Sinistro
3 Capítulo 2: Cegos pelas luzes
O policial nos avisa que o delegado está ao telefone com o prefeito e a conversa parece acalorada. Pode ser que demore alguns minutos para nos receber. Enquanto esperamos, acendo um cigarro na área externa do sobrado.
A cidade é tão pequena que nem se deram ao trabalho de construir algo decente. Apenas pegaram qualquer imóvel e converteram para o que precisavam. Se bem que, dado o histórico do pacato município interiorano, nunca foi necessário algo tão elaborado. Os crimes não passavam de infrações de trânsito e furtos. Até os recentes desaparecimentos.
Reparo na tinta cinza desbotada e castigada pelo tempo, as letras pintadas quase que desaparecendo por completo na fachada. Gabriel se aproxima:
— Me vê um trago? — Pede ao estender a mão.
— Não tinha parado? — Questiono.
— Você também não? — Rebate ao pegar o cigarro e tragá-lo demoradamente, como se sentisse falta do ato. Pelo visto, o período sabático havia terminado para ambos. É um círculo vicioso.
Trabalho com Gabriel há cinco anos, é o meu parceiro mais antigo, mas não o primeiro. Sempre que entramos em uma rotina acelerada ou temos um caso estressante, voltamos a fumar. Até que entramos numa fase mais saudável, geralmente motivada por alguma resolução de Ano Novo, daí resolvemos parar juntos. Apelidamos esses momentos de “períodos sabáticos”.
Sinto o vento se tornar mais constante e acompanhado de nuvens carregadas, tento proteger o cigarro para não apagar:
— Tomara que o cara termine logo essa conversa. Se chover, vou ter que esperar o tempo melhorar para registrar os agroglifos. Aposto um maço que são falsos — propõe Gabriel.
— Mas aí você está querendo fumar e não está sabendo pedir... É aposta ganha! Desde quando caso de alienígena se comprova real? Sai para lá — digo entre risos, vê se pode isso.
Somos interrompidos pelo policial. Ele anuncia que o delegado já pode nos receber. Apago a bituca e a jogo no lixo. Ao entrarmos no escritório, o ambiente parece carregado. A conversa com o prefeito não deve ter sido nada boa.
Jonas Pereira está vermelho como um pimentão, o suor escorre pela testa tanto pelo calor quanto pela agitação provocada pela conversa anterior. A expressão é nervosa. Ele se levanta para nos cumprimentar, o delegado de estatura mediana e corpo parrudo estende a mão:
— Até que enfim! — Expressa aliviado. Em seguida, posiciona uma mão na cintura enquanto desliza a outra pelo cabelo crespo e grisalho, coça o couro cabeludo como se estivesse pensando em como resolver um problema. A testa franzida evidencia as linhas de expressão e rugas que ganhou com o tempo, deve ter em torno de cinquenta anos. O rosto é coberto por manchinhas, como de quem passou muito tempo ao sol sem proteção. O interior do estado é conhecido pelas altas temperaturas e o sol de lascar.
Ele completa:
— Estou de cabelo em pé com esse caso. Mas fiquei encucado com mais uma coisa. Quando solicitei ajuda à capital, não achei que enviariam a Polícia Federal — ele se atira na cadeira do escritório, parece cansado enquanto passa as mãos pelo rosto e volta sua atenção a nós.
Mas é claro que ele ficou. Várias pessoas desaparecem diariamente, enviarem uma equipe para uma cidade tão pequena é incomum. Desconversei com uma desculpa esfarrapada, inventando que temos investigadores disponíveis para atender casos específicos ao longo do estado. Uma iniciativa da Polícia Federal para melhorar a segurança. Não entrei em muitos detalhes e logo pedi para que continuasse a falar sobre o caso.
— A situação deve ser mais séria do que imaginei... É por causa dos alienígenas? Olha, só reportei essa história devido ao surto coletivo que os desenhos vêm causando na população. Acredita que os comerciantes estão querendo transformar a cidade num polo turístico?! Como se fosse a nova Varginha do país... Acabei de ter uma discussão com o prefeito sobre o assunto, o homem parece um pinto no lixo com a possível repercussão desses desenhos no mato.
Gabriel ri, repreendo-o ao fechar a cara. Não me considero uma pessoa séria, mas quando estou trabalhando em um caso, prefiro tratar o assunto com seriedade e agilidade. Assim evito distrações, focando nas vítimas e em como ajudá-las.
O departamento deve ter interceptado a solicitação do delegado e, como ele mesmo indagou, por conta das alegações e evidências extraterrestres, tomou o caso para si. Como é de praxe, ele nem faz ideia disso. Assim como os milhares de delegados que já passaram por essa situação. O D.E.E. possui informantes em vários órgãos públicos, ficando de olho em possíveis ocorrências.
— Senhor, há vários adolescentes desaparecidos na sua cidade. Além do número elevado, a frequência com que os casos estão ocorrendo chamaram nossa atenção. Os tais “alienígenas” são o de menos... — respondo evasivo.
— A perícia encontrou alguma evidência nos locais dos desaparecimentos? — Questiona Gabriel.
— Não, é como se as vítimas tivessem evaporado! Se bem que... — ele revira a mesa e pega um documento e lê seu conteúdo — Encontramos um fio de cabelo no quarto da segunda vítima. Pode ser a nossa única prova. A cor não bate com ninguém da casa. Pode ser de algum conhecido, mas até sair o resultado do DNA, estamos de mãos atadas.
Bom, tenho uma teoria maluca: alienígenas não possuem cabelos. Posso estar me baseando em todo conteúdo de ficção científica que já assisti para constatar isso? Sim. Entretanto, em minha defesa, não passei pelo extenso treinamento do Departamento de Contato Extraterrestre para saber sobre as mais variadas espécies alienígenas.
Então, dando um chute além da perna, os carecas espaciais não poderiam ser os autores do crime. Esse fio de cabelo contém o DNA do possível responsável pelos desaparecimentos ou, quem sabe, alguma testemunha do ocorrido.
— Em relação às vítimas, a única conexão que possuem é serem colegas de turma? — Gabriel toma a frente de novo.
— De acordo com a nossa investigação, sim. Mesma escola, mesmo círculo de amigos e lugares que frequentam. Essa é uma cidade pequena, não tem muito o que fazer nessa idade. Os jovens sempre se reúnem no mesmo lugar, na praça central, ou viajam para cidades vizinhas em festas universitárias.
— E, de acordo com o depoimento desses colegas, ninguém estranhou o comportamento das vítimas antes de serem levadas? Como vocês chegaram à conclusão de que foram abduzidos se estavam sozinhos durante o crime? — Pergunto, intrigado.
— Como já falei, não acredito nos "ets", mas não excluí a opção por conta das estranhezas que vêm ocorrendo na cidade. Fora os desenhos nas plantações, os moradores andam vendo algumas luzes e clarões estranhos pela cidade — suspira. — A última vítima, Lucas dos Santos, após ser resgatado e enquanto recebia tratamento no hospital, descreveu a abdução. O pobre coitado está sendo mantido desacordado por sedativos, pelo menos até se acalmar. Os médicos informaram que o trauma foi grande.
— Bom, preciso falar com ele, mas primeiro vou interrogar a família das vítimas e visitar esses desenhos. Dado o estado em que ele foi encontrado, um tempinho para o efeito dos sedativos passarem vai ajudar quando for visitá-lo. Preciso dele lúcido para o depoimento.
Assim como eu, o delegado Jonas não coloca muita fé na ideia de alienígenas serem os culpados. Para estar realmente considerando a possibilidade de serem reais, a situação deve estar caótica na cidade.
— Sinistro — balbucia Gabriel assim que saímos da delegacia.
— Deixa disso, não tem nada de sinistro. Extraterrestre não existe, cara — comento assim que dou partida no carro.
— Se não existe, por que tem um departamento igual o nosso? E as coisas bizarras que vemos são reais.
Não digo nada, decido focar em responder esse mistério desmascarando essa farsa em Prados Verdes, que de verde só tem o nome. Os verdinhos espaciais não passam de ficção científica fuleira.
Escuto uma trovoada e sinto um frio na espinha, coisa boa não é, mas afasto esse sentimento enquanto nos dirigimos para a casa da família da primeira vítima de suposta abdução. O dia será longo.
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