Sine Cordi
26 Capítulo 26 - כו
Notas iniciais
“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.”
– Platão -
Quinn mirou Alex, enquanto esta terminava de se despir para deitar ao seu lado na cama.
“Nua! Você vai dormir...”
A jornalista a cortou:
“Deixe de fingir horror, Q! Eu sempre dormi assim...”
A loira observou a amante arrumar as roupas vestida de Lady Godiva.
“Você está vindo aqui em espaços de tempo mui sucintos...”
A morena deitou e se estreitou ao corpo da advogada, vestido em delicado pijama. Retorquiu:
“Eu não estou vindo aqui com espaços sucintos, Quinn! Estou a vir todos os dias e noites. E continuarei até saber que você está bem! Eu sempre fiz isso. Por que seria diferente agora?”
“Então...”, a ex cheerio concluiu em voz relaxada, “você também irá ao julgamento todos os dias”.
“Tentarei... Mas dormirei com você”.
“Acha que Rachel Berry irá ao julgamento?”
A pergunta feita de chofre pela advogada pegou Alex de surpresa. Não pensou em tal possibilidade... Uma possibilidade que tinha muitas chances de deixar de ser apenas uma possibilidade.
“Por quê?” – a pergunta não pediu licença para sair de maneira tão preocupada.
“Por quê? Porque eu fiquei curiosa, Alex”.
A indiferença com a qual se justificou fez a morena fitar a face distraída de Quinn Fabray.
“Que tipo de curiosidade, Q?”
A advogada também a mirou e sorriu ao questionar:
“Que tipo de curiosidade pensa que eu posso ter em relação a Srta. Berry?”
“Não me pergunte isso. Você é quem tem de me responder”, a jornalista ficou atenta para não ficar atordoada durante o colóquio por causa do talento que a namorada tinha para subjugar as palavras.
“Por que uma estrela da Broadway, cantora e atriz reconhecida perderia seu precioso tempo no julgamento de alguém que não diz respeito a ela?”
“Quinn!... Por que...”
“Por que eu devo dizer respeito a ela?”
A pergunta fez a jornalista engolir o comentário que não terminou de fazer. Qual resposta Quinn esperava? Qual resposta queria dar para ela? Ou qual resposta seria interessante dar para ela? Ou, ainda melhor, que resposta seria a adequada para dar a ela? Suspirou e após refletir um pouco, retorquiu:
“Talvez porque vocês duas sejam amigas há muito tempo e...”
“Amigas?...”, a gargalhada incrédula da loira encheu a espaçosa suíte.
“Quinn, o que espera que eu responda? Ela faz parte do seu passado, não do meu”, desculpou-se a jornalista.
“Eu sei...”, a advogada meditou antes de prosseguir, “entretanto, você me perguntou, há alguns dias atrás, sobre como eu me sentia por ter sido traída... Lembra?”
Ardilosa, pensou a jornalista sobre a namorada.
“Eu estava curiosa e...”
“Estava, Srta. Bishop? Já não está mais?” – a entonação de voz da advogada escancarou falta de fé.
“Q, você não está nervosa”, interrogou.
“Está a perguntar sobre o julgamento?”
“Sim”.
“Você está a desviar o foco da nossa conversa?” – soou desconfiada.
“Talvez...”, sorriu a jornalista e voltou a repetir a pergunta sobre a apreciação do caso “Raul Street” pelo juiz e júri.
A advogada considerou a questão por algum tempo. Respondeu, objetiva:
“Não. Eu nunca fiquei nervosa antes e não encontro razão para que o mesmo não aconteça dessa vez”.
Alex atentou:
“Dessa vez, Quinnie, você tem um julgamento um pouco mais complexo, não acha?”
Quinn discordou:
“Não vejo coisa alguma complexa, Alex...”
“Não? A promotoria lhe pediu auxílio! Isto, para mim, seria o bastante para me colocar com os pelos arrepiados”.
“Claro! Obrigada pela parte que me toca”, galhofou a advogada.
“Quinn, deixe de brincar! Eu só quero saber como você se sente. Acha a minha curiosidade ruim”, indagou, a observar a reação da namorada.
Esta pensou por um instante.
“Não...” – murmurou – “Eu me sinto como sempre, Alex”, a resposta saiu tranquila, “excitada pela hora do embate verbal, das considerações, do observar o ambiente, os jurados, o juiz, o réu... Todo este quadro me deixa motivada. Mas é um instante apenas, sabe? Apenas o tempo do julgamento, a fugaz vitória e depois... Depois tudo volta a ser como antes”.
“Como antes?” – a jornalista denotou surpresa.
“Sim... Todo o trabalho, toda a logística, todos os argumentos, toda a lógica... Tudo isso acaba no veredicto. Então, eu volto à rotina... Estudar, ler, avaliar propostas de trabalho, ir ao café, conversar vez ou outra com Holmes, com você...” – explicou.
“Isso a deixa infeliz? Não me recordo de falarmos sobre isso antes...” – a mulher de olhos azuis demonstrou preocupação.
“Não, Alex. Não me deixa... Eu até gosto. É um tempo de observação e de futuro planejamento e reconstrução para um próximo caso... Um ciclo que se repete”.
“Até você sair da sua zona de conforto...”, murmurou com alguma compreensão sobre o que a namorada lhe disse.
Quinn não respondeu. Houve um silêncio consentido que às duas foi proveitoso.
Rachel pensou que não escutara bem as palavras do ex-marido.
“Você fez o quê?”
“Eu fui até a Escola de Dança da Brittany. O espaço é realmente incrível. E adivinhe só quem virá trabalhar com ela?”
“Quem? Zach Woodlee, coreógrafo de Glee”, questionou, ainda em choque.
Jesse riu, a achar engraçado o receio explícito da cantora. Respondeu:
“Não! Mike Chang”.
“Oh! O Mike... Há muito que não o vejo...” – comentou, embora a testa permanecesse franzida pela informação de que o marido estava a se aproximar de Brittany Susan. Pierce Lopez. Lopez! O sobrenome de Santana apareceu-lhe na mente em um enorme letreiro pisca-pisca de neon vermelho sangue.
“Esqueça a Britt, Jesse. Por favor...”
Ele a segurou pelos ombros e sorriu, amável, “Star, eu não fiz nada de errado”.
“Mas está a ponto de fazer! Eu estive junto com elas, jantamos juntas!... Evitaram a todo o custo qualquer conversa mais profunda sobre a Quinn! Kurt e Blaine são nossos empresários e não falam...”
“Talvez não falem para que não nos sintamos envergonhados pelo que fizemos...” — esta foi uma realística e dolorida hipótese que fustigou a cantora no coração. E não poderia desmenti-lo. Esta era uma possibilidade... Porém, uma entre tantas outras...
“Como Kurt se comportou com você após o dia no teatro...”, a atriz indagou sem acanhamento.
“Se comportou como se nada tivesse acontecido...”
“Ele não se desculpou!?” — a surpresa gritava feito as cores de um quadro impressionista.
O St. James sorriu e a abraçou e beijou no alto da cabeça, a repetir com placidez:
“Não. Foi como se, realmente, nada aconteceu”, e não resistiu em indagar, “e com você? Como ele se comportou?”
Rachel meneou a cabeça e suspirou:
“Normal...”
“Normal...” — repetiu o cantor — “essa 'normalidade' é o que foge ao quadro pouco normal que tenho diante dos meus olhos”.
Rachel guardou silêncio, atenta às palavras do homem em cujo abraço descansava.
“Star...”, o tom de voz dele possuía a qualidade de displicente curiosidade, “o que de ruim Quinn poderia fazer após nos descobrir?”
A questão arrepiou os pelos da nuca de Rachel, acelerou-lhe o pulso e aumentou o par de olhos chocolate em tamanho. Levantou a face e buscou os olhos azuis do ex-esposo.
“Por... Por quê?” — gaguejou a pergunta com temor da resposta.
“Não sei... Foi só uma suposição dada à maneira com a qual Kurt reagiu quando eu fui falar sobre a Quinn...”
O instante lhe chegou claro à mente...
Kurt olhou nos olhos do St. James e, num raro, porém não surpreendente, momento de indignação, cuspiu:
"Porque Rachel não terá estrutura emocional para sustentar a culpa do que aconteceu realmente. E, ainda que Santana fale que Rach não tem que se sentir culpada pelas escolhas da Quinn, eu sei que ela se sentirá por causa do amor que ainda nutre. E, creia-me, St. James, você também sofrerá um grande impacto. Então, ouça-nos e deixe o passado lacrado e enterrado, como todos nós nos esforçamos para fazer. Ou achou, em algum momento, que eu, Blaine, Santana, Britt e todos os que aqui ficaram não lamentamos o que aconteceu? Que não nos entristece olhar para a Quinn e não enxerga-la mais? Faça um favor a todos nós, principalmente para você e Rachel: pare de cutucar o que só poderá destruir sua vida e a de Rachel. Quinn, aquela Quinn Fabray que vocês conheceram, não existe mais! E nem voltará a existir!", findou o homem, de pé, com lágrimas a descerem rosto abaixo, sem controle...
“Analisando melhor o que e como Kurt falou... Ele deu a impressão de que Lucy Quinn Fabray tivesse”, mediu as palavras, “morrido... E que agora só existisse Quinn Fabray, sem a parte que a tornava humana, a parte 'Lucy'. Consegue me entender, baby? É como se, após a tormenta da traição, Lucy Quinn Fabray desse vez à existência de Quinn Fabray sem a parte que a tornava humana... Deus! Isso parece confuso”, confessou.
Entretanto, e para sua surpresa, escutou da ex-esposa:
“Eu entendi o que disse. A questão, Jess, é o que a Q teria feito para mudar tanto de comportamento”.
“Exatamente! Além da frialdade, o que você percebeu de distinto nela”, questionou, atento. Afinal, Rachel conhecia – ou conheceu – Quinn melhor que ele.
Ela procurou examinar atentamente todos os encontros que teve com a advogada e, após breve e infrutífero pensar, retorquiu:
“Quinn está mais fria... Provavelmente magoada... Não! Certamente muito magoada, ou não me espetaria com o fato de nós dois termos nos casado...”, suspirou antes de confessar, “eu reagiria de igual maneira se fosse ela”.
Ainda que a resposta de Rachel fosse lógica, ela ia de encontro ao monólogo emotivo do Hummel. Golpeavam-se abertamente e não eram coerentes entre si.
“O que você faria se encontrasse a Quinn na cama com outra pessoa”, a indagação árida dele acertou-a em um golpe seco. Sentiu a visão embaçar e Jesse a sustentou, surpreso com a reação física de Rachel.
“Star? Você?...” — ele a levou até o sofá e sentou, colocando-a sobre as pernas, mirando-a com preocupação. Os olhos úmidos dela responderam à questão que ele faria e a substituiu:
“Rach-Rach! Perdoe-me, amor! Eu não quis lhe magoar! Eu só...” — osculou-a na testa, “eu só quero compreender o que há ao nosso redor... E eu não quero que você se magoe mais com o comportamento da Quinn. E ainda que ela estivesse aborrecida com você, que tipo de sangue corre nas veias dela? Sangue de barata? Ela teria que ter explodido em algum momento. Não importa o quão grosseira ela foi com você, porém em momento algum eu vi a Fabray gritar ou chorar ou... Reagir com cólera! Ela é controlada demais, parcimoniosa demais, cuidadosa demais... Compreende”, o discurso dele era uma verborreia nervosa. Uma verborreia que fez muito sentido para a judia.
“O comportamento dela... Ela não deveria ser indiferente... Ou indiferente ao extremo... É o que quer dizer?”
O homem assentiu e arrazoou:
“Por mais que o tempo tenha passado, Rach-Rach, no momento em que você apareceu na frente dela – não pela primeira ou segunda vez — , mas a partir da terceira vez, era para ela ter explodido de alguma maneira... A cordialidade cínica dela é demais até para ela mesma!”
“E, para você, isto é o indicador de que, talvez, Quinn possa ter feito algo a si mesma ou...”
“Ou contra si mesma”, ele completou, estarrecendo-a.
"Ganhar não é tudo. Mas querer ganhar é."
– Vince Lombardi -
E era o tão esperado dia do inicio do julgamento de Raul Street.
O promotor J J. Lancaster estava preocupado.
O advogado de defesa Mathews aparentava tranquilidade e uma autoconfiança enorme.
O juiz Walker estava curioso. Era fã da Fabray, porém em segredo.
Russel e Santana sentiam o mesmo que o promotor.
Quinn observava o réu de maneira indiferente.
Rachel surpreendeu ao sentar ao lado da latina e do Fabray. Tinha uma echarpe sobre a cabeça e usava óculos escuros, a fim de não chamar a atenção. A estrela, no momento, era sua amada Lucy Quinn Fabray. Ou apenas Quinn Fabray, depois da fria análise de Jesse sobre o comportamento da advogada.
O Mathews iniciou com a apresentação dos fatos, calmo e seguro:
“Senhoras e senhores jurados, estamos hoje aqui para definir o destino de um homem”, apontou para o cliente, “que foi acusado injustamente de assassinar a Sra. Linda Wood, mulher casada e por quem era extremamente apaixonado”, apoiou as duas mãos no estrado que o separava dos jurados, dramaticamente. Correu os olhos por eles e seguiu:
“O que desejo demonstrar aos senhores é a falta de lógica e de provas contundentes que apontaram para o meu cliente, a sugerir que ele teve coragem e sangue frio para cometer tal crime! A partir da tese de que o Sr. Street sempre foi apaixonado pela Sra. Wood e, uma vez apaixonado, por que mata-la e ficar em sofrimento? Peço a atenção dos senhores e senhoras a fim de que a verdade seja esclarecida", sorriu como um candidato à presidência da república e sentou ao lado do cliente.
Quinn se levantou para as considerações iniciais por parte da promotoria. Exalava tranquilidade e segurança. Usava um terno Armani azul marinho com uma blusa de cetim num tom mais claro de azul. A saia ia até os joelhos, sapatos "Mary Jane" de Manolo Blahnik com saltos altos e bico fino. Os cabelos presos num coque austero, maquiagem leve e o perfume de atordoar enquanto ela passava e o olor doce e sutil ficava pelo caminho. Sorriu a demonstrar simpatia e segurança para os componentes do júri.
"O Dr. Mathews falou muito bem ao expressar o desejo de raiar a verdade sobre o amor do Sr. Street pela Sra. Wood”, a voz nasalizada saiu a raspar a garganta, dando-lhe um toque de agradável rouquidão.
“Eu, particularmente”, prosseguiu, “senti-me tocada com a 'beleza' da quase descrição do amor que, de acordo com o Dr. Mathews, o seu cliente sentiu pela vítima”, o advogado ia se manifestar, porém era cedo demais e ela não lhe deu o tempo necessário, a continuar, “e o que dizer sobre o argumento dele ao expressar que o Sr. Street sempre foi apaixonado pela Sra. Wood e, uma vez tão enamorado, por que mata-la e ficar em sofrimento? Boa pergunta! Agora, por gentileza”, virou-se para o réu e soltou um sorriso que era a inocência encarnada, “mirem o Sr. Raul Street e pensem: ele realmente parece abatido pela morte da Sra. Wood?” — voltou-se para os jurados e a assistência em geral. Respondeu a própria questão:
“Pois eu ouso lhes dizer que, em minha opinião, vejam e escutem bem o que eu disse, em minha opinião ele não me parece abatido pela morte da mulher que, de acordo com o Sr. Advogado de defesa, afetou-o. E sabem por quê?", ela caminhou até a mesa da defesa e lhe entregou uma pasta e fez o mesmo com o juiz, que ficou desconcertado. Então, voltou-se para os jurados e afirmou, segura do que estava a falar:
"Porque a Sra. Wood tentou terminar o romance com ele".
Após soltar a informação, a desconcertar o juiz e a defesa, além dos jurados, sentou-se ao lado de Lancaster, embasbacado pela maneira com que ela plantou a semente da dúvida no júri.
Mathews leu o documento e releu. Como ela conseguiu acesso a tal informação?
"Peste...", murmurou para si mesmo.
O Street percebeu, de imediato, que o julgamento "no papo", de acordo com o advogado, seria um pouco mais cansativo e estressante. Olhou para o Mathews e perguntou, a tentar controlar a irritação:
"Por que, raios, aceitou que a 'Rainha de Gelo' auxiliasse a promotoria? E pensar que eu confiei em você".
O rapaz atalhou, frustrado, "e por que não me contou que a Sra. Wood tinha a intenção de terminar o relacionamento com você?".
O réu deu de ombros e falou, com pouco caso:
"Apenas um detalhe irrelevante! Nada para se fazer tempestade em copo d'água".
O advogado o mirou de soslaio enquanto o juiz tentava acalmar a turba que as palavras da Dra. Quinn Fabray causou.
"Assim eu espero", retorquiu o Mathews, a se aborrecer com o barulho inicial de um julgamento que mal havia começado.
O juiz Walker pediu para a defesa chamar a primeira testemunha. O jovem advogado se levantou e exprimiu, seguro, apesar do rebuliço que a Fabray causou:
"A defesa chama o sargento Cory Helm, responsável pela investigação do assassinato da Sra. Linda Power Wood".
O detetive era jovem e não deveria ter mais que trinta e um anos, alto, com o corpo esguio como o de um nadador, os cabelos negros bem aparados, os olhos castanhos e a expressão preocupada lhe conferiam um ar de menino.
Ele jurou sobre a Bíblia e sentou no banco das testemunhas. Anthony Mathews se aproximou e sorriu.
"Bom dia, sargento", cumprimentou e obteve a gentileza de volta. Observe-se que o jovem detetive demonstrou estar pouco à vontade, porém o advogado de defesa não percebeu tal fato, ao contrário da "ajudante" da promotoria, que era a indiferença em pessoa, porém aprendeu com Wilhelm a observar as pessoas e a linguagem corporal delas...
"Sr. Helm, posso chama-lo assim ou prefere sargento Helm?", perguntou e ouviu do jovem homem:
"Como desejar, senhor".
O advogado sorriu e questionou:
"É correto afirmar que o senhor foi o responsável pela investigação...”
"Protesto, meritíssimo", Quinn cortou o Mathews, "irrelevante! Todos sabem que o Sargento Helm foi o responsável pela investigação. Consta nos autos do processo".
O juiz acatou e falou para o Anthony, sério:
"Corte as partes óbvias, por favor, e seja específico, doutor. Não gosto de rodeios".
O advogado assentiu e prosseguiu, um pouco desequilibrado pelo corte que sofreu:
"Sr. Helm, pode, por favor, explicitar para o júri e demais presentes como a Sra. Wood foi morta?".
Para ficar ainda mais desnorteado, ouviu de Quinn, fria e prática:
"Protesto, meritíssimo! O assassinato da Sra. Wood foi e está a ser tão detalhadamente discutido que não vejo importância para que o Sr. Helm fale outra vez sobre o tema”.
“É pertinente para mim...”, Anthony reclamou. Entrementes, o Walker perguntou aos jurados se estes desejavam que o detetive explanasse acerca da morte de Linda Wood e ao receber um uníssono “não”, acatou o pedido dela.
Uma observação importante:
Rachel ainda ziguezagueava entre os argumentos e contra-argumentos da acusação e da defesa.
O Mathews mirou Quinn e se desconcertou um pouco mais ao constatar estampado na bela face da advogada que o julgamento lhe parecia entediante.
Torcendo internamente para que ela não o interrompesse, indagou menos seguro de si:
"Sr. Helm, como não foi permitido pela argumentação da promotoria eu farei o obséquio de acrescentar a informação na pergunta. Segundo os autos do processo...”, estancou ao ver perifericamente a advogada se mexer no lugar. Prosseguiu quando se deu conta de que ela apenas se colocou mais à vontade na cadeira:
“A Sra. Wood foi asfixiada por uma corda. O nó usado na corda foi específico, chamado ‘nó corrediço’ ou ‘nó de correr’. Poderia esclarecer o que vem a ser um 'nó corrediço ou nó de correr'?"
O policial assentiu e verbalizou:
"O chamado 'nó corrediço' ou 'nó de correr' é, na verdade, bem simples de se fazer e sua utilidade é variada. É usado principalmente para amarrar objetos que devem ficar bem firmes se, por acaso, uma força for exercida sobre eles. Este nó aperta conforme há uma força contrária que cause um empuxe sobre ele. Deve-se evitar o seu contato direto com o corpo, porque o nó aperta sob qualquer movimento ou força e pode cortar a circulação no local... E também é usado em pesca".
O defensor do Street inquiriu outra vez, com a certeza de estar a seguir o caminho correto:
"No assassinato da Sra. Wood foi usado que tipo de corda?".
O detetive suspirou antes de retorquir:
"Foi usada uma corda de barco... Provavelmente de um iate".
O Mathews franziu a testa ao lançar a dúvida:
"Provavelmente?"
O sargento assentiu e justificou:
"Apesar do corpo da Sra. Wood ser encontrado no barco do marido dela, o Sr. Wood, o jogo de cordas não era o mesmo e há muitas cordas parecidas no mercado. Estabelecemos...".
Anthony o interrompeu ao e inquirir, compenetrado:
"Sr. Helm, quem matou a Sra. Wood sabia como usar a corda e fazer um nó de..."
A advogada o cortou outra vez, convincente:
"Protesto, meritíssimo! Pergunta irrelevante. É óbvio que o assassino tem conhecimento de como usar uma corda e de como fazer e usar um 'nó de correr'!"
E, pela terceira vez, o juiz acatou o protestar da Fabray.
Raul Street, o réu, teve uma crise de risos que ainda não se descobriu se causada pela inaptidão de seu advogado ou pela maneira nada sutil que a representante da promotoria o chamou de “idiota” diante de todo o salão do tribunal de júri.
Russel tinha um sorriso estampado na face. Sua caçula era uma bomba de Napalm!
Rachel, ainda a tomar as rédeas da razão diante do embate verbal visto até o momento, sussurrou para Santana:
"Nossa! Eu não sabia que ela era tão boa! Eu ouvi comentários, mas nunca imaginei Quinn como um rolo compressor... E parece que ela está numa programação casual e cansativa. Até agora, não vi o rosto dela demonstrar mudança alguma. É como se... Se fosse..."
"Indiferente!", a latina acrescentou e a cantora apenas assentiu. E ficou meditativa até sondar:
"Como isso aconteceu, Sant? É tão estranho olhar para ela e não reconhecer a garota que roubou o meu coração”.
A advogada desconversou:
"Esta não é a hora e nem o momento, Berry".
A artista mirou a ex-namorada sentada à direita do promotor Lancaster. Jogou verde...
“O que a Quinn fez, ou o que aconteceu com ela para mudar tanto?”
Com um bufar, a latina respondeu num tiro certeiro:
“Você, Barry! Você aconteceu”.
Voltou a face para a advogada morena ao seu lado com repulsa e se defendeu:
“Eu não sou tão importante para fazer alguém mudar de mel para vinagre”.
“Para a Quinn você foi...”
Como ser contraria a alguém que conhecia muito bem o seu passado? Como se defender de suas próprias falhas? Em princípio, Rachel não sabia... Desiludida, voltou-se para o que acontecia no desenvolvimento do julgamento, mas não se concentrou nele, a pensar em como – a cada dia mais – a teoria de Jesse de que havia um segredo resguardado pelos amigos que os cercavam em relação à Quinn estava cada dia mais forte.
"Somos o que fazemos repetidamente.
Por isso, o mérito não está na ação e sim no hábito."
– Aristóteles -
O Mathews meneou a cabeça e sorriu, incrédulo com a capacidade de a Dra. Fabray corta-lo como se já soubesse a pergunta que faria. Voltou-se para o sargento e indagou:
"O assassino poderia ser, pelo que citou anteriormente, qualquer um que conheça este tipo de nó?"
O outro confirmou, porém acrescentou:
"Mais especificamente alguém que lide com pesca, náutica e atividades do tipo".
"Certo, Sr. Helm. Agora, apenas responda-me sim ou não: o réu, Sr. Raul Street, possui algum iate, lancha ou mesmo uma canoa?".
As pessoas no tribunal riram diante da citação da palavra "canoa" e foi necessário o juiz pedir ordem no tribunal. Tão logo o silêncio foi restabelecido, o detetive retorquiu:
"Não, senhor".
Anthony agradeceu e deixou a testemunha para a acusação e a “Queen of Ice” caminhou até o investigador. A parecer simpática, pois sabia enganar quando queria, sorriu, o que — de alguma forma — mexeu com o homem, que pareceu hipnotizado pela beleza, o perfume, a postura e, pior, a sensualidade que emanava de maneira involuntária, enfim, toda a pessoa da advogada era um imã que atraía sem a menor parcimônia, e a ouviu, muito calma, diria até que fria:
"Vejo que o sargento não usa aliança. Eu poderia concluir que é solteiro, porém prefiro ouvir de você: tem alguma namorada, mora com sua mãe ou qualquer outra figura feminina?".
A resposta saiu de pronto:
“Não, senhora. Eu moro sozinho".
Ela esboçou um sorriso ainda maior e o Mathews até pensou em protestar, pois não viu relevância na introdução da questão, porém a curiosidade foi maior e deixou fluir. A Fabray prosseguiu, segura:
"Sabe pregar botão, sargento?".
Ele sorriu ao responder que sim. A advogada prosseguiu:
"Por acaso, é dono de alguma loja especializada em pregar botões?".
"Não, doutora".
"Então, se não é preciso ser dono de uma loja especializada em pregar botão, para se fazer um nó corrediço poderíamos afirmar que não é necessário ser proprietário de um iate, lancha ou, mesmo, uma canoa?".
O detetive com um enorme sorriso estampado no rosto jovial respondeu prazerosamente:
"Não, senhora".
Quinn agradeceu a atenção e cordialidade do policial e voltou para perto de um Lancaster realmente surpreso.
“O ego vai te levar longe
E vai te deixar lá, sozinho”
– Rodrigo Domit -
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