Notas iniciais
Oiee, espero que gostem!


— Mais um Singular foi encontrado morto hoje perto de uma floresta na cidade de Florianópolis. A PCE, Polícia de Casos Especiais, está tratando do caso e disse que há fortes indícios de que os culpados estejam no vilarejo que existe ali perto, pois há semanas que esse grupo vem disseminando ódio contra os singulares, alegando estar fazendo “justiça com as próprias mãos”.

Segurando uma xícara de chá em mãos, ri com desdém.

— “Polícia de Casos Especiais”, essa sim é a maior besteira que já inventaram — falei, mais alto que a televisão. Peguei o controle e desliguei o aparelho, me recusando a ouvir mais.

Filipe, que estava sentado à mesa, revirando seus livros do vestibular, levantou os olhos para me encarar.

— Você acha mesmo? — ele me perguntou, interessado.

— Claro que sim, Filipe. — Respondi. — Até parece que a polícia está preocupada em resolver qualquer caso que envolvam a sua gente. Se eles estivessem mesmo preocupados com isso, estariam aceitando singulares dentro da delegacia.

Filipe pareceu pensar por um segundo, enquanto me oferecia um sorriso amarelo.

— Infelizmente, tenho que concordar com você — disse, por fim. — Mas, vamos lá, pelo menos, já é alguma coisa, né?

— A sua capacidade de aceitar pouco me incomoda.

— Você até soa como uma singular — disse ele, com um tom de brincadeira que me incomodou.

— E você como um humano.
Meu irmão sorriu.

— Minha parte humana realmente precisa se focar nos estudos, então silêncio — disse ele. Encarei-o. — Por favor.

— Bom, pode ficar aí, que a minha parte humana precisa de um banho quenti...

Uma batida forte na porta fez com que me calasse de imediato. Filipe levantou-se da cadeira em um sobressalto, indo até a porta e olhando no olho mágico. Mais uma batida.

— Deve ser engano — falou, destrancando a porta.

Nunca havíamos recebidos visita antes. Em parte, isso havia acontecido por dois motivos: o primeiro é porque estávamos morando nessa kitnet fazia dois meses e o segundo é porque ninguém sabia onde morávamos.

Depois de abrir a porta, nos deparamos com dois homens de farda azul escuro parados do outro lado. Um deles, loiro, com uma cicatriz nos lábios, tinha um enorme sorriso sarcástico em seus lábios. O moreno ao seu lado mantinha o rosto fechado e inexpressível. No peito da farda deles, uma insígnia da Polícia estava presa, com as letras PCE grandes e marcadas no centro, logo abaixo de seus nomes: Diogo e Ricardo.

Fechei meu rosto na hora, ficando séria. Independe do que quisessem, tinha certeza de que não era boa coisa. Nunca é quando envolve esses caras.

— Filipe Machado? — Perguntou Ricardo, o moreno.

— Sim?

— Você está sendo preso por sequestro de humano, de acordo com a lei 29 do Código Penal Brasileiro que trata de assuntos de singular. —

Os dois homens entraram dentro da casa, virando o corpo de Filipe com brutalidade e prendendo-o na parede. — Você tem o direito de permanecer calado, tudo que disser poderá ser usado contra você.

Meu corpo ferveu por dentro e não me segurei ao gritar na cara deles.

— SEQUESTRO DE HUMANO?! QUE PORRA É ESSA?

Minhas mãos já estavam suando frio e sentia meu rosto extremamente quente. Eu estava quase em estado de pânico: meu irmão estava sendo preso e eu sabia o porquê e, pior, eu era parte do motivo.

— SOLTEM ELE AGORA!

Maldita hora que eu não era uma singular para livrar meu irmão das mãos daqueles policiais.

— Mocinha — foi a vez de Diego, o loiro, falar. — Eu te recomendo ficar bem calma se você não quiser ir presa junto com ele.

— Cecília — chamou Filipe, com a voz serena, apesar da situação que acontecia. Às vezes eu odiava esse traço calmo da personalidade de meu irmão. — Preciso que você vá no meu quarto e pegue minha carteira. Ali tem um cartão, ligue para Francisco Baltaz...

O policial o puxou com força, interrompendo a fala de Filipe. Ele o empurrou para fora de casa, na direção do corredor do prédio.

E claro, como uma boa vizinhança brasileira, a maior parte já se encontrava no corredor fuxicando o maior acontecimento da noite e a próxima fofoca da reunião de condomínio. A expressão de todos era de espanto e curiosidade. Ninguém ali sabia que Filipe era um singular.

O policial de cara fechada, Ricardo, continuou no apartamento.

— Você vem com a gente. É de menor, não pode ficar. Seu responsável vai buscá-la na delegacia.

— Vou pegar um casaco — respondi, rispidamente.

Ele e eu sabíamos que eu não iria.

Fui na direção do quarto que dividia com Filipe e cacei pela carteira dele, encontrando-a logo em seguida em sua mochila. Dentro, junto com outros cartões, encontrei aquele que Filipe havia mencionado. “Francisco Balthazar II” estava escrito, em letras da cor verde floresta, abaixo da palavra “ACAMPE IV” e um número de telefone de Santa Catarina.

Chequei meu celular no bolso da calça e retornei à sala, oferecendo ao policial que me esperava, a maior cara de desgosto possível.

— Esqueceu o casaco — notou ele.

— Não estou mais com frio.

O trajeto até a delegacia foi curto, mas tempo o suficiente para eu chegasse a pensar em cinco formas diferentes de provocar raiva aos policiais. Apesar de muito desejar colocar em prática os planos que eu havia bolado, optei por desistir, visto que poderia acabar piorando a situação de meu irmão ainda mais.
Ao entrar na delegacia, a luz muito clara machucou os meus olhos. O riso e cochichos dos policiais ao nos ver entrar, incomodou-me profundamente. Era claro o porquê desse comportamento deles: eles adoravam ver algum singular sendo preso.

Assim como qualquer outro tipo de preconceito que foi propagado ao longo de décadas e dito como abolido nos últimos anos, seus traços prejudiciais ainda estavam presentes. Apesar de muitos negarem que os humanos e os singulares têm oportunidades diferentes, apenas por serem como são, o preconceito ainda era notável. Institucionalizado, enraizado ou fruto de uma sociedade capitalista, tanto faz: ver o que o irmão sofria por ser um singular, me deixava com um ódio crescente no peito.

Além de tudo, ainda éramos pretos. Ou seja, sofríamos um preconceito maior ainda e não podíamos reclamar, afinal: políticas públicas já haviam sido criadas.

Filipe ainda tinha um coração dócil e buscava entender os porquês, quando claramente não havia. Para amenizar as situações, ele me dizia que as pessoas reagiam de forma desaforada com ele, pois tinham medo.

— Mais dois? — perguntou uma policial em tom de deboche, ao nos ver entrar. Ela estava encostada em uma mesa de escritório, prendendo seus cabelos loiros em um coque com a caneta. — Assim vocês vão ser promovidos logo.

O loiro da PCE riu.

— Infelizmente só mais um. Essa aqui é humana.

— Uma pena!

Ricardo apontou para os bancos de plásticos na entrada da delegacia, indicando que eu poderia me sentar; enquanto Diogo continuou a empurrar Filipe para outra área. Fervi. O empurrão era claramente para demonstrar algum tipo de superioridade patética aos seus colegas de serviço, já que Filipe não estava relutando nem um pouco para ir aonde quer que eles quisessem.

— Vou ligar para o seu responsável. Fiquei aí.

Ricardo sentou-se em uma mesa próxima à da policial dos comentários desnecessários. Ela me encarava, com curiosidade, quase que não se segurando para vir e me encher de perguntas.

— Namorado? — perguntou ela, referindo-se a Filipe.

— Irmã.

— Poxa — decepcionou-se ela com a resposta — , você foi a sortuda da família então. O que aconteceu, pais mestiços?

Nada me irritava tanto quanto essa pergunta. Era sempre a mesma coisa: alguém inconveniente perguntava o porquê eu era humana, enquanto Filipe era singular e os questionamentos sempre caiam sobre os nossos pais.

— Você é paga para ficar de conversinha? — questionei, erguendo uma sobrancelha.

— Eu sou paga para prender pessoas como o seu irmão.

— Dinheiro público mal investido. É por isso que esse país não vai para a frente: continuam contratando pessoas como você.

— Quero ver você fazer alguma coisa pra mudar, porque no fim do dia é você quem está no banco, seu irmão atrás das grades e eu de farda.

Antes que eu pudesse me levantar do banco e ser presa por desacato, o policial Ricardo falou alto em bom tom:

— Ela está vindo.

— Quem?! — Minha voz saiu alta pela delegacia.

A policial que deu mais um riso debochado, antes de se levantar e ir fazer seja lá o que ela era paga para fazer ali.

— Rosângela — respondeu ele. — Quem você esperava que fosse?

Um arrepio percorreu minha espinha ao ouvir o nome.

Tomada pela realidade, lembrei-me do cartão que Filipe havia mencionado. Puxei-o e disquei o número em meu celular. Bastaram dois toques para que alguém do outro lado atendesse.

— Francisco Balthazar II, quem fala? — a voz grossa de um homem falou. Seu modo formalizado de atender ao telefone me deixou sem graça.

— É... oi, meu nome é Cecília Machado. Eu sou irmã do Filipe.

— Ah, claro! O Filipe. Certo, onde está esse belo rapaz? — Seu tom foi de divertimento.

— Ahmm... Essa é a questão. Ele foi preso.

Foram breves quatro segundos de silêncio.

— Uau. Você me pegou de surpresa, eu não esperava isso dele.

Franzi o cenho.

Sempre havia conhecido as pessoas que Filipe conhece, pois estivemos juntos nossa vida inteira. Além disso, falávamos sobre tudo, inclusive as coisas mais desnecessárias do nossos dias, então nunca sequer ter ouvido esse nome foi estranho.

— Foi algo armado — expliquei.

— Isso explica muita coisa. Obra do PCE?

— Sim, o estão acusando de sequestro de humano. Bom, no caso, eu sou a humana sequestrada.

— Já entendi o suficiente. Estou indo para aí.

Ele então desligou a chamada.

Foi o tempo de colocar o celular no bolso que um homem entrou na delegacia, chamando atenção de todos ali. Não sei dizer se foi seu charme ou o barulho da porta que atraiu os olhares até ele, mas me senti cativada ao encará-lo. Ele vestia uma calça moletom azul escura e uma camiseta branca justa. Se tivesse que chutar, o daria uns trinta e cinco a quarenta anos de idade.

Meu contato visual foi quebrado por um alto bufar do policial Ricardo.

— Você por aqui novamente?

— Infelizmente — respondeu —, terei que continuar vindo até vocês trabalharem com um pouco de honestidade.

Ricardo balbuciou algo incompreensível, enquanto o homem continuou adentrando a delegacia. Ao me notar ali parada, abraçando meus braços, ele sorriu e aproximou-se. Um sorriso alinhado e de tirar o fôlego, diga-se de passagem.

— Não tem como se enganar: você é a cara do Filipe.

— Francisco? — perguntei, confusa.

— Por favor, me chame de Balthazar — ele disse. — Mas sim, sou eu, em carne e osso. Peço desculpas pelos meus trajes, eu já estava na cama quando você me ligou.

— E como você chegou aqui tão rápido?!

— Acho que você já sabe a resposta — ele me deu uma piscadela.

Claro, ele era um singular.

— Então, me conte com detalhes o que aconteceu — pediu ele.

— Não têm muito detalhes, para falar a verdade. Estávamos em casa tranquilos quando esses policiais apareceram e o prenderam por sequestro de humano. É mentira, completamente. Moro com Filipe porque quero...

— No entanto, você é menor de idade... — notou ele.

— É, tem esse detalhe. Mas apenas por alguns meses.

— E ele não tem a sua guarda.

— Esse também.

— Quem tem a sua guarda que o acusou de sequestro?

A dona dessa acabava de entrar na delegacia. Com uma bolsa gigante presa em seu braço, uma saia que ia até os pés e os cabelos até a bunda, Rosângela me fuzilava com os olhos. Seu rosto branco estava completamente avermelhado, principalmente em suas bochechas avantajadas.

— Ela — apontei.

— Bom... parece furiosa.

— Não apenas furiosa, Rosângela é uma pessoa cruel. Não é à toa que fugimos da casa dela.
Rosângela aproximou-se de nós, que estávamos parados no meio da delegacia.

— Finalmente te encontrei, querida, eu falei que iria. Agora que o ridículo do seu irmão vai pra cadeia, poderemos ter uma conversa bem severa. Vá já para o carro!

— Eu não vou com você.

— Você não tem escolha!

Balthazar pôs-se em minha frente.

— Rosângela, não é mesmo? Prazer, eu sou Francisco Balthazar.

— E?

Rosângela estava com as mãos em sua cintura, na defensiva, claramente intimidada por ele.

— Será que podemos conversar lá fora?

— O que te faz pensar que eu quero conversar alguma coisa com você?

— Com certeza, é o Maicon.

Me senti perdida com as palavras de Balthazar. Maicon era o nome do filho de Rosângela. Ela se calou, ficando boquiaberta.

— C-claro.

— Aguarde um momento, Cecília — pediu Balthazar, antes dos dois saírem da delegacia e pararem na calçada, conversando sobre alguma coisa.

Sentei-me no banco novamente e observei a conversa dos dois, tentando arriscar alguma leitura labial para entender o que estava acontecendo. Mas falhei miseravelmente, pois minha leitura era horrível.

Vinte minutos depois, os dois voltaram para dentro da delegacia. Rosângela foi diretamente para a mesa de Ricardo, enquanto Balthazar veio em minha direção. Ele parecia satisfeito.

— Ela concordou em retirar a acusação. Vai alegar que foi para dar uma “ensinada” em vocês dois.

O policial que Rosângela estava conversando xingou alto e levantou-se a contragosto. Rosângela aproximou-se, fungou, limpou os olhos e disse:

— Obrigada, Francisco. Adeus, Cecília.

E então ela saiu.

— O que é que você falou com ela?!

— Digamos que eu fiz um acordo com ela. Estar em um lugar e depois em outro completamente distante não é a minha única singularidade, Cecília. Eu fiz uma troca: dez minutos em contato com o seu filho morto pela liberdade de vocês.

— Você fala com os mortos? — Cecília perguntou, quase como em um sussurro.

— Apenas com aqueles que querem que eu fale com eles. Quando a vi entrando, logo o espírito de um rapaz loiro apareceu ao meu lado, me pedindo para entrar em contato com ela.

— E ela acreditou?

— No começo não, mas conforme ele me dizia coisas que só os dois sabiam, ela soube que era verdade.

— Uau.

Filipe foi trazido de volta ao centro da delegacia pelo mesmo policial que o havia prendido. Ele abriu um sorriso gigante ao ver Balthazar. Livre das algemas, deu um abraço nele e em seguida em mim.

— Muito obrigado, Balthazar, eu sabia que podia contar com você.

— Você pode sempre contar comigo, Filipe. — Respondeu Balthazar, com a voz tranquila. — Espero que eu possa contar com você agora.

— Eu tenho apenas uma condição, Balthazar.

— Digamos que a resposta agora seja sim.

Filipe sorriu. Balthazar sorriu.

Me senti completamente deslocada com esse diálogo e por não estar entendendo nada.


Ao chegarmos em casa, ocupei-me em arrumar umas roupas que havia recém saído da máquina de lavar e Filipe foi preparar algo jantarmos.

Balthazar havia nos trazido em casa e partido logo em seguida, utilizando sua singularidade.

— Sabe, apesar de ela ter nos deixado em paz agora, não consigo sentir empatia por ela — comentei, dobrando uma camiseta de Filipe.

— Quem?

Era notável que Filipe estava extremamente cansando da noite. Não conseguia imaginar o que se passava pela mente dele, durante aquela hora em que ficou atrás das grades. É óbvio que Filipe se sentia responsável por mim e passar pela sua cabeça de que poderíamos nos separar era um peso enorme a se carregar.

— Rosângela — respondi.

— Ah.

— É uma pena que o filho dela tenha falecido quando ainda era jovem — continuei. — Mas certamente não justifica o que ela fez conosco.

— Com certeza, não.

Parte de mim ainda estranhava que Rosângela tivesse desistido de ir atrás de tentar me levar para casa. A sensação que eu tinha era de que novamente alguém bateria na porta e toda essa situação se repetiria. Balancei a cabeça, tentando afastar esses pensamentos.
Rosângela tinha sido uma pessoa horrível para nós ao longo dos anos que morámos com ela. Desde a morte de nossos pais, quando ainda erámos pequenos, tivemos que passar alguns anos em orfanatos – isso porque quase ninguém queria adotar dois irmãos, especialmente, quando descobriam que Filipe era um singular. Foi então que Rosângela apareceu como a salvação: mulher recém divorciada, um filho já criado, com uma renda boa e uma casa grande. No começo ela nos tratou como seus próprios filhos e realmente demonstrava preocupação e dava carinho.

No entanto, depois da morte de Maicon, as coisas começaram a desandar de uma forma arrasadora. Rosângela tinha caído em uma depressão profunda e, quando ainda erámos crianças, passamos fome, já que ela se recusava a cozinhar. Foi assim que tivemos que criar uma responsabilidade forçada para duas crianças. Mas se fosse apenas isso, até estaria tranquilo, porque além da falta de cuidados, Rosângela sentiu-se à vontade para começar com xingamentos pesados e as agressões físicas com qualquer tipo de objeto que ela pudesse encontrar em sua frente.

Filipe já havia a denunciado várias vezes, mas ninguém parecia querer fazer nada para ajudá-los. Os vizinhos se faziam de cegos e surdos. Obviamente, tudo ainda era pior para Filipe, que aguentou fortemente. Rosângela gritava constantemente que Filipe a lembrava de Maicon e que desejava que ele estivesse morto no lugar de seu filho.

Agora, por fim, Filipe já tinha dezenove anos e não precisa voltar pra guarda dela. A primeira vez que nos mudamos foi quando ele completou 18, mas não demorou muito para que Rosângela nos encontrasse e me puxasse pelos cabelos de volta para a casa dela. Isso vinha acontecendo desde então e assim sempre que ela descobria, tínhamos que nos mudar para um novo local.

— Lia — chamou Filipe, usando o apelido carinhoso que quase nunca usava comigo. — Preciso te contar uma coisa.

Parei de mexer com as roupas, encarando-o seriamente.

— Claro, qualquer coisa.

Filipe jogou o pano de prato em seu ombro e respirou fundo.

— Como você deve ter notado hoje, eu já conhecia Balthazar.

— Sim...

— Ele é o Diretor-Chefe de um acampamento para pessoas singulares. É lá que eles treinam como controlar o que eles fazem e aprendem mais sobre nós.

— Nossa. Como eu nunca ouvi falar nisso antes?

— Não queria te chatear.

— Por que eu ficaria chateada? — fiquei confusa.

— Ele me ofereceu uma vaga no acampamento, faz dois anos, quando o conheci. — Esbugalhei os olhos. — Sei que acharia importante pra mim, porque já me falou que eu deveria desenvolver minhas habilidades melhor.

— Ainda não entendo...

— Mas naquela época, ele ainda não era o Diretor e não me autorizaram a levar você junto.

— Compreensivo. Um humano no meio de singulares...

— No entanto, agora ele é... E me ofereceu uma vaga de emprego lá. Estou pensando em aceitar, se você quiser ir junto.

Diversas possibilidades passaram pela minha mente naquele momento. Ir ou não ir? Ficar ou não ficar? A resposta, no entanto, foi óbvia: eu não tinha mais como privar Filipe de conhecer pessoas como ele. Por anos, ele manteve sua singularidade o mais escondida possível para se adaptar a outros humanos, quase nunca tendo contato com outros singulares.

Eu achava isso horrível e sabia que ele não iria se eu escolhesse ficar.

— É óbvio que eu vou.

Filipe abriu o maior sorriso que havia visto nas últimas semanas.

Foi impossível não sorrir de volta, apesar do arrepio na espinha que me percorreu ao refletir que estaria em um local da qual não sou nada bem-vinda.

Era minha vez de experimentar mais um pouco de injustiça desse mundo polarizado.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.