Sinners...
3 Chapter Three - Olhos marejados...
Notas iniciais
Sinners...
(Pecadores...)
Desolation comes upon the sky
(A desolação vem do céu).
Ed Sheeran – I see fire (Trilha do filme “O Hobbit: A desolação de Smaug”).
(...)
Chapter Three – Olhos lacrimejados...
O banheiro era inteiramente branco e limpo, talvez o cômodo mais limpo de todo o casarão. Os olhos azuis e cristalinos de Carol se fixaram no enorme espelho que tinha sobre a mediana pia de mármore branco, analiticamente ela toca o rosto e os braços onde alguns arranhões se sobrepunham, não lembrava ao certo quando os havia feito, somente se sentia presa no quanto se incomodaria com as marcas se elas tivessem sido feitas na época em que o mundo não estava condenado. Suspirando levemente ela ergue a blusa retirando-a, a camiseta antes branca e agora encardida fora para o chão de azulejo azul, abaixou a calça jeans surrada e optou por ficar com a lingerie branca. Abriu o registro e encarou praticamente hipnotizada o azulejo florido que tinha ali no Box. Há quanto tempo não tomava banho com ducha? Não lembrava ao certo, mas com certeza, fora há muito tempo desde a ultima vez. Estendeu a mão para somente sentir a temperatura da água, retraiu-se ao constatar que a água estava extremamente fria. Respirou profundamente e entrou na torrente forte de água.
Fechou os braços em torno do corpo, se apertando debaixo da água gélida. Apertou com força os olhos cerrados tentando se acostumar com a temperatura da água. Óbvio que sentia falta da água corrente, mas ainda assim, nunca iria se acostumar com a água gelada. Depois de passado todo o choque da água fria, Carol se dedicou a retirar toda a sujeira do corpo e do curto cabelo. Usou o sabonete que possuía ali e esfregou o corpo com a esponja, esfregou-se incansavelmente até que o corpo pálido estivesse com uma coloração rosada. Esfregou os machucados, limpando com água e sabão, usou o sabonete no cabelo somente para tirar o cheiro de podridão e morte. Parecia que não importava o quanto ela esfregasse, o cheiro de morte não sairia de sua pele. Relaxou debaixo da torrente e deixou sua mente trabalhar, sua confiança em humanos era dada como zero, não conseguia confiar e na ultima tentativa acabou sem carro no meio de uma floresta infestada. Seria aquele estranho confiável? Ela pensava enquanto a água gelada caía em sua cabeça. Ela sabia que baixar a guarda foderia com sua vida de uma forma ou de outra. Não havia como escapar, qualquer decisão tomada acabaria com suas poucas chances. Se ela ficasse, poderia correr o risco de sofrer os abusos e crueldade dos humanos, e se partisse, teria que enfrentar todos os monstros que parecem ficar cada vez mais perto de encurralá-la de vez. Ela opta por relaxar um pouco, ela tinha um teto sobre a cabeça e água encanada, relaxar era a única coisa que ela queria por enquanto.
Ela deslizou os dedos sobre o registro e o fechou, cada mínimo detalhe se tornava belíssimo para si. Saiu do chuveiro pingando, seus braços ardiam por cada arranhão limpo, estava cansada e com o corpo dolorido. Encolhida por culpa do frio ela destrancou a porta, abrindo lentamente. Aos seus pés havia uma muda de roupas limpas e uma toalha felpuda e verde. Carol abaixou-se rapidamente e agarrou as roupas e a toalha, segurando firmemente eles contra o peito. Trancou a porta novamente com rapidez, suspirou levemente e usou a toalha para se secar. Desdobrou as peças de roupa com calma contendo um gemido ao vê-las. A blusa de manga era preta e trazia o nome da banda famosa Aerosmith em vermelho, ao vesti-la, a blusa lhe caiu como um vestido, alcançando quase metade de suas coxas. Havia também um short de algodão, por sorte de elástico, ficou meio largo em seus quadris, porém ela consertou rapidamente com um pequenino nó.
Novamente se pôs de frente para o espelho, suspirou pesadamente ao perceber o quão impropriamente estava vestida. Mas num mundo como aquele, boa vestimenta não deveria ser motivo de preocupação. Com os dedos ela se pôs a desembaraçar os nós dos curtos cabelos, por conta da falta de tratamento e até da tinta, o cabelo curto já ganhava os tons grisalhos que denotavam sua idade. Ela respirou profundamente e tentou buscar calma e conforto mesmo longe de sua Glock.
Ao sair do banheiro o leve aroma de temperos a pegou desprevenida, o cheiro bom de alho e cebola a deixou sedenta, enquanto seu estomago implorava para sentir o aroma de perto. Aproximou-se sorrateiramente da cozinha, fazendo o possível para ser silenciosa, o cheiro agradável a fazia lembrar da mísera refeição que fizera anteriormente.
__Daryl, certo? – Ela questionou incerta próxima o suficiente para ouvir ele resmungar uma afirmação. __Então você e seu grupo montaram acampamento aqui desde o inicio? – Ela questionou enquanto via ele mexer a massa na panela. O cheiro agradável vinha do molho que ele preparava para o macarrão.
__Era apenas eu no inicio, quando o mundo começou a ruir, eu apenas pensei em meu irmão, ele com certeza saberia lidar com toda essa merda. Então pequei minha moto e comecei uma jornada até o presídio West Georgia Correctional Facility. Bom, como pode ver, não deu muito certo, tudo estava fodido até os infernos, então quando encontrei essa casa, com esse muro firme, resolvi ficar. – Os olhos azuis do homem não deixaram a panela em momento algum. __E você, como chegou aqui...? Não tem cara de garota do interior.
__Eu confiei... – Ela disse e piscou enquanto ia para o lado do caipira e ajudava mexendo o molho na panela, vendo ele retirar a panela do fogo e indo despejar a massa fumegante e cheirosa no escorredor, na pia. __Estava ajudando uma mulher, iria levá-la até o marido, fora da cidade. Ela roubou meu carro e me deixou para trás... – Terminei desgostosa novamente por ter sido tão estúpida.
__O mundo não é mais o mesmo... – Daryl disse indiferente pegando a massa escorrida e pondo em uma travessa bonita. Pegando o molho logo em seguida. __Poucas pessoas são confiáveis nesse mundo... – Minutos depois ele despejou a massa com molho em duas tigelas. Entregou uma delas a Carol que o acompanhou sentando na pequena mesa de madeira e vidro que tinha ali.
__Nenhuma chance de devolver minha arma... – Ela perguntou enquanto colocava uma garfada na boca. Estava arriscando, porém era muito difícil ficar distante de sua Glock. Ela era seu único ponto de equilíbrio.
__Essa é uma das regras aqui... – Ele disse e Carol apenas revirou os olhos descontente.
__Tudo bem... – Carol suspirou profundamente. E apontou levemente com a cabeça a Crossbow posta em cima de uma das cadeiras de jantar. __É uma bela arma...
__Comprei há alguns anos... Usava para caçar... – Ele disse e Carol notou que ele não estava tão afim assim de falar. __E você? – Ele perguntou e Carol se deixou imaginar o que diria. Ela podia muito bem mentir ou omitir, mas somente preferiu a verdade.
__Eu estava terminando minha faculdade de medicina. – Ela disse e encarou um ponto fixo na parede. __Eu havia trancado minha faculdade com vinte anos, foi quando conheci o Ed, e escolhi casar, á estudar. Depois de uns anos Sophia, minha filha, nasceu. Nosso relacionamento era conturbado, ele era um bêbado idiota que gostava de agredir a esposa. Eu só consegui me livrar dele há quatro anos, pedi o divorcio e me mudei com Sophia... – Ela deixou a conversa morrer ali. Queria tanto encontrar a filha.
__Onde ela está? – Se surpreendeu ao ouvir a pergunta do homem. Fazia parecer que ele realmente se importava.
__Eu não estava com ela quando aconteceu. Ela estava passando o final de semana com Ed, em Nova Iorque, então, eu basicamente só consegui falar com ela, duas vezes depois que tudo aconteceu. – Carol diz sentindo os olhos marejarem.
__Ela está bem, tenho certeza... – A voz de Daryl possuía tanta força e certeza que Carol realmente se confortou e acreditou em suas palavras. __Vou preparar um quarto provisório para você... – Ele diz. __Ele é ao lado do meu, não é muito grande, mas acho que não terá problemas. Era o quarto de um dos rapazes que morava aqui, mas ele não está mais entre nós, então não vai se importar... – Ele diz e se encaminha por um corredor pouco iluminado. __Não tem muitas velas e nem muitas roupas de cama. Tem apenas dois lençóis sobrando. – Ele diz.
Carol sabia perfeitamente que toda vez que havia confiado em alguém, havia se fodido totalmente. Mas por ora iria confiar. Dormiria com um olho aberto e outro fechado, e com certeza trancaria a porta do quarto.
Os gemidos lá fora não incomodavam mais do que a certeza de que a humanidade era tão ou mais cruel que os animais selvagens...
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