Singular
8 Singular
Notas iniciais
É tão singular
O jeito que me observa acordar
E o meu cabelo não parece te assustar
Você, incrivelmente, não se importa
Se eu te chutar a noite inteira
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É singular
Tua vergonha e tua forma de pensar
O teu abraço que me enlaça devagar
E enfeita todos os meus dias e horas
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É tão particular o meu encontro quando é com você
O meu sorriso quando tem o teu pra acompanhar
As minhas histórias quando você para pra escutar
A minha vida quando tenho alguém pra chamar
De vida
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É tão singular
A habilidade que eu tenho em montar
Um arsenal de clichês pra te cantar
Na intenção de te fazer não esquecer
Que eu nunca vou parar de te chutar a noite inteira
Mesmo se você brigar
Eu te enlaço e não me permito soltar
Pro nosso nós não deixar de ser assim
Tão singular
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Quando ela abriu os olhos sentiu-se inundada de felicidade. Estavam oficialmente casados, a festa tinha sido ótima e Rony Weasley a olhava com tanto carinho e sentimento que não se importava com o cabelo bagunçado, com o hálito de sono, nem com as bolsas embaixo dos olhos. É tão singular o jeito que ele a observa acordar. Já tinha reparado durante todo o namoro em que acordavam juntos, já vinha reparando ao longo dos anos.
— Não me canso de te olhar. — Ron deixa escapar enquanto a puxa para si.
— Não se assusta com meu cabelo?
— Eu amo seu cabelo. — O jovem homem esfrega o rosto nos cachos volumosos.
— Eu te chutei a noite inteira.
— Não me importo. — Ele beija a nuca dela e desce para os ombros. — Pode me chutar o quanto quiser.
— Rony… — Hermione sorri entre um suspiro e outro. — Está tornando nossa primeira manhã, pós casamento, estranhamente perfeita.
— E isso é ruim?
— Eu diria que ficarei ainda mais exigente daqui para frente. — Ela disse se entregando aos longos braços do agora marido.
Ainda lembrava-se com frio na barriga a primeira vez que dormiu perto dele. Foi em uma das férias, antes das aulas voltarem. Não estavam sequer no mesmo cômodo da casa, mas a barriga revirava e por mais que tentasse ajeitar os cabelos eles pareciam ter vida própria. Como se soubesse quando Ronald estivesse por perto e dessa maneira também se agitassem. Desde daquela época percebia o jeito singular com que a olhava. Como se visse além dos cabelos. Também se lembrava da primeira vez que o deixou afundar o rosto nos cachos perfumados, e o quanto ele gostava de ficar fungando sua nuca. Naquela manhã também se permitiu afogar na pele dele, desenhando um caminho inteiro pelas sardas.
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Dizem que o tempo leva tudo, é sempre o conselho para o coração partido, para a saudade de quem partiu, para a criança que caiu. Hermione percebeu que o vento pode levar muitos momentos, mas alguns ficavam eternos. O jeito como Rony a observava acordar, o jeito como fazia as panquecas, a maneira como cuidava dos filhos. Não importava se tinham 23 anos ou 58 anos. Ele aprendeu a ser o que ela precisava e apreciar o que ela oferecia. Tinham se tornado aquele quebra-cabeça de peças com encaixes perfeitos.
Ela foi percebendo ao longo da vida o quanto era sortuda por ter feito a escolha certa. Escolheu o garoto errado e cheio de defeitos, longe de se sentir um protagonista e cheio que questões internas. Mais humano do que qualquer outro, trazia em si a lealdade da amizade, a intensidade do amor, o medo de nunca ser escolhido como o primeiro. Era a personificação de todos os humanos em um ser único que fazia o coração dela bater rápido e fraco ao mesmo tempo.
Nunca tinha parado para pensar sobre o verdadeiro significado de singular, mas naquele momento. Sentada em frente a penteadeira, olhando pelo espelho o marido adormecido percebeu que nem tudo é feito de palavras em um papel, que muitas palavras só fazem sentido quando vividas, sentidas, vistas. Singular era o jeito que depois de tantos anos ainda conseguia se sentir envergonhada e apaixonada. Singular era o fato de amar os fios grisalhos que começavam a aparecer no meio dos alaranjados. Singular era o formato das sardas que ela havia decorado de tinto ligá-las na luz da lua que entrava pela janela. Singular era o sabor do beijo que ainda a preenchia, tinha gosto de açúcar e amor. Singular era aquele casamento cheio de brigas, objetos quebrados, beijos acalorados. Singular eram eles. Hermione e Ronald.
Gostava de pensar nele como Ronald. Seu Ronald. Nada de Rony, todos já o chamavam assim. Era o nome comum, esperado. Nada Ron, também estava sempre na boca das outras pessoas, e apesar de quase soar como uma bronca, Ronald era especial. Raro. Era o nome dele em sua forma pura e bruta.
Voltando para cama sentiu que era sua vez de observá-lo acordar. Porque o tempo havia passado, mas ainda eram o garotinho de nariz sujo e a sabe tudo irritante. E ainda estavam juntos.
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Era singular o momento em que viviam, a primeira vez que iam a um evento no Ministério da Magia como casal. Não eram casados ainda, mas era questão de tempo, mesmo assim Hermione só conseguia sentir orgulho de Ron. Estava com um terno preto e uma camisa também preta por baixo, ficava lindo de social e ela não deixou de se lembrar do dia do baile de inverno e as vestes que ele odiou ter herdado de seus antepassados. Não conseguia tirar o sorriso do rosto enquanto caminhava ao lado dele.
— Está tão lindo hoje. – ela lhe sussurrou no ouvido quando entravam no grande salão e todos começavam a observa-los.
— Sempre o tom de surpresa.
Ela começou a rir pela frase dita de forma trocada por ambos.
Era particular o jeito que já se conheciam. Ele parecia saber cada passo que ela daria. Sabia a conduzir na dança, lhe entregava um bebida quando ela queria se refrescar antes dela pedir, lhe dava espaço e deixava que conversasse com seus colegas não ficando com ciúmes, ao mesmo tempo, dizia ao pé do ouvido que estava com saudade e que queria fugir logo daquela festa.
Hermione fazia questão de apresentá-lo a todos. Seu Weasley, aquele que ajudou Harry durante a guerra, que se formou com louvor na academia de Auror, seu melhor amigo e namorado.
Em momentos como aquele Hermione sabia que teria seu “feliz para sempre” ao lado da pessoa mais singular que teve a felicidade de conhecer em uma cabine de trem.
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Ele sempre a escutava, nunca parecia se cansar e ela gostava de lhe confessar suas angústias todos os dias antes de dormir.
— ...Acho que não vou conseguir dar conta, tenho tantos sonhos, quero mudar tantas leis no Ministério...
— Você vai conseguir eu tenho certeza. Nasceu para fazer a diferença na vida de bruxos e criaturas do mundo mágico.
Conforme os anos passavam suas angústias mudavam.
— ... Acho que não estou preparada para ser mãe, não terei tempo de ler todos os livros e se esse bebê me odiar? – dizia em meio ao choro de angústia.
— Você já é mãe e tenho certeza que será a melhor mãe que poderia ser. Apenas entenda que não precisa ser perfeita em tudo. Aprendera a ser mãe na prática, não em livros.
Ele parecia ser tão mais sábio que ela, mesmo não aprendendo tudo o que sabia em livros, como ela:
— A Rose me odeia, eu só quero o melhor para ela, nunca tive preferência pelo Hugo. – Hermione chorava segurando uma carta da filha, que implorava para a mãe não a sufocar mais e não exigir que ela fosse alguém que ela não era.
— Rose não te odeia, só precisa tentar ouvi-la mais, você não é a vilã Hermione, só está tentando aprender.
Era singular cada momento que viviam, Hermione não se surpreendia mais com a forma que ele lia seus pensamentos, que sabia lhe dizer as palavras certas, que mesmo errando, acertava.
— ...Você sabe que errou ao maltratar o garoto, ele é bom Ron e Rose está feliz...
— Eu não o maltratei, só precisava testa-lo no xadrez, afinal ele é um Malfoy, nunca vou esquecer Draco te chamando de sangue-ruim e tudo o que passou naquela mansão. Agora sei que o garoto é bom e que Rose vai ser feliz com ele.
Pensava que o melhor papel de Ron era ser pai, foi quando se deparou com ele avô.
— Tem que parar de dar doces para eles, e presentes só no natal e aniversários...
Ron não parecia ouvir os comentários da esposa, brincava com seus netos na sala, contava suas histórias e lhe entregava potes de sorvete.
Mesmo com a idade não lhe permitindo mais lembrar com detalhes de toda sua vida vivida com ele, Ron ainda tinha gestos tão singulares com ela.
— Sente-se aqui meu amor, posso te ensinar a jogar xadrez? Você pode me contar aquela história daquele livro que tanto ama enquanto jogamos...
Ele a enlaçava em todos seus atos e palavras e não deixava os nós deles se desfazerem.
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Quando os lapsos de memória começaram a aparecer Hermione percebeu que o apesar de o tempo não mudar o amor dela por Ron, ele poderia roubar um pouco das memórias. Foi quando resolveu que poderia juntar duas paixões. Livros e Escrita. Naquela altura do campeonato já havia escrito alguns livros, a maioria baseados em leis e pesquisas. Mas tinha dois ou três de ficção, o que garantiu a ela a certeza de uma biografia amorosa resultaria em algo que a completaria.
No final do livro colocou todos os seus agradecimentos a ele, que tinha deixado de fora da dedicação. O livro era totalmente dedicado a Rose e Hugo. Mas o agradecimento era todo dele, como uma carta. Pessoal. Bonito. Singular.
Rony demorou para ler tudo, tantas páginas e letras pequenas faziam com que ele ficasse procrastinando o máximo possível. Evitava usar os óculos que ficavam mais tempo na gaveta ou em bolsos do que em seu rosto. Mas quando conseguiu terminar e chegou aos agradecimentos pode ler cada uma das palavras destinadas a ele.
Um livro que fala sobre amor, brigas, encontros e reencontros. É sobre nós. Nós somo nós que se fortalecem, enrolam, viram laços bonitos de presentes da vida. Meus agradecimentos são todos direcionados a você, meu amor singular, meu Ronald Weasley, rei do quadribol, melhor pai do ano milhões de vezes no concurso de Rose. Gosto de lembrar de nós vivendo aventuras, não aquelas que nos faziam correr riscos, falo da aventura que é se apaixonar. Se apaixonar todos os dias pela mesma pessoa. E eu fui me apaixonando a cada novo toque, novo sorriso e por mais esquisito que pareça a cada briga. Somos feitos de faísca e intensidade, sabemos que estamos certos e lutamos por isso até as últimas consequências. Nós. É tão gostoso dizer isso. Não Eu. Não Você. Nós. Conseguimos formar uma família cheia de nuances. Singular. Hugo com toda sua calmaria e observação, artista, artesão, sentimento puro de devoção ao amar o outro, desde o princípio. Rose tempestade como nós, ela é a mistura perfeita entre o meu cérebro e o seu coração, ela é mais sua do que minha e não me importo porque com ela você se tornou sua melhor forma, sua melhor personalidade, a de pai. Eu amo você sendo pai, é tão maravilhoso seu orgulho. Sua dedicação. Seu trabalho. Criar pessoas é trabalhoso, que sorte a minha te ter ao lado, me ajudando nessa tarefa árdua e intensa. Obrigada. Ronald, eu sei que todos te chamam pelo apelido, inclusive eu mesma, mas você é mais que um nome, uma forma de falar. Você é entonação. É o jeito. É o sentir o nome no coração e o deixar esparrar por todo o corpo. Mente, olhos e boca. Essa história é minha, mas é sua. Porque ela não existiria sem nós. E nós é formado por você e eu. Eu e você. Cada mensagem escondida em cartas e peças de xadrez, nos fez crescer e continuar nos enrolando do pôr do sol até as estrelas e seus brilhos todos. Obrigada por isso, por compartilhar comigo a singularidade que é viver esse amor, essa vida, essa história cheia de possibilidades. Somos nós hoje, amanhã. Possivelmente sempre.
Meus agradecimentos a Ronald Billius Weasley, o amor da minha vida. Minha história. Minha memória. Meu eterno melhor amigo.
Hermione Granger-Weasley.
Hermione sempre foi boa com as palavras.
Ron levantou-se da poltrona, encontrou a esposa deitada na cama tirando um cochilo da tarde. A idade acaba facilitando esses momentos depois dos deliciosos almoços que dividiam. Delicadamente ele a beijou na testa. Tirou os fios de cabelos que brincavam no rosto já com rugas. Tocou a bochecha e resolveu deitar ao lado dela. Ficou observando o sono tranquilo. Sabendo que nunca cansaria de passar seus dias daquela maneira. Admirando a mulher de sua vida.
É tão singular
O jeito que me observa acordar
E o meu cabelo não parece te assustar [...]
É tão particular o meu encontro quando é com você
O meu sorriso quando tem o teu pra acompanhar
As minhas histórias quando você para pra escutar
A minha vida quando tenho alguém pra chamar
De vida
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