Singelas Ameaças
22 Tão clichê quanto uma loucura de amor, eterno
Notas iniciais
Point of View – Dinah
— Você só pode estar maluca de vez, Lauren! — A voz de Normani ecoava em minha cabeça enquanto meus olhos encaravam as esmeraldas que eram os olhos de Lauren. Depois de finalmente convencer Sofi a ficar em casa no dia seguinte, pois a mesma não queria faltar a escola, Lauren invadiu meu quarto para uma conversa sincera sobre o plano de tentar um acordo.
— Normani tá certa, Papel. — Fora ter frustrado minha sessão de amasso com Mani, ainda vem com um plano falho e totalmente idiota sobre tentar contato com Dionísio. Normani havia surtado e, sem medo da morte, Lauren a mandou calar a boca com um tapa estralado na coxa. — O que acha que vai acontecer? Você vai tentar contato, eles vão querer um pedacinho do seu pâncreas e pronto, vamos fazer a cirurgia para que eles te deixem em paz logo!
— Não, idiotas. Dionísio me ajudou quando me pegaram e ele pode ajudar agora. — Bufando ainda mais alto, Normani deu um peteleco na testa de Lauren, que gemeu de dor, levando a mão até acima dos olhos, franzindo as sobrancelhas. — Eu só quero que isso acabe logo e se depender da polícia, ainda vão querer bolar um plano de semanas!
— É claro, né, Lauren?! Quer que isso acabe amanhã sem que você esteja morta? Vamos lá perguntar a Camila se é uma boa ideia, então. — Levantando da minha cama, fazendo-me notar suas pernas definidas, pegou na maçaneta da porta de madeira quando Lauren, caindo da cama, conseguiu pegar e agarrar uma das pernas de Normani.
— Para, para! Tá bom, é uma péssima ideia! — Sorrindo ironicamente e bufando, bateu na cabeça de Lauren que, ainda no chão, retirou os braços que rodeavam a perna de Normani e deitou-se no chão. — Merda, eu tô ferrada. O que eu fiz para merecer isso?
— Talvez ser parecida com a Megan Fox. Isso chama atenção. — O quarto encheu-se de risadas e ambas começaram a me xingar. Se eu faria uma piada boba num momento de tensão para aliviar toda a pressão sobre os ombros de cada uma ali? Faria até duas!
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Point of View – Lauren
"Deixei uma coisa no meu apartamento para você, tem uma chave reserva atrás do extintor. Nem pense em fazer alguma gracinha."
Não tive escolha. Se eu não tentasse apaziguar a situação por intermédio de alguém, teria que fazer diretamente com o chefe e com toda certeza, as meninas me matariam. É claro que quero descobrir o porquê disso tudo porém, minha vida agora não é mais vazia. Não sou apenas eu no jogo e sim todas que são importantes para mim.
E isso me lembrou a proposta de Camila. Mais cedo, havia conversado com a Dinah sobre eu ficar até "tudo isso acabar" e a mesma disse que logo eu casaria com Camila, de tão trouxa que somos uma pela outra. É claro, mesmo que em tom de brincadeira, meu coração errou uma batida apenas de pensar... Nunca fui uma garota que pensasse muito sobre casório nem em constituir uma família, eu sempre pensei no agora. Depois que o agora trouxe Camila para minha vida, ela transformou-se em futuro e mesmo não tendo muitas expectativas, um futuro ao lado de Camila era, com toda certeza, perfeito.
E pensando nisso, no meu relacionamento com Camila, decidi tomar duas atitudes. A primeira era tentar tirar todo o peso desse caso mal solucionado do meu passado, que nem eu sabia porque acontecia e a segunda, eu tomaria agora.
"Deixa comigo, Michelle. Tá comigo, tá com Deus."
Eu não sabia se Dionísio era idiota amigável ou idiota perigoso porém, era tudo ou nada. Ele ou ninguém. Apostei todas as minhas fichas nele e na ajuda que ele me deu para fugir... Um ato de bondade não torna a pessoa boa porém, com um ato desses, salvou minha vida e salvar a vida de alguém, mesmo sem ninguém saber, era o indício que precisava para tentar.
Decidi apenas deixar ele "ajudar" enquanto ficava ainda mais nervosa. Em minhas mãos suadas e trêmulas, pequenos quadrados banhados a ouro branco. Em minha pele, Channel 4. O reflexo no espelho era de uma mulher decidida e confiante e aquela mesma mulher, iria com passos firmes até a cozinha, onde Camila estava fazendo o jantar.
Descendo a escada com passos rápidos, aspirei o ar com cheiro de laranja e sorri. Logo ao pé da escada, retirei meu tênis branco, colocando-os num canto do último degrau, fui a passos curtos para a cozinha, sentindo meus pés gelados pela madeira fria do chão. Enlacei a cintura de Camila com os dois braços e, aproveitando o fato do cabelo preso num coque bagunçado, beijei seu pescoço.
Apenas um suspiro. Apenas um riso baixo. Meu mundo todo ao redor dos meus próprios braços.
— Tenho que te falar uma coisa, é importante. — No instante que terminei de falar, Camila largou o salmão e virou o corpo, secando e limpando as mãos num pano vermelho e bordado. Suspirei, encarando a imensidão castanha daqueles olhos que arrepiavam meu corpo. Pigarrei, fazendo um sorriso brotar nos lábios rosados de Camila. — Eu já disse as palavras que sempre tive medo de dizer, que sempre pensava não ser suficiente para uma pessoa pois seria proferido por mim, uma... garota. Quando te conheci, tive certeza que seria mais uma, apenas mais uma. E Camila, me desculpe por pensar ser dona da razão mas você mudou completamente meu ponto de vista, minha maneira de ver o mundo.
Minhas mãos agarraram sua cintura e mesmo sabendo que estávamos dentro de uma casa segura e rodeada de policiais, tive medo de perder tudo o que tinha. Agarrei-me a sensação boa de ter seu olhar surpreso preso ao meu e esqueci completamente do mundo ao redor.
— É clichê, eu sei, mas... você me transformou. Me mostrou que o mundo é muito mais do que pessoas que pensam ter posse umas das outras e que não há apenas escuridão. É clichê mas, esse clichê é tão gostoso quanto uma loucura de amor, que é o que farei agora. É uma loucura pra mim, dada a situação e visto que nunca, jamais pensei que faria tal coisa. Você me transformou em mulher, Camila. Uma mulher de verdade, uma mulher que sabe como amar!
Vendo o sorriso perfeito de modo embaçado pelas lágrimas que começaram a ameaçar minha dignidade, tirei minhas mãos de sua cintura para abrir minha mão direita, mostrando as duas pequenas alianças quadradas e finas, num estilo rústico. Peguei em sua mão, que tremia mais que minha própria, plantando um beijo na pele macia e cheirosa, deixando ali um fruto para ser colhido mais tarde. O fruto que ela mesma plantou em mim.
— Camila, você me faz feliz. Você me faz amar. Eu te amo e mesmo sentindo que não precisamos disso para ser o que já somos, ainda assim, você merece. Você merece alguém especial, a melhor pessoa do mundo! E mesmo achando pouco, você me faz ser muito melhor do que pensei que um dia, eu seria capaz.
— Não sei o que está pedindo mas qualquer coisa, casamento, namoro ou uma doação de órgão, eu aceito! Eu aceito com toda certeza, Lauren! — Rindo e sentindo várias lágrimas descerem por meu rosto, abracei o corpo magro e trêmulo, que tentava pular e me beijar ao mesmo tempo. Aquele momento, com toda certeza, era o momento mais feliz que já tive o prazer de desfrutar.
— Namoro, Camz. Por enquanto é só isso. — O ambiente preenchido por risadas, nossa pequena bolha transformada num looping de felicidade eterna que, mesmo sabendo que não seria para sempre, nosso para sempre era o sentimento. Aquele sentimento tão duradouro quanto a eternidade.
Depois de colocar as alianças, deixamos as preocupações de lado e voltamos a preparar o salmão com molho de laranja. É claro que com tanto barulho, as outras pessoas na casa não iriam deixar de aproveitar a oportunidade da desculpa para checar os ocorridos. E a primeira foi Sofi.
— Eu não tô acreditando que tem até aliança! Kaki, você nunca teve uma aliança! — Mesmo sendo apenas uma adolescente, nunca vi Sofi como uma criança porém, depois da voz fina elevada por entusiasmo e o apelido antigo que apenas a irmã dizia, vi a pequena Cabello como quem eu deveria zelar pela proteção, talvez até mais que todo o resto da casa.
— Lauren, sua sacana! Nem avisou ninguém! — Parece que Normani, mesmo feliz, arrumava desculpas para bater na minha bunda. Algo típico de Normani.
— E fez isso antes que eu, ainda. Safada. — Outro tapa em minha bunda e uma carranca de Dinah, fez com que uma gargalhada escapasse de mim. Nunca pensei que teria um lar porém aquele era, sem dúvida, muito mais do que eu sempre quis. Muito mais do que eu poderia imaginar.
— Poderiam, por obséquio, parar de bater na bunda da minha namorada! Escutaram? Namorada!
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Point of View – Dionísio
Já havia perdido a esperança de um futuro. Talvez o tivesse, miserável mas intacto e se fosse assim, preferiria morrer com toda a honra que tinha. Sou um pilantra, bandido... Mas meus sentimentos são puros. Puros como de um crocodilo.
Na "casa" de Lauren, com o pequeno envelope em mãos, permiti que meu medo dela fosse embora e deixei meu corpo cair no sofá cheiroso e com alguns arranhões. Abri o pedaço de papel marrom, checando seu conteúdo, deixando um suspiro escapar. A caligrafia descuidada revelada que sua confiança apenas foi plantada por não ter opção e eu sempre fui a última opção de todos. Sem exceções.
Lendo cada palavra com toda minha atenção e curiosidade, entendia perfeitamente o plano de Lauren porém, aquilo custaria algo meu. Algo caro.
"Confio em você, Dio. Por favor, me ajude."
Michelle nunca foi de implorar. Nunca vi as palavras "por favor" sair por entre seus lábios! E ali estava eu, lendo-as... Entendia que ela não poderia me ver, para pedir pessoalmente porém, isso inflaria meu ego. Pelo menos, uma última vez.
Como um bom guarda, tudo o que poderia fazer era aceitar. Aceitei de bom grado aquela proposta, mesmo podendo recusar... Sou um cão treinado para responder apenas o mestre e mesmo tendo vários chefes, respondo a apenas um tutor. Aquela alma que me ajudou quando entrou para mesma vida que eu. Uma vida suja, imunda. Triste.
E aquela, que agora pede minha ajuda. Não como retribuição, apenas de bom grado. E mesmo custando tudo o que tenho, meu presente, o farei. Sem hesitar.
Ao lado da pequena TV, um bloco de anotações. Peguei a caneta e comecei a escrever tudo que estava preso por anos em minha garganta. Uma pequena nota. Em seguida, tirei meu celular do bolso, digitando uma mensagem curta e rápida.
"Apelou demais, Lauren. Mas sim, eu ajudo. Seu amor lésbico sairá ileso."
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