Sinister

3 Conto 03 - Todos Gostam de Música


Notas iniciais
Algumas garotas de uma fraternidade de Sioux Falls compram um rádio antigo, mesmo com as afirmações de seu antigo dono, que diz que ele é amaldiçoado. Na mesma noite, em casa, começam a perceber coisas estranhas quando o rádio começa a tocar, enquanto as moradoras dali vão sendo eliminadas, uma a uma.

Trrrim. O alarme avisava que era hora da saída na Florence College, em Sioux Falls, Dakota do Sul. Elissa Harris fechou seu livro de Biologia e guardou-o, junto com o resto de suas coisas, dentro da bolsa velha e um pouco rasgada.

– Ah, finalmente! – Disse Lana, uma colega de Elissa, dando um tapinha nas costas dela – Eu estava quase hibernando.

– Soube que vai ter uma festa na casa do Dave hoje à noite, foi convidada? – Claire, a garota ao lado de Lana, de olhos claros e cabelos loiros, perguntou.

– Fui convidada e vou estar presente, querida – Elissa respondeu, dando um sorrisinho e pegando sua bolsa de cima da carteira – Agora, vamos, precisamos chegar cedo em casa, tenho muito o que fazer.

As três desceram a rampa do corredor e foram até o banheiro. Enquanto Lana estava dentro de um dos boxes, Elissa e Claire conversavam em frente ao espelho. Claire retocava a maquiagem.

– Eu acho que não vou à festa – Claire comentou, enquanto passava um pouco de rímel nos cílios.

– O que? Por quê? – Elissa perguntou.

– Porque não, quero descansar um pouco, talvez, estudar para as provas.

Elissa soltou uma gargalhada alta.

– Até parece – Lana, que saia do boxe, zombou – Você e festa são duas palavras que não podem ficar em frases separadas.

Ela e Elissa soltaram uma risadinha.

– É sério, gente – Ela fez uma cara séria.

– É o Brian né? – Elissa de repente tirou o sorriso do rosto.

– Você precisa mostrar que superou – Lana segurou a mão dela – Vá a essa festa com seu melhor vestido e mostre a esse desgraçado o que ele perdeu!

As três gargalharam.

– Tá bom, eu vou pensar – Claire disse.

E foram embora.

Era um dia ensolarado em Sioux Falls, os adolescentes da faculdade já haviam se espalhado pelo jardim da saída, estava sorrindo e conversando. Uma garota olhou para Elissa e acenou, despediu-se de alguns amigos, pegou seus livros e foi até elas.

– Saíram mais tarde hoje? – A garota perguntou.

– Estávamos no banheiro – Elissa respondeu.

– E então, Sarah, vai à festa? – Lana perguntou.

– Já estou lá, baby!

– Vamos logo – Claire disse, e foi embora na frente.

– O que houve com ela? – Sarah perguntou.

– Só está mal por causa do Brian – Lana soltou um suspiro – Essa festa é a oportunidade perfeita para ela esquecer tudo isso.

– Ela ainda está mal por causa desse cretino? Então ela vai para essa festa de qualquer maneira!

De longe, Claire gritou:

– Vocês vêm hoje?!

Sarah, Elissa, Lana e Claire entraram no pequeno Volkswagen branco e foram embora.

No caminho, as garotas iam conversando e sorrindo dentro do carro, o rádio tocava Everybody Talks, de uma banda chamada Neon Trees, tudo ia tudo bem, quando Sarah soltou um grito.

– Para o carro! – A expressão no seu rosto era de medo.

– O que houve Sarah? – Elissa perguntou, abaixando o rádio.

De repente, a expressão de medo dela se foi e ela deu um sorriso, apontando para algum lugar ao lado dela.

– Que legal!

Todas as outras olharam. Era uma casinha simples no meio de um jardim morto. Numa placa colocada desajeitadamente na frente da casa, estava escrito: “Venda e compra de antiguidades”

– Vadia! – Lana gritou, rindo da brincadeira.

– Você quase me matou de susto garota! – Elissa disse, com a mão no coração.

– Vamos descer gente, quero ver o que tem ali – Ela abriu a porta e desceu do carro.

Elissa, Lana e Claire se entreolharam e depois desceram, acompanhando Sarah.

Elas entraram no pequeno terreno da casa e um senhor estava mexendo em algumas bugigangas dentro de uma caixa.

– Olá – Sarah disse e assustou o homem, que deu um pulo.

– Ah meu deus, minha jovem, você me assustou – Ele deu um sorriso, era um senhor simpático.

– Você não foi o único senhor – Elissa olhou de lado para ela.

– Oi?

– Oh, nada, nada – Sarah interrompeu, sorridente – Será que podemos dar uma olhada?

– Ah sim, é claro – Ele respondeu – Estou tentando me livrar dessas coisas velhas sabe? – Ele dizia, enquanto Sarah olhava, deslumbrada, um gramofone.

– Uau! – Ela disse.

– Pois é, comprei do meu pai quando tinha nove anos, era meu xodó.

Lana e Claire andavam pela garagem do senhor, olhando as coisas, também estavam deslumbradas. Elissa também analisava cada item do local, até que viu algo estranho dentro de uma lixeira. Uma caixa bonita, não parecia que merecia estar no lixo, ela pegou e viu que estava lacrada.

– O que tem aqui? – Ela perguntou ao senhor, tirando o lacre.

Ele parou de falar com Sarah e virou-se para respondê-la, quando o sorriso do seu rosto se desfez.

– Não toque nisso! Não abra! – Ele gritou, deixando as garotas assustadas, mas era tarde demais, Elissa já havia aberto a caixa e ficou maravilhada com o que havia dentro – Um rádio antigo, que legal!

– Ponha no lixo, por favor – O senhor disse.

– Por quê? – Ela ficou curiosa.

– Err, você não entenderia – Ele andou em direção a ela e pegou o rádio, colocou dentro da caixa e jogou no lixo.

– Você pode me vender?

– Não.

– Por que não?

– Não está a venda!

– Eu te dou o que quiser por ele!

– Não, não, nã... – Ele colocou a mão no peito e pareceu ficar fraco – Se o rádio tocar, corra o mais rápido que puder, se ele tocar, alguém morrerá. Por favor, não!

– Senhor! – Claire disse, segurando-o pois viu que ele ia desmaiar.

– Senhor, você está bem? – Lana perguntou.

– Elissa, pegue um pouco d’água!

Elissa entrou na cozinha do homem e procurou por água. Levou uma garrafa e o homem bebeu.

Quando se sentia melhor, o senhor agradeceu às garotas.

– Obrigado – Ele disse, ainda meio fraco.

– Não há de quê!

– O senhor está melhor? – Sarah perguntou.

– Estou, estou sim, obrigado novamente.

– Nós precisamos ir, você vai ficar bem? – Elissa perguntou.

– Vou, eu vou sim, pode ir.

– Então tá, tchau.

As quatro garotas entraram no carro e foram embora.

Dentro do carro, elas conversavam.

– Isso foi assustador – Lana comentou.

– Nem me diga – Elissa concordou.

– Mas teve um lado bom – Sarah levantou o dedo – Eu peguei uma coisa.

Ela se abaixou e segundos depois levantou-se com uma bela caixa nas mãos.

– O que isso? – Lana perguntou.

– Não brinca! – Elissa disse, olhando pelo retrovisor – Você pegou?!

– Peguei sim!

– O que é isso, gente? – Claire fez a mesma pergunta de Lana.

– Um rádio antigo – Sarah respondeu, tirando-o da caixa.

– Não acredito que você roubou.

– Eu não roubei, deixei o dinheiro.

– Sei.

– É sério!

As quatro começaram a rir.

***

Sioux Falls não era uma cidade grande, embora tivesse poucos bairros, eram bairros calmos, de classe média, e era em um desses que ficava a casa fraternidade feminina Kemps, fundada em 1989, onde as garotas acabavam de estacionar o carro.

Quando entraram na sala, pela porta da frente, Kate, a responsável pelas garotas, assistia TV sentada no sofá.

– Chegamos – Sarah disse, segurando a caixa.

– Oi garotas – Ela cumprimentou – O almoço está na mesa. Susie que fez.

– Eu é que não como – Claire brincou.

– Eu ouvi isso! – Susie gritou da cozinha.

– Era a minha intenção!

– O que é isso, Sarah? – Kate perguntou.

– Um rádio antigo, é da Elissa.

– Não – Elissa disse – Pode ficar.

– Sério?

– Sim.

– Então tá – Ela deu um sorrisinho e subiu as escadas.

Claire sentou-se no sofá e Lana foi até a cozinha, onde Susie estava. Elissa subiu para o seu quarto.

***

Anoiteceu, e as garotas estavam se preparando para a super festa na casa de Dave Shelton. Lana estava passando em frente ao quarto de Elissa quando ouviu um “oh merda” vindo lá de dentro.

– Elissa? Você está bem? – Ela perguntou.

– Sim, só estou com uma dor de cabeça insuportável.

– Tenho alguns remédios no meu armário, se você qui...

– Não, não precisa, eu tenho alguns aqui. Escuta, eu não poderei ir à festa, divirta-se por mim!

– Ah, maldita dor de cabeça!

– Ai, droga! – Lana ouviu um barulho de vidro quebrando.

– Elissa, você está bem mesmo?

– Estou, estou, foi só o meu abajur.

– Nós não vamos voltar tão tarde, tchau tchau.

– Tchau.

Dentro do quarto, Elissa estava em frente ao espelho da pia do chuveiro, tomando remédios contra a dor de cabeça, havia apenas um som na sua cabeça, algo parecido como a estática de um rádio. Um barulho que causava dor e agonia. Mas não havia rádio ali em seu quarto, a não ser o rádio de Sarah, que não estava ali e sim no quarto dela, então como poderia fazer aquele barulho? Será que estava apenas em sua cabeça? Ou será que era real? Talvez fosse apenas uma simples dor de cabeça, mas de algum modo, Elissa sabia que tinha algo a ver com aquele rádio que Sarah comprara.

***

Na cozinha, Kate preparava um bolo a partir de uma receita que achou em um site de culinária, seu aparelho de som tocava algum rock dos anos 90.

***

Elissa estava agora no quarto de Sarah, havia batido a porta atrás de si e estava olhando para o rádio. Estava desligado. Então de onde vem o barulho? Ela sentou na cama da colega e esfregou as têmporas. Preciso dormir, concluiu. Levantou-se e andou em direção à porta, quando de repente, ela se fechou com um estrondo. Foi o vento, Elissa concluiu, tentando não ouvir o lado da sua mente que dizia para jogar aquele rádio fora, mas quando girou a maçaneta e viu que ela estava trancada, ficou desesperada. Neste exato momento, uma música começou a ecoar pelo quarto, era uma música antiga, de melodia doce e agradável, que naquela ocasião, parecia perturbadora. Virou-se e viu que o rádio estava ligado.

As luzes começaram a piscar, Elissa virou-se novamente e começou a bater na porta, pedindo por ajuda, mas Kate não ouvia, seu som alto não permitia.

Dentro do quarto, as luzes continuavam piscando. Elissa estava batendo na porta e gritando. A música no rádio ganhava mais ritmo e o volume aumentava, como se o próprio rádio estivesse se divertindo.

– Socorro!!! – Elissa gritava desesperada.

Na sua frente, viu que a porta branca estava suja de sangue. Olhou para cima e percebeu que ela estava sangrando, não apenas a porta, mas o teto, o abajur, a lâmpada do teto, as bonecas antigas que Sarah colecionava. O sangue estava vazando de todos os lugares.

– Socorro!!! – Ela gritou pela última vez, até que uma dor de cabeça fortíssima a atingiu novamente.

Sentiu algo líquido descendo pelo nariz e quando viu, era sangue. Sentiu a mesma coisa com seu ouvido. O sangue descia lentamente pela boca e pelos olhos também, enquanto a dor de cabeça apenas aumentava em proporções assustadoras e a música ficava mais animada. Por um momento, Elissa sentiu que sua cabeça iria explodir e seus olhos iriam pular para fora das órbitas, mas então tudo parou e ela não via mais nada, não sentia mais nada, não pensava mais nada. Elissa estava morta. Seu corpo estava jogado no chão, e seus ouvidos, olhos, boca e nariz haviam parado de sangrar. O rádio do outro lado do quarto subitamente desligou-se e o silêncio prevaleceu.

***

Onze horas da noite, ainda era cedo. O carro de Susie parou em frente à casa da Kemps, e de lá, desceram Sarah, Claire, Lana e a própria Susie. Todas estavam rindo alto, Lana e Susie estavam completamente bêbadas, Sarah apenas um pouco animada demais e Claire nem tanto assim.

– Então Claire, se divertiu? – Perguntou Lana, andando com dificuldade.

– Sim – Ela mentiu, não queria ouvir novamente aquele discurso sobre ela ter que esfregar na cara de Brian que ela havia superado, mesmo quando não tinha.

– Vem, vamos entrar – Sarah disse.

As quatro entraram sem fazer barulho, apenas algumas vezes em que Lana ou Susie batiam em algum móvel sem querer.

***

As garotas já estavam dormindo, exceto Claire, que andava pelo corredor com seu pijama. Iria até a cozinha, tomaria um copo d’água e depois voltaria para sua cama, mas seus planos foram mudados ao ver que a porta do quarto de Sarah estava aberta, as luzes estavam apagadas e de lá de dentro, vinha um som bem agradável. Uma música doce e elegante.

– Sarah? – Ela perguntou, abrindo lentamente a porta do quarto.

Não houve resposta.

– Sarah? – Perguntou novamente e ao ver que a cama estava vazia, acendeu a luz. O que encontrou foi perturbador. O rádio estava ligado, tocando uma música de melodia doce e agradável – Onde diabos ela se meteu? – Perguntou a si mesma, em voz baixa.

Claire desligou o rádio e virou-se para ir embora, então ele ligou novamente. A mesma música estava tocando, só que dessa vez, havia algo diferente no meio da canção. Havia uma voz feminina.

– Ei – A mulher quase sussurrava – Ei, Claire, venha aqui – A voz dela soava abafada junto com toda a música – Eu tenho uma coisa pra lhe contar.

– Mas o que merda é isso? – Ela perguntou, se aproximando do rádio.

– Eu tenho uma coisa para lhe dizer – A mulher continuava a dizer.

***

No quarto ao lado, Lana permanecia em um sono profundo, no outro dia acordaria de ressaca, mas quem liga? O que importa é que a festa na casa de Dave havia sido super legal. Estava tudo escuro, a não ser pela luz do luar que entrava timidamente pelas frestas da persiana.

***

– Ei, venha aqui, Claire, ei – A mulher continuava dizendo sem parar, e quando percebeu que aquela voz era familiar, ficou aterrorizada. Elissa.

– Elissa?

– Eu tenho um segredo para você, Claire – Elissa dizia, mas seu tom de voz era assustadoramente suave.

– Elissa, onde você está? – Claire perguntou, sabendo que aquela pergunta era idiota.

– Eu não sei Claire, eu não sei – Ela disse com sua voz suave e estranhamente perturbadora – Mas eu quero lhe contar uma coisa, deixe-me sussurrar para você, venha até aqui.

***

O quarto de Lana estava mergulhado em um quase profundo silêncio, o único som que quebrava essa calmaria, era o som da porta do armário rangendo ao se abrir lentamente.

A porta branca de madeira estava semiaberta agora, e assim ficou por alguns segundos, até que começou a se abrir novamente. De repente, algo pulou para fora. Uma mão. Uma mão velha e podre, de cor acinzentada, estava banhada em sangue. As unhas arranharam a porta e de dentro do armário, lentamente alguma coisa saía. Era uma garota, sua face era pálida, não tão pálida por conta do sangue que saía de seus olhos, boca e nariz. Era Elissa.

***

Claire se aproximava do rádio, a mulher continuava sussurrando. Ela estava aterrorizada e curiosa naquele momento, queria saber o que aquela mulher queria falar, mas tinha medo daquela situação em que estava metida.

Chegou um pouco mais perto. A música continuava tocando. Doce e perturbadora.

– O que quer me contar? – Ela perguntou, aterrorizada. Seu coração estava quase pulando para fora do peito.

– Eu tenho um segredo para você.

– Pode contar.

– Não, chegue mais perto, eu vou sussurrar para você.

Claire obedeceu e quase encostou seu ouvido no rádio. Na mesma hora, um chiado interrompeu a música.

– Todas vocês irão morrer esta noite.

Claire se afastou do rádio, totalmente aterrorizada, e ouviu um grito agudo vindo do quarto de Lana, correu e esbarrou com Sarah na porta.

– O que foi isso? – Ela perguntou, com um biscoito e um copo de leite na mão.

– Lana!

As duas correram para o quarto da colega e a porta estava trancada.

– Lana! Abra a porta! – Sarah gritava girando a maçaneta, já havia jogado o biscoito e o leite no chão.

– O que vamos fazer?! – Claire colocou as mãos na cabeça – O que está acontecendo?!

Houve um leve ruído e a as garotas perceberam que a porta havia sido destrancada. A essa altura, Kate já estava de pé atrás delas, perguntando:

– O que está havendo?

– É a Lana, ela estava gritando! – Sarah disse, abrindo a porta.

Quando entraram no quarto, ficaram horrorizadas com a cena. Havia sangue por todo lado, mas nada de Lana. Sarah tapou a boca com as mãos e virou o rosto, Claire e Kate entraram, estavam em choque.

– Oh meu deus – Claire deixou escapar.

De repente, um grito agudo ecoou pelo quarto. Sarah.

As duas viraram-se e Sarah estava apontando para cima, chorando. Kate e Claire seguiram a direção do dedo dela, e se depararam com, provavelmente, a cena mais chocante da vida delas. Lana estava de alguma maneira colada no teto. Seus olhos estavam pendurados pelos nervos e seu rosto havia sido esfolado. O pijama estava ensopado de sangue e seus cabelos loiros também.

– Saiam, saiam daqui garotas! – Kate as levou para fora do quarto.

– Não!!! – Sarah recusou-se – Lana! – Ela gritava pela amiga, em vão.

***

Kate desceu as escadas correndo, Claire e Sarah também. Ela pegou o telefone e discou o número da policia, mas quando levou-o ao ouvido, percebeu que estava mudo.

– O telefone está mudo.

– Eu mesma vou até a delegacia – Sarah se ofereceu, pegando suas chaves e indo até a porta.

– Não, não vá!!! – Kate gritou.

– Por que não?

– A pessoa que fez isso pode estar lá fora.

– Pode estar aqui dentro também.

– Vocês não percebem, não é? – Claire perguntou. Seus olhos estavam vermelhos e ela ainda chorava – Não existe ninguém aqui.

– Como assim? – Sarah perguntou.

– O rádio.

– O rádio? Que vocês compraram? – Kate perguntou.

– Sim, o rádio. Ele falou comigo. Elissa falou comigo no rádio.

– Claire, você está abalada pelo que aconteceu – Kate a segurou pelo braço.

– Não! – Ela se soltou – Eu não estou louca, você acha que é possível um humano ter feito aquilo com a Lana?! – E gritou – Foi o rádio!

– Não, não foi, Claire – Kate disse – Diga a ela Sarah, não foi o rádio, você só está abalada, não está louca, querida.

Sarah ficou calada por alguns segundos, então falou:

– Eu estava no quarto, Kate – Ela disse – O rádio desligou sozinho, e realmente havia alguém falando.

– O que? – Kate sorriu – Vocês estão bêbadas, é isso! Estavam na festa, estão bêbadas! – Ela pegou a chave de seu carro.

– Não estamos! – Claire gritou.

– Aonde você vai? – Sarah perguntou.

– À delegacia!

Kate puxou a maçaneta da porta de entrada, ela abriu.

– Eu volto em alguns minutos – Ela disse, e quando ia sair da casa, a porta se fechou subitamente, na mesma hora em que elas ouviram uma música vinda do andar de cima. Uma música doce e alegre.

– Oh meu deus – Sarah disse.

Claire aparentemente estava tentando pensar em algo, murmurava baixinho alguma coisa.

– O que foi Claire? – Kate perguntou.

– Se ele tocar, alguém morrerá! – Ela disse – Foi isso que o senhor nos falou!

Sarah instantaneamente lembrou-se da cena. O homem passando mal e dizendo que se rádio tocasse, alguém morreria. O rádio tocou, então essa era a hora, mais alguém morreria naquele instante.

– Susie – Ela disse, por fim, lembrando que a amiga estava dormindo em um quarto no andar de cima.

– O que tem ela? – Kate perguntou.

– Se ele tocar, alguém morrerá! Acho que Susie é a próxima! – Ela gritava, enquanto subia as escadas.

Sarah abriu a porta do quarto rapidamente e viu que lá dentro não havia nada, mas uma fresta de luz passava por debaixo da porta do banheiro. Ela andou até a porta e preparou-se para abrí-la, quando ela se abriu, e de dentro, saiu Susie, com uma cara de sono.

– Ai que susto, garota! – Ela disse, colocando a mão sobre o peito.

– Ah, que bom que você está bem! – Ela a abraçou e segurou sua mão – Vamos, temos que sair daqui!

Mas Susie não foi, apenas ficou parada, sorrindo, mostrando dentes avermelhados, sujos de sangue.

– Susie? – Sarah perguntou, preocupada com o sangue que saía de sua boca.

Susie começou a rir histericamente, o sangue ainda pingava de sua boca, e Sarah, sem entender, começou a se afastar.

– Você está bem? – Perguntou.

– Eu? Estou ótima! – Ela respondeu, com uma voz grave e medonha, e então levantou a camiseta do seu pijama, revelando vários cortes na barriga.

– Oh meu deus – Sarah levou a mão à boca, e percebeu que não era Susie, sua amiga já estava morta.

A criatura continuava sorrindo, de alguma forma estava dentro do corpo de Susie, então enfiou sua mão dentro de um dos cortes da barriga e afundou, fazendo o sangue derramar no chão sem parar. Continuava gargalhando.

Sarah soltou um grito alto e a criatura sorriu mais alto ainda, então começou a puxar, trazendo de dentro, pedaços de carne, como linguiças, só que mais moles e ensanguentadas. Seu intestino. Sarah sentiu vontade de vomitar, então virou o rosto. A criatura continuava sorrindo e começou a cantarolar a música que tocava no rádio, enquanto brincava com as vísceras.

Kate e Claire chegaram ao quarto e ficaram horrorizadas.

– Susie – Kate disse e tapou a boca. Claire vomitou ao lado.

A criatura olhou para as duas e parou de sorrir, então começou a andar lentamente até elas.

– Sarah, vamos sair daqui! – Kate gritou, puxando Claire pelo braço.

Sarah obedeceu e começou a correr. A criatura correu atrás delas pelo corredor, com as vísceras caindo pelo carpete vermelho. A música no rádio já havia parado de tocar.

Agora, Claire e Sarah estavam paradas no meio da sala, assustadas, olhando para a escada, pensando que a criatura poderia descer a qualquer momento, mas ela não apareceu.

Enquanto isso, Kate tentava abrir a porta, girou a chave algumas vezes e quando estava prestes a abrir, o objeto metálico foi puxado para dentro, como se a fechadura tivesse engolido.

– Oh meu deus – Ela disse, assustada – A chave entrou na fechadura!

– E isso não era pra acontecer? – Claire ironica e nervosamente perguntou.

– Não, ela ficou presa lá dentro, como se a porta tivesse engolido!

– O que? – Sarah perguntou, indo até a porta – Oh meu deus, é verdade, está presa! – Exclamou, ao ver que a fechadura estava bloqueada pela chave lá dentro.

Não havia jeito de sair dali, a não ser... A não ser...

– A janela da cozinha! – Kate gritou – Podemos sair por ela!

As três correram até a cozinha e pararam subitamente ao ver que a porta da geladeira estava aberta e havia uma pessoa ali dentro, sentada no chão, devorando um peito de frango cru. Não tinha cabelos e não tinha pele, tinha sido brutalmente arrancada. Lana.

A criatura, que antes era Lana, levantou a cabeça e fixou seu olhar nelas, então soltou um grunhido e soltou o frango no chão. A janela da cozinha fechou com um baque. Lana começou a se levantar.

– Corram, corram! – Kate gritou, seguindo Claire e Sarah que corriam para algum cômodo no corredor perto da cozinha, quando finalmente acharam um, entraram e a porta se fechou violentamente. Neste momento, puderam ouvir o som de uma bela música vinda do quarto de cima daquele. O rádio.

Sarah olhou para trás e viu apenas Claire. Kate estava do lado de fora.

– Não!!! – Claire e Sarah gritavam, enquanto uma girava o trinco loucamente a outra batia na porta, Kate fazia o mesmo do outro lado – Kate! – Sarah gritou quando a ouviu gritar do outro lado e se afastou da porta. Claire também.

– Não! Por favor! – A voz de Kate soava abafada do outro lado da porta, então seu grito de desespero se tornou um grito de dor quando aparentemente, a criatura arrancava algum pedaço dela. Sarah e Claire estavam aterrorizadas. De repente, os gritos pararam e a porta abriu-se lentamente. Não havia ninguém do outro lado, apenas um monte de sangue na parede. A música continuava tocando.

Claire colocou a cabeça para fora do quarto e olhou o corredor, o corpo de Kate estava jogado no chão ao lado da porta, seus olhos haviam sido arrancados e o pescoço cortado até o osso, – que estava visível – também havia pedaços de vidro por todo lado no chão, por todo rosto de Kate e dentro das órbitas dela. Seus olhos não estavam tão longe dali, as duas pequenas esferas brancas ensanguentadas estavam jogadas no corredor perto dali. Ela voltou para o quarto e correu até o banheiro para vomitar. Sarah colocou sua cabeça para fora e também viu a cena.

– Oh meu deus – Ela tapou o rosto e fechou os olhos – Oh meu deus, oh meu deus, oh meu deus.

Sarah parou por um instante e percebeu algo estranho e perturbador. Kate já estava morta, mas a música continuava tocando lá em cima. Quando ele tocar, alguém morrerá. Mas quem poderia ser? Só havia restado ela e... E... Claire.

Sarah olhou para a porta do banheiro, estava semiaberta e então caminhou. Se ela mesma não estava morrendo, só Claire poderia estar. Tocou a porta e empurrou lentamente, ao abrir não encontrou ninguém, apenas a gaveta de remédios aberta e vários vidros derrubados no chão, então olhou atrás da porta, o que encontrou foi assustador. Claire estava sentada no chão, mastigando alguns frascos de remédio, sua boca estava cortada e o sangue pingava da sua boca, caindo no chão branco, junto aos cacos de vidro ensanguentados que ela já havia mastigado, e uma embalagem de ácido clorídrico que Kate usava para limpar o piso.

– Claire? – Sarah perguntou, seus olhos começavam a lacrimejar.

Claire levantou a cabeça e ela percebeu que havia um buraco ensanguentado no pescoço dela, como se a soda cáustica tivesse corroído sua pele até a superfície. Seus olhos estavam totalmente negros, ela já estava morta, possuída. A criatura soltou um grunhido como o de Lana e o som fraco que vinha do rádio no quarto de cima apagou-se.

Claire levantou-se e Sarah saiu do banheiro, fechando a porta de chave em seguida. A criatura batia loucamente, querendo sair e Sarah lembrou-se que Kate guardava uma arma ali no quarto, então começou a procura-la, enquanto a criatura batia mais forte na porta do banheiro.

Procurou no guarda-roupa, nas gavetas e não achou nada. A criatura batia cada vez mais forte, até que a madeira da porta rachou e os dedos de Claire começaram a aparecer no meio dela – a criatura estava tentando passar sua mão pelo meio da porta rachada.

Sarah se abaixou e procurou embaixo da cama, dentro de algumas caixas e nada.

A criatura agora enfiava seu braço pelo meio da rachadura na porta e a madeira rasgava sua pele.

Sarah continuava procurando.

A criatura passou o braço pela rachadura e abriu a porta pelo lado de fora.

Sarah ainda estava deitada no chão, procurando a arma, quando olhou para cima e a viu. Estava entre a cama e o colchão. Neste momento, por baixo da cama, ela viu que a porta do banheiro estava se abrindo.

Levantou-se e levantou o colchão, pegando a arma que estava presa entre as madeiras da cama. Depois a armou e apontou para Claire, que andava lentamente até ela – os vidros ainda caiam da boca dela, junto com muito sangue.

Sarah estava tremendo muito, não conseguia mirar direito. Na verdade, nem sabia atirar, só havia tocado em uma arma uma vez, quando seu avô a ensinou a atirar (Ela não conseguiu aprender), mas não devia ser difícil. Neste momento, ela lembrou-se do que ele dizia. Destrava, puxa, mira, atira. Então ela fez, destravou, puxou, mirou – com dificuldade – e atirou. A bala fez um estrondo alto quando saiu da pistola e em milésimos de segundo, atingiu a cabeça de Claire, que caiu no chão, morta de verdade.

Ela saiu no corredor e percebeu que o corpo de Kate não estava mais ali.

– O que? – Ela estranhou, mas continuou andando até a sala. Ao chegar lá, posicionou-se em frente à porta e armou a pistola, apontou para o trinco e atirou, quando a maçaneta caiu no chão, a porta abriu-se. Sarah sorriu, por ter conseguido abri-la e deu um passo a frente, iria até a delegacia, chamar reforços e matar as criaturas, depois pegaria o rádio e o incendiaria, mas seus planos foram mudados quando a porta se fechou novamente subitamente e ficou rígida, como se houvesse alguém segurando-a.

Sarah recuou e olhou para trás. Elissa estava parada na sua frente, com sangue saindo dos olhos, boca e nariz. Ela soltou um grunhido e avançou. Sarah a empurrou para longe e mirou a arma para sua cabeça, atirou logo em seguida. O corpo de Elissa caiu no chão, mas não demorou nem cinco segundos e se levantou novamente. De repente, descendo as escadas, Susie apareceu, toda ensanguentada. Sarah apontou a arma para Elissa novamente, que estava em pé denovo e atirou, mas dessa vez não escutou aquele ruído alto, apenas um clique. Não havia mais balas.

– Não – Ela puxou o pente e viu que realmente não havia mais balas – Não, por favor, não! – Estava desesperada e jogou a arma no chão e correu para cozinha para pegar algo pontudo. Elissa e Susie seguiram-na.

Ao chegar ao cômodo imenso, ela foi até a gaveta de talheres no armário e pegou uma faca enorme de dentro. Quando virou-se, viu que Elissa estava bem na sua frente, com um buraco no lado esquerdo da testa. Na sua boca havia um sorriso malicioso. Sarah recuou rapidamente e acidentalmente cortou o tubo do botijão ao lado do fogão, a cozinha começou a cheirar a gás e ela chutou Elissa na barriga, afastando-a. Ela olhou para o corte no tubo do botijão de gás e pegou um pano para tentar parar o vazamento, até que percebeu que aquelas criaturas nunca deixá-la-iam sair com vida daquela casa, e ela não conseguiria matá-las, a menos que fizesse uma coisa. Sarah correu até o armário e pegou uma caixa de fósforos, depois sentou-se em uma cadeira da mesa e esperou que as criaturas se aproximassem. A essa altura, Kate e Lana já estavam ali também.

Depois de alguns segundos, o cheiro de gás estava mais forte. Estava na hora. Ela tirou um fósforo de dentro da caixa e fechou os olhos.

– Vocês vão voltar direto pro inferno, suas vadias! – Ela disse, sorrindo e então riscou o palito na caixa e uma pequena chama se espalhou rapidamente pelo ar contaminado com o gás. A explosão foi colossal, o fogo saiu pelas janelas da cozinha e os vidros quebraram, a fumaça rapidamente flutuou no ar quase puro daquela pequena cidade.

Tudo havia acabado para aquelas garotas da Kemps, que estavam apenas no lugar errado, na hora errada, com o objeto errado.

***

Horas depois, os bombeiros estavam parados em frente à casa da fraternidade, apagando fogo que saia das janelas da cozinha.

Vinte Anos Depois

Susan Montgomery – A patricinha da faculdade de Sioux Falls – E seus amigos, estavam dentro de um BMW conversível, parados em frente a uma casa abandonada. A placa enferrujada na frente da casa dizia “K ps” – o “e” e o “m” haviam caído.

– Prontos para invadir? – Blake Loomis, um dos amigos de Susan, desceu do carro, com um martelo na mão.

– E se alguém nos vir? – Uma amiga, Neon, perguntou, estava assustada.

– Relaxa, esse bairro é praticamente deserto, e hoje é domingo – Blake disse.

Susan, Neon e mais um amigo, Shane Patricks, também desceram do carro e os quatro andaram em direção à porta de madeira mofada.

– A casa está caindo aos pedaços, mas a mobília ainda está aí dentro, dizem que ninguém quis tocar em nada depois daquele crime estranho – Susan sorriu.

– Que crime? – Neon perguntou, assustada.

– Ah, você não sabia? – Susan perguntou, ainda sorrindo – Isso aqui era uma fraternidade de garotas, as cinco e a matriarca foram brutalmente assassinadas.

– Matriarca? – Blake perguntou, zombando.

– Não sei o nome.

– Pessoas morreram aí dentro, eu não quero entrar.

– Ah, vamo lá amor, se tiver algum monstro aí dentro, eu mato – Disse Shane, colocando seus braços ao redor da cintura dela. Os outros caíram na gargalhada e Blake quebrou o trinco com um estrondo.

Os quatro entraram na casa logo se espalharam, Susan e Blake foram até a cozinha, estava destruída. O que sobrou da geladeira e do fogão estava enferrujado. Shane e Neon ficaram na sala, observando a mobília. O tecido do sofá estava roído e mofado, assim como os móveis de madeira.

– Isso aqui tá velho hein! – Shane disse, passando a mão sobre a poeira em cima de uma estante – Há quanto tempo ninguém aparece por aqui?

– Uns vinte anos, talvez – Blake respondeu, voltando à sala.

– Vamos subir? – Susan perguntou.

– Vamos.

Os quatro subiram e se espalharam novamente, Susan e Neon entraram no quarto que anteriormente era de Elissa e Shane e Blake foram até o quarto que era de Susie, passando pelo antigo quarto de Sarah, que estava com a porta aberta. Tudo nele estava velho, a cama estava roída, o colchão estava mofado, a parede estava cheia de infiltrações, mas havia algo que estava novinho em folha, a única coisa que parecia nova ali dentro. O rádio.

De repente, o visor acendeu, a estação foi sintonizada e uma bela canção começou a tocar. Uma doce, suave e alegre canção.

Notas finais
O conto mais influenciado pelo mestre Stephen King nessa fic *-*