Singelo sentimento
1 Capítulo único
Notas iniciais
Sentado à beira da calçada coberta por neve o azulado olhava para o céu completamente branco, com flocos de neve batendo levemente em seu rosto. Percebera que a rua estava completamente sem movimento. Pensando por um lado, era conveniente, visto que a neve dominara tudo tinha direito nessa época de inverno rigoroso. Há quanto tempo esperava ali desde que tocara a companhia? 30 minutos? Bem, de qualquer forma, tudo valia a pena por aquela que tomara seu coração dos mais belos sentimentos que ele já sentira na vida. Esperaria anos se necessário!
Desde criança sentira algo inexplicável por sua melhor amiga e vizinha. A afeição era algo tão grande, que sempre a protegera com todas as suas forças. Além de claro, sempre estar ao lado dela quando precisasse dele. Como no dia que ela perdera o pai em um acidente. Foi um dia complicado para a morena, lembrou-se Kaito. Ela não conseguia conter as lágrimas no velório enquanto se aconchegara no abraço do azulado, que delicadamente acariciava seus cabelos macios tentando acalmá-la. E sempre seria assim. Sempre que ela precisasse dele, ele estaria ali. Em qualquer dia, qualquer hora. Mesmo que o mundo estivesse desabando permaneceria ali para enxugar as lágrimas dela.
O ranger da porta de madeira irrompeu o silêncio de antes, fazendo-o acordar de seus devaneios.
— Como estou? — perguntou a de cabelos castanhos vestindo uma blusa de frio vermelha e segurando um guarda-chuva verde, mas sem perder sua essência especial: A saia e as botas marrons.
O azulado deu um singelo sorriso de ponta a ponta. O que poderia fazer? A garota que mais amava em sua vida toda estava ali diante de seus olhos, mais bonita que nunca.
— Você está perfeitamente linda. — dissera o que habitualmente dizia até mesmo quando ela não perguntava. Meiko também reagiu como sempre reagia: Corou e soltou um “Idiota”, além de lhe dar um soco na cabeça.
— Então, aonde vamos exatamente? — perguntou ainda curiosa, enquanto caminhavam lado a lado. Kaito lhe fizera um convite para um passeio, porém não quisera dizer para onde a levaria.
— Atrás do parquinho que brincávamos quando éramos menores.
— Mas ele não está tomado por neve? — perguntou lembrando que ouvira as crianças vizinhas reclamando da impossibilidade de brincar no parque.
— A gente dá um jeito — sorriu brincalhão — Quem chegar por último é mulher do sapo!
E saiu correndo como fazia quando tinha uns sete anos. A garota saiu atrás tentando de todas as formas alcançá-lo. Se tinha uma coisa que ela odiava, essa coisa era perder para ele.
— Ei! — gritou quando foi empurrado para trás. — Assim não vale!
— Para vencer vale tudo! — dissera quase sem fôlego chegando à entrada do parque. — Venci! Há, você é a mulher do sapo! Você! Vo-cê! — cantarolou alegremente enquanto fazia uma “dançinha da vitória”.
— É, você me venceu. Mas na próxima isso vai mudar!
— Mais de noventa vitórias consecutivas. Se eu fosse você neste exato momento, sentaria no cantinho e começaria a chorar!
— Eu ainda não vou desistir senhorita Sakine! — resmungou com uma voz meio manhosa.
— Parece que certas coisas nunca mudam.
— Não mesmo. Assim como o meu amor por você. — e deitou-se um pouco cansado no chão de neve monótona. Meiko também deitara ao seu lado um pouco distante.
— Acha que podemos fazer um anjo de neve?
— Quem vai nos impedir? — riu-se e começou a balançar os braços e pernas ao mesmo ritmo. O seu anjo de neve ficou um pouco maior que o da garota, por conta de sua altura mais elevada.
— Me sinto com sete anos novamente.
— E isso não é bom?
— Claro que é. Mas não devíamos violar as regras do parque. — apontou para a enorme placa de metal na entrada — “Se tiver mais de 12 anos, a entrada é proibida. Os brinquedos são frágeis e não aguentam muito peso.”
— Parece que somos delinquentes então. — Levantou-se e sacudiu toda a neve do corpo — Vem?
— Se formos pegos aqui, vou dizer que fui sequestrada por você, Shion Kaito. — levantou-se também.
— Hum... Ok! — Em um movimento rápido pegou-a no colo.
— Ah! O que você tá fazendo? — Perguntou rindo e debatendo-se levemente.
— Te sequestrando! — Começou a correr com dificuldade por conta da neve. — Que tal a gente fazer um boneco de neve bem aqui?
— Ok, mas o que vamos usar para enfeitá-lo?
— Esqueci deste pequeno detalhe... Fica aqui que eu já volto!
E saiu correndo mais uma vez. Meiko ficou ali, admirando a energia de uma criança pequena que Kaito tinha. Agachou-se e começou a juntar um pouco de neve, tomando cuidado para não errar na estrutura do boneco. A última vez que ela lembrava que tinha feito um, fora com suas amigas Luka e Miku (e claro Kaito também estava lá). Esta era com certeza umas das lembranças que mais gostava, o tempo que passara com seus amigos fizera tudo valer a pena. Infelizmente agora todos cresceram e resolveram ingressar em uma faculdade, fazer intercâmbio e tudo mais. O único que ficara ali ao seu lado o tempo todo fora o azulado.
Claro, ela sempre se perguntara o porquê disso. Não queria prendê-lo e nem nada do tipo. Já dissera uma vez que ele não devia deixar de seguir seu futuro e nem deixar de fazer aquilo que gosta, apenas para não deixá-la sozinha. Até mesmo ela devia algum dia encontrar seu caminho e segui-lo, no entanto, a única resposta que obteve foi “meu futuro está diante de meus olhos”. Isso a deixou um pouco constrangida, mesmo que já sendo costumo vê-lo dizer estas coisas vergonhosas.
— Ei, já começou a fazer sem mim?! — gritou enquanto arrastava uma sacola cheia de acessórios diversos.
— Desculpe, não consegui me conter.
— Tudo bem, eu estava brincando. Vem ver o que eu trouxe!
— Hum... O que são essas coisas? Cachecóis, uma banana, um laço, um peixe e uma lata?! Ficou louco por acaso?
— Calma! Você já vai entender a utilidade de cada um. Primeiro nós construímos os bonecos!
— Bonecos? Achei que era só um!
— Era pra ser, mas no caminho de volta eu pensei em algo melhor!
— Tá... Mas quantos exatamente? — Ele parou por um momento e pareceu contar nos dedos, depois se virou para ela e falou:
— Seis ao todo!
— Sem questionamentos, não é mesmo? — Pareceu finalmente se conformar.
— Você vai entender tudinho daqui a pouco!
Mesmo achando que o azulado tinha endoidado, Meiko ajudou-o a fazer os bonecos com muita dedicação. Depois de terminados, ela começou a olhá-lo como se tivesse um grande ponto de interrogação em cima de sua cabeça.
— E agora?
Kaito fez um gesto com os dedos, como se dissesse para ela aguardar e então pegou a sacola e começou a tirar tudo que havia dentro. Começou colocando o mesmo cachecol azul em dois bonecos e depois uma latinha embaixo de um.
— Esses dois primeiros somos nós.
Depois pegou duas folhas e pendurou na cabeça de outra junto com um cachecol que ele amarrara em forma de gravata.
— Essa é a Hatsune.
Logo em seguida, pegou um cachecol amarelo e novamente enlaçou em formato de gravata em outro boneco de neve, depois pegou a banana e colocou em cima de onde seria a cabeça.
— Este é o Len. Cabelo de banana, sacou? — Meiko riu levemente.
Voltou a pegar o restante e colocou o peixe atrás de um, e um lacinho branco na cabeça de outro.
— Essas são a Rin e a Luka. Entendeu agora?
— Sim, mas pra que tudo isso?
— Você me disse um dia desses que sentia falta de nossos amigos. Disse que faria de tudo para voltar no tempo que nós brincávamos todos juntos no parquinho. — soltou um leve suspiro que logo se tornou uma breve brisa gelada — Infelizmente o tempo não volta. Não há como voltarmos atrás daquilo que perdemos, não importa quão feliz tenha sido aquele tempo. Apesar disso, eu queria lhe ver sorrir novamente, então pensei em construir isso. — deu de ombros juntamente com um sorriso.
— Kaito isso... Foi muito lindo de sua parte. Eu... Estou sem palavras.
— Não precisa falar nada. Seu sorriso diz tudo.
As lágrimas escorreram de seus olhos. Diferentes daquelas lágrimas de antes, agora elas eram de alegria. Pulou para o abraço do azulado que primeiramente mostrou-se surpreso, mas depois sorriu e correspondeu ao abraço.
— Obrigada.
— Você sabe que eu faria tudo por você.
— Eu sei. — A bochecha corada dera um contraste ao rosto pálido.
Desvencilhando-se do abraço, o azulado colocou um sorriso travesso no rosto.
— Então, que tal se nós formos tomar um sorvete agora?
— Neste frio? Tá louco e se nós ficarmos gripados?
— Quem se importa com isso? Vem, vamos apostar uma corrida mais uma vez até a sorveteria. Desta vez eu tenho certeza de que vou ganhar.
— Há, vai sonhando.
Novamente os dois saíram correndo como duas crianças. E enquanto corriam não paravam de sorrir, ambos felizes por terem a sorte de possuir um ao outro.
“Ei, Meiko. Esta é a primeira vez que eu digo isso e pode soar um pouco estranho, mas acho que te amo.”
“Idiota. Você por acaso sabe o que estas palavras significam?”
“Claro que sei! Elas podem ser simples, mas conseguem transmitir tudo aquilo que meu coração sempre sentirá.”
“Sempre?”
“Sempre.”
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