Notas iniciais
Música: a noite - Tiê

Palavras não bastam, não dá pra entender

E esse medo que cresce não para

É uma história que se complicou

Eu sei bem o porquê

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Qual é o peso da culpa que eu carrego nos braços

Me entorta as costas e dá um cansaço

A maldade do tempo fez eu me afastar de você

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E quando chega a noite e eu não consigo dormir

Meu coração acelera e eu sozinha aqui

Eu mudo o lado da cama, eu ligo a televisão

Olhos nos olhos no espelho e o telefone na mão

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Não era fácil estar apaixonada por um dos melhores amigos. Hermione Granger descobriu isso da pior maneira possível. Quando menos esperava foi obrigada a encarar a cena de um beijo que tinha a tanto tempo desejado e que foi entregue a outra pessoa. Teve que engolir o orgulho e sair discretamente do ambiente, enquanto todos em volta pareciam estranhamente animados com a cena que ela mal podia suportar.

Não era fácil estar apaixonada por um garoto que não enxergava a própria força e capacidade de lutar. Ela descobriu isso quando foi deixada para trás apesar de suas suplicas para que ele ficasse, voltasse. Enquanto amarrava panos em árvores, chorava escondida e mal conseguia fechar os olhos para descansar.

Não era fácil estar apaixonada por alguém que não tomava a iniciativa nunca. Ela descobriu isso quando atirou os braços em volta do pescoço dele e o fez derrubar as presas do basilisco. Sentiu o gosto do medo, da adrenalina e da paixão tudo misturado até se dar conta que ele a beijava de volta, a prendia pela cintura, se afogavam um na boca do outro.

Não era fácil estar apaixonado pela garota mais incrível do mundo. Ronald Weasley percebeu isso, quando planejou o pedido de namoro nos mínimos detalhes e aparentemente a menina dos seus olhos estava ocupada demais tentando o beijar. Grudando em sua pele e corpo. Bagunçando seus cabelos e não querendo falar sobre mais nada.

Não era fácil estar apaixonado pela mulher da sua vida. Ele teve noção disso quando a viu jogando vaso contra a parede e gritando sobre como tinha reparado nos sorrisos que ele estava entregando a cliente da loja, uma senhora de cinquenta anos que comprava toda semana logros para os netos. Ou quando ela o agarrou na porta de sua casa ignorando a luz piscando em cima de suas cabeças e o pai ciumento responsável pelo pisca pisca instável.

Não era fácil estarem apaixonados um pelo o outro. Mas era emocionante com toda a certa.

Tinha o medo que crescia constantemente perante todas as consequências que poderiam aparecer ao longo dos dias, dos anos, da vida. Tinham as palavras que nunca seriam o bastante, a história que se complicava a cada dia, mas descomplicava na mesma velocidade.

A noite tudo podia ser intenso, instável, inesquecível. E era fácil se apaixonar por cada um dos defeitos, beijos, carícias, verdades jogadas contra a parede e a cara. Era fácil demais se apaixonar por Ronald Weasley. Era fácil demais se apaixonar por Hermione Granger.

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Ela anda de um lado para o outro.

Sua respiração beirando a fungada de um bicho bravo. Os olhos vermelhos. As mãos gesticulando para o quarto escuro e vazio.

Sua reação talvez tenha sido exagerada, mas não sabia como evitar. Ficou relembrando a cena na cabeça. Ele não podia ter inventado um pedido daqueles sem antes avisar. Ela gostava de seguir os planos e Ronald sabia muito bem disso. Sabia de todos os cadernos com listas, dos post its nas paredes e geladeira, sabia de como ela precisa ter o controle sobre a vida.

Mas resolveu assistir filmes trouxas e se ajoelhou no meio de um monte de pessoas desconhecidas enquanto lançava a caixinha vermelha em sua direção, revelando um anel muito bonito.

Era realmente lindo e disso ela não poderia reclamar. Mas toda a cena a fez ter um pequeno surto interno que resultou em uma cena real.

— Você deveria ter me aviso. — Ela disse sem pegar o anel.

— Normalmente não se avisa sobre surpresas. — Ele disse desistindo de ficar ajoelhado.

Seus olhos demonstrando toda a frustração.

O sorrido bobo morrendo nos lábios.

— Eu sei. — Ela disse tentando não transparecer o medo que tudo aquilo lhe trazia.

— Tudo bem. Vamos embora? — Ele disse guardando a caixa no bolso e andando na frente dela.

Ela sentia muito. Mas não conseguia colocar em palavras.

Aparataram juntos. Ele a beijou na testa. Despediu-se com dor no olhar. Não disseram mais nada.

E agora ela ficava andando pelo quarto pensando em todas as respostas que poderia ter dado. Imaginando o anel brilhando no escuro. Era claro que ela queria aquilo, ela queria tudo com ele.

Mas o que poderia fazer com o planejamento? Talvez se deixasse de lado aquela mania que tinha adquirido ao longo dos anos e que tinha piorado bastante com a vida adulta.

Segurando o telefone enquanto encarava a imagem no espelho. Não sabia se ligava ou esperava pelo dia seguinte, para tudo se resolver em um passe de mágica.

— Nem com bruxos as coisas são tão simples assim. — Falou para si mesma. — Vai precisar mais do que um dia ou uma mágica.

Pensava se um pedido de desculpas ajudaria.

— Um pedido gigantesco. — A imagem do espelho respondeu.

Tinha adquirido o terrível costume de conversar consigo. Parecia que os anos só estavam a fazendo acumular manias esquisitas.

Faria o que precisava.

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— A gente vai se separar é isso.

— O que está dizendo? Não exagere Hermione. Vão se casar amanhã. Só está nervosa.

— Gina eu não sei se dará certo.

— Como assim não dará certo? Vocês já moram juntos!

— Mas moramos num lugar pequeno, queria me estabilizar melhor antes de casar, morar num bairro trouxa, para depois nossos filhos terem experiências dos dois mundos.

— Entendi, está preocupada que se casar agora, não poderá proporcionar a experiência dos dois mundos, para filhos que ainda não existem, por ter uma casa pequena num bairro bruxo? Isso não faz sentido nenhum Hermione.

— Eu briguei com ele. Disse que não queria ele perto de mim durante um tempo e também disse que não sabia se apareceria no casamento amanhã.

— É por isso que ele veio desesperado atrás do Harry, chorando sem saber o que fazer.

— Ele veio atrás do Harry?

— Chegou alguns minutos antes de você. Precisava desabafar com alguém.

— Posso ficar aqui? Não quero ter que conversar com ele agora.

...

— Hermione você está aqui, precisamos conversar.

— Não era para saber que estava aqui, não quero conversar com você agora.

— Se não quiser falar, então me escute. Hermione eu não consigo mais dormir longe de você, nem sequer respirar, fiquei alguns minutos tentando conversar com Harry e só chorava pensando que você queria se separar de mim. Sei que não sou bom o bastante para você, sei que não sou tão inteligente, ou bonito, não sei jogar quadribol sem sofrer um ataque de nervos, não servi para ser auror por mais de um ano, ganho menos dinheiro do que você, eu não te mereço, eu sei, você é infinitamente melhor do que eu, mas ao mesmo tempo quero ser egoísta ao ponto de não deixar você escapar de minhas mãos, não posso deixar e não vou deixar. O futuro me apavora também, daremos um jeito, aliás você dará um jeito, eu sei, vou esperar seu tempo, o seu tempo de casar se quiser cancelar esse casamento, não queremos filhos agora e não precisamos os ter agora. Vou esperar seu tempo, não desista de mim...

...

— Eles adoram se beijar na sua frente não é, meu amor?

— O passatempo preferido deles Gin.

...

— Quero me casar com você amanhã, me desculpe meu ataque de nervos, eu fujo quando as coisas não estão no meu controle, você nunca foi e nunca será inferior a mim. Seu amor me transforma e me deixa ser uma Hermione passional, você me faz viver Ron. Eu amo você.

— Eu amo você também.

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Eles tinham chegado ao ápice do relacionamento. Conseguiam conversar sem gritos ou coisas sendo atiradas. Literalmente tinham amadurecido e tudo que Hermione começava a sentir era tédio. Percebeu que tinha uma queda por suas brigas e principalmente por todas as reconciliações. Ver Rony tranquilo sem reclamar sobre os atrasos dela para o jantar, ou o fato de sempre chegar tarde do trabalho fazia com que ela se questionasse se o marido ainda se importava. E apesar de ter a certeza que sim, nos pequenos detalhes do dia a dia, usou a desculpa para começar aquilo que ela desejava. Uma briga.

As crianças estavam na casa de Harry. Passavam tanto tempo lá ultimamente que nem parecia mais que tinham filhos em casa. Rony cantarolava na cozinha tentando uma receita nova de torta de abóbora. Apesar da receita de Molly ser incrível, o marido queria criar uma para chamar de especialidade e conquistar o paladar de toda a família.

Era o momento e o dia certo. Ela teria a discussão, a reconciliação, toda a diversão que estava precisando naquele momento. Algo que não a fizesse se sentir velha. No auge de seus quarenta anos, tudo que não queria era se sentir daquela maneira.

— Por que está cantarolando? — Hermione questionou.

— Estou feliz. Quer provar o caramelo?

— Por que está feliz? — Ela disse pecando uma colher.

— Você está bem?

— Claro que estou Ronald. O caramelo está ótimo. — jogou a colher na pia. — E você parece feliz demais.

— Só porque cantarolei?

— Você está cozinhando, cantarolando, não me espera acordado, nem briga pelas horas extras. — Hermione dizia como se estivesse em uma competição de quem falava mais rápido. — Você está me traindo? — Perguntou com o dedo apontado para o marido.

— Está louca?

— Não me chame de louca, Ronald Weasley! — Ela tentou usar sua voz mais mandona.

— Estou sempre na loja, chego em casa mais cedo e faço o jantar. Único lugar que frequento é a casa do Harry. Durante as férias sirvo de motorista para nossas crianças e todas as outras da família. Se você acha que tenho energia para trair, está louca sim.

— Então você não me trai só porque não tem energia? É isso mesmo? — Hermione não sabia mais como transformar uma discussão em uma briga. Estava mesmo envelhecendo.

— Você está tentando brigar comigo? Eu não fiz nada. — O rosto assustado de Ron mostrava o quanto o plano estava saindo errado.

—Você não briga mais comigo! Não se importa mais.

— Querida, é claro que me importo por isso que estamos tão bem. — Ele beijou a testa dela.

— Não! Não estamos bem. Estamos envelhecendo! Eu não quero um beijo na testa! Quero mais do que isso tudo… Você nunca entende nada Ronald Weasley!

Ela saiu pisando firma até chegar no quarto. Estava exausta. Mas lembrou-se se trancar a porta. Virando de um lado ao outro da cama, ouvindo o chiado da televisão, olhos nos olhos, no espelho. A quem ela estava tentando enganar? Os anos tinham passado. Ela tinha orgulho do que o marido se tornou, um homem apaixonado por ela, pelos filhos, pela família. Desistiu da briga. Não precisava disso para ter uma reconciliação.

Voltou correndo para a cozinha.

Jogou-se nos braços dele, tirando-lhe o avental, a blusa. Beijando-lhe a boca, o pescoço, toda a pele exposta. Contornando as pintas e sardas, as marcas da guerra, aquelas que ela estava fazendo com sua boca. Suspirou palavras significativas, pediu desculpas, esqueceu a briga, a idade, tudo que estava em volta. Decidiu-se viver, se afogar no gosto amargo, salgado, caramelizado do amor e do amar.

Estava de volta.

Deitados no chão da cozinha, como se ainda fossem adolescentes com hormônios aflorados, ignorando a idade e todos os poréns que acompanham atos desse tipo. Imprudentes. Instintivos. Apaixonados.

— Você está bem estranha hoje. — Rony disse ajeitando o braço em volta dela. Hermione manteve os olhos nele. — Um estranho maravilhoso.

Ela beijou o peito dele enquanto desenhava linhas aleatórias.

— Estamos envelhecendo…

— E isso é ruim?

— Não sei. — Ela suspirou. — Só achei que precisava sentir aquilo que sentia em todas reconciliações.

— E você sentiu?

— Não. Me senti melhor. Como se agora você conhecesse meu corpo melhor que eu. E eu conhecesse o seu melhor que você.

Ron sorriu.

— Envelhecer é bom. Significa que nossos filhos estão crescendo, que estamos vivos, que conseguimos diferentes de alguns sobreviver aos tempos sombrios, que agora podemos sentir prazeres novos. Eu gosto de estar envelhecendo. — Ele acariciava os cabelos da mulher enquanto falava.

— Eu amo envelhecer com você. Só com você.

Hermione percebeu que as brigas eram boas, mas poder se amar sem precisar de motivo nenhum também podia ser a melhor forma de se amar.

Notas finais
Estamos chegando na reta final. Queremos agradecer a todos que aqui permanecem com a gente. Ter leitores romione no mundo atual é difícil e ler as palavras de vocês um privilégio. Permaneçam com a gente ♥️