Sinfonia do Amor
1 Capítulo único - Doce Melodia
Notas iniciais

Tocava a nossa canção, movimento-me tranquilamente enquanto Ecaterine rodopiava, alegremente. Seus cabelos castanhos levemente ondulados estavam desgrenhados, a saia de seu vestido azulado balançava de um lado para o outro enquanto ela esbanjava seu sorriso sutil — Largue esse violoncelo e venha dançar comigo, Leonel! – intimou-me, cessando seus movimentos e fitando-me seriamente.
Sorri — Mas se eu parar a música, como iremos dançar?
Arqueou a sobrancelha — Ouça a música de seu coração e venha se divertir – respondeu.
Pousei o violoncelo cuidadosamente na grama fofa, levantando-me logo em seguida — Eu não sei dançar – avisei, aproximando-me vagarosamente.
— Não seja tolo, meu querido. Eu lhe ensino – falou calmamente, tocando em minha mão — Um passo para frente e outro para trás.
Firmei uma mão em sua cintura e a outra continuou entrelaçada na de Ecaterine. Ela sorria conforme me conduzia naquela dança invertida, o brilho de seus olhos dourados enfeitiçava-me — O que tanto observa?
— Eu poderia passar a minha vida toda apenas olhando para você.
Um sorriso tímido formou-se em sua face — Eu não sei o que responder – disse com as bochechas ruborizadas.
O sol ia desaparecendo atrás das colinas — Tenho que ir antes que Consuelo apareça – falou, um tanto angustiada — Depois iremos nos encontrar novamente, após o jantar. – completou após notar a careta descontente que fiz.
— Isso é uma promessa?
Depositou um beijo em meus lábios, selando nossa promessa. Depois saiu apressadamente, como Cinderela na noite do baile, toda atrapalhada.
Passei a noite toda esperando por sua chegada. Não somente aquela noite, mas todas as outras que passei. Ecaterine não apareceu no dia seguinte e em mais nenhum. Desapareceu.
Ela era como a Lua que desaparecia durante o dia e reinava nas noites frias e solitárias, em meus sonhos.
...
Busquei por notícias, dediquei anos procurando qualquer informação que me levasse a ela. Porém, era como se ninguém jamais ouvisse falar dela, como se fosse um fruto de minha imaginação, minha mente solitária.
Por mais que houvesse empecilhos, jamais deixei de acreditar que um dia pudesse vê-la novamente. Nem mesmo a distância iria tirar aquela que eu tanto adorei, minha amada.
Ela sempre estava em todos os lugares, além de meus devaneios. Eternizada em minha memória, lá estava Ecaterine.
As pessoas foram mudando com o passar do tempo, aqueles que um dia diziam-se meus amigos, caíram na tentação e aprofundaram-se nas trevas. A cobiça e ambição tomou conta de seu interior.
Os poucos que acreditavam em mim, diziam que eu tinha sido abandonado, enganado e por um momento, desejei acreditar naquilo para que pudesse descansar. Mas o meu amor era maior que uma mentira e ia além disso.
Um viajante solitário fora o que me tornei. Alguém sem rumo, disperso pelas cidades.
Vaguei sozinho, tocando a doce melodia composta apenas para ela afim de manter-me vivo. Nada tinha o mesmo jeito, o sabor. Vi as plantas crescerem, envelhecerem e morrerem, dando lugar à outra, mas o meu sentimento continuava ali, intacto.
O meu propósito de vida era reencontrá-la, poder ver aquele sorriso gentil em seus lábios, o modo como ela cantava seus versos preferidos, as caretas engraçadas quando levava bronca de suas irmãs. Tudo nela era perfeito, até mesmo o modo de como ajeitava seus fios de cabelos rebeldes.
...
Sentei-me em um degrau em frente ao Teatro, aguardando a chegada de Amélia, uma garotinha espevitada e esperançosa que sempre ficava ao meu lado — Como tem passado? – perguntei ao ouvi-la se sentando no degrau de cima.
Riu — O senhor sempre me surpreende, nunca consigo assustá-lo! – murmurou, levemente zangada — Hoje o céu está nublado, será que vai chover?
Assenti, respirando fundo. Estava cansado, o tempo não perdoa ninguém — Vamos começar para que você possa ir almoçar. – disse após ouvir o ronco de sua barriga.
— Está bem.
Uma pequena ave pousou em meu ombro, ela sempre aparecia nesse mesmo horário. Possuía algumas pintas e penas azuladas em degrade, que ia ficando acinzentada. Adorava ficar em sua companhia, todos os dias lá estava a pequena ave, alimentando-se das migalhas de pães.
Puxei meu violoncelo e peguei o arco para tentar tocar algo, ultimamente andava errando todas as notas. Meus dedos já envelhecidos não conseguiam mais tocar com perfeição.
Sentia meu coração bater forte à cada nota tocada, nossa doce melodia hoje era reconhecida e reproduzida por vários outros violoncelistas que tocavam sem saber o significado verdadeiro. Era mais que uma simples partitura repleta de notas bem elaboradas, era o sentimento de um pelo eternizado em nossos corações e padronizado para ser reproduzido por outros como forma de declaração.
Lutava para que minhas mãos trêmulas não voltassem a errar e assim a pequena Amélia poderia ganhar suas moedinhas com sua arte. Entretanto, minha força de vontade não fora o bastante e eu finalmente errei.
A multidão que nos assistiam grunhiram e saíram às pressas, praguejando-nos — Perdoe-me Amélia, por minha culpa hoje você não terá seu almoço. – pedi assim que todos se foram.
Sorriu fraco, segurando minha mão — Tudo bem, conseguimos algumas moedas. – despejou todas em minha mão — Hoje o senhor poderá jantar.
Contei cinco moedas e devolvi quatro delas — Fique como presente, pois sei que queria tanto comprar uma rosa para sua mãe – respondi, fechando sua mãozinha gélida e ouvindo seu sorriso.
— Obrigada, mas mamãe pode esperar mais um pouco, já que ela nunca mais irá sair daquele túmulo. – seu timbre de voz amargurado deixava-me receoso.
— Não diga isso, pequena Amélia. Não deixe com que essa tragédia acabe com o seu amor.
— Quando crescer, quero ser como o senhor.
— Então não se deixe levar pelas pessoas, você é a salvação desse mundo. É a esperança quase extinta.
Tocou em minha face, beijando minha bochecha — Ecaterine devia ter sido uma mulher muito feliz, ela deve de estar orgulhosa pelo senhor nunca ter desacreditado nela.
— Temos que nos apegar em algo e amar com toda as nossas forças, para que possamos ser felizes. Afinal, quem é feliz sem um amor?
O vento assobiava, deixando-me arrepiado — Vermelha ou branca?
— Branca, uma cor neutra, pura assim como o seu coração.
— E o seu amor – completou, levantando-se — Irei vê-lo novamente?
Refleti um pouco — Quem sabe?
Comecei a tossir com a poeira que levantava do chão com o vento — Procure por um local mais seguro, a escadaria do teatro é imunda e o senhor terá que aturar pessoas mesquinhas e medíocres passando por aqui. Isso não lhe fará bem, na sua idade o que se precisa é de descanso.
Apoiei-me na grade da escada para conseguir levantar, minhas costas doíam e clamavam por socorro — Irei providenciar isso. – murmurei, descendo o primeiro degrau.
— Assim espero. Tenho que ir, nos vemos em breve.
Voltei a sentar no mesmo lugar assim que os passos rápidos de Amélia já estavam distantes. Deixei com que o pássaro partisse em busca de um companheiro melhor e mais disposto.
Fechei os olhos e apoiei a cabeça na parede afim de tirar uma soneca rápida e ver aquele rosto em meus sonhos.
Todos os dias infelizes eram amenizados quando a via em minha mente. A minha alma resplandecia com seus olhos dourados. Daria tudo para tê-la em meus braços novamente, não pude aproveitar o tempo para dizer o quanto eu a amava e como a sua abstinência prejudicava-me.
Uma brisa gélida fez com que eu recordasse a consciência, abrindo os olhos vagarosamente. Havia pouca movimentação, estava sendo ignorado como sempre. Escutei um chamado, olhei para o lado e vi Amélia correndo em minha direção.
Suspirei pela milésima vez naquele dia, baixando os olhos e balançando a cabeça negativamente. Pisquei atônito, voltando a olhar a menina se aproximando gradativamente.
— Amélia?
Esfreguei os olhos. Eu a vi. Não somente ela, mas todos, até mesmo a formiga aos meus pés. Observei minhas mãos enrugadas, gargalhando euforicamente — Eu estou te vendo! – exclamei, até tentaria dar um pulo se minhas pernas aguentassem.
Porém, ela não sorriu. Seus olhos estavam transbordando lágrimas e eu não conseguia entender direito o porquê disso, ela deveria estar muito emocionada.
Dei um passo para frente e algo tampou minha vista. Retirei o pedaço de papel de minha face e o joguei para o lado, aturdido.
Senti meu coração disparar desordenado, minhas pernas ficaram bambas e as palavras sumiram de minha boca. Por mais que tentasse dizer qualquer coisa, nada saía de meus lábios.
Do outro lado, em frente à floricultura, ela gesticulou com a mão, fazendo um sinal de silêncio.
Corri lentamente em sua direção, como um velho correndo atrás de seu chapéu. Como os anos foram generosos com ela, suas bochechas continuavam gorduchas e coradas, os lábios rosados e nariz empinado.
Parei em sua frente — Passei os últimos anos te procurando loucamente, aonde esteve por tanto tempo?! – indaguei, franzindo o cenho.
Pendeu a cabeça para o lado, fitando-me pelo canto dos olhos — Aqui. – mordeu o lábio, tentando conter o choro — Aguardei sua chegada, Leonel.
— Mas como se eu passei dias tocando bem aqui?
— Eu sei, estava assistindo.
Senti uma pontada de desgosto, aquilo fora como uma apunhalada — Por que não veio falar comigo? Você imagina o quanto te procurei? – estava lutando contra as lágrimas.
— Eu não consegui, as palavras não saíam.
— Porque estavam vazias! Assim como eu fiquei, sem o seu amor. Vazio.
— Não, não. Sempre estive ao seu lado, meu querido. Era eu quem o afagava quando estava desolado ou quando tocava nossa cantiga. – seu olhar não demonstrava falha alguma, estava sendo sincera.
Fechei os olhos e respirei fundo — Se eu abrir meus olhos, você desaparecerá? – questionei, aflito.
Tocou em minha mão e eu soube a resposta. Abri os olhos e notei que o mesmo papel cobria minha face, desdobrei-o cuidadosamente — Cinco de julho. – sussurrou.
Amassei a folha e joguei para longe — A razão pela qual eu vivia era você e agora que a encontrei, jamais deixarei com que parta novamente – declarei, tocando em seus braços e puxando-a para um beijo.
Gostaria de passar a eternidade envolto de sua ternura, daquele abraço aconchegante o qual Ecaterine me envolvera — Perdoe-me – suplicou, apertando-me levemente e deixando com que as lágrimas caíssem de seus olhos, escorrendo pela sua face angelical.
Contemplei seu semblante abatido e estendi a mão assim que escutei nossa canção — Concede-me essa última dança? – pedi, cumprimentando-a educadamente.
Seu sorriso resplandecente era o suficiente. Peguei em sua mão delicada e a conduzi pelas ruas enquanto as pessoas passavam. Nosso espectral atravessava aquelas pobres almas vazias enquanto Amélia tocava com meu violoncelo, entristecida.
Aos pés da amável criança estava o pedaço de jornal abandonado que continha a triste notícia sobre um descarrilamento ferroviário na noite em que vi Ecaterine pela última vez.
Agora nada mais importava, essa noite seria somente eu e ela.
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