mais alta do que parecia. Só ratos e aranhas ali viviam agora, mas as velhas pedras ainda davam uma boa escalada. Podia-se ir diretamente até ao local onde as gárgulas se inclinavam sobre o espaço vazio, e balançar de gárgula em gárgula até o lado norte. Daí, caso se esticasse bem, podia alcançar a torre quebrada e içar-se em direção a ela no lugar onde se inclinava para mais perto. A última parte era engatinhar pelas pedras enegrecidas até ao ponto mais elevado, não mais que três metros, e então chegariam os corvos, para ver se tinha trazido milho.

Bran estava passando de gárgula em gárgula com a facilidade de uma longa prática quando ouviu as vozes. Ficou tão sobressaltado que quase perdeu o apoio. A Primeira Torre estivera vazia toda sua vida.

– Rhaegar quer casar Jon com Sansa – uma mulher dizia. Havia uma fileira de janelar por baixo de Bran, e a voz saía da última janela daquele lado – Ela deveria casar com Joffrey.

– Que os deuses o proíbam – respondeu uma voz masculina – Deve ser frígida como o resto deste inferno. O bastardo é um ótimo par.

Bran ficou ali, pendurado, à escuta, com medo de prosseguir. Eles poderiam ver de relance seus pés se tentasse passar pela janela.

– Não se faça de tolo. Não vê como isto interfere com os nossos planos? – disse a mulher – Quando Aegon sair de cena, o bastardo terá o apoio completo do Norte e das Terras Fluviais para o colocarem no trono.

– Jon tomaria o negro mais depressa que o Trono de Ferro.

Mais alguns pés, talvez pudesse ouvir mais. Mas o veriam se balançasse na frente da janela.

– Teremos que adiantar os nossos planos, não gosto disso – disse a mulher.

– Estou cansado desta conversa – disse o homem, soando aborrecido – Volte aqui.

Bran olhou para baixo. Havia um estreito parapeito por baixo da janela, só com algumas polegadas de largura. Tentou abaixar-se até lá. Estava longe demais. Nunca o alcançaria.

– Rhaegar anda desconfiado. Ouvi-o conversar com Arthur – proferiu a mulher – Devíamos tomar mais cuidado.

– Ele não tem provas de nada. Agora venha cá.

– Acha que ele precisa de provas? É o rei! Ainda ama a insípida miudinha morta de dezesseis anos. Já te disse que ele não me ama — disse a mulher.

– E quem tem culpa disso, querida irmã?

Bran estudou o parapeito. Podia cair. Era demasiado estreito para aterrissar nele, mas se conseguisse se segurar ao passar por ele e depois içar-se... Mas isso faria barulho e os traria até a janela. Não tinha certeza do que estava a ouvir, mas sabia que não se destinava aos seus ouvidos.

Estava assustado, mas tinha que ver quem estava a falar.

– Devíamos pensar menos no futuro e mais nos prazeres próximos.

– Para com isso! – disse a mulher.

Bran ouviu o súbito som de carne batendo em carne, e em seguida o riso do homem. Bran içou-se, escalou a gárgula, rastejou para o telhado. Era a maneira mais fácil. Deslocou-se ao longo do telhado até a gárgula seguinte, que ficava mesmo por cima da janela do quarto onde os dois conversavam.

– Todo este falatório me aborrece, irmã – disse o homem – Venha cá e se cale.

Bran sentou-se na gárgula com uma perna para cada lado, apertou-as em redor dela e deslizou até ficar de cabeça para baixo. Pendurou-se pelas pernas e esticou a cabeça lentamente até a janela. O mundo parecia estranho de pernas para o ar. O pátio estava vertiginosamente mais abaixo, com as lajes ainda úmidas da neve derretida. Bran olhou pela janela.

Dentro do quarto, um homem e uma mulher lutavam. Estavam ambos nus. Bran não conseguia ver quem eram. As costas do homem estavam voltadas para ele, e seu corpo ocultou a mulher quando ele a empurrou contra a parede. Ouviam-se sons suaves e úmidos. Bran percebeu que se beijavam. Observou, assustado e de olhos esbugalhados, com a respiração apertada na garganta. o homem tinha uma mão entre as pernas da mulher, e a devia estar a machuca-la, porque ela começou a gemer, com voz profunda.

– Para – disse ela – para, para. Ah, por favor... – mas a voz era baixa e fraca, e ela não o empurrava para longe. As mãos enterraram-se nos emaranhados cabelos dourados dele e puxaram-lhe o rosto para o peito. Bran viu-lhe o rosto.

Os olhos dela estavam fechados e a boca aberta, gemendo. Os cabelos moviam-se de um lado para o outro quando a cabeça dela se deslocava pra frente e para trás, mas mesmo assim, reconheceu a rainha.

Deve ter feito algum ruído. De súbito, os olhos dela abriram-se e fitaram-no. Ela gritou.

Tudo aconteceu ao mesmo tempo. A mulher empurrou precipitadamente o homem, gritando e apontando. Bran tentou içar-se, dobrando-se sobre si próprio ao tentar alcançar a gárgula, mas fê-lo com muita pressa. A mão arranhou inutilmente a pedra lisa, e no seu pânico as pernas deslizaram e de repente viu-se caindo. Houve um instante de vertigem, um desamparo nauseante quando a janela passou por ele. Esticou a mão, agarrou o parapeito, perdeu-o, voltou a agarrá-lo com a outra mão. Bateu com força no edifício. O impacto tirou-lhe o fôlego. Bran ficou suspenso por uma mão, arquejando. Rostos surgiram na janela acima dele.

A rainha. E agora Bran reconhecia o homem a seu lado. Eram tão parecidos como reflexos num espelho.

– Ele viu-nos – disse a mulher com voz esganiçada.

– Pois viu.

Os dedos de Bran começaram a deslizar. Agarrou o parapeito com a outra mão. As unhas enterraram-se na pedra dura. O homem estendeu um braço.

– Agarre a minha mão – disse – Antes que caia.

Bran agarrou-lhe o braço com toda sua força. O homem puxou-o até ao umbral.

– Que está a fazer? – quis saber a mulher.

O homem ignorou-a. Era muito forte. Pôs Bran em pé sobre o parapeito.

– Que idade tem rapaz?

– Nove anos – disse, tremendo de alivio. Seus dedos tinham marcado profundas estrias no braço do homem. Largou-o, envergonhado. O homem olhou para a mulher.

– As coisas que faço por amor – disse, com repugnância. Deu um empurrão em Bran.

Gritando, caiu da janela de costas para o vazio. Nada havia a que se pudesse agarrar. O pátio correu ao seu encontro. Em algum lugar, ao longe, um lobo uivava. Corvos voavam em círculos sobre a torre quebrada, esperando por milho.