Singular
1 Capítulo I ✩ "Era tudo liberdade"
Notas iniciais
Capítulo I “Era tudo liberdade”
A brisa salgada bagunçou os fios lisos e negros que caíam sobre a metade livre do rosto e trouxe o aroma característico do mar. Estavam novamente em Tortuga com seus sons, cores e cheiros já tão conhecidos.
O horizonte pintava-se em um melancólico pôr do sol avermelhado envolto por riscos tão dourados quanto as moedas que sumiam e surgiam em seus dedos.
O negro dos olhos recebia o cintilar do ouro e o deixava ainda mais misterioso no conjunto de capuz, máscara e as roupas escuras e pesadas. Era aquela mania de corvo que o acompanhava desde sempre, mas observar o ouro o fazia refletir sobre acontecimentos recentes.
Aquela era a primeira parada após Náufrago e os ânimos necessitavam de serem recuperados. Os tripulantes buscavam por suas recompensas na famosa ilha onde a pirataria era livre e a tripulação teria tempo para descansar do mar e buscar alento no rum, nos jogos de azar e nos braços de alguma meretriz.
Todos precisavam apagar de suas memórias o cenário que os acompanhou dias atrás.
Estevan teria mais silêncio para refletir na casa onde vivia quando aportavam na ilha. Ainda refletia sobre cabelos rubros e olhos azuis. Sobre um genuíno sorriso e ar inocente. Sobre um par de braços que rodeou sua cintura no momento em que colocou os pés na prancha de embarque.
Sua capa tornou-se um aquecido refúgio e seu corpo foi apertado de maneira desajeitada e inesperada.
Desde o dia em que pagou por aquele garoto, o que tinha agora era um parceiro para suas vigílias noturnas pelo Sombra da Noite, o navio o qual fazia parte como sendo o músico e algo além. O ruivo o acompanhava pelo convés e corredores da embarcação, taciturno e com os grandes olhos atentos a tudo ao redor. Não falava, não se permitia aproximação, mas seguia em seu encalço e parava para ouvi-lo tocar e cantar.
Ele não precisava usar de palavras para que soubesse que ele era grato por tê-lo comprado naquele leilão. Por ter comprado sua liberdade. Era exatamente a isso que se resumia aquela compra; liberdade. O menino seguia sem amarras ou grilhões, sem castigos ou deveres e sem liberdade limitada, mas ao que parecia, o ruivo preferia acompanhá-lo como uma sombra.
E agora havia se aproximado a ponto de tocá-lo e demonstrar confiança. Sua mão então foi parar nas costas da figura sob suas asas; apenas um breve conforto no toque sobre o tecido negro antes de caminhar rumo ao caís e receber as boas vindas da ilha tartaruga.
No entanto, os passos dos dois pares de pés foram desajeitados e o aperto em sua cintura não diminuía. A cada segundo que se passava, mais tremia aquele corpo magro.
Eles jamais conversavam, jamais haviam trocado palavra alguma, mas os olhos azuis eram grandes e expressivos. Eles diziam tudo o que a voz tímida não queria falar e o medo de pisar em terra firme novamente estava explícito a cada passo.
Estevan sabia. Por isso, esperou.
Esperou alguns momentos antes de saírem da superfície de madeira e todos os que passaram trombaram neles com legítimo estranhamento, mas nenhum dos dois se moveu. Os olhos, inocentes como o céu tocado pelos primeiros raios de sol, estavam fixos no mar.
Era o mar…
A única liberdade que conhecia.
O balanço do navio, a voz baixa do homem que o salvou, as canções que ele entoava para lhe fazer dormir, o olhar sereno e o tilintar das moedas de ouro que sempre o acompanhava. Era o cheiro acolhedor de algo que, apesar de não saber identificar o que era, se tornara o primeiro cheiro bom que havia sentido.
Eram também as roupas que lhe foram presenteadas e o queijo que roubava da cozinha quando sentia fome. Jamais gritavam, não consigo. Jamais o tocavam e não se irritavam quando falavam e não recebiam respostas. Até havia ganhado um nome peculiar.
Era liberdade, era tudo liberdade.
E liberdade era algo bom, o dono, o capitão, daquele barquinho, tinha explicado que essa liberdade não seria tirada de si nunca mais.
Os dedos magros, ainda fechados nas vestes do homem, puxaram um pouco, chamando a atenção que sempre esteve voltada para ele. Era tão calado... O ruivo gostava disso.
Mouse gostava dele. Muito. Muito, muito, muito.
Porque ele entendia o medo dentro de seus olhos e não pedia sua voz em troca.
Eram assim, silenciosos, mas companheiros.
Estevan apreciava a companhia do nomeado Mouse e o brilho que os olhos dele ganhavam quando sua canção envolvia o ar. Tocaria para ele mais tarde, antes, precisavam avançar pelas ruas de pedra até a modesta construção do outro lado da ilha, mas quis prolongar um pouco do caminho.
Quando chegaram em casa, as tímidas estrelas estendiam-se pelo manto negro e o brilho sútil de uma meia lua os acompanhou pelo caminho. A escuridão dos cômodos ganhou o bruxulear das chamas que acenderam-se tão logo passaram pela porta, tremulando e jogando sombras às paredes. Não era como o aconchego de um verdadeiro lar, mas era seguro e consideravelmente limpo.
Os dedos enluvados retiraram a capa negra que foi posta em um dos ganchos ao lado da porta e o jovem de cabeleira ruiva se revelou no brilho aquecido das velas. Foi sem pensar e em um sutil erguer da mão, que o tocou nos cabelos cortados de maneira desigual, um rápido contato antes de se afastar para abrir as cortinas pesadas da janela. Era o que podia fazer por ele, em retribuição a tudo o que Mouse já havia passado e por ele também; pela calma que sempre conquistava quando estavam juntos.
A noite estava mais tímida que o de costume, cintilando em suaves reflexos prateados. Estevan não irradiava luz, mas era como aquela noite, mais escuro e retraído. Os olhos atentos decorando as constelações, desenhos muito parecidos com o pontilhado no rosto de certo ruivo.
"Estevan…"
A voz tímida que testava seu nome soou pelo ambiente silencioso e o corvo parou onde estava.
Não conhecia aquela voz.
Quando se virou, depressa, acabou encontrando um rosto sorridente e olhos muito curiosos. Os dedos apertavam os lados das calças muito largas que vestia e os ombros estavam escolhidos como se tivesse sido pego fazendo alguma travessura. Era um sorriso largo, que deixava o rosto sardento diferente e o nariz fino enrugado.
"Estevan!" Ele repetiu, mais seguro que antes. "Frio..." E não demorou para que os pés rápidos o levassem para perto do músico outra vez, puxando a camisa negra que ele vestia de maneira desajeitada. "E eu quero queijo."
Como em tempos não acontecia, a surpresa coroou as faces do mais velho e um curvar de lábios se fez presente momentos após ouvir aquele agradável som. Podia se acostumar àquela voz, como já havia se acostumado a presença singular do ratinho.
“Para o frio.” Falou ao ajeitar o casaco que vestia sobre os ombros do ruivo. As feições logo se tornaram pensativas. “Teremos queijo para o jantar, ratón.” Acabou por decidir e os dedos novamente correram pelos fios vermelhos. Queria que aquele sorriso perdurasse pelo fim da noite e pelos outros dias também.
Era por isso que se entendiam. E também foi por isso que Mouse decidiu deixar a voz escapar. De alguma forma, aquele homem lhe deu vontade de falar e falar sem nunca parar, apenas para ver aquele sorriso de novo.
Aquela foi a primeira vez que se falaram e o assunto não poderia ser mais singular e combinar tanto com ambos.
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